Processo Criativo

Escreva um livro, assista a TV, tanto faz: tudo é escapismo pop e romântico

A segunda temporada de Elite chegou com os dois pés no peito do fã. Still a better love story than Twilight, a novelinha espanhola tem em sua cafonice e dramas desmedidos o trunfo inesperado que conquista pelo coração mesmo o streamer (fiquei em dúvida sobre usar a palavra “telespectador”, um termo hoje tão raso quanto chamar uma pessoa com celular de “datilógrafo”) mais resistente.

Gosto dessa série porque ela é como se Gossip Girl fosse feita com vontade, o que sabemos que não foi. Os crimes, o sexo, a beleza inatingível de todo (eu disse todo) o elenco, os looks, e, ah, o fato de ser em espanhol. Toda vez que a Lucrécia(!) chama alguém de cariño eu desisto de ser ruim com os outros. Toda vez que o Ander beija o Omar eu penso, bom, quem sabe (eu disse quem sabe) o mundo tenha salvação.

Nessa nova temporada, os conflitos se intensificam e extrapolam de um jeito absurdo. A tensão acerca do crime misterioso da vez só não é maior do que a que ronda absolutamente todos os relacionamentos da trama. Até o sonso do Samu, o nosso Ted Mosby latino, consegue ter alguma expressividade. E quem rouba a cena, mais uma vez, é Lucrécia, que precisa provar sua esperteza incontáveis vezes, enquanto, um a um, todos que ela ama a traem pelas costas de algum jeito.

Não me peça para falar de Guzman, eu choro.

Assistindo a essa novelinha, eu me senti mais segura sobre estar no caminho certo com meu novo livro, esse que lancei essa semana. Eu estava finalizando a escrita dele quando a S2 de Elite chegou. Estava bem desmotivada de tudo, como qualquer autor independente sempre está, e os dissabores vivenciados pelos personagens da série me deram força para viver. Não tem jeito, mesmo a história mais cafona precisa ser contada. Só existe um modo de fazê-lo, que é o seu.

No entanto, eu insisto, é cansativo demais fazer todo o trabalho sozinha. Chegando ao meu livro de número onze (insira aqui o gif do JVN dizendo can you believe?), eu me vejo em um ponto onde não tenho mais para onde ir. É como uma droga na qual você é viciado há tanto tempo que não tem mais a opção de tentar parar. Dizendo isso até parece algo muito inspirador ou mesmo pedante. Me acredite, não é nenhum dos dois.

Quando lancei meu décimo livro, prometi que seria o último. Infelizmente, não consigo parar de ter ideias e não consigo parar de escrevê-las. Gostaria de não tê-las mais, e poder dedicar minha energia a outras coisas, como bordado ou artesanato em gesso, por exemplo. Tais atividades não tem uma comunidade ao seu redor que sempre é mais talentosa e bem-sucedida que você, eu acho. Escrever um livro e soltá-lo no mundo, fazendo dele o instrumento mais frágil pelo qual você luta por aceitação é de um sangue frio que eu nunca imaginei que teria. Já fiz isso dez vezes. O meu coração hoje é um pandeiro surrado.

Ainda assim, fiz isso mais uma vez.

Beijando Horrores, o meu décimo primeiro livro, lançado essa semana, é mais uma tentativa de me fazer ser ouvida. Escrever histórias é necessário. Se não para todos, é para mim. Estava quieta no meu canto quando, vítima de mais uma inspiração insuportável e pouco prática, em menos de três meses escrevi a história exata que eu estava precisando ler. Romance, pegação, humor, tudo em uma narrativa simples e rápida, feita para desanuviar a cabeça mesmo.

Não sei se o mundo precisa ler esse livro, mas eu precisava escrevê-lo. Quem sabe meu único compromisso seja esse: comigo mesma. De fato, escrevendo Beijando Horrores, você nota já pelo nome do livro, o meu único compromisso era terminar cada capítulo me sentindo feliz horrores comigo mesma.

Isso eu consegui. Foi assim que comecei e foi assim que conclui essa história. Divertimento puro em um tempo em que nada nos é mais caro do que conseguir terminar o dia sorrindo. Curar o mundo está se tornando uma tarefa progressivamente mais difícil, não conseguimos curar nem a nós mesmos. Da minha parte, fiz o que sei e o que posso: inventei uma história. Caprichei no romance. Coloquei algumas piadinhas. Acreditei, eu quis acreditar, que essa história poderia ser divertida e útil para alguém. Assim como foi para mim criá-la.

Tem uns produtos pop que a gente consome e nos impactam de maneira perene. Mesmo hoje sendo tudo tão descartável e feito para consumo imediato, algumas histórias ficam ecoando na nossa mente por dias, semanas, meses ou até anos. Eu ainda lembro do quanto Call Me By Your Name mexeu comigo. O romance de Jim e Pam, em The Office, foi meu alimento dia e noite por um bom tempo.

Às vezes, no limiar de uma crise existencial causada pela nossa vida a cada dia mais dolorosa, é uma cena boba que nos salva. Seja na TV, na música ou nos livros.

Escapismo pop e romantismo é a minha receita para salvar o mundo. E eu só posso salvar o mundo lá fora começando pelo meu aqui dentro. Cansada de tudo, escrevi mais um livro. Feito Guzman, chorando feito um imbecil por nada, os dentes grandes que mal cabem na boca, eu fiz um escândalo dentro de mim e transformei em uma história de incríveis 261 páginas. Submeti essa história em um concurso. Dormi menos e me alimentei pior, perdi o foco, não foquei em mais nada.

Agora está aí. Se você precisar dela, está aqui. Disponível na Amazon, tendo seu valor por conta do seu preço. Esperando que te atinja com os dois pés no peito, como sabemos que você precisa.

Se não a cultura pop, o que mais faria isso por você? Carboidratos?

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