Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s