Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #05 A última cirurgia

Arte de Hajin Bae.

Para sempre e mais um dia

Cheguei em casa e me joguei na cama. Coloquei “Forever And a Day”, da The Dissociatives para tocar no último volume. Era o começo da tarde e o dia estava lindo, raios de Sol entrando pela janela. A voz melancólica e doce de Daniel Johns encheu o quarto, meu coração e meu peito.

Tinha tempo que não ouvia essa música. Anos. Fugia dela como o Diabo foge da cruz. Versos rebuscados em um ar de tragédia confortável e aguardada, foi a canção que mais escutei enquanto fazia quimioterapia. Ela embalou os meus momentos mais difíceis e solitários, eu dormia ouvindo e sonhava com nada. Acordava e escrevia aquele que seria o meu primeiro livro.

Waiting for this jury into unwind / ‘Coz it’s been so hard wearing my heart up my sleeve

Meu gato subiu na cama e cheirou minha respiração, seu nariz gelado no meu nariz morno, checando se eu ainda estava viva. Ele sempre tem essa dúvida, eu já não tenho mais. Foram três anos em suspenso, mas agora eu sei. Eu estou viva.

A última cirurgia aconteceu no final do mês passado. O que foi feito é que retiraram o cateter de quimioterapia que eu tinha implantado no peito. Após o diagnóstico do câncer, a cirurgia para a retirada do tumor, a cirurgia para colocar o cateter da quimio, a quimio em si e o processo de remissão, esse foi a última fase do meu tratamento. Foram três anos, como eu disse. Esse cateter só poderia ser retirado após dois anos da quimioterapia, contanto que nesse período não tivesse havido nenhum tipo de suspeita da volta do câncer.

Não houve.

I’m feeling lonely and stable / And it’s believed that soon I’ll be…

E então, novamente eu voltei naquele hospital, naquele quarto, naquela sala de espera e esperei por horas. Nua, soterrada em cobertas no ar condicionado gelado da sala de cirurgia, eu revisitei aquela solidão inominável que só a doença traz. Mas dessa vez eu não estava doente. Eu estava curada.

Time has never been a friend of mine / But it has owed me a favour / Since everything was fine / And I’m desperate change as familiar as a moon

A cirurgia foi rápida e a recuperação, intensamente dolorosa. Engraçado como eu não lembrava de ter sentido tanta dor quando da implantação do cateter, quase três anos atrás. Verdade, naquele tempo eu tinha preocupações e dores emocionais infinitamente maiores e uma bolotinha cirurgicamente implantada sob a minha pele parecia até perfumaria. Hoje, curada, com mil planos e ansiedades, louca para jogar meu corpo no mundo e dançar até cair exausta, me pareceu um contratempo irritante demais parar minha rotina e ficar internada por um dia em um hospital carregado de lembranças que eu não queria revisitar.

Fiquei com pontos por uma semana. Revi também a rotina de limpá-los, trocar curativos, ver minha pele cortada tentando se recuperar, como eu tentava também. Não achava jeito de dormir, me revirava na cama como uma criança mimada. Me desacostumei de estar doente. Não queria mais estar.

E então, os pontos foram retirados. Parecia até que pesavam quilos, saindo do consultório do médico eu nunca me senti mais leve. Na volta para casa, e eu estava sozinha, Forever And a Day voltou a tocar na minha cabeça após anos de forçada ausência, o fim de tudo era o recomeço também. Um recomeço melhor.

Deitada na cama, sem pontos e sem câncer, ouço a música e choro dando risada, desacreditada da minha sorte. Guilherme, o gato, me olha muito sério e simplesmente desiste, saindo do quarto.

Words won’t say the sounds that I can hear / A thousand sunshines on rainclouds / The truth is I’d believe and be

Pedi demissão do lugar onde trabalhei no últimos quatro anos, cortando este último laço sem dor alguma, já que laços nasceram para serem cortados. Decidi que vou aprender a coreografia das músicas pop que eu amo, tenho treinado todos os dias com o jogo de video game que meu amor me deu. De repente, minha vida toda se abriu em possibilidades brilhantes, pois eu estava livre. Livre como nunca estive.

Fiz as pazes com o meu passado recente e suas lembranças. Já podia ouvir novamente a minha música favorita, sem medo. Peguei os livros que escrevi enquanto estava doente e comecei a revisá-los para lançar na Amazon junto com todos os outros que escrevi após o final do tratamento. Também eles eu evitava reler, sequer conseguia falar sobre. Uma carga emocional tão pesada, eu podia lembrar exatamente de cada dia de tratamento que estava por trás daquelas páginas. Mas agora eu não tinha mais medo dos sentimentos que estavam ali, pois eram passado.

E o passado pode ser revisitado infinitas vezes, contanto que você não tenha mais medo dele. E eu vou viver para sempre e mais um dia, como diz a minha música favorita, porque o que o meu medo acabou.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #04 A remissão

Bela, de Danilo Augusto

Para todo mal, a cura

Foram seis meses de quimioterapia, além dos dois meses e pouco entre diagnóstico e cirurgias. Depois de todo esse tempo sendo o centro das atenções, recebendo todos os cuidados e tendo uma batalha digna por travar, de repente o ciclo terminava e eu me via sem direção.

Existe algo diferente na maneira com que as pessoas te tratam quando você está doente. Você recebe um amor que até pode ser verdadeiro, mas que não é permanente. As pessoas te ajudam e te apoiam e você acredita nisso porque precisa acreditar em algo, no entanto é um erro perigoso pensar que todo mundo que te apoia quando você está mal vai ser seu amigo de corpo e alma para sempre. Não vai. A vida oscila, muda de fase, troca de interesses. E isso é normal. Se apoiar em alguém, e não em primeiro lugar em si mesmo, se mostra um grande potencializador de mágoas a longo prazo.

Após a última sessão, fiz alguns exames e esperei pelos resultados. Eles vieram e diziam que tudo estava bem. Ótimo. Três meses depois, já quase “limpa” de quimio no meu corpo, refiz os mesmos exames e agora o oncologista estava mais seguro em dizer: eu estava curada. Segundo o que ele me dizia, o meu organismo parecia ser o de alguém que nunca tinha tido câncer, tão bem eu estava. Não havia nenhum vestígio da doença, a quimioterapia fez o trabalho completo de destruir a doença enquanto me destruía também.

Era a notícia que eu tanto esperava. E eu não soube o que fazer com ela. Não me sentia livre o suficiente para comemorar, parecia que aquela sombra da doença iria pairar para sempre sobre mim. Tentava ser positiva e não conseguia por muito tempo. Me pegava sendo paranoica, achando que qualquer dor, qualquer diferença no meu corpo era o câncer voltando.

Assim como a sensação de estar doente, o tratamento do câncer não é daqueles que acaba quando termina. A doença pode voltar a qualquer momento, então mesmo curada, eu ainda tinha cinco anos supervisionados pela frente: no primeiro, repetiria a bateria de exames a cada três meses. Depois, a cada seis meses. Depois, uma vez por ano. Tudo isso para detectar qualquer possibilidade de volta da doença. Aí então, se após todo esse tempo eu por ventura tivesse câncer de novo, seria um totalmente novo, que não teria nada a ver com esse que tive em primeiro lugar. Todo esse cuidado não me acalmava, só me deixava mais em alerta. E se voltar? E se eu tiver de novo?

É difícil acreditar em uma cura quando ela está atrelada a cinco anos de “talvez”. Muitas vezes, estava lá feliz com algo, rindo e otimista com o futuro, quando algo me dizia aos ouvidos: Não esquece que você tem câncer. Isso sumia com o meu sorriso e me colocava no chão na hora. Eu simplesmente não conseguia superar, porque o medo de passar por tudo aquilo de novo me paralisava. Nisso, todo mundo à minha volta estava feliz com a cura e não entendia como eu podia estar tão séria. Passei a ser a chata, a pessimista. Nem doente mais ela está! Foi aí que mais amigos começaram a sumir.

Não acho que eu seja isenta de culpa por isso. Durante o tratamento, me tornei uma pessoa muito egoísta, desagradável até. Só tinha um assunto, só falava dele, não queria ouvir nada além do que falasse sobre mim. Não acreditava em somar, só queria que me ouvissem e não ligava para os outros. Isso vai cansando, é óbvio. Na minha cabeça, eu morreria amanhã, então era a pessoa mais exagerada possível. Amava tudo ao máximo, um amor desesperado e raso. Odiava tudo ao extremo, de maneira gratuita e infantil. Não respeitava as pessoas que eu amava e que me amavam, achava que as minhas vontades eram soberanas diante do sentimento dos outros.

Assim, fui me isolando. No começo senti raiva, ainda pensava que as pessoas me deviam algo porque eu estava doente e todo mundo tinha que me entender. Depois, passado mais de um ano, vejo que era completamente compreensível tantos finais. Ninguém é obrigado a aguentar uma pessoa irascível e inconsequente como eu me tornei naqueles dias. Mesmo meu casamento passou por uma crise terrível, que com muito amor e diálogo conseguimos contornar. Muitas amizades não tiveram a mesma sorte — porque não era pra ser, acredito. E tudo bem.

Enquanto essa revolução acontecia, fui me acalmando e reconquistando o meu corpo. Meus pés e mãos gradualmente pararam de formigar e ficar dormentes o tempo todo. Voltei a ter meu próprio cheiro e paladar. Meu cabelo parou de cair tanto. Com alguns meses, tentei voltar para o Roller Derby, mas vi que já não era mais para mim. Eu tinha mudado muito e não combinava mais comigo ser de uma equipe. O câncer me mostrou a solidão e eu vi que ela era boa, se eu estivesse de bem comigo. E eu estava ficando de bem comigo. Por indicação do oncologista, passei a fazer academia e encontrei ali uma nova paixão. Fazer exercícios físicos é bom para ajudar a fazer seu intestino funcionar e também acelera a curar a coisa dos formigamentos, então eu me joguei. Hoje em dia, faço musculação e aeróbico quatro vezes por semana e volta e meia participo de corridas de rua.

Aos poucos, fui me reencontrando. Deixei os excessos todos de sentimentos e vontades e foquei só em mim. Quando olhei apenas para mim, pude ver de verdade o que eu realmente queria e precisava. Hoje não preciso de centenas de pessoas ao meu redor, só preciso de mim e do cara que eu amo. Dos nossos gatos, de um jogo do Palmeiras no estádio. Dos meus livros, que nunca mais parei de escrever.

Em julho, fiz meus exames mais recentes. Como diz o Dr. Hézio, minha saúde está “um espetáculo”. Só vou precisar fazer exames novamente em janeiro — desde o diagnóstico, esse é o maior intervalo de tempo que passei sem precisar fazer raio-x de tórax, colonoscopia e seus que tais. Isso é liberdade. Liberdade com segurança, o que traz paz.

Ainda preciso ir mensalmente ao IPC para limpar o cateter implantado no meu peito. O processo é quase igual a quimio — respirar fundo, prender a respiração, espetar, soltar a respiração — e isso sempre me deixa um pouco mexida, mas como é bem rápido, passa rápido também. Por lá, todo mundo ainda lembra meu nome e me trata com o mesmo carinho indizível de sempre. Ano que vem, se tudo der certo, faço a cirurgia para a retirada do cateter — com dois anos após o final da quimio, já é seguro tirar o implante, pois as chances do câncer voltar são muito reduzidas.

Com a vida voltando aos eixos, a gente corre o risco de esquecer o que passou. Embora tenha sido uma fase muito dolorida, eu não quero esquecer que tive câncer. Quando eu acordo de manhã e consigo levantar sorrindo, eu não quero esquecer que um dia já passei dezoito horas sem conseguir me mexer ali. Quando eu vou pra academia e penso que não consigo passar dos dez quilos no supino, eu não quero esquecer que um dia meu gato mordeu meu cateter porque eu não conseguia erguer a mão para afastá-lo.

Quando eu olho para o lado e vejo esse cara, o amor da minha vida, dizendo que me ama e me fazendo gargalhar com mais uma das suas inacreditáveis histórias envolvendo a Paraíba, um suquinho de laranja ou uma caminhada heroica cruzando a cidade após um título do Palmeiras, eu não quero esquecer que já estive tão doente que cheguei a pensar que não precisava do amor de ninguém. Eu preciso do amor dele. Ele é a pessoa que eu mais amo no mundo.

Eu precisei morrer para entender o valor da vida. Mais, eu precisei perder quem eu era para descobrir quem eu sou. Hoje eu sei quem eu sou. Sei que sou minha e de mais ninguém e que o meu amor, a minha atenção, é algo que eu devo dedicar à alguns poucos e raros: meu marido, minha família, meus gatos, três ou quatro amigas. Sei o que quero e sou muito feliz. Feliz como nunca fui. Sabendo até onde vai a carne, sabendo que a dor descobre seu limite e o transpassa — e mesmo assim, eu aguento.

Ser diagnosticada com câncer aos 30 anos de idade me deu uma noção absurda do quanto eu não me conhecia. Eu não sabia nada sobre mim, eu pensava tudo errado sobre a vida. Agora eu aprendi e eu não quero esquecer isso nunca.

A volta do médico depois do diagnóstico, cada pedaço daquela rua com uma lágrima minha e do Alex. A escuridão dos dias na UTI. Os momentos em que eu pensava que estava bem e então apagava. Todas as vezes em que pensei que não aguentaria, até que minha mãe falava comigo e eu me fortalecia novamente. Todas essas lembranças são eternas para mim. Elas não me magoam mais, pelo contrário, me fazem sorrir.

Eu passei por uma experiência terrível e longa que, bem da verdade, ainda nem terminou e pode recomeçar a qualquer instante. Não há motivos para ficar triste com isso, a vida sempre vai dar um jeito de surpreender a gente, não é? Não adianta a gente ter medo, a gente precisa viver mesmo assim.

Eu aprendi demais com o câncer. Fui até o fundo do que eu era e do que eu sentia e entendi o que realmente me é fundamental. Cruzei o inferno e levei meses até desgrudar ele da minha alma. Hoje a minha vida é bonita, não é fácil e nem é simples, mas eu gosto demais dela. Nem tudo são flores, mas elas estão ali. Estão ali e, mais do que lindas, me mostram que estou no caminho certo.

Eu finalmente estou no caminho certo.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #03 A quimioterapia

Anomie Belle: Flux, de Januz Miralles

É preciso morrer para poder renascer

Vivi durante seis meses repetindo a cada quinze dias aquela cena de Trainspotting. Aquela em que o Renton (Ewan McGregor) injeta heroína na veia e o chão se afunda em formato de caixão enquanto ele se deita e apaga por completo. Isso é a quimioterapia. Sem a parte boa do prazer da droga, com a parte ruim do imediato apagão à revelia que te faz perder dias navegando em um mar de auto-piedade, dor e medo.

Eu não quero ser dramática, mas eu preciso ser sincera. A quimioterapia prescrita para mim foi das mais leves e ainda assim, me matou dia a dia, um pouquinho mais a cada aplicação. Não perdi cabelo, não tive maiores complicações em outros órgãos (pode acontecer), mas sofri demais naqueles seis meses. Foram seis meses onde morei por uns cinco anos, me pareceu.

Não existe um formato padrão de quimioterapia. Ele é diferente para cada caso, para cada paciente. É o oncologista que avalia a gravidade do seu quadro e prescreve uma receita especial para você. Para mim, era apenas uma quimioterapia intravenosa “de precaução”, visto que o tumor mesmo tinha ido embora com a cirurgia. Por isso, teve o tempo mínimo (seis meses) para esse tipo de tratamento e foi do tipo mais brando (branca). O que não quer dizer que não tenha sido extremamente sofrido.

A minha rotina era religiosa e nunca mudou durante aqueles seis meses. Na segunda-feira, eu passava antes do trabalho em um laboratório perto de casa e fazia exame de sangue. Na terça, imprimia o resultado que saia on-line no site deles. Na quarta-feira, tinha consulta cedinho com o Dr. Hézio. Ele avaliava meus exames, perguntava como eu me sentia, se tinha ido ao banheiro todos os dias e então me liberava para a quimioterapia. Era na sala ao lado.

Ali, eu recebia primeiro um soro, já pelo port-a-cath para limpar as vias. Depois, uma bolsa com remédio para proteger o estômago. Só então, a quimioterapia. Eu ficava lá por umas cinco horas, ao lado de outros pacientes em mesma situação. Você já deve ter visto essas salas nos filmes, várias poltronas enormes e um silêncio quase confortável, que tenta ser confortável. Na primeira vez, eu recém tinha operado para implantar o port, então foi bastante dolorido. Mais adiante, seria apenas normal. Respirar fundo, prender a respiração, ser espetada com a agulha no port e então voltar a respirar.

Como eu dizia, eu ficava lá no IPC por algumas horas na quarta, recebendo o medicamento. Quando as duas bolsas de quimio acabavam, colocavam mais uma: essa ficava em uma pochete que colocavam na minha cintura. Era hora de ir para casa. Eu ficava com isso — a “mangueira” levando a quimio da bolsa acoplada na cintura até a agulha espetada no peito em cima do port, — até a sexta-feira, quando retirava essa bolsa e tinha uma semana de folga até repetir todo o ciclo de novo. Exame de sangue, imprimir, consultar, aplicação de quimio por cinco horas no IPC e mais dois dias em casa, volta ao IPC tirar a bomba.

Nas primeiras aplicações, eu ficava bem, até. Dormia, lia livros. Com o tempo, ficou mais pesado, o remédio acumulado em mim passando a ser mais forte que eu. Tanto que, em um primeiro momento, me pareceu exagerado o intervalo de quinze dias entre uma aplicação e outra. Depois fui entender que era um tempo mínimo para o tanto que o tratamento vai te esgotando.

Enquanto estava no IPC sendo medicada, meus pés e mãos formigavam tanto que chegava a doer. Eu me retorcia de agonia na poltrona, debaixo da manta xadrez de hospital. Ficava lá, olhando a TV que sempre estava ligada na programação matinal da Globo (até hoje não posso ver Mais Você sem sentir engulhos), sentindo meus nervos se revirarem. Descalçava os sapatos, dobrava uma perna. Nada fazia aquela aflição passar.

O Alex ficava comigo até eu apagar, aí saia tomar um café e logo voltava à vigília. Eu tentava falar com ele, mas conforme as horas passavam ia ficando mais difícil a voz sair da minha garganta, até que era impossível. Era como se eu estivesse presa no meu corpo. Dentro de mim, estava alerta e queria sair dali, conversar, rir, ler. Por fora, meu corpo não respondia, meus olhos pesavam e eu mal tinha forças para mantê-los abertos.

No IPC, era atendida sempre pelo mesma equipe de enfermeiros. Eles eram extremamente amorosos e compreensivos, faziam de tudo para que eu me sentisse bem. E eu queria ficar bem, tentava ser o mais “boazinha” possível, já que ali as horas passavam muito devagar e eu não podia fazer nada quanto a isso. Só podia ter paciência e esperar, com meu organismo nauseado e com os formigamentos aflitivos pelo corpo.

Após as horas de quimio, voltávamos de táxi e eu sempre me sentia um cachorrinho machucado, olhando pela janela e tentando sentir algo real daquele momento em que eu vivia. Tudo me parecia distanciado demais. Como se eu estive drogada (e estava!), nada era palpável, era tudo borrão. Uma música no rádio, a conversa entre o Alex e o taxista. Tudo passava diante de mim, mas nada permanecia. Eu flutuava entre as horas e me magoava com a minha situação, pois nunca gostei de não ter controle sobre mim mesma. Sempre fui muito controladora e ansiosa, então estar ali naquele torpor me enraivecia, mas eu nada podia fazer. O taxista dirigia devagar, muito devagar, e passava com cuidado no quebra-molas. Nunca perguntavam o que eu tinha. Era só olhar pra mim para saber.

Em casa, com a bomba espetada no peito, era uma extensão daquela espera. Eu chegava e ia direto pra cama, mergulhando em um sono sem sono de dez ou doze horas. Eu não tinha sono de fato, dormia de pura exaustão. Dormia porque não tinha forças para manter os olhos abertos, porque não conseguia me mexer. Eu ligava o Spotify, o celular tocando baixinho bem do lado do travesseiro e me embalava nas letras das músicas. Viajava para outros lugares, me imaginava nas músicas, criava histórias de continuação para as canções. As músicas eram a minha fuga.

Quando conseguia levantar, ia pra sala e chorava sentada no colo do Alex. Ele me consolava dizendo que eu estava bem, que tudo ficaria bem em breve. Que éramos fortes e conseguiríamos. Mais calma, eu voltava para a cama, para a música e para o meu sono sem sonhos.

Foi assim ouvindo música que tive a ideia para o meu primeiro livro, cumprindo de maneira torta a previsão da terapeuta que me atendeu no meu primeiro dia de IPC. Quis escrever, mas não sobre mim. De mim, eu estava cansada, estava exausta. Inventei a história dessa moça, bibliotecária, que conhece um cara em um café. Depois descobre que o cara é famoso e um sacana, mas aí eles já estão apaixonados. Por acaso, o cara era o Daniel Johns, da Silverchair. Sim, pode rir. Já mencionei que eu estava surfando nas ondas da quimioterapia e do Spotify? Pois é. Uma história boba e romântica, mas que me me serviu de escape para aqueles momentos. Comecei a escrever e foi um sucesso imediato. Claro, todo mundo queria me apoiar e a história até que era legal! — embora minha escrita fosse sofrida demais, para dizer o mínimo. Fui melhorando depois, eu acho. Hoje estou escrevendo meu sexto livro, descobri o gosto pela coisa. O fato é que em torno dessa primeira história se juntou um grupo de meninas para me apoiar, que compraram por completo a minha empolgação em escrever. Foi fora do normal o quanto esses livros cresceram, até entrevista para o UOL eu dei, falando sobre eles.

Era tudo irreal o que eu vivia. Passava em slow motion e parecia descolado da realidade. Minha rotina mudou e, querendo ou não, passei a viver em função da doença — das suas limitações e principalmente dos sentimentos que ela trazia ao meu coração. Eu tinha medo de morrer e também tinha muita vontade de estar viva. Me sentia diferente por estar lutando. Achava que morreria amanhã, então precisava viver tudo o quanto antes. Eu mudei muito, de um jeito que só fui me dar conta muito depois.

A vida de quem faz quimioterapia é mais lenta. Não é tanto sobre dor, é muito mais sobre perder a sua força. Nos dias de tratamento, você apaga. Nos dias de “folga”, você tenta se recuperar, mas seu corpo não responde, você perde o controle sobre ele. Não manda mais. Teimosa que sou, continuava indo trabalhar quando não estava em dias de quimio, no entanto meu ritmo era o de uma senhorinha de 90 anos. Andava devagar, tropeçando, meus colegas seguravam meu braço para me ajudar a atravessar a rua. Não percebia, mas eu cheirava a remédio. Meu hálito, minha pele exalava aquele cheiro da quimio. Eu andava bamba pela rua, mal sentia os pés de tanto formigamento. Comia muito pouco, por obrigação, pois era muito sofrido. Minha boca e língua formigavam também. Com o tempo, não conseguia mais comer nada gelado e nem mesmo tocar em nada com baixa temperatura. O oposto também acontecia, não sentia nada quente. Podia pegar uma chaleira fervendo e não sentia nada, embora meus dedos machucassem com o calor. Era preciso muita atenção nessa época, pois não raro eu me queimava e só percebia horas depois.

Aos poucos eu fui ficando mais fraca a cada aplicação. O remédio foi me vencendo, porque o que ele faz é isso: ele te mata por inteiro para poder matar o câncer. Ele destrói você por completo, para você poder nascer de novo. Para mim era bem claro que se eu fosse morrer ali, não seria de câncer e sim de quimioterapia. Eu aceitava isso com uma medrosa resignação.

Alguns episódios mostravam como eu não tinha mais controle de nada. Por exemplo, a porta do quarto ficava trancada quando eu estava em quimio, para os gatos não entrarem. Se eles subissem em mim, eu não teria força para tirá-los. Um dia, o Gui conseguiu entrar, cheirou meu rosto todo e deu uma dentada no cateter. Não chegou a furar, o Alex viu a tempo, mas ficou a marca do dentinho dele no “cano” que levava o remédio da bolsa para a agulha no meu peito. Eu quis rir, beijar o gato e o Alex por eles estarem ali ao meu redor enquanto eu por dentro morria sem oferecer resistência alguma, mas não conseguia também.

Viver se tornava mais complicado de maneira prática. Reflexo da quimioterapia, meus dedos da mão doíam tanto que não eu conseguia digitar ou escrever com a mesma dinâmica de antes. Trabalhava e escrevia meus livros dando soquinhos cegos no teclado e meus dedos machucavam, mas eu não sentia dor. Estavam amortecidos. Era estranha a sensação, doía e eu não sentia nada ao mesmo tempo. Mesmo assim, trabalhei durante todo o tratamento, o quanto pude, e nisso tive todo o suporte da minha agência. A decisão de continuar trabalhando foi minha e eles não só aceitaram, como se colocaram à disposição para ajudar no que fosse preciso.

Tomar banho tendo o cateter espetado no peito era trabalhoso. Eu tinha sacolas e mais sacolas plásticas na gaveta da pia para isso. Antes do banho, recortava o tamanho certinho e cobria com plástico e esparadrapo o cateter e a pochete com a quimio. Entrava no chuveiro com cuidado para não molhar o equipamento além do inevitável. As enfermeiras sempre falavam isso, que não podia molhar. Eu me segurava nesse aviso quase maternal para não me desesperar com o fato de ter uma agulha cravada no meu peito enquanto eu me ensaboava, nua e trôpega. Bêbada de remédio.

Pra tirar o remédio, na sexta, era geralmente a minha amiga Carol que me levava, junto com o Alex. Essa parte era rápida, então não tinha tanto problema. Tirava a bomba já vazia, injetava mais uma dose de soro pra limpar e eu estava “liberta”, como gostava de dizer. Se estivesse forte o suficiente, eu aceitava o convite da Carol e íamos comer algo. Mas eu nunca comia nada, só tomava um suco de laranja e ficava achando que tinha sido feito de fruta estragada, quando na verdade era o meu paladar que estava comprometido. Uma vez, saímos do IPC e fomos cortar o cabelo juntas. Outro dia, fomos almoçar com o Alex e o pessoal do trabalho dele, mas não tinha mesa e ficamos em uma outra à parte. Os pratos eram caros, lembro de ter pago sessenta reais em um bife aparentemente suculento que eu nem toquei.

Levava um final de semana inteiro para eu me recuperar da aplicação. Em algum momento entre o sábado e o domingo, eu dormia um sono “de verdade”, por estar com sono mesmo, e quando acordava, sentia que estava “ok” novamente. Era estranho, mas eu sentia que tinha passado o torpor da quimio. Quem me acompanhava sabia, era sempre quando eu postava uma selfie no Instagram dizendo que estava 110% ou 200% bem, de brincadeira. E comemoravam comigo.

Durante o tratamento eu tive muito apoio. Muito mesmo, era inacreditável. Eu estava protegida em uma redoma onde era mimada ao extremo por todo mundo, conhecidos ou desconhecidos. Passei a acreditar que seria assim sempre, que era tudo verdade aquele amor todo de todo mundo e, mais adiante, vi o quanto estava enganada. No entanto, ali foi o que aconteceu e me ajudou a suportar, de alguma forma.

Os dias entre terminar a aplicação e ficar 110% de novo passaram a demorar a cada vez mais para chegar, até que eu não ficava mais 110% em momento nenhum. Passando dos primeiros três meses de tratamento, eu já não era nem 40% do que eu era, isso nos dias bons. Em dia de quimio, eu era uns 5% de mim.

Um dia, já em casa, ainda com a bomba pendurada no peito, senti uma sede muito grande. Não tinha nada ao lado da cama pois me ardia a boca beber, então nem pedia. Mas naquele dia, quis. O Alex tinha precisado sair rapidamente, ele também continuou trabalhando normal naquela fase, o que não tinha problema porque eu deveria estar dormindo. No entanto, acordei e com sede. Achei que podia eu mesma buscar um copo d’água na cozinha, distante poucos passos do quarto. Me levantei suando com o esforço e de fato, consegui. Bebi a água e então o cansaço veio, como se tivesse corrido atrás de mim desde que sai da cama e finalmente me alcançado. Subitamente me senti tão enormemente exausta que era impossível me mover dali. Era fisicamente impossível, mentalmente impossível. Sem saída, deitei no chão frio da cozinha e cochilei por algumas horas, o braço cobrindo o peito para o Gui não me morder de novo, até conseguir me arrastar de volta para a cama.

Momentos como esses traduzem a extrema solidão que é fazer quimioterapia, mas eles não contam toda a verdade. Mesmo nessa escuridão, eu ainda tinha momentos felizes. Entre uma sessão e outra, conseguia sair com o Alex, beber uma cerveja, reunir amigas em casa. Fui para a casa da Carol na Serra da Cantareira, escrevi três livros, estabeleci amizades profundas que permanecem até hoje. Nem tudo é dor durante a quimioterapia, mas a dor sempre assusta e é dela que nos lembramos primeiro. O medo é uma companhia constante, a desesperança está sempre ali virando a esquina. Mas você precisa viver e você vive. Encontra brechas, valoriza as pequenas alegrias, extrai tudo o que pode dos momentos bons.

Entre uma aplicação e outra, eu fazia baterias de exames. Nada era definitivo, mas o Dr. Hézio dizia que eu estava reagindo bem. Só saberíamos o veredicto final depois de algumas semanas da última quimio. Quando enfim o tratamento acabou, pois um dia ele acaba, eu estava cansada como nunca estive antes. Se por acaso precisasse de mais uma aplicação que fosse, acho que não aguentaria. Não precisei. Terminei o tratamento, os seis meses de Renton mergulhando no escuro. Os seis meses em que me tornei uma versão desconhecida de mim, em que tudo era medo e limitação.

Feito a licença poética que minha vida sempre foi, no dia primeiro de maio de 2015, dia em que fui retirar a bomba da última aplicação, fez um dia lindo, uma sexta gloriosa de Sol. Eu estava extremante feliz e esperançosa. A quimio tinha me destruído, me virado do avesso, mas eu tinha sobrevivido, ia ficar tudo bem. Eu vivi um dia de cada vez e consegui chegar até ali. Eu atravessei aquele inferno, adormeci dentro dele, criei abrigos, o tornei meu. Agora era hora de abandoná-lo e reencontrar o outro lado. Ainda não sabia exatamente o que me esperava ali, mesmo assim precisa ir.

Agora era a hora de recomeçar. Do zero. Do jeito certo.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #02 As Cirurgias

Medieval Moonlight, de Rob Gonsalves

Era hora de encarar a dura e nova realidade da minha vida

Depois de receber o diagnóstico, era hora de encarar a realidade: eu tinha câncer e precisava tratar isso. A primeira coisa a fazer era conversar com um médico e me orientar quanto aos passos seguintes.

Minha primeira consulta no IPC (Instituto Paulistano de Cancerologia) foi com uma senhorinha médica tipo clínica geral que me viu chorar assim que lhe dei oi. “Não chora, filha. Você tá nervosa, né? Não precisa ter medo”, ela dizia sorrindo enquanto eu me debulhava em lágrimas. Eu chorava porque estar ali era a confirmação sem volta de que eu tinha algo. Não podia mais fugir. Desacreditada, eu pensava nos dias anteriores ao diagnóstico. Até ali eu não tinha câncer. Será que eu nunca teria tido câncer, caso não tivesse aberto os exames? Era besteira pensar isso, no entanto era difícil não pensar, já que olhando de fora minha saúde estava absolutamente perfeita. E como alguém com a saúde perfeita pode ter algo tão sério como câncer?

A consulta foi basicamente eu contando de novo toda a minha história. Uma psicóloga também estava na sala. Embora eu estivesse apavorada, elas estavam muito tranquilas. Diziam que eu era nova e forte e não tinha do que ter medo. Imaginei quantas pessoas eram atendidas ali por dia, de todo o tipo de câncer, faixa etária e situação física. Eu era só mais um caso e, na verdade, era até um caso simples. Uma moça nova com câncer. Eu podia ter chances. Por isso a médica sorria.

A psicóloga ficou contente quando eu disse que era redatora. “Você vai produzir coisas lindas! Use essa dor pra criar algo, você vai sair dessa muito mais forte!”. Me deu um livro que um paciente dela escreveu enquanto estava em tratamento. Eu ri. Vocês são loucas.

Um ano depois, eu já teria escrito três livros, mas isso eu não tinha como saber na hora.

Comigo do lado, a senhorinha médica já ligou para o cirurgião do IPC e me arranjou uma consulta. “Vocês estão disponíveis para falar hoje?”, ela perguntou tapando o bocal do telefone, como se eu e meu marido estivéssemos pensado em pegar um cinema, mas, ei, seria legal marcar essa cirurgia aqui, então deixa esse novo do Woody Allen pra mais tarde. O cirurgião achou uma brecha na agenda e conseguimos ser atendidos naquele dia mesmo, em apenas algumas horas.

Foi quando conheci o Dr. Giuliano. Ele é cirurgião oncologista, o que lhe empresta ares de semideus, mas na verdade é um cara muito de boa. Ele olhou minha pastinha de exames (pastinha essa que eu carregaria pra lá e pra cá por muitos meses e ficaria mais pesada a cada dia) e ouviu minha história. E então, me explicou o que eu tinha. Foi só aí que eu entendi direito o que estava acontecendo comigo.

O que aconteceu é que por mais que eu tenha feito de tudo para mudar meus hábitos intestinais, tantos anos com episódios de prisão de ventre acabaram criando uma lesão no meu intestino. Lá pelo final dele, abaixo do umbigo. Essa lesão machucou demais e acabou virando um tumor maligno, que acabou virando um câncer. Esse é um tipo de tumor que acomete normalmente homens na faixa dos 70 anos, mas a minha loteria veio na forma de predisposição genética e má sorte. Veja que, ao contrário do que eu pensava, não era verdade que até dois dias atrás eu não tinha câncer nenhum. Na verdade, eu tinha câncer há anos e ele vinha crescendo muito lentamente até que começou a sangrar. Foi como descobrimos. Para chegar nesse ponto, o tumor já tinha crescido e contaminado cinco centímetros do meu intestino (o que é muito!) e estava obstruindo a passagem das coisas por lá. Digamos que o intestino tenha uma abertura de 3 centímetros pra passar as coisas: o tumor estava tomando conta de tudo e deixando apenas 1 centímetro pra passagem. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que eu teria problemas graves muito em breve. Por isso precisava ser operada logo. Se não tirasse esse tumor, ele iria obstruir por completo o canal e eu iria, não sei?, explodir ou implodir de um jeito nada bonito.

Agora dava pra entender o desespero daquela doutora me mandando operar logo e não querendo assumir a bronca.

Mas para o Dr. Giuliano era só mais um dia no batente. Ele me mostrou direitinho como seria a cirurgia: iam cortar meu intestino e tirar todo o tumor fora, emendar as pontas boas com um material que depois se dissolveria no meu organismo e ZÁS! eu estaria curada. Eu estaria curada? Sim, o doutor disse com sua voz tranquila de semideus, essa seria uma cirurgia curativa.

Uau!

Claro, havia a possibilidade de eu ter que fazer quimioterapia depois, mas depois pensaríamos nisso. Por hora, eu faria a cirurgia e tinha grandes chances de cura. Naquele dia mesmo marcamos uma data. Meu plano de saúde falaria com hospitais e com a agência onde eu trabalhava para liberar o procedimento. Era incrível como tudo estava se resolvendo rápido.

Depois da consulta, eu e Alex voltamos pra casa a pé, caminhando pela Paulista. Estávamos tão felizes que só faltava rodopiar pela calçada (bom, fizemos isso, não vou mentir). Uma coisa engraçada que aconteceu, ele estava há semanas tentando trocar o celular em um iPhone novo em uma promoção da Claro, mas nunca dava certo. Nesse dia, tentamos de novo após a consulta e não é que rolou? Saímos da loja com o iPhone novo dele. Era, tipo, o dia mais feliz da nossa vida. E ontem tinha sido o mais triste! Mais adiante, eu perceberia como essas gangorras emocionais são comuns durante o tratamento, mas ali nós comemoramos e tivemos um dia alegre, depois de todo o medo.

Chegando em casa, foi o momento de telefonar para a minha mãe, lá no Paraná, e contar tudo. Foi uma boa ter esperado as consultas para contar, porque aí eu mesma já estava mais calma e mais por dentro da situação. Minha mãe ficou muito chorosa e triste, como era de se esperar, mas ela também é uma mulher muito forte e prática. Disse que vinha para a minha cirurgia e eu não sou capaz de negar uma visita da minha mãe, então tratei de ajudá-la com as passagens e as datas.

Aproveitei uma reunião do meu time de Roller Derby para contar que precisaria me afastar por tempo indefinido. Agora que sabia que estava machucada por dentro, não podia arriscar continuar praticando um jogo de contato — e o time merecia uma pessoa 100%. Além disso, a cirurgia me deixaria de molho por um tempo. Foi uma noite estranha e bonita, onde com todas essas moças valentes e puro coração em volta de mim eu falei que estava doente, contei tudo, chorei e todas elas me abraçaram causando a minha quase morte por asfixia amorosa. Foi demais. Dias depois, elas até fizeram um jogo totalmente em minha homenagem e foi das coisas mais lindas que já fizeram por mim.

Eu sentia que precisava contar para as pessoas, porque não queria que pensassem que eu estava morrendo. Se pensassem isso de mim, eu acabaria pensando também. Acima de tudo, eu precisava contar porque assim quem teria controle sobre a conversa seria eu e não os outros. Tendo a verdade, ninguém pode inventar rumores. Eu não queria rumores. Assim que contei no meu finado blog que estava com câncer e compartilhei esse texto nas minhas redes sociais, recebi uma enxurrada de mensagens e comentários de apoio. Tipo, muita coisa mesmo. Eu passava o dia respondendo mensagens e foi aí que vi o quanto é importante ser aberto quanto à isso. O quanto falar sobre a doença alivia o fardo de quem passa por isso em segredo ou não se sente à vontade para se abrir. E as pessoas ficam felizes em ajudar. Minha casa vivia cheia de amigos me apoiando, rindo comigo, me dando forças. Foi uma época de muita esperança e de muita felicidade. Sim, felicidade. Eu tinha medo, mas não estava sozinha. Estava envolvida em um círculo de amor e amizade que me protegia, me carregava no colo.

A cirurgia não demorou muito para acontecer. Eu recebi o diagnóstico dia 01 e no dia 20 de outubro já estava sendo internada. Minha mãe veio de ônibus em uma viagem de dezesseis horas, pois tem medo de avião. Foi uma cirurgia por vídeo, onde fizeram quatro incisões e um corte maior, tipo de cesárea, para tirar a parte comprometida do meu intestino. Com os exames posteriores, a gente saberia se o câncer tinha se espalhado ou não. Eu lembro do Dr. Giuliano entrar na sala de cirurgia no último minuto e dizer “Vamos nessa, Tati?” cheio de amor e humor, feito o perfeito rockstar que eu via nele.

E então, eu apaguei.

Acordei muitas horas depois, na UTI, usando fraldas. Fiquei lá por uns dois dias e foi um período do qual não lembro muita coisa além do profundo silêncio e escuridão por onde eu navegava sem conseguir enxergar direito, em um estado constante de semi-consciência. Às vezes, abria os olhos e o Alex e minha mãe estavam me olhando de longe, feito vigilantes. Minha mãe acenava e o Alex sorria, todo amor. Eu queria saltar da cama e abraçá-lo, queria levar minha mãe passear, afinal era a primeira vez que ela saia do Paraná e São Paulo é tão linda, eu sempre quis lhe mostrar tantas coisas! Mas eu não podia, verdadeiramente, nem mesmo mexer a ponta dos pés. Eu não sentia absolutamente nenhuma parte do meu corpo.

Outra vez, ainda na UTI, acordei e meu treinador de Roller Derby estava ao meu lado com um livro do Felipe Castilho autografado especialmente para mim. Lembro de ter ficado horas conversando com ele sobre literatura fantástica. Horas. Eu tenho o livro até hoje, se chama Legado Folclórico e todo mundo deveria ler.

Lembro de chamar a enfermeira muitas vezes para ela trocar minha fralda. E pensar que é preciso ser uma pessoa de alma superior para trabalhar fazendo isso com um sorriso no rosto e com empatia por quem está ali totalmente à sua mercê.

Depois da UTI, fui pro quarto. Fiquei lá por quase duas semanas. Duas semanas longas, incrivelmente longas. Minha mãe e o Alex se revesavam dormindo por lá comigo. Aos poucos fui redescobrindo meu corpo, ele foi voltando a funcionar e a ser meu. Precisava três pessoas pra me dar banho. Eu andava todo dia uma voltinha curta pelo corredor do hospital, pra esticar as pernas.

O Dr. Giuliano vinha me ver dia sim, dia não. Ele dizia que eu estava indo bem, mas que precisava ter paciência. Eu lembro das muitas vezes em que acordei de madrugada, toda remendada e com uma dor que nenhum remédio fazia passar, uma solidão muito grande me dizendo que aquela era a metade do caminho, mas eu não sabia como trilhá-lo. Não sabia o que estava por vir. Eu acho que a pior coisa do hospital é isso, não importa o quão confortável e bem atendida você esteja, ainda não é a sua casa. Ainda é insipidez em todos os cantos, ainda é o cheiro de doença nos lençóis e nas conversas. O silêncio, o enorme e inominável silêncio. Não tem como você florescer assim.

Um dia eu recebi alta. Fui pra casa e foi ótimo, minha mãe estava comigo, tinham me mandado um monte de presentes. Milhares de mensagens de apoio. Eu ainda tinha os curativos da operação e o dreno (um cano que fica pra fora na barriga, pra ir escorrendo as sujeiras que a cirurgia deixa) que limitavam meus movimentos. Ainda assim, consegui ter forças para fazer várias coisas malucas com a minha mãe. Fomos nas feiras da Vila Madalena, no Mercadão e na feira semanal do bairro. Andamos a Paulista toda a pé. Eu ficava exausta muito rápido, a cada dez passos precisava parar e respirar fundo, mas queria fazer tudo, porque minha mãe estava lá e eu queria que ela tivesse boas lembranças.

Limpar os curativos também me exauria. No banho, eu me via como o Rambo, limpando pontos, drenando drenos, tudo sozinha. Ninguém podia fazer isso por mim e nisso eu aprendi a ser um pouco mais tolerante à dor. Olhava meus pontos e pensava “veja só, que interessante, é até aqui a carne”. Quanto mais distanciado me parecia ver minhas feridas, mais perto de mim eu ficava.

Depois que os pontos e os drenos puderam ser tirados, saíram os exames de depois da cirurgia. Minha mãe estava comigo quando a enfermeira abriu os envelopes e me pediu para me sentar um pouco enquanto ela analisava.

E lá estava. Digamos que eram dez pontinhos de câncer no meu intestino. O Dr. Giuliano conseguiu tirar sete extirpando o tumor. Só que esses três pontinhos sobreviventes não estavam no tumor, estavam soltos pelo intestino. Não tinham chance de se espalhar para os outros órgãos, mas tinham chance de crescer e começar tudo de novo. Por isso, sim, eu precisaria de quimioterapia para acabar com eles. Então, não, eu não estava curada. Não ainda.

Meu chão sumiu nessa hora, porque eu estava cansada. Cansada de ser paciente, de sentir dor, de dar trabalho, de andar devagar, de parar a minha vida para cuidar disso. Eu tinha uma viagem à trabalho para Miami, a realização de um sonho, e tive que cancelar por conta da cirurgia. Isso me magoou demais, junto com todas as outras coisas. Eu queria minha vida de volta, mas ela me parecia a cada dia mais distante. Me senti sendo punida mais uma vez. Eu fiz tudo certo e agora mais isso?

Engoli as lágrimas e aceitei, resignada. Não tinha o que fazer. Fui apresentada ao Dr. Hézio, o senhorzinho mais fofo da face da Terra, que me explicou como funcionava a quimioterapia. Era com ele que eu iria lidar a partir de agora, o Dr. Giuliano já tinha feito a sua parte. O Dr. Hézio me informou de que eu precisaria de mais uma cirurgia, dessa vez para implantar o cateter para receber os medicamentos.

Essa foi uma cirurgia bem rápida e simples. Minha mãe já tinha voltado para Foz, então quem me ajudou aqui foi a Carol — junto com o Alex, como sempre. Eu internei pela manhã e saí logo depois do almoço, em pé e bem. O que foi feito foi o seguinte: implantaram um port-a-cath no meu peito, que é um mecanismo que serve para espetar a seringa da quimio e levar o remédio direto pra sua jugular e, por extensão, pro seu organismo todo. Dá pra entender melhor nesse artigo. Embora pareça muito invasivo, esse é o melhor jeito de receber a quimioterapia, pois esse trequinho protege você de receber o remédio direto na veia, o que pode ser muito doloroso e agressivo com o passar das sessões.

Eu estava cansada e com medo, mas também curiosa para saber como isso seria. Voltei pra casa tentando me adaptar ao fato de agora ter uma bolotinha no peito que tornava meio incômodo dormir de bruços ou abraçar.

De qualquer modo, querendo ou não, precisava me acostumar rápido: a primeira sessão de quimioterapia já era no dia seguinte.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #01 O Diagnóstico

“Christina’s World”, de Andrew Wyeth — 1948

“Você não vai morrer. Não disso. Não hoje.”

Tarde de quarta-feira. Na sala de espera do consultório médico distante apenas algumas quadras da minha casa, eu aguardava minha vez de ser atendida. Meio entediada, ficava olhando pros meus pés e apertando a mão do meu marido, sentado ao meu lado. Com a outra mão, ele conferia o celular. Nós não estávamos com medo. Era uma consulta normal, ainda que estivesse acontecendo algo misterioso comigo há semanas: na hora de ir ao banheiro, percebia que havia sangue no meio das minhas fezes.

Não é uma cena bonita, mas não era nada que me deixasse preocupada demais. Tendo um histórico desde a infância de constantes prisão de ventre, imaginei que estava com alguma lesão no intestino ou no estômago, algo causado pela rotina de ir ao banheiro apenas três vezes por semanas, às vezes até menos. Aos 15, eu tinha ido parar no hospital após passar um mês sem fazer o número dois. Ou seja, já estava meio que acostumada com esses problemas.

No entanto, é claro que um quadro envolvendo sangue preocupa mais um pouco, por isso fui em busca de uma solução. Isso me fez pular de médico em médico por quase um mês entre consultas, segundas opiniões, exames e retornos. Por fim, um clinico geral me ouviu e foi além do “deve ser a sua dieta, já passa”. Pediu uma dezena de exames. De estômago, principalmente. De sangue, como de praxe.

Voltei lá com todos eles, mas ele não conseguiu diagnosticar o que estava acontecendo comigo. Apesar dos episódios com sangue, eu me sentia muito bem. Não tinha nenhuma dor ou indisposição — eu tinha uma rotina intensa de trabalho, treino de Roller Derby cinco vezes por semana e escrevia pra caramba em um milhão de blogs, vivia correndo. Sem muito mais o que fazer, o médico me mandou fazer uns exames mais específicos e já chegar com eles na consulta com a médica que me indicou, uma especialista em intestino. Segundo ele, já com os resultados em mãos eu agilizaria a consulta e a médica teria alguma resposta.

Fui nessa médica, já levando minha colonoscopia e raio-x de tórax. Você não vai acreditar em mim, mas eu não tinha aberto os exames antes e nem tinha procurado nada no Google. Eu estava tão tranquila de que não era nada demais que nem me dei ao trabalho. No dia, fui sozinha até a doutora, que me atendeu com muita simpatia até abrir o primeiro envelope. Ao olhar as imagens da colonoscopia, a cor do rosto dela desapareceu e ela começou a falar muito rápido, querendo se livrar de mim o quanto antes.

– Você precisa de cirurgia urgente. Ainda esse ano.
– Cirurgia? O que eu tenho?
– Não posso cuidar disso, viajo para um congresso amanhã e fico fora até o ano que vem. Vou te indicar outro médico e você vê isso.
– Tem que ser esse ano? Se eu não fizer a cirurgia esse ano eu morro? Hahaha!
– Não é o caso de morrer, mas você precisa cuidar disso o quanto antes.
– Disso o quê?
– O médico que eu vou te indicar vai dizer melhor.

Devolveu os exames e me mandou embora. Foi tão absurdo que achei até graça. Em casa, comentei com meu marido que a médica era doida e não queria me atender. Quem vai pra um congresso que dura dois meses? Só podia ser desculpa, né? No mínimo, viu meu caso, achou um pouco complicado demais e me passou pra outro. Acontece. Marquei com o médico que ela me indicou. Se era caso de cirurgia, alguma lesão por conta de muitos anos de prisão de ventre, como eu desconfiava, ele poderia me dizer melhor.

Então, é quarta-feira, dia primeiro de outubro de 2014, e eu estou em outro consultório com meus exames já abertos e um mistério para resolver. Dessa vez, meu marido foi comigo, mas quando me chamaram, eu entrei sozinha.

Esse outro médico era um senhor muito sério e prático. Quando expliquei minha situação, ele fez a maior cara de “yada, yada, yada” e já pediu logo os exames. Em dois segundos, me devolveu os envelopes e disse, com a maior simplicidade do mundo: Você tem câncer.

Sabe aquela cena em 50/50 em que o personagem do Joseph Gordon-Levitt recebe o diagnóstico e fica em negação absoluta? Era eu. Comecei a perguntar do mesmo jeito para o médico diante de mim. Câncer como, se eu me exercito, se eu não fumo, se eu sou super gente boa, tenho dois gatos e trato meus pais bem? Câncer como, se eu tenho 30 anos e ontem mesmo andei de patins por duas horas sem morrer? Câncer como, se eu sou casada com o homem da minha vida e não estava lá muito a fim de morrer agora?

É curioso como vemos doenças sérias como o câncer como uma “punição” para os nossos hábitos, quando, muitas vezes, ele é apenas resultado da inesperada combinação de herança genética com um pouquinho de azar. Obviamente, naquela época eu nem fazia ideia de nada disso.

O médico ficou impaciente e me respondeu na lata: Tatiani, você é uma mulher adulta e acredito que pode lidar com isso, por isso estou sendo direto: Você tem câncer no intestino e precisa se tratar. Não sei se pode se curar, isso é o médico especialista em câncer que vai dizer. Vou te encaminhar para um e você começa o tratamento o quanto antes. Amanhã mesmo. Não se demore, não invente desculpa. Você tem que cuidar disso AGORA, entendeu?

Dito isso, me passou um encaminhamento para o IPC (Instituto Paulista de Cancerologia), onde eu deveria “ligar lá e marcar uma consulta”. Só que não me deu um nome de médico, de especialista, nada. Eu não fazia nem ideia de como lidar com isso de maneira prática. Eu quero dizer, pra que médico você telefona quando está com câncer? O que eu tinha que fazer? Ligar na recepção desse tal de IPC e falar “Fala, galera. Tô com câncer, o que vocês mandam?”? Eu não tinha experiência nenhuma no assunto, nunca tinha passado por isso com alguém de perto.

A consulta durou cinco minutos, se tanto. Assim que fui dispensada, encontrei meu marido na recepção. Também não quis enrolar muito, estava subitamente exausta. “É isso. Estou com câncer no intestino.” Ele não fez perguntas, me abraçou e descemos pra casa em silêncio.

O trajeto daquele médico até a minha casa era bem curto, dava pra fazer a pé em uns vinte minutos. Naquele dia, durou mais de uma hora. Eu e o Alex andávamos um pouco e parávamos em algum muro ou banco e chorávamos abraçados por minutos. Andava mais, vinha mais uma crise de choro, a gente parava pra chorar. Foi incrível como mesmo ali eu soube que ele era a pessoa certa para estar ao meu lado, pois sabia exatamente o que dizer: nada. Só me abraçava e chorava comigo. Era só isso o que eu precisava.

Foi um dos dias mais tristes da minha vida, em parte pelo medo, em parte pela desesperança. Tendo o médico dito que não sabia se havia possibilidade de cura, imaginei que eu morreria em breve. Não foi a outra médica que disse que eu tinha que operar ainda esse ano ou…?

Em casa, o Alex ligou para o IPC e fez exatamente o que eu pensei: Fala, galera, minha mulher tá com câncer, como faz? A nossa sorte é que a equipe do IPC é composta basicamente por anjos, como eu viria a comprovar inúmeras vezes mais na minha jornada. Por telefone, eles explicaram tudo o que podiam e conseguiram uma consulta pra mim já no dia seguinte. Essa primeira consulta era mais uma conversa com uma médica dedicada a isso mesmo, receber pessoas recém-diagnosticadas. Depois disso, veríamos como seguir com o tratamento, o que eu tinha que fazer, onde poderia fazer e eles me dariam todas as direções. Nos sentimos um pouco mais tranquilos, como se tivéssemos resolvido pelo menos parte do problema. E era bem isso, na verdade. Como duas pessoas práticas, queríamos um plano de ação e eles nos deram, ainda que em um primeiro momento tenham dito apenas “venham aqui e nós vemos o que fazer”. Quando você está com medo, só isso já basta pra dar uma amenizada na ansiedade.

Só que eu ainda estava preocupada com essa coisa de morrer, né? Lembrei de uma amiga de internet que passava por uma luta similar com o câncer e sempre se mostrou aberta a conversar sobre o assunto. Mandei um e-mail para ela contando a minha situação e ela me respondeu na mesma hora perguntando se podia me ligar. Detesto falar ao telefone e estava muito, muito triste para conversar, mas aceitei, pois estava também desesperada por algum alento.

Conversamos por uns trinta minutos, o que é um recorde para qualquer pessoa nos dias de hoje. Ela me contou a história dela, me acalmou e me fez rir. E me disse algo que eu guardei para sempre e uso até hoje, como um mantra para o câncer e para a vida em geral: Você não vai morrer. Não disso. Não hoje.

Ao final do telefonema, já estava um pouco mais calma e esperançosa. Quem sabe eu conseguisse vencer essa. Eu era jovem, forte e saudável — apesar das evidências em contrário. Eu tinha o amor do meu marido e seu apoio incondicional.

Naquele dia eu não chorei mais. Assistimos filmes e séries e tentamos não pensar muito no assunto. Era assustador demais para pensar, eu só queria ser logo consultada para entender melhor quais eram as minhas chances e até onde eu podia (devia?) me desesperar.

Com a primeira consulta já marcada para o dia seguinte, agora eu só precisava buscar me manter forte, achar um jeito de contar para os meus pais e amigos a notícia e me preparar para a maior batalha da minha vida.

Estava apenas começando.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.