Séries

THE CIRCLE BRASIL: o que é a realidade, afinal, não é mesmo?

Dumaresq, joga y joga

Atenção: esse texto não contém spoilers do programa nem de nada, de um modo geral.

Bom, pessoal. O que eu vou falar para vocês? O mundo nessa situação, as nossas chances de alegria se esvanecem a cada atualização nas notícias. É melhor fugir daqui para um lugar dentro da nossa cabeça, mas mesmo esse lugar parece cada vez mais difícil de ser acessado. Calorias? Eu tenho saudades de quando um dia ruim podia ser salvo com calorias.

No meio desse pandemônio, surge uma nova opção no entretenimento. Um reality show, coisa que a gente gosta bastante. Não é nada que vá salvar o mundo, mas reinventa a roda um pouquinho e atualmente só isso já é um alento.

Já tinha ouvido o povo falar bastante desse The Circle, reality gringo que já teve duas versões lá fora (americana e britânica). Sabendo que uma versão brasileira estava sendo produzida, #EscolhiEsperar sair essa edição tupiniquim para ver primeiro e conhecer o formato, me esquivando assim de toda possível previsibilidade.

Logo nos primeiros episódios de The Circle BR, já fui absolutamente hipnotizada pelo programa. A mistura de algo extremamente brega, constrangedor e, ainda assim, plasticamente confortável e positivamente histérico, torna o programa o mais perto e asséptico possível de um acidente de carro: é doloroso, mas você não consegue parar de ver.

JP, o hétero como definição

Para começar, o formato do programa traz uma semelhança inesperada com a nossa realidade hoje: no reality, os participantes estão presos sozinhos em seus apartamentos, cada um no seu, sem poder sair dali pra nada e só podem interagir uns com os outros através de uma rede social, o Circle em si. Sem outra alternativa de diversão e de olho no prêmio (300 mil reais), eles fazem exatamente o que nós aqui temos feito: passam o dia montando quebra-cabeça, colorindo aqueles livros de colorir para desestressar, pensando merda, maquinando planos imbecis e, mais importante, julgando os outros sem saber nem 10% da história alheia.

É o Brasil de quarentena em sua essência. Imagino que os produtores nem sonhavam que acertariam tanto na previsão do futuro.

No entanto, para mim, o que mais pega nesse programa, e o torna tão viciante, é que ele traz algo novo para o gênero reality show: ele é muito mais ágil, muito mais dramático e infinitamente mais cru em construir os personagens. Quando você compara com realities clássicos como Big Brother, por exemplo, pode notar como a diferença é brutal.

No Big Brother, as coisas acontecem de modo muito devagar, ainda no formato antigo de como costumávamos consumir entretenimento na TV: em capítulos, um dia para cada coisa, terça é eliminação, domingo é paredão, sábado é festa, temos vilões, mocinhas, casais românticos, amizades imbatíveis. A contagem de tempo também é muito forte como ingrediente: são 40 dias longe da família, são 90 dias sem comer feijoada. Esse tipo de coisa.

Esse formato ainda funciona, é claro. Basta ver o sucesso dessa edição vigente do BBB. Porém, a gente sabe que hoje a maneira que consumimos entretenimento é muito mais urgente. As séries chegam até nós completas em suas temporadas, e assistimos tudo em uma noite. Temos pressa em ver a evolução dos personagens e, mais do que tudo, aprendemos por vivência própria que as pessoas não são assim tão 8 ou 80. O vilão pode ser um pouco bonzinho. É esperado que a mocinha erre e tenha uma mania péssima.

The Circle vem nessa pegada, entregando um reality que ainda bebe da fonte dos clássicos, mas refresca o formato ao agilizar sua narrativa. Mesmo o modelo de eliminação é inconstante, mudando toda hora e deixando você em suspenso. Nada é seguro, tudo pode acontecer. Vence o que tiver mais likes na plataforma, o que pode ser decidido por atitudes casuais. É bloqueado e sai de cena aquele que erra em algum momento, geralmente um erro besta digno de pena, que faz os outros jogadores escolherem tirá-lo do jogo.

Além disso, ali o tempo não importa. Durante toda essa temporada de The Circle BR, que eu assisti inteira, de olhos vidrados, em nenhum momento foi mencionado com exatidão há quanto tempo eles estavam ali confinados. Não há explicação sobre quantos dias se passam entre uma eliminação e outra. Quando o primeiro participante é bloqueado e expulso do programa, você nem tem noção de quanto tempo ele conseguiu ficar ali, afinal. Um dia? Uma semana? Não sabemos.

E isso é libertador.

Marina, traída pelo próprio coração

É libertador porque quando o programa pega o reality show padrão e tira ingredientes básicos como esses, ganha mais espaço para contar uma história diferente, se desapegando do ritmo de novela e chegando mais perto do que consumimos hoje. Uma série boba que você se apega aos personagens porque eles são tão engraçados. Presos em seus apartamentos, os jogadores do The Circle não tem acesso à internet ou TV, mas podem cozinhar, fazer ofurô, pintar, desenhar, montar massinha e até fazer um bolo para tomar com o café da tarde. É enternecedor e hilário ver uma mulher feita sentada no chão da sala montando um quebra-cabeça e gritando a plenos pulmões porque chegou mensagem no chat. O descolamento da realidade aqui é algo fluído, porque os personagens se humanizam justamente por estarem longe de tudo e, ainda assim, se parecerem demais com o público do outro lado da tela.

Feito para ser consumido de uma vez só, sem tempo nem para beber um refri entre um episódio e hoje, The Circle BR é perfeito em formato e mesmo seus erros parecem passíveis de absolvimento. Estando preso em casa, o que mais você pode fazer além de assistir a um programa de TV sobre pessoas presas em casa? A arte imita a vida, já diria o filósofo.

Um filósofo que já não encontrava abrigo nas calorias, certamente.

  • The Circle BR já está disponível completa na NETFLIX, e eu não ganhei nada por esse texto, além de uma muito tênue satisfação pessoal que deve passar em questão de minutos.

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