Contos

Sonhos não envelhecem: a história de Lilica Rocambole

A jovem adulta Lilica Rocambole com seus três gatinhos

Lilica Rocambole chegou em Willow Creek com apenas uma ambição: constituir família e ser a orgulhosa mãe de um universitário. Um sonho tradicionalista, alguns diriam, mas ela não se importava com a opinião alheia. Bonita e possuidora de uma vultuosa soma em dinheiro proveniente de meios escusos, alcance financeiro estava longe de ser um problema. Adquiriu um sobrado moderno e colorido nas cercanias de Foundry Cove, já mobiliado, e deu início ao seu plano de vida.

Apenas para ocupar seu tempo e para ter uma base sólida na criação do seu sonhado filho, Lilica entrou para o setor da educação, começando em um cargo menor em uma escola. Seu progresso foi rápido e logo as promoções vieram, a colocando como uma figura do alto escalão do setor educacional.

Com dinheiro, uma boa profissão e um objetivo claro, logo Lilica se deu conta de que faltava apenas mais um passo para dar início oficial ao seu projeto de vida. Ela precisava se casar. No mínimo. Frequentando a vida noturna de Brindleton Bay, cidade próxima, no bar Patas Salgadas ela conheceu Danilo. Foi paixão mútua e à primeira vista. Ele era um cara bonito, simpático, devorador de livros e entusiasta da vida ao ar livre. Eles riam muito juntos e ela sempre conseguia convencê-lo a doar seu tempo. Eram, em todas as instâncias, o casal perfeito.

O namoro se desenrolou de maneira natural e logo eles estavam casados, mesmo sendo tão jovens. Em alguns momentos, Lilica se perguntava se devia “se amarrar” tão cedo, mas olhando para Danilo, ele era tudo o que ela esperava em um homem digno de assumir a posição de marido e pai de seu filho. Então, por que esperar?

Ainda aproveitaram muito a vida de recém-casados, até chegarem à vida adulta. Deram festas, tiveram encontros, fizeram oba-oba no chuveiro e foram à museus, parques e casas noturnas. Adotaram um gato, o arisco Eltinho. Danilo tinha temperamento um pouco explosivo, ficava furioso sem motivo, mas compensava cuidando bem da casa e de Lilica. Com alma de artista, e seguro pela boa condição financeira da esposa, optou por não trabalhar e assim se dedicar ao lar. Fez uma horta no quintal, onde tentava todo tipo de experimentação hortifrutigranjeira. Aprendeu a pescar e a pintar.

O primeiro quadro de boa qualidade que Danilo pintou foi de Lilica, já grávida do primeiro filho deles. A gravidez foi totalmente planejada. Lilica continuou a trabalhar, pois acreditava que ter uma mãe professora seria um bom exemplo para o filho vindouro. Supersticiosa, dançou muita música alternativa na sala de casa e comeu muitas cenouras plantadas por Danilo como simpatia para que da gravidez viesse um menino.

E deu certo. Entre o tempo de uma colheita e outra da hortinha, e depois de adotarem mais dois gatos, a calada Lady Gaga e a falante Taytay, nascia o tão esperado filho de Lilica, Guilherme.

Guilherme foi um bebê grudento e uma criança genial. Desde pequeno, foi ensinado a focar nos estudos e priorizar a escola à diversão. Ficou entre os melhores alunos diversas vezes, sempre com as tarefas em dia e apresentando com louvor seus trabalhos extra disciplinares. Em um passeio com o pai no Parque Pedra do Filhote, em Brindleton Bay, conheceu outras crianças, entre elas Sérgio e Francisco. Francisco era maligno e só tratava mal Guilherme, então a amizade não progrediu. Já Sérgio tinha um temperamento mais amigável e se entusiasmava com todos os interesses de Guilherme, no que a amizade infantil se estabeleceu de imediato.

O Parque Pedra do Filhote

A vida de Lilica Rocambole parecia perfeita e dentro dos planos, com sua numerosa família contendo marido, um filho e três gatos. Vivendo só do trabalho para casa e se esforçando ao máximo para sempre ler para Guilherme antes do pequeno dormir, Lilica sentia que a vida podia ser como sempre sonhou. Mas também descobriu, da pior forma, que um sonho pode ter muitas nuances e nem todas contemplam suas verdades mais íntimas.

Ou como diriam em linguagem coloquial, quem procura, acha. A despeito dos planos perfeitos e todas as chances para realiza-los, a vida de Lilica começou a desandar. Tudo ruiu em um momento distinto, que ela poderia apontar com clareza para quem quisesse saber, como tantas vezes desabafou posteriormente com a melhor amiga Laura Caixão. Pois, a partir daquele ponto, foi como se uma sombra se colocasse na mansão dos Rocambole, tingindo tudo de mágoa e desesperança.

O que aconteceu foi que em uma tarde de domingo, em uma das muitas festas dadas na Mansão Rocambole, descendo as escadas, Danilo flagrou sua esposa Lilica beijando Summer Holiday, a vizinha da casa ao lado.

O choque foi enorme, e o temperamento explosivo de Danilo não ajudou. A relação de Danilo e Lilica se rompeu ali. A família desmoronou ali. Embora continuassem casados, não havia meios para a reconciliação. Obviamente, não ajudaria muito também se Lilica soubesse que, minutos antes de ser pega beijando a vizinha, essa mesma vizinha estava no andar superior dando ideia em Danilo, a ponto de eles quase irem para a cama juntos — só não foram porque Danilo sentiu um impulso irresistível de jogar pingue-pongue e perdeu o foco no colóquio amoroso.

Mas Lilica jamais saberia disso, uma visão ampla de narrador que se perde para o personagem e seu foco isolado. Lilica se culparia pelo resto da vida por aquele beijo em Summer, acreditando que foi o que destruiu seu casamento e que a culpa era só sua. Sempre se culparia e se perguntaria o que deu nela, sempre tão certinha, para ter tomado uma atitude daquela. Tédio? Curiosidade? Quem sabe a culpa fosse toda da Summer, a vizinha saída de um soft porn duvidoso do Multishow? É leviano demais tentar cravar apenas um desses fatores como o único responsável. Provável que tenha sido uma combinação de todos, e mais alguns que nem mesmo Lilica seria capaz de confessar. Fato é que a partir dali o casamento em si acabou e o relacionamento entre Lilica e Danilo se manteve apenas por conta das aparências e por Guilherme.

Após muitas fugas e doenças misteriosas como Boca de Pântano e Febre Gelada, o gatinho Eltinho faleceu. Foi mais um baque para a família e, já adolescente, Guilherme fortaleceu sua amizade com Sérgio. Descobriram novos interesses em comum e, nessa fase difícil, a personalidade pacífica do amigo ajudou Guilherme a superar o lar conflituoso e enlutado.

Um dia, em um passeio junto com Lilica pelo museu Descobertas em Grama Morta, outra atração turística de Brindleton Bay, Guilherme e Sérgio se beijaram pela primeira vez.

Guilherme ficou em êxtase, era o seu primeiro beijo e sua primeira paixão. Até então nunca pensara em sua orientação sexual, só sabia que gostava de Sérgio, sempre gostou. Prático como a mãe, traçou planos de vida incluindo um namoro com seu amigo de infância, como se fosse coisa do destino, feito para durar. Era um golpe de sorte em uma maré ruim, acreditou.

No dia seguinte, Sérgio quis ir para a casa de Guilherme depois da aula, no que o filho de Lilica entendeu como um sinal óbvio: seria o momento certo de pedir o loiro oxigenado em namoro, entre um beijo e outro.

Porém, chegando em casa, Sérgio já foi direto usar o computador. Como Guilherme estava com muita fome, pegou um prato de salmão grelhado que o pai fizera e deixou passar a grosseria, puxando conversas aleatórias. A tudo Sérgio reagia com hostilidade, o que foi minando a relação dos dois. Desesperado, Guilherme apelou para elogios e exortações positivas, mas não teve jeito. A briga verbal fatalmente veio e deixou explícito que o que acontecera no museu tinha sido no máximo um erro e no mínimo um evento que jamais se repetiria. Sérgio foi embora sem olhar para trás.

Naquela noite, Guilherme acordou chorando e subiu as escadas até o quarto da mãe para pedir um conselho: era verdade que ninguém no mundo gostava dele? Lilica abraçou o filho e afirmou que ele era muito amado, sim, bastava olhar à sua volta. Ser mãe também era isso.

Naquele ponto, Lilica e Danilo já eram idosos. Lilica saiu do emprego, buscando na aposentadoria um descanso depois de tantos anos de dedicação profissional. Sua relação com o marido Danilo estava mais amigável e eles até conseguiam rir e conversar sem brigas. Enquanto Guilherme estava no colégio, os dois passavam a tarde juntos cuidando da horta, assistindo à comédias ou jogando xadrez. Mas eles nunca mais voltaram a ter interações românticas, sejam avulsas ou um com o outro. Isso tinha ficado no passado, um toque amargo adicionado à história doce que Lilica um dia sonhou.

Grande e único foco da família, Guilherme corria para ser o melhor no Ensino Médio como tinha sido no Fundamental. Se esforçava com as tarefas e o aprimoramento de habilidades como lógica, debate e pesquisa. Quando a gatinha Lady Gaga faleceu, nem teve tempo de ficar triste, estava ocupado demais pensando em seu futuro. Era só o que sua mãe pedia dele, por isso ele se esforçava ao máximo.

A casa agora era ocupada apenas por Guilherme, Danilo, Lilica e a já idosa Taytay. Guilherme sabia que a morte rondava seu lar, já havia recebido as notificações e sabia como era o jogo. Por isso, se inscreveu na universidade tão logo pôde. Queria que a mãe tivesse logo o orgulho de saber que seu plano de vida tinha dado certo de algum modo, afinal.

Não deu tempo, sendo o destino tão abrupto quanto previsível. Em uma manhã qualquer, a Morte visitou novamente a mansão dos Rocambole e dessa vez ceifou a vida de Lilica, assim que ela acordou. Quase dá para dizer que ela morreu dormindo. Danilo ainda tentou argumentar com a Morte, porém não teve conversa. Estava tudo escrito, sem chance de revogação. De todos os sonhos de Lilica, só restaram uma família desfeita e uma urna com suas cinzas, que foi colocada junto às outras, dos gatos, no quintal do terraço.

Guilherme estava na aula quando da tragédia e, ao chegar em casa, a notícia terrível tornou amarga uma outra notícia impactante, mas essa boa: sua inscrição na universidade tinha sido aprovada. O filho de Lilica finalmente seria um universitário, como ela tanto sonhou.

Lilica, no entanto, morreu sem saber disso.

Epílogo

Em seu alojamento em Foxbury, Guilherme estuda.

Ainda que com o clima péssimo, a vida precisava continuar e Danilo precisava cuidar de seu filho. Com o humor muito triste pesando o coração de ambos, fez um bolo branco, colocou as velas e foi celebrado o aniversário de Guilherme. Datas não esperam. Guilherme era agora um jovem adulto e pronto para ir para Universidade. Temia deixar o pai sozinho e sabia que esse não era o plano de sua mãe, abandonar o velho assim, mas era preciso em função de um objetivo maior. Sem mais esperar, o jovem fez as malas e partiu cursar Belas Artes no Instituto Foxbury.

Assim que chegou no alojamento, Guilherme escolheu seu quarto e colocou trancas nas portas para que ninguém mais entrasse. A tristeza, dizia o calendário, ainda duraria 40 dias. Disposto à honrar a memória da mãe, Guilherme tratou de fazer as tarefas diárias antes mesmo de começar a frequentar as aulas da universidade, o que ainda demoraria três dias. Estava na varanda do alojamento estudando quando recebeu o telefonema: seu pai, Danilo, havia falecido.

Desnorteado, Guilherme pensou que seria uma boa ideia voltar em casa e buscar Taytay, único ente familiar ainda vivo de seu lar desmoronado. Convidou Sérgio para acompanhá-lo nessa viagem — ainda que a relação estivesse estremecida no âmbito amoroso, continuavam amigos.

Chegando à mansão Rocambole, qual não foi a surpresa de Guilherme ao descobrir que o imóvel estava trancado, inacessível. Bateu à porta e não pôde entrar: ninguém mais morava lá. Com os pais falecidos e Guilherme morando no alojamento, a gatinha Taytay foi posta para adoção e a casa foi esvaziada à revelia do primogênito.

Guilherme se viu no meio da rua, sem absolutamente nada. Perdera os pais, os gatos, a casa, a herança da mãe e até sua primeira paixão, já que o tratamento de Sérgio mesmo ali era puramente de amizade.

Não havia mais nada a ser feito. Parado na frente da casa que um dia foi sua e contemplando toda a história que foi vivida para que ele chegasse até ali, Guilherme decidiu que viveria um dia de cada vez e todos eles com uma missão: honrar o sonho de sua mãe.

Assim, pegou o celular e chamou um carro para voltar ao alojamento. Sozinho. A aula começava em dois dias e ele ainda tinha muito o que fazer. Depois pensaria em imóveis, relacionamentos amorosos ou diversão. Precisava primeiro se formar, e sendo o melhor da turma. Essa era sua única prioridade e sua missão. Faria isso por sua mãe, Lilica Rocambole, e assim todos poderiam saber a mulher que ela tinha sido.

Gameplay ainda em curso, jogado no The Sims 4 com os pacotes de expansão Vida Universária e Gatos & Cães. A história de Guilherme ainda está sendo escrita.

Contos

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 05: Something positive

Diga algo positivo

um conto fanficcional por Tati Lopatiuk

O caminho de volta do trabalho para casa era tão curto que muitas vezes eles precisavam pegar um desvio e parar em algum acostamento, se quisessem passar mais tempo juntos. Faziam isso tantas vezes que nem era mais uma fuga, era sabido por suas esposas que os esperavam em casa, era tudo um grande segredo que qualquer um podia ver. E ainda assim, aparentemente ninguém via.

Dois bons amigos que gostavam de conversar. Só isso.

Quando o carro encosta no meio-fio, logo desliga, como em um anúncio de algo solene prestes a começar. Suárez, diante do volante, respira fundo. Ou diz agora ou não diz nunca. Se conhecendo como se conhece, aposta que não dirá nunca. A desconfiança o corrói, morde o lábio, sabe que nem precisa contar até dez, conta um, dois, três, quatro e… Messi finalmente fala:

— Diga algo positivo. Você só vê o lado ruim de tudo, está sempre bravo, sempre de mau humor.

— O que de bom há para ser dito? Você toda hora lesionado, o meu rendimento baixo. E ainda tem esse cara.

— Esse cara não é ninguém, ele não vai ser um problema.

— Esse cara — Suárez imita o tom com desdém — já é um problema. Caso contrário, não estaríamos aqui discutindo.

— Só você está discutindo. Deus, como você é possessivo!

— Adoro como você tergiversa para não precisar falar a sério comigo. Messi, você não é nem louco de me aprontar uma dessas, hein. Você sabe disso. Nem ouse.

— Adoro como você tem tentado palavras novas.

Eles riem. Desde que Griezmann entrara para o time, o clima entre os dois estava estranho. Desde antes disso, na verdade. Nas férias de temporada, a viagem para Ibiza tinha sido uma tentativa de colocar as coisas no lugar. Não dera exatamente certo. Viajar com as famílias era sempre complicado. Ficar se escondendo pelos cantos, procurando oportunidades de estarem à sós, tudo isso mais desgastava do que era instigante.

E afinal, já fazia cinco anos que viviam assim, entre idas e vindas. Sempre que pensavam em como tornar mais simples o que tinham, algo surgia e complicava ainda mais. O ano de 2019 não estava sendo exatamente generoso com eles. Mesmo com os prêmios ganhos, Messi ainda pairava com um imenso ponto de interrogação sob si: as lesões constantes não deixavam ele entrar em um ritmo em que se pudesse confiar. Em um efeito dominó, que só denunciava o quanto eram ligados, Suárez rendia muito menos sem Messi por perto.

Estavam em uma situação ruim, era isso. Secretamente, Messi desejava que Neymar Jr. voltasse ao time. Se pudessem ter o trio MSN de volta, quem sabe tudo voltasse a ser como era antes. Mas não podia dizer isso a Suárez, sabia o quanto o uruguaio era ciumento. E além do mais, nem ele tinha tanta certeza assim se estava pronto para desenterrar esses sentimentos todos. Precisava aceitar que Neymar era passado. Agora ele e Suárez estavam juntos e bem. Quase bem. Inegavelmente juntos.

Até Griezmann surgir, claro. Suárez se vira no banco do carro, para encarar Messi melhor. Nunca poderá dizer tudo o que sente, seria se expor demais e ele tem o seu orgulho. Precisa achar um jeito de dizer o que consegue, de forma que doa menos.

— Diga logo, você e o Griezmann. Eu preciso me preocupar ou não?

— Com o que você precisaria se preocupar? — Messi quase ri, fingindo surpresa.

— Conheço você. Sei que adora uma novidade.

— Luis, por favor. Olha a situação em que estamos. Você acha que eu preciso de mais problemas?

— Você não arranja problemas porque precisa. Arranja porque gosta deles.

— Nisso preciso concordar com você.

Suárez ainda está de cara fechada quando Messi toma seu rosto entre as mãos e beija seus lábios. Isso não era tergiversar, o argentino dizia o que dizia de coração. No entanto, o coração de Messi, e ele próprio sabia disso como ninguém, não era a mais constante das bússolas. Entre dizer algumas verdades e esconder outras, Leo encontrava seu jeito de deixar a todos felizes, de alguma forma. Não era o melhor dos cenários, mas olhando de uma maneira mais ampla, quando é que tudo foi perfeito? Nunca foi perfeito. Ele faz o que pode, acredita, enquanto envolve o uruguaio em seus braços, intensificando o beijo, ali no carro parado em uma rua escura, prometendo tudo o que ele já sabe de antemão que não poderá cumprir.


Suárez está terrivelmente bravo, está no seu limite. Arruma suas coisas com pressa, no vestiário, depois do jogo. Messi não fala nada, sabe que nessas horas é melhor nem insistir. Já disse mil vezes que não há nada entre os dois, mas no jogo de hoje, quando seu passe resultou em um gol de Griezmann, e os dois correram para os braços um do outro, olhos nos olhos e só sorrisos, ficou difícil manter o clima ameno.

Tenta uma última vez, correndo atrás de Suárez antes que este deixe o vestiário. Não pode ser tão direto quanto gostaria, se limita a segurar seu braço e lhe pedir que espere para que possam ir embora juntos. O uruguaio nega, respondendo entre dentes que Messi está por conta própria.

Típico, Messi pensa, e volta para o seu lugar. Não está nem surpreso. Sabe como o uruguaio é. Sentado no banco, apoia os cotovelos nos joelhos e afunda o rosto nas mãos. Deus, como era difícil.

— Ele descobriu, não foi?

A voz de Griezmann tira Messi de seus devaneios culpados. Erguendo a cabeça, encontra o rosto do francês tão próximo do seu que é quase engraçado, uma cena de cartoon. Se afasta minimamente no banco. Alguns jogadores ainda terminam de se arrumar, saindo dali em seguida.

— Não há nada para ninguém descobrir.

— Passei da conta hoje, eu admito.

— Na situação que estamos, conseguir marcar um gol é algo de perder o juízo mesmo. Não culpo você.

— Você sabe que não foi só por conta do gol…

A mão de Griezmann pousa suave na coxa de Messi. Agora estão sozinhos ali, o que faz o coração do argentino acelerar. Quando foi que tudo aquilo começou? Ah, sim. Um beijo roubado saindo do chuveiro, primeiro ele achou que era brincadeira, vai entender esses franceses, e então… Puxa vida, era mesmo Griezmann beijando-o em pleno vestiário. Foi tão instantâneo e tão forte que imediatamente se tornaram reféns daquilo, sempre buscando por mais.

Como agora. Mais uma vez, Messi cede e se deixa ser beijado, antevendo a sensação na qual rapidamente se viciou: o prazer de fazer algo proibido, errado. É tudo sobre isso, e sem isso não sobra mais nada.

Que o diga sua relação com Suárez, ultimamente.

Messi pega a mão de Griezmann e a segura entre as suas. Quer dizer o que pensa e colocar limites no que está acontecendo entre eles, mas a cor da pele de Griezmann é tão bonita. Branca, quase translúcida nos punhos, transparecendo suas veias. Se perde um pouco nisso, subindo o olhar e encarando aqueles olhos verdes, emoldurados pelo cabelo loiro ondulado e cheiroso. Fica difícil ser sério, ser honesto ou justo. Tudo fica um pouco nebuloso, aproveita essa incerteza e não faz nada além de aceitar, quando o francês o puxa pela nuca e o beija mais uma vez. Cede com uma facilidade que é constrangedora.

— Hoje à noite, na minha casa de novo. Posso esperar você?

— Griez, não. Você sabe que é melhor a gente parar com isso agora, antes que tudo fique pior.

— Pior? Não vai ficar pior, vai ficar melhor!

A insistência dele é cômica e lisonjeira, mais um beijo e Messi assume que não tem controle algum. Sente que está se afundando em mais um problema, Suárez sempre esteve certo em sua desconfiança, tem dificuldade em aceitar isso. Mas como ser desejado por um homem tão lindo pode ser um problema? Muitos beijos depois, segura os pulsos de Griezmann como forma de contê-lo e pede que ele vá embora. Não sem antes prometer, é claro, que irá na casa do francês mais tarde, como tem feito quase todas as noites desde que ele entrou para o time.

— Antoine — Messi chama, antes que o jogador deixe o vestiário —, me diga algo positivo.

— Estamos longe da nossa melhor versão, mas tudo ficará melhor. Com o tempo, ficará melhor.

— Sem essa ladainha de atleta. Me diga algo verdadeiro.

Je crois vraiment en nous deux. — Griezmann sorri, achando graça. Não são de falar muito e, além do mais, precisam constantemente fingir que praticamente se odeiam, para alimentar a imprensa e acalmar as desconfianças de Suárez.

Sorrindo, Griezmann fica dolorosamente mais bonito, se é que isso é possível. Messi levanta do seu banco e vai até ele, o beijando por iniciativa própria, isso sim algo inédito entre os dois. Feliz com o gesto, Griezmann o beija mais, pressionando seu corpo contra a porta fechada do vestiário. É com uma força sobre-humana que Messi consegue convencê-lo a parar por ali para continuar depois, na casa do francês.

Em silêncio e sozinho no vestiário, Messi decide contar até dez antes de ir embora. Sai dali antes que a contagem chegue ao número cinco.


Já em casa, Suárez tem uma iluminação. Repensa sua postura mais cedo, decidindo ser menos emburrado, tentar ver o lado bom das coisas. Dar o braço a torcer não pode ser tão ruim, certo? Pega o celular e chama pelo número privado de Messi, disposto a dizer que tudo vai ficar bem.

A ligação cai direto na caixa postal. Em cinco anos, isso nunca aconteceu antes. Nunca, nunca mesmo. Tenta mais uma vez. Caixa postal, de novo. Suárez devolve o celular para o bolso, atordoado. Se joga no sofá. Olha para o teto, pensando.

Percebe que está cravando as unhas nas palmas das mãos, raivoso. É claro que mudar sua postura não vai adiantar de nada, se Messi nunca muda. É tão cansativo, e tão previsível.

Tenta de novo. Mesma coisa, a ligação cai direto. Nota as palmas das mãos já machucadas. Impossível continuar se sentindo assim. Quem sabe sua intuição esteja errada, mas se estiver certa, é a coisa mais óbvia que poderia acontecer. Ser pessimista tem esse mérito, Luis pensa, o faz antecipar tanto os piores cenários que eles até se naturalizam em sua cabeça, causando pouco menos do que tédio quando se tornam reais.

Decide que não vai tentar telefonar novamente. É algo simples de ser resolvido, afinal de contas. É quase trivial, se você for ver. Levanta de supetão do sofá e pega as chaves do carro. Sabe onde Griezmann mora e sabe que ele mora sozinho. Sabe que Messi jamais deixaria de atender o número privado que eles têm e sabe quando ele está mentindo. Não é difícil juntar uma coisa e outra.

Vai ser rápido acabar com tudo isso. Vai ser bom, e no fim, vai ser uma coisa positiva.

Vai ser uma coisa positiva, como Messi gosta, Suárez diz para si mesmo.

Acelerando o carro e ganhando a rua, Suárez não consegue deixar de sorrir.

Contos

Um novo começo

Photo by Vladyslav Dukhin from Pexels

Apagou o cigarro pisando na guimba no chão. Esfregou o tênis contra a brasa que morria, se sentindo um caubói mal-humorado e perigoso. Riu com a ideia. A jaqueta jeans de manga em moletom, com capuz, o deixava a anos-luz daquele conceito. A calça jeans justinha, pior ainda. A camiseta com sacadinha de Game of Thrones, então…Nada poderia ser mais inofensivo do que ele. Acendeu outro cigarro, no automático. E esperou.

Vinda de outro lado da cidade, ela tentava encontrar o encaixe exato com o qual o fone de ouvido funcionaria. Aquela porra estava com mau contato. Vítima de uma gripe recente, sentia sua voz ridiculamente rouca. Pigarreou alto no metrô, incomodada, as pessoas ao redor olharam assustadas, achando que ela ia falar algo. Não falou. Mais oito estações até a hora de descer.

Um morador de rua passou, procurando lugar para dormir. Era tarde para ficar na rua assim de bobeira. Para ele era bem claro que jamais estaria nessa se não fosse por ela. No finalzinho de abril, estaria indo embora da cidade, mas antes lhe devia isso. Cruzou os braços contra o frio inesperado daquele meio de março. Mesmo agora era frio demais para o seu gosto. Se ela viesse logo, seria melhor. Botou na cabeça que nem ia falar disso, era preferível falar o menos possível com ela. Estavam sempre brigando.

Quando ela chegou, riram ao perceber que a camiseta dela também era de Game of Thrones. Inferno de série imbecil, ela pensou. Trocaram um cumprimento rápido e desencontrado, apesar de toda intimidade que poderiam ter, era como se já não tivessem mais nenhuma. Foram andando lado a lado, sem mais esperar.

_Veio sem blusa, vai morrer congelada.

_ Mané morrer.

_ Já sabe se vão deixar mesmo você fazer isso?

_ Se vão deixar?

Como bem sabia, o caubói mal-humorado da história deles era ela. De canto de olho, notou com ela parecia abatida, os cabelos loiros caindo pelo rosto formando uma cortina apática. Era sempre pior tentar falar algo, ela levava tudo para o pessoal. Suspirou, tirando a jaqueta e colocando em seus ombros. Ela não agradeceu e nem parou de andar para vestir a peça, assumindo a gentileza dele como um gesto esperado.

_ É aqui. – Ela parou subitamente, apontando com o queixo o prédio à frente.

_ É aqui? Tão perto do meu trabalho.

_ Eu disse pra você.

_ Arriscado, hein.

Ela revirou os olhos, como sempre fazia quando ele tentava falar a sério. Interfonou e o porteiro autorizou que subissem. O elevador fazia um barulho estranho, foram dezessete andares de medo disfarçado para ambos. Morrer ali seria tão ruim quanto em qualquer outro lugar, mas morrer justo naquela noite parecia muito desperdício.

A chave ainda era aquela, funcionava na fechadura. Ela sorriu, feliz por ter previsto certo. Entraram no apartamento em silêncio furtivo. A preocupação dele era que o prédio devia ter câmeras e lógico que sabiam quem ela era, embora ele estivesse no lugar pela primeira vez. Mas em abril, iria embora. Em menos de um mês, quem sabe até antes, repetiu para si mesmo, como um mantra.

Girou nos calcanhares, assobiando baixinho. Era um puta apartamento. Pé direito alto, espaço enorme, móveis chiques. A vista era incrível, toda a cidade se abrindo naquele princípio de madrugada em um sem-fim de prédios altos e imponentes. Na sala, tinha até um piano. Imaginou como seria tocá-lo. Ela leu seu pensamento.

_ Não fode. Nem pense em encostar em nada. Não se distraia.

Ele guardou as mãos no bolso, enquanto a via entrar pelo corredor adentro. Sabia que tinham pressa, o cara devia voltar só no outro dia, mas também podia ser que voltasse a qualquer momento. Com suavidade, passou os dedos pelo piano, ensaiando abrir a tampa e tocar as teclas. Sentiu um arrepio como se quisesse roubar também a vida do dono do apartamento, entre todas as outras coisas.

Alguns minutos depois, ela voltou, com a mochila notavelmente cheia e os braços abarrotados. Ele tirou a mochila dele das costas e abriu o zíper, recebendo das mãos dela os bolos de notas de dinheiro.

_ Quanto tem aqui?

_ Cinquenta mil.

_ E você pegou quanto pra você?

_ Cinquenta mil também.

Ele engoliu em seco. Queria perguntar como tudo aquilo era possível, e que ela lhe garantisse mais uma vez que tudo era seguro. Mas quem sabe fosse melhor saber o menos possível, racionalizar o menos possível. Mais uma vez, ela leu seus pensamentos.

_ Não dá nada. É dinheiro sujo que ele esconde pro pai dele. Vai levar um mês até perceber que sumiu e, se der falta mesmo, nem vai poder falar nada. Não tem pra quem reclamar.

_ Ele vai saber que foi você.

_ Foda-se. Eu sei coisas dele. Acredita em mim, por tudo o que eu vi nesses seis meses de namoro, cem pau tá até de graça.

_ E se ele vier atrás de você?

_ Não vem, caralho. Já disse. Sei coisas dele.

O cabelo dela caiu de novo na cara, feito a cortina suja que era. Para ele, era como se ela nunca tivesse crescido, então era espantoso ver a criança que brincou com ele a infância toda agora lhe explicando calmamente como se daria aquele roubo. Não haverão consequências, ela disse, firme, ajudando ele a fechar a mochila lotada. Já tivemos essa conversa mil vezes, se acalma, ela murmurou, tensa, vendo que ele tremia ao colocar a mochila nas costas. Ele assentiu.

Pegaram o elevador sacolejante em silêncio, ela ia pedindo ao Uber que os buscasse dentro da garagem do prédio. Perigoso ser assaltado com essa grana toda, ela justificou, rindo um pouco da ironia da coisa. Gostava quando ela ria, era como uma ideia inesperada de que a vida poderia se tornar mais fácil. Mas no rosto dela o sorriso nunca combinava, o problema era esse, não encaixava direito. Era como tentar colocar cor em um filme que ele só conhecera em preto e branco.

Cinquenta mil não era exatamente uma fortuna. Não era um dinheiro que duraria para sempre. No entanto, ia ajudar naquele recomeço. Se sentia culpado por sentir a euforia querer invadir seu coração. Porra, cinquenta pau. Dava para ficar mais tranquilo, viver um pouco.

_ Quando você vai embora?

A voz dela, sempre dura e agora ainda mais cortante pela gripe, o tirou de seus devaneios.

_ Mais pro final do mês que vem. Quem sabe antes.

_ Vá antes.

_ Tá.

Teve vontade de abraçá-la, dizer que de qualquer modo as coisas dariam certo. Dizer “tudo vai dar certo” era algo tão vago que até cabia, no entanto ele nunca dizia essas coisas e ficaria estranho dizer justo ali. Ao seu lado no Uber, ela se fechava em si mesma, se encolhendo com frio dentro da jaqueta dele. O que ela pensava de verdade era inescrutável. Tentou acalmar seu coração lembrando o que dissera o terapeuta: busque primeiro compreender o que você sente, antes de querer adivinhar o sentimento do outro.

O motorista deixou ele em casa primeiro, a casa dela ainda era tão longe que a corrida ia dar uma bica. Bom, subitamente eles tinham dinheiro. Com a mão na trava da porta, ele quis dizer algo, mas só colocou a alça da mochila de qualquer jeito no ombro e ficou quieto pensando. Foi ela quem disse, afinal.

_ Eu vou embora também. Amanhã mesmo.

_ Tá.

_ Se cuida. A gente volta a se falar em uns meses, tá bom? Eu te procuro.

_ Tá bom.

_ Você vai ficar bem?

Não gostava como o modo dela dizer isso automaticamente fazia ele se sentir pequeno, indefeso, sempre protegido por ela, o que era verdade mesmo agora que eram adultos. Seus olhos se encheram de lágrimas sem motivo. Ela cedeu, envolvendo o pescoço dele em um abraço sem jeito. O motorista esperava.

_ Vai ficar tudo bem, tá? Vai embora logo. Se cuida.

Ele não respondeu, apenas desceu do carro e seguiu sem olhar para trás. Dava raiva como ela sempre sabia o quanto ele a amava e esperava a retribuição daquele amor nas menores migalhas. Ele era refém do amor dela do jeito mais puro que se podia ser, o que era péssimo para ele e confortável para ela.

Em casa, fumou dois cigarros que achou soltos na estante. O maço ficara na jaqueta, que ficou com ela. Suspirou pensando em novos começos, o medo que carregaria pra sempre por conta daquele furto, as razões que fizeram ele e a irmã se tornarem pessoas que assaltavam casas alheias na madrugada.

Não, não eram pessoas assim. Foi só dessa vez, pensou. Acendendo o terceiro cigarro, começou a fazer as malas. Houve um tempo em que tudo era mais simples, os segredos deles eram pequenos, como onde haviam escondido o pote de bolacha dos primos, se haviam mesmo lavado atrás das orelhas no banho.

Agora havia sobrado só essa existência mesquinha e dura. Desespero de não conseguir emprego, vontade de ir embora, o distanciamento inexplicável entre os dois.

Mas porra, cinquenta mil.

Em meia hora suas malas estavam prontas, se despediu de tudo sem cuidado e sem remorso.

No táxi a caminho da rodoviária, seu corpo se chacoalhou em um soluço de medo que ele não pôde conter. Precisava comprar um maço de cigarro antes de embarcar no ônibus, precisava achar onde ficar, precisava pensar no que faria.

Apertou contra o peito a mochila com o dinheiro, pesada feito seu coração, e sorriu um sorriso meio torto e novo.

Contos

Essa dor que chegou agora

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Pode ser que não demore a ir embora

Era uma dor que vinha em ondas e caminhava pelo meu corpo todo em procissão. Sabe como? Eu sentia aquela dor andando por mim inteira.

Não sei quando começou, verdade. Mas a coisa é que em poucos dias eu já nem podia lembrar como era a minha vida antes dela.

Apalpava os lugares por onde ela passava. Boca do estômago, até onde alcançava nas costas. Deitava em cima dela na cama, de bruços a dor no peito amainava quando eu a sufocava contra o colchão. Brincávamos de pega-pega, eu e ela. Queria saber antes da dor onde ela me acertaria. Errava sempre.

Deixei ela se tornar minha companheira. Em momentos de indecisão, colocava a mão ao lado do umbigo, na barriga, e sentia pulsar a única certeza que me dizia que eu ainda estava ali. Com dor e com ressalvas, mas viva.

Não era a morte ou algum aviso mais severo. Era apenas uma dor. Simples e constante, humilde até. Uma dor que não desistia de mim.

Desci correndo do ônibus e correndo fui por alguns poucos metros até parar, sem ar. Me recompus e fingi que dor nenhuma existia. Já fez isso também? Fingir, para ver se a dor desaparecia. Me aprumei em meus saltos, um calor desse requer um pouco mais de postura, caso contrário a gente desaba na primeira esquina.

Calor e dor, andando fingindo eu quase esquecia das duas coisas. Parei com a brincadeira quando percebi que ela poderia ir embora. Ela, a dor. Notei que não queria isso. Foi a primeira vez que percebi o quanto eu dependia dela para me sentir viva.

Não quis contar para ninguém o que sentia. Ninguém poderia entender e eu tinha ciúmes só de pensar que alguém entenderia, então qual era o sentido? Usei aquilo como um escudo que me tornava mais valente perante os outros. Na minha cabeça, é claro. Eu e minha dor, eu e minha dor, eu e minha dor.

As estações passaram, uma após a outra. Meses e anos. Pulei na piscina com dor, me embrulhei em cachecóis e blusões com dor. Viajei com dor, amei e passei a detestar, com muita dor. Me acostumei com ela e soube que seria assim para sempre. Aceitei. Passei a gostar de mim assim, passei a me reconhecer assim. A menina que sempre carregava consigo uma dor.

Um dia, aquecida nos cobertores, levei um susto que me gelou o corpo todo. A dor tinha passado.

Assim, do nada, ela foi embora.

Procurei por todos os lugares, sendo os lugares tão poucos. Não estava nas costas e nem na barriga, não tinha corrido para os braços e nem ido para o pescoço. Suspirei, lembrando da vez que a dor tinha ido para o pescoço e eu me amedrontara imaginando que subiria para a cabeça, quando então eu enlouqueceria. Mas já não tinha enlouquecido?

Voltei a dormir. No outro dia, acordei cedo, pus a mesa do café. Sozinha, sozinha mesmo, percebi no segundo gole de chá. A dor tinha desaparecido. Sem vestígios e sem explicações.

Não é estranho como tudo vai ser sempre o mesmo até que não é mais?

Me ajeitei na cadeira, incomodada. Dei um tempo para a dor repensar o equívoco de sua decisão. Me entortei na cadeira, a provocando. Aqui perto da costela, afundei a mão até onde pude, cavando seu caminho. E nada. Nada. Ah, Deus, então era isso.

Aquela dor tinha ido embora, ponto final. Não havia muito o que fazer. Eu teria que procurar outras.

Contos

Conversa com data marcada

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Quis o destino que fosse assim

– … E tudo isso porque, no final das contas, ela não queria que pesassem o frango se fosse pra ter tanto gelo junto, o que é justo, mas o ponto é que…

– Escuta, eu preciso te falar uma coisa.

– Cibele, eu não tenho muita condição de ficar retomando toda história que eu te conto toda vez que você me interrompe no meio, hein. Eu acabo esquecendo o que tava falando e nisso você me prejudica. Sabe quantas histórias eu comecei e você não me deixou terminar? Eu me sinto uma revista de sala de espera de consultório pelo menos umas três vezes por dia contigo.

– Lembra que te falei que eu vinha tendo uns sonhos estranhos?

– O céu que tinha ondas do mar, a girafa que te pedia as horas, a moça de azul indicando a estrada para Marte, lembro.

– Nossa, eu não lembrava desse da girafa.

– Tá vendo? Isso porque eu presto atenção total nas suas histórias. Já você…

– Eu tive um sonho revelador na noite passada.

– Eu peço mais cerveja ou não?

– Algo envolvendo morte.

– Garçom, traz mais uma pra gente?

– Claudinei, o que eu vou te dizer é muito sério.

– Meu amor, tudo o que você diz é sério. Você é um poço de seriedade.

– Sonhei que eu chegava em casa e você me avisava que a morte tinha me visitado.

– Credo.

– É, mas como eu não estava, ela tinha deixado um bilhete pra mim debaixo da cama.

– Bom, está decidido, eu não durmo na sua casa hoje.

– Isso foi na sua casa.

– Eu não durmo na minha casa hoje. Decidi isso também.

– Mas quando eu entrava no seu quarto, era o meu quarto, na verdade.

– Certo. Vamos passar a noite em algum hotel.

– Claudinei!

– Amor, sabe o que é trabalhar o dia inteiro em pé em um açougue? Eu me sinto um boneco de pano sendo erguido pelo sovaco de lá pra cá o dia todo. Eu só quero ir pra casa dormir, não quero ficar procurando bilhete debaixo da cama.

– A gente não vai ficar procurando nada.

– Você tá chorando?

– Ainda não.

– Moço, traz mais uma pra gente? A que eu pedi não veio.

– Eu entrava no meu quarto e olhava embaixo da cama. E lá tinha um bilhete. Era o dia em que eu ia morrer.

– Olha aqui o meu braço. Arrepiado. E você viu a data?

– Vi.

– Não.

– Sim.

– Você lembra da data? Por que nesses sonhos a gente nunca lembra os números que aparecem. Se desse pra lembrar já tava todo mundo milionário nas loterias da vida. O número parece que não grava na memória da gente quando a gente acorda.

– Eu vi a data e lembro dela.

– Você vai me contar? Eu tenho medo de saber. Você ficou com medo?

– Não, só fiquei… Pensativa.

– Cibele, quanto tempo de vida o papel disse que você tem? Pode me falar, amor.

– Então, o que me deixou pensativa foi isso. A data não era no futuro. Era no passado.

– No passado?

– Dia 25 de fevereiro de 2013.

– Espera.

– É isso mesmo. Exatamente cinco anos atrás.

– Não, espera. Não é só “exatamente cinco anos atrás”. É exatamente o dia em que a gente começou a namorar. Eu achei que esse jantar fosse pra isso, aliás. Pra gente comemorar. Hoje a gente faz cinco anos de namoro, Cibele.

– Eu sei disso.

– Que coincidência bizarra!

– Não acho que seja coincidência…

– Amor, desculpa perguntar, mas você olhou o bilhete direitinho no sonho? Olha que 3 e 8 são parecidos… Vai que era 2018?

– Eu olhei. A data estava escrita por extenso.

– Que coisa bizarra! Engraçado isso.

– Não tem nada de engraçado.

– Engraçado é modo de dizer.

– Fiquei pensando nisso o dia todo.

– É porque é algo bastante bizarro.

– Quer parar de falar que é bizarro? Foi um sonho, um recado do meu subconsciente.

– Hmm.

– Claudinei, a gente precisa terminar.

– Oi?

– Foi isso o que o sonho quis me dizer. Eu morri no dia que começamos a namorar, cinco anos atrás. O único jeito de eu resolver isso é terminando contigo e retomando a minha vida.

– Nossa senhora… Você MORREU quando começou a namorar comigo?

– O que eu entendi do sonho foi isso.

– Você nem em horóscopo acredita, agora vai virar a mística do sonho.

– Morte é coisa séria.

– Cibele, você não morreu! Ou eu tô namorando uma alma penada? Se liga! Você vai terminar comigo por conta de um sonho? A gente tá juntos tem metade de uma década. Eu te ajudei quando você quis largar o pet shop e virou atendende da Vivo, sabe? Eu tava lá quando seu pai foi internado, quando você entrou na faculdade. Cibele!

– Eu sinto que só afundei nesses cinco anos.

– Você o quê? Você está infeliz comigo?

– Claudinei, procura me entender…

– Você não vai começar a chorar agora, porque toda vez que você chora você sabe que me dá um aperto no coração e eu choro também.

– Desculpa, não vou chorar.

– Você está mesmo terminando comigo?

– Eu quero retomar a minha vida, vou voltar pro pet shop, vou tentar vestibular de novo…

– Nossa, você quer voltar no tempo!

– É uma segunda chance, você não vê? Eu trilhei um caminho errado e agora tenho essa chance de reajustar a minha rota.

– E eu?

– Eu não posso mais estar com você.

– Você vai me dizer que tudo isso é brincadeira logo ou vai me deixar ficar sentimental feito o diabo te pedindo pra mudar de ideia?

– Achei que a gente pudesse chegar a um acordo de maneira adulta.

– Não tem acordo, você está apenas me informando que está terminando comigo.

– É verdade.

– Você não me ama? Meu Deus do céu, eu me sinto a tampa de um bueiro, sabe?

– As coisas mudaram… Nós mudamos tanto. Sinto que estamos tão desinteressantes um para o outro…

– Eu não vejo isso.

– Um homem nunca vê. Ele está sempre confortável com qualquer relacionamento, contanto que não dê problemas pra ele.

– Eu amo você.

– Você só está acostumado comigo. E eu estou cansada de estar apenas acostumada.

– Cinco anos. Garçom, a conta.

– Foi o destino quem quis assim.

– Não é o destino quando quem escolhe acreditar é você. Foi você quem quis assim, não foi o destino.

– Eu preciso seguir o meu sonho.

– Será que quando você “retomar sua vida” e “reajustar a sua rota” você vai perceber a cagada que fez aqui?

– Não existe erro em tentar.

– Gente, você vai jogar no lixo mesmo. Tudo o que a gente construiu.

– É melhor a gente terminar.

– Não, fica tranquila, já está terminado.

– Foi um recado simbólico. Mas eu entendi o que quis dizer. Pelo menos, acho que entendi. Vai ser melhor pra nós dois.

– Dizia isso no sonho também?

– Eu sempre vou lembrar de você com carinho.

– Ah, pelo amor…

– A gente poderia continuar, não fosse o destino…

– Bom, o garçom não vem aqui mesmo. Vou lá pagar. Adeus?

– Adeus.

Contos

Aulas práticas para sentimentos teóricos

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Algumas lições em poucas tardes de sábado

O ambiente do curso “Narrativas Nucleares: Aprenda a contar as histórias da sua família e se reconecte com seu passado” sempre fora calmo e cheio de boas vibrações, por isso foi um pouco chocante para todos quando aquele rapaz chegou no meio da aula e disse que, sinceramente, todos ali eram uns falsos.

Já era a terceira semana da turma quando ele chegou assim de supetão, então um vínculo já tinha se criado. A chegada do novo aluno desequilibrou o chi, foi o que disse a Aura, uma moça mirradinha com voz tão fina que era quase uma piada. Ninguém ria quando ela falava, entretanto.

Na segunda vez que o rapaz apareceu, tendo ficado desaparecido por dois encontros desde a bomba inicial da pretensa falsidade de todos, foi no dia em que deveriam escrever sobre suas figuras paternas.

Jéssica tinha escrito uma história curta, mil palavras bem espaçadas e tristes, sobre como o pai trabalhava muito e ainda assim tinha tempo de se vestir de palhaço nas festas da família. Leu seu texto com o coração na mão, acreditando que a quebra de parágrafos é recurso de estilo dos mais superestimados. O moço deu uma risada abafada que mais pareceu um soquinho. Doeu.

Quando foi ler o próprio texto, ele apresentou uma alegoria fantasiosa sobre um chefe de família que viaja para o espaço sideral em busca de salvação para o planeta. Jéssica nascera em 1997, mas teve a vaga impressão de já ter visto um filme assim.

A professora, professora não, condutora de aprendizado, disse que o texto do moço tinha sido o mais rico da tarde. Jéssica pensou consigo mesma que deveria ser mesmo o mais rico, quer dizer, Bruce Willis fez quanto de bilheteria em sua fase dourada?

Durante as semanas que se seguiram, o troféu simbólico, imaginário na cabeça dela, de melhor texto do sábado sempre ficava ou para Jéssica ou para o moço. Com três meses de curso, para o próximo encontro semanal, ela prometeu que se esforçaria ainda mais. Mexendo o café com a pazinha antes da aula começar, sua mão tremia. O moço chegou e passou por ela feito um furacão, fazendo até vento, e tomou um assento na roda compartilhada dos alunos. Jéssica foi até lá e sentou do lado dele.

O tema era amizade na época da infância. Jéssica bufou. Nunca pensara muito nas suas amizades de quando criança, era só o pessoal da escolinha e uma menina da vizinhança.

Escreveu sobre essa menina, focando em um detalhe banal, algo sobre a eventual necessidade de se esconder da mãe para não parar a brincadeira quando era hora de voltar para casa. Todos riram, enternecidos. Menos o moço, que compenetrado ainda lutava com as palavras em seu caderno apoiado no joelho.

Jéssica se aprumou na cadeira quando ele chegou na metade da leitura do texto.

“Admito que errei. Você errou também. E o que aconteceu depois, que lástima. Lembro de me sentir roubado quando a nossa amizade parou e todas as suas outras continuaram. Da maneira que eu vi você fazer, o que você fez foi o seguinte: deu para outra pessoa uma chance que poderia tranquilamente ser minha.

Não era sobre os seus princípios, não era “esse perdão eu não posso te dar”. Descobri que não era porque você perdoou erros dos outros que eram muito maiores do que os que cometi, mas não perdoou os meus erros nunca.

Então, não era sobre os erros. Era sobre mim.

“Não é nada pessoal”, você disse quando decidiu que não podíamos mais ser amigos. Pro inferno que não era, caralho.”

“Ah, pronto”, Jéssica pensou quando viu que a condutora de aprendizado lacrimejava. Ele tinha uma mania chata pra burro de ficar tremendo o pé no chão enquanto lia, ela já tinha reparado. Colocou a mão no joelho do moço e perguntou se ele estava bem.

“É muito fácil fingir algo”, ele respondeu, dando de ombros. Pela ampla janela do estúdio térreo que ocupavam, os raios de Sol batiam diretamente no rosto dele. Jéssica colocou a outra mão acima dos olhos para enxergá-lo melhor. Ele sorriu.

No intervalo, todos ficavam em um jardim anexo, com mesas de madeira e um café caríssimo e ruim. Jéssica tentava tirar uma selfie tendo ao fundo a verde cerca viva do ambiente, quando percebeu que ele viera sentar ao seu lado. Foi uma sensação quase normal.

– Escrever é fingir, você sabe disso, não sabe?

– Ah, nossa. Se enxerga, garoto.

O moço riu, dando de ombros mais uma vez. Ele tinha os cabelos lisos e longos passando um pouco do ombro, como um metaleiro tardio, de uma adolescência esquecida. Jéssica notou que gostava do contraste entre os dois. Seu cabelo era tão curtinho que sua mãe vivia reclamando que nem parecia uma moça.

– Toda vez que eu venho você fica puta com tudo o que eu faço.

– Eu estava fingindo.

Agora quem deu de ombros foi ela. Levou uns segundos para entender que a estampa da camiseta preta dele era uma versão minimalista da capa do segundo álbum do Coldplay. Sentiu uma mistura sólida de amor e ódio. Coldplay era sua banda favorita. Coçou a tatuagem no interior do ante-braço direito que dizia “ A rush of blood to the head”. Ele percebeu o movimento e ficou sem graça, como se estivesse esperando por isso há tempos e tivesse sido pego de surpresa por finalmente ter dado certo o que planejara.

– Não menti quando escrevi sobre as amizades.

– É claro que não. Dá para ver pelas suas unhas todas roídas.

– Sobre o meu pai eu menti, naquele texto.

– Ah, não brinca.

– O que te fez escolher esse curso?

– Tempo livre?

– Eu vim pra ver se conseguia desabafar um pouco.

– No curso?

– Não. Hoje. Aqui com você.

Desabafar?!

Jéssica ajeitou o cós da calça de cintura alta de linho. Sempre se sentia dentro de um pneu quando se sentava sem apoio nas costas. Viu os dedos dele batucarem a sola do tênis, ele apoiara o pé no joelho e olhava para baixo, pensativo. Era um crime como todo sentimento precisava ser catalogado para ser aceito. Não era o sentir que doía, era esse catalogar que machucava tanto.

O pessoal em volta discutia figuras de linguagem, o que era terrível em todo e qualquer sentido. Jéssica esticou os pés embaixo da mesa, girando os calcanhares fizeram um estalo terrível de morte. O moço riu.

– Deixa de eu te falar, Mateus. Seus textos são ótimos, mas se você continuar se afundando em auto-piedade ninguém vai te levar à sério.

– A condutora de aprendizado gosta de mim.

– Ah, claro. Olha o seu rosto.

Gostou como ele gargalhou alto, chamando a atenção de todos. Não poderia imaginar que ele fosse uma pessoa que gargalhasse, ela mesma ria tão pouco. Mexeu um pouco nos farelos de bolo no pratinho à sua frente na mesa. O moço passou a mãos nos cabelos e os prendeu em um rabo de cabelo baixo, rente à nuca. Que terrível, Jéssica pensou, ele realmente tinha sido metaleiro em alguma fase recente da vida.

Lentamente as pessoas retornavam para a sala de aula. Jéssica sentiu que o ar ficava pesado conforme a conversa dos dois morria. Sepultada a sete palmos abaixo da terra estava a sua vontade de parar de ouvir a voz dele.

– Deixa de eu te falar, Jéssica. Seus textos são ótimos, mas se você continuar agindo como se tudo fosse uma disputa ninguém vai te levar à sério.

– Eu jamais vou parar, meu caro. Até porque ainda não ganhei porcaria nenhuma. Eu não paro até conseguir. E eu vou conseguir.

– Ah, claro. Olha o seu rosto.

Ela encostou o queixo no ombro e sorriu, coquete. Era um sinal, é lógico, e a próxima coisa que aconteceu foi que Jéssica fechou os olhos e sentiu os lábios do moço beijando os seus. Não foi a sensação de um milhão de borboletas voando em seu estômago, nem fogos de artifícios explodindo pelos ares. Foi adequado e certo.

A próxima coisa que ela soube é que gostaria demais de sentir essa normalidade mais vezes, muitas vezes. Se sentir normal assim era vencer a disputa, afinal de contas.

Sentada ao lado da porta, ao ver os dois entrarem juntos de mãos dadas, Aura sentiu o corpo todo se sacudir em um calafrio que vinha da base da coluna e acabava na nuca.

O chi da sala já não tinha mais a menor salvação.

Contos

Desculpa o áudio enorme

Créditos da imagem: Visual Hunt

Nem percebi que tinha falado tanto

Oi amor, queria te explicar o que aconteceu naquele dia, a gente nunca falou sobre isso e já passou um mês. Vinha certo de fazer isso hoje, só que cheguei atrasado no trabalho, você sabe que segunda é sempre puxado pra mim, ainda mais agora, eu até disse pra minha mãe “essa semana vai ser puxada”, ela me olhou com uma cara que… Enfim. Eu cheguei atrasado no trabalho, peguei o ônibus errado e mesmo assim fui esperto e desci antes do estrago ser maior, se eu contar pra você a minha vida toda você CHORA.

Nisso eu tô entrando no elevador do trabalho e vem a mulher e fala. Peraí que tá barulho aqui. Vem a mulher e fala ah porque não é pra ficar girando a catraca com tanta força eu grito “o quê?” e ela levou um puta susto, ficou me olhando com cara de bosta e… Nossa! Sabe? Precisa?

Eu nem ligo, já te falei que estou bem, não tô falando pra te preocupar, eu tô só contando, tá? Tô só contando, são coisas diferentes. Não são essas coisas pequenas que vão me abalar, apesar de que, nossa, é mesmo um inferno como estão sempre me incomodando por qualquer coisa. Aqui no trabalho tem um cara que toda vez que passa pelo corredor batuca na minha mesa, eu chamo ele de CIA DO BATUQUE mentalmente. Eu sou muito chato, eu sei. Eu sou um lixo.

Do que eu estava falando? Você soube que abriu uma nova vaga aqui? Vem trabalhar aqui, me manda seu currículo que eu falo com alguém pra te indicar. Só não vai pegar a minha vaga, hein? Hahaha.

Tô voltando do almoço. Queria te falar certinho o que me aconteceu, você tem direito a isso, a gente tá junto há oito meses e depois daquilo tudo eu sumi, eu sei que não foi certo, mas nossa. É um milagre eu ainda estar aqui, minha mãe disse, ah, se eu tivesse demorado mais pra chegar em casa eu não quero nem pensar no que seria de você, seu Pedro Henrique, ela falou isso com mais raiva do que medo, não sei explicar direito, fico me sentindo culpado, sendo que é uma coisa que eu não tenho como controlar sozinho, só com remédio, né? Você mesmo disse que com você foi igual, eu fico pensando sempre nisso, que foi igual com tanta gente, eu não vou morrer de algo que tantas pessoas NÃO morreram.

Tá bom, muitas pessoas morreram SIM também. Mas eu tenho que ser positivo, o médico mesmo disse, você já disse, minha mãe já disse. E, caralho, como eu me arrependo, já pensou se eu tivesse conseguido. Sei lá, não…

Eu já tenho que voltar pro trabalho e já falei um monte, acho que já deu três minutos esse áudio, não posso ver porque se eu vejo eu acabo apagando sem querer, que ódio desses meus dedos gordos. Escuta, é normal ainda sentir essa angústia mesmo com os remédios?

Você também se sente assim?

Nossa, acabou de passar um caminhão aqui. Você me ouviu?

Você também se sente assim?

Preciso voltar pro trabalho. Desculpa o áudio enorme, nem percebi que tinha falado tanto. Beijos, eu te amo. Nossa, acabei de ver um boné que é a sua cara, será que eu compro? Verde. Vou entrar na loja ver o preço e já vou pro trabalho. Se for até 50 reais eu compro. Hahaha. Sua cara o boné, parece o que você me deu, vamos sair de boné combinando? Hahaha. Desculpa por tudo. Escuta, eu amo você. Eu não fui até o fim só por você. Ah, credo, 170 reais. Fica pra outra vez! Beijo.

Contos

Anotação n. 35 no caderno de 96 páginas

Créditos da imagem: Visual Hunt

Nunca se encare por mais de dez segundos no espelho

Virando a esquina ela vinha bêbada, tropeçando nos pés, muito rápida e nada sã, correndo achando que estava voando, fazendo da rua uma esteira em velocidade muito alterada, quantas mais metáforas vocês precisam, o que se está querendo dizer aqui todos já sabem.

Tinha sido uma noite e tanto.

E ao mesmo tempo, não. Entre se maquiar no espelho e escolher glitter no lugar de sombra, passar batom e simular um sorriso para visualizar como ficaria, como se ela não soubesse como era o seu sorriso até então, foi brindada com a constatação de que a língua cortada desde ontem tinha um motivo muito mais simples do que o insondável do corpo humano feminino que se machuca sozinho.

A porcaria do dente da frente tinha trincado.

E era só um trincado pequeno, a restauração velha caíra. Coisa simples de consertar. Quando analisava assim à frio era bastante prosaico, o tipo de coisa que não faz você chorar, mas faz seu humor mudar como se chorasse. Olhando no espelho, o sorriso ainda simulado, intacto, nem aparecia tanto. Parecia mais que tinha aqueles dentinhos separados que as modelos mais feias têm, o que é até charmoso quando não são os seus dentes.

No bar, falou a noite toda com a mão na boca, sorriu com a mão na boca, dançou com a mão na boca, até bebeu com a mão na boca, o que se mostrou não ser um problema, já que em dado momento se viu perdidamente bêbada.

Olha que estava tudo até ótimo, dançando e bebendo, saindo no fumódromo para, imagine só, fumar, e depois voltar, dançar mais. Sozinha, o dente trincado como única companhia.

No fim da noite, cansada, foi ao banheiro do bar retocar a maquiagem. Glitter voou por toda a bolsa, estourando como uma caneta estoura, já vinha vazando como vaza na geladeira uma garrafa de vinho guardada com a rolha meio frouxa depois de você já ter bebido quatro tacinhas e pensar, ei, vamos parar, eu ainda não estou tão mal assim para me tornar alcoólatra aos 26 anos. Estrago total.

Com as mãos cobertas de glitter, sangrando purpurina pelos dedos tal qual um médico e suas luvas que de azuis vão ficando rubras operando algum órgão vital (não são todos?), se olhou no espelho novamente e não conseguiu mais fingir o sorriso. Era uma máscara que caía ali, e isso não a surpreendia tanto, sempre fora tão transparente. Passou o glitter no rosto e se achou mais feia. Arrumou o cabelo tingido de azul no topo da cabeça e se achou triste demais.

Podia sentir o dente quebrado doer, não por estar quebrado, mas só por saber não ser o que se esperava dele.

Pensou que tudo nela era horrível e se forçava a não ser. Era um segredo que guardava só para si, se achava horrivelmente bonita. Difícil de explicar, o caso é que ela gostava do que via quando se olhava no espelho, só não gostava do jeito que achava que deveria gostar.

Então, não. Não gostava.

Chorou um pouco, lágrimas escorrendo de uma forma bonita que com certeza valeria uma foto para o Instagram, pena que não tinha humor para isso naquele momento. Chorou sem saber muito bem o motivo de estar chorando, o que só confirmava que sabia o motivo muito bem.

Foi para casa correndo, meio patética, o dente quebrado, as mãos e o rosto brilhando plástico reluzente e tóxico que faz muito mal para a natureza (meninas, glitter mata milhões de bichos!) e tentando apagar com lágrimas o incêndio que a falta de capacidade de se conter causava em seu coração.

No outro dia, a anotação n. 35 no caderno de 96 páginas dizia:

“espero que você consiga se livrar desses sentimentos todos, é muito pesado carregar tudo isso sozinha”

O que não significava absolutamente nada, mas é claro que fazia todo o sentido.