Resenhas

Meu top 5 livros (de 38 lidos) até o momento em 2020!

Chegamos à metade do ano, o que em qualquer perspectiva que se olhe, já é um feito e tanto. No campo do entretenimento, os livros têm sido um bom alento, ajudando a gente a se distrair da nossa rotina enclausurada e quase sem futuro.

Para 2020, tracei duas metas literárias: não comprar livros físicos, lendo só por e-book, e ler no mínimo 60 livros no ano. Por enquanto, junho terminando, está indo tudo bem. Tenho lido prioritariamente títulos do Kindle Unlimited, serviço do qual voltei a ser assinante, e também tenho uma wishlist literária na Amazon, onde checo diariamente quais dos meus livros desejados está em oferta. Se estiver por menos de 10 reais, eu compro, e assim vou alimentando minha biblioteca virtual e tendo sempre algo diferente para ler.

Nesse ritmo, já li 38 livros esse ano, o que me coloca adiantada em minha meta. Olhando a lista dos livros lidos, percebo que li menos chick lit do que gostaria, apesar de ser meu gênero literário favorito. É que não tenho gostado de nenhuma, aí estou tentando outras paragens.

No mais, vamos de infográfico.

E agora, a parte realmente divertida: escolhi os 5 livros que mais gostei até agora em 2020. É até surreal ver esses títulos, alguns lidos antes da quarentena, e pensar que eu lia no metrô, na rua, etc. Agora todas as minhas leituras são em casa. Outro ponto é que li boas biografias, um gênero que há tempos não lia. Acho que tenho procurado histórias mais sérias, é isso.

Mas isso são questões. Vamos logo ao que interessa, os melhores do ano até agora.

Será que esses cinco se manterão no topo nos próximos meses? Honestamente, espero que não, afinal ainda quero encontrar muitos outros livros incríveis daqui até o final do ano.

De qualquer modo, segue a lista com os links do meu Top 5 na Amazon:

E você, o que tem lido nesses dias?

Resenhas, Séries

Queer Eye: todos os episódios, do pior para o melhor

Sim, esse texto contém spoilers. Também, pudera.

Reboot do reality show Queer Eye For Straight Guy, de 2003, a série americana Queer Eye surgiu em 2008. Repaginada, a nova versão chegou com a missão de ampliar a mensagem da série original. Onde Queer Eye For Straight Guy lutou por tolerância, Queer Eye vinha lutar por aceitação.

Com um lançamento tímido, Queer Eye acabou caindo nas graças do público e se tornando um fenômeno da Netflix. Entram na conta desse sucesso a clareza e leveza com que temas como racismo, homofobia, transfobia e outros são tratados na série, mas também conta muito, é claro, o carisma dos cinco Fabulosos, como são chamados, dessa edição: Antoni Porowski, especialista em comida e vinho; Tan France, especialista em moda; Karamo Brown, especialista em cultura; Bobby Berk, especialista em design; e Jonathan Van Ness, especialista em cuidados pessoais.

Em pouco mais de dois anos, Queer Eye já teve cinco temporadas, além de uma edição especial no Japão, reformando a vida e o guarda-roupa de pessoas pelo mundo afora em exatos 47 episódios. Ainda que a série busque ser um espelho de como as pessoas devem ser tratadas, sejam elas quem forem, nem sempre deu tudo certo. Alguns episódios e falas foram questionáveis, além de toda a temporada do Japão, que segue como um docinho um pouco difícil de engolir e muito criticado até hoje.

No entanto, olhando o quadro geral, Queer Eye já teve muito mais acertos do que erros. São muitas histórias de vida ganhando representação por meio do programa, muitas vivências sendo incensadas, ganhando a atenção que deveriam ter todos os dias. Por isso, por todos esses acertos, é que vale falar de Queer Eye, que vale ser fã de Queer Eye e vale, acima de tudo, torcer pela série e esperar que ela continue ainda por muitos anos trazendo narrativas que todos precisam conhecer.

Como fã da série, listo abaixo todos os episódios, do pior para o melhor, segundo um único critério: meu gosto pessoal. Para ser justa com os acertos da mesma forma que se é justa com os erros, nenhum episódio foi deixado de fora dessa lista, nem mesmo os questionáveis, muito menos os sublimes.

Mas é uma lista pessoal. Por isso, não fique bravo se as minhas escolhas não baterem com as suas. Até porque, Queer Eye é sobre aceitar as diferenças, lembra?

47. Dega Don’t (S1 E3)

Honrando as raízes do programa, esse episódio traz um makeover para alguém muito hétero, como esse ex-fuzileiro fã de automobilismo. Até funciona bem porque o personagem tem bom humor e se mostra aberto às mudanças propostas, mas o clima é estranho. Não ajudou muito, na verdade piorou tudo, a gag infeliz de simular uma batida policial no meio da estrada, fazendo o Karamo ser interrogado por um policial “brincalhão”. Karamo aliás, não tem descanso nesse episódio, tendo que ensinar ao personagem o básico sobre o motivo de, sim, vidas negras importarem. É certo que o consultor de cultura tem essa função quase social no programa, mas colocá-lo para dialogar com um cara que não é racista “por pouco” foi bem intenso e até insensível com o Fab5. Eu quero dizer, rolou até boné MAGA, o que dá um desgosto profundo na gente.

46. Big Little Lies (S2 E6)

Entre quase 50 episódios, alguns se tornam esquecíveis, enquanto outros ficam marcados na memória pelo tanto que você detestou. Big Little Lies atende com gosto a segunda opção. Afinal, como não se arrepiar de ódio ao lembrar de Arian, um cara que recebe a visita dos Fab5 para finalmente criar coragem de contar para a mãe que nunca se formou na faculdade? Seria um lindo caso de superação, se Arian não mentisse na sala para Bobby e logo em seguida mentisse na cozinha para Antoni. No meio do episódio, os Fabulosos já nem sabiam mais qual era a história real do cara, muito menos a gente. Mentiroso e esquivo, Arian não parecia estar pronto para (ou sequer desejar) a ajuda que estava recebendo, o que torna esse episódio um dos mais constrangedores da série toda. Sem contar que ele ficava melhor de barba, viu Jonathan?

45. When Robert Meet Jamie (S3 E4)

Aqui temos um episódio totalmente esquecível e sem carisma, onde um homem precisa retomar sua autoconfiança faltando poucos dias para seu casamento. Felicidades ao casal.

44. Soldier Returns to Home (S4 E7)

Voltando para casa, um soldado americano pede por ajuda para se reconectar com sua família. Um episódio quase esquecível, não fosse pelo crime do Antoni colocando ervilha no macarrão Carbonara, além da pintura antiga da parede da casa, que parecia… bom, parecia um pinto, o que resultou em risadas incontroláveis dos dois lados da tela.

43. Lost Boy (S3 E2)

Conflito de gerações! Vida ao ar livre! Nesse episódio, um quase hippie é repaginado para poder se aproximar de seu filho adolescente. Nada demais, realmente, exceto pela surpreendente e não-solicitada confissão do Bobby de que sua primeira experiência sexual fora em um acampamento como aquele. Risos.

42. Baby on Board (S3 E8)

Uma ajudinha para uma família prestes a receber mais um bebê. Única coisa adorável e digno de nota é a filhinha do casal, que na aula de culinária não tem medo de apontar para o Antoni e dizer “Você é meu namorado!”. A cara do Antoni de espanto, medo e constrangimento é impagável.

41. Ehrod & Sons (S3 E6)

Já deu para perceber que a temporada 3 foi sofrível, né? Bonitinho, mas sem tanto carisma, esse é o episódio em que um viúvo é ajudado a ter um novo ânimo para seguir sua vida cuidando das duas filhas pequenas. Um ponto lindo dessa história foi o Bobby decorando a sala com um baú de madeira para as crianças, com a caligrafia da falecida mãe das meninas esculpida na tampa. Aí eu chorei, na moral.

40. From Hunter to Huntee (S3 E1)

Um episódio maravilhoso onde uma mulher só usa roupa camuflada. Até a lingerie, tudo! É absolutamente perfeito. Esse episódio causou um pouco de revolta na população porque o Antoni levou a personagem para jantar, ao invés de lhe ensinar a cozinhar algo. Mas fazia sentido, um dos principais problemas era que ela não saia de casa nunca. Levá-la ver o mundo lá fora, além da sua rotina como caçadora, foi um presente que a emocionou a olhos vistos. Como estilo, esse episódio consolida a French Tuck como signature transformation do Tan, que apesar de todos os memes olha pra personagem, olha para a câmera e diz: “Cala a boca tudo mundo, eu vou dar a ela uma French Tuck sim“. Quem somos nós para discordar?

39. The Renaissance of Remington (S1 E6)

Como makeover e história de vida, provalvemente um dos menos marcantes. No entanto, é legal ver aqui o começo da construção de Bobby como o Fab5 que carrega o programa nas costas: ao transformar a casa “herança de vó” do personagem em uma residência moderna e cheia de personalidade, nosso amado Bobbers mostra a que veio.

38. Japanese Holiday (Especial Japão – E1)

A temporada especial no Japão é delicada de ser ranqueada, já que o choque de cultura é tão grande que tornou os episódios estranhos, meio enroscados, dificílimos de se apreciar por completo. De todo modo, esse é bonitinho por trazer uma mulher cujo sonho era viver um romance desses de filme. Com o makeover ela se sentiu mais pronta para batalhar por isso, mas o mais legal (e doce!) de ser ver foi mesmo ela flertando e sendo mimada horrores pelos Fab5.

37. Make Ted Great Again (S2 E8)

Uma graça de episódio, onde o prefeito de uma cidadezinha precisa de um boost de confiança para poder conquistar mais por sua população. No entanto, mais uma vez Jonathan comete o erro de tirar a barba do personagem e o resultado é terrível.

36. Fathers Knows Fish (S5 E8)

Um pai que dá duro em sua peixaria e sonha em abrir um restaurante próprio. O episódio é legal, mas parece ser mais um daqueles em que o personagem não está pronto ou quer receber o makeover. Entra em jogo também, claro, a tal masculinidade tóxica que impede os homens de colocarem os sentimentos à mostra. De qualquer forma, foi um pouco decepcionante ver como o pai não conseguiu de coração se reconectar com a filha mais velha, que saiu de casa e por isso o magoou enormemente. Deu para perceber que ele teimava em aceitar suas desculpas, o que deu um ar agridoce ao episódio.

35. How Wanda Got Her Groove Back (S4 E4)

Um episódio muito difícil, mas notável pelo esforço de uma mãe bailarina super rigorosa para conseguir se aproximar das filhas, que sofriam com seu alto nível de cobrança. Porém, o alívio é que episódios envolvendo dança sempre são divertidos e uma chance do Jonathan mostrar mais da sua personalidade carismática e fabulosa.

34. Stoner Skates by (S4 E3)

A filha do cara chama ele de “homem-criança”, então por aí você já vê. Mas é um episódio bonitinho, principalmente pelo surto do Antoni ao conhecer o corgi da casa. O especialista em vinhos e comida simplesmente perde a compostura, em um de seus momentos mais adoráveis na série.

33. Farme to Able (S4 E8)

A absoluta revolução que os Fab5 fizeram na vida desse fazendeiro recém-divorciado é de emocionar. Além de transformar o celeiro em uma marca, com um restaurante onde eram servidos os produtos vindos direto da fazenda, é de tocar o coração ver o quanto aquele homem estava precisando de um carinho como esse. E o impacto enorme que teve para a vida dele ser ajudado por “cinco caras gays”, coisa que ali naquela realidade era algo pouco usual. Esse episódio tem todo um clima gostoso e caseiro de dia de chuva, fazenda e comida feita com amor. E, ah, o pavor hilário do Karamo com animais e do Tan com lama foram tudo para mim.

32. Unleash the Sexy Beast (S2 E3)

Um fofo esse personagem, um pai de família que quer voltar a se sentir sexy depois de muito tempo não vivendo, mas apenas existindo. Muito do sucesso de um makeover vem do carisma do personagem, que aqui funciona muito bem, entregando um episódio daqueles que você assiste inteiro com um sorriso no rosto. “Como eu vou viver sem meus Fab5?”, ele pergunta chororso ao final do episódio. É o que a gente se pergunta ao final toda temporada, Leo…

31. Bellow Average Joe (S1 E7)

Considero esse um dos episódios mais delicados ao tratar de depressão. Joe é um comediante que deveria ter algum sucesso, mas não consegue ir para frente. “Se ele não trabalha e vive em casa, como não tem tempo de cozinhar?”, pergunta Antoni, ao que Karamo responde: “Ele está ocupado tendo depressão”. E é bem isso. Os fabulosos tentam ajudar e até conseguem em algum nível, criado um site para Joe divulgar seu trabalho. Infelizmente, meses depois ele deletou o site, alegando não estar conseguindo lidar com toda a atenção que o programa trouxe – um amargo lembrete de que curar feridas internas é uma caminhada mais longa do que participar de um simples makeover.

30. Camp Rules (S1 E5)

Bobby merecia o Oscar, o Grammy e o passe livre para tomar conta da minha vida após esse episódio onde ele reforma a casa de uma família cristã com seis filhos. O esforço brutal de dar conta dessa missão em apenas uma semana é algo que marcou demais os fãs da série, em um episódio extremamente satisfatório de se ver, principalmente se você tem mania de organização.

29. Father of the Braid (S5 E3)

Um pai que precisa aprender a viver sozinho agora que a filha vai casar. Esse é um dos episódios mais doces da série, além de ter momentos ótimos de redenção, como o personagem finalmente se livrando das roupas que a ex-mulher (folgada!) deixou na sua casa após o divórcio. É tocante também ver a felicidade do personagem com a “reforma” dos seus dentes: esse tipo de problema é um limitador para muitas pessoas, por isso é tão bonito ver as pessoas conseguindo voltar a sorrir confiantes após uma visita milagrosa ao dentista.

28. Hose Before Bros (S1 E8)

Uma das primeiras e mais impactantes atuações de Bobby, que aqui reforma apenas e tão somente uma estação de bombeiros. O clima feliz desse episódio zero drama e zero conflito é a essência do que a gente mais ama em Queer Eye: pessoas boas sendo ajudadas pelos nossos heróis. Obviamente, o inesperado crush do Karamo no bombeiro parecido com o Superman também cativou bastante o nosso coração.

27. Saving Sasquatch (S1 E2)

O cabelo maluco, a casa com potencial, mas uma bagunça. Esse é um daqueles episódios clássicos de homens externando em caos domiciliar o caos interno que querem a todo custo ignorar. A maior reforma nesses casos é sempre ajudar a pessoa a se reconectar consigo mesma, gostar mais de si. Esse episódio brilha por isso, transformando um cara tímido e altamente negativo em alguém capaz de dar uma festa em casa com discurso e tudo para falar sobre a importância do seu trabalho. Inspirador.

26. Sloth to Stay (S3 E7)

Outro episódio onde homens criados para esconder o que sentem têm a oportunidade de florescer. Aqui temos um gamer introvertido ao extremo que com a ajuda dos Fab5, consegue erguer a cabeça e ser mais participativo no seu grupo de amigos. Às vezes, tudo o que a gente precisa é de alguém nos motivando e nos permitindo acreditar que a gente consegue. Os Fab5 fazem isso.

25. Yass, Australia! (Bônus S2)

Como extra da segunda temporada, os Fab5 vão até a Austrália visitar a cidade de Yass, escolhida muito provavelmente por esse nome incrível. São muitas piadinhas enquanto vemos a reforma do bar e da pessoa de George, um fazendeiro local muito simpático. É gostoso de ver o clima de férias dos fabulosos nesse episódio (tão tranquilos que a reforma da casa quase atrasa), além da alegria de George por ter seus dentes reformados e poder sorrir no casamento da filha.

24. On Golden Kenny (S4 E5)

Um solteirão solitário recebe a ajuda dos Fab5 para reformar a casa e começar a socializar mais. Até aí tudo bem, o que quebra a gente é quando inventam de arrumar um cachorro para o cara e é de morrer a fofura com que dog e personagem se conectam. Um dos episódios mais preciosos da série no sentido de conseguir tocar o coração do personagem e da gente.

23. The Ideal Woman (Especial Japão – E3)

Uma desenhista de mangá tem a ajuda dos Fab5 e da comediante e atriz Naomi Watanabe para redescobrir sua feminilidade. Para além do conceito flutuante de “feminilidade”, aqui mais uma vez a história se sobressai por mostrar uma pessoa extremamente frágil e solitária recebendo carinho e atenção como todo mundo deveria ter acesso em dias normais. É bonito por isso.

22. Body Rocky or Bust (S5 E10)

Pesado! Um dono de academia de ginástica que simplesmente parou de se cuidar há pelo menos dez anos. O sentimento de fracasso, a vergonha por não ter “dado certo” e a comparação gigante com a irmã famosa (o plot twist, Deus!) são palpáveis, e por isso o makeover é tão impactante. Daqueles episódios de assistir e ficar de coração quentinho (além de, é claro, Tan France de Adidas, para delírio dessa fãnzoca das três listras).

21. DJ’s Repeat (S5 E6)

O cara mora em uma casa de dois pisos: no térreo mantém tudo arrumado e recebe a família, no segundo andar tem enlatados no armário de roupas. Meu pai amado, a bagunça! Apesar dos conflitos internos, todos abordados por Karamo, é um episódio divertido com o thirsty dos Fab5 com o corpo esculpido do DJ personagem dessa história. Além das vinhetas dolorosamente constrangedoras, e por isso adoráveis, de cada um dos fabulosos dizendo que tipo de DJ’s eles seriam.

20. A Decent Proposal (S2 E2)

Cachoeiras de lágrimas nesse episódio onde um cinéfilo desgrenhado quer se aprumar para fazer um pedido de casamento digno de Oscar para sua amada. E deu tudo certo, é um dos episódios mais lindos por isso. Além do alívio cômico do Antoni achando um pacotinho com dentes(?) na casa, e o Karamo dizendo que o Bobby não tem como ser romântico se ele sequer tem sentimentos. Eu amo um grupo.

19. To Gay or Not To Gay ( S1 E4)

Um gay “discreto e fora do meio” (risos) recebe os fabulosos para uma reforma geral com o intuito de encorajá-lo a sair do armário para sua madrasta e se reconciliar com o passado. Poderoso e emocionante, esse foi o primeiro episódio da série a trazer um gay para o makeover, mostrando a mudança de posicionamento com a série original, que só “reformava” homens héteros.

18. Silver Lining Sweeney (S5 E7)

É comovente a história da mãe que precisa aprender a aceitar ajuda das três filhas crescidas, além de lidar com o declínio da saúde do marido. E seria apenas um episódio choroso, não fosse pelo magnetismo pessoal da personagem, uma mulher divertida, vibrante e hilária em seus gostos pessoais abertamente cafonas. Um teste de resistência para Tan, mas um deleite para o resto do cast e todos nós.

17. A Tale of Two Cultures (S4 E6)

Culturas colidindo nesse episódio onde uma mulher latina poderosa e orgulhosa de suas raízes busca aprimorar seu estilo para passar mais confiança ao negociar por mais eventos culturais em sua vizinhança. Um episódio importante sobre xenofobia, onde Karamo tem uma participação crucial indo bater de porta em porta falar com os vizinhos que já hostilizaram a personagem. E temos um momento icônico, com as vovozinhas da família falando que a receita de avocado do Antoni está correta sim, o que é a sua redenção, depois de tanto meme com a obsessão pela fruta.

16. Preaching Out Loud (S5 E1)

Bobby já parece um pouco mais tranquilo quanto ao seu trauma igrejas e religião, então esse é um episódio onde ele consegue se soltar e fazer maravilhas. Aqui temos um pastor gay extremamente tímido com dificuldade de se relacionar e trazer mais gente para a comunidade da sua congregação. Apesar da conversa de igreja liberal pareça mais prometer do que realmente fazer pelos que foram e são historicamente oprimidos pela religião, as pessoas ali aparentam ter boa intenção. E além disso, a reforma no quarto do pastor, com aqueles vitrais absurdos, vale todo seu tempo de telespectador.

15. The Handyman can (S2 E4)

Um homem abandonado esteticamente e com uma paixão questionável pelo festival Burning Man pede ajuda para arrumar suas coisas antes de se mudar. O episódio como um todo não tem grandes surpresas, além do destaque para transformação suave aplicada por Tan e Jonathan. São os minutos finais, no entanto, com uma decisão inesperada do personagem, que tomam a gente pelo coração. O choro é inevitável, é um final feliz daqueles.

14. The Anxious Activist (S5 E5)

Graciosa demais a personagem desse episódio, uma mocinha que mora em uma república e se preocupa tanto com seu ativismo que acaba esquecendo de cuidar de si mesma. Aqui chama atenção o cuidado com o ecologica e politicamente correto em toda a transformação, desde as roupas vindo de brechó até os móveis feitos todos de materiais reaproveitados ou de segunda mão. E a garota é muito fofa, com um estilo incrível.

13. The North Philadelphia Story (S5 E4)

Esse é um daqueles episódios em que o Karamo brilha fazendo o que ele faz de melhor: mediar conflitos. Nesse caso, ele coloca frente a frente filho e mãe, que estavam distantes por desentendimentos do passado. É emocionante para a gente, mas principalmente para Antoni, que não fala com seus pais e parece especialmente tocado pelos conselhos de Karamo para Tyreek, o personagem da vez. Também vemos uma ligação importante dessa história com Bobby que, assim como Tyreek, já morou na rua. Da mesma forma que acontece em toda a quinta temporada, os Fab5 estão mais abertos a invadirem a área de especialidade uns dos outros, o que permite momentos incríveis de troca como esses do Antoni e do Bobby. E, ah, não perca a cena final, com uma thirst trap impagável do Antoni, de graça.

12. Crazy in Love (Especial Japão – E2)

Vivendo no Japão, Kan se sente excluído por sua sexualidade. A missão dos Fab5 é lhe proporcionar mais confiança para que ele possa viver a sua verdade e ainda apresentar o namorado para a família. É um episódio muito doce e especial, apesar da dureza do preconceito que deflagra. Kan é precioso demais e merece toda a felicidade do mundo.

11. Bedazzled (S2 E7)

Não sei se Elton John chegou a assistir esse episódio. Espero que sim. Sean é um rapaz extremamente educado, gentil e talentoso que toca piano nas redondezas e se monta para o palco segundo a orientação de sua vó, o que quer dizer que ele se veste como se tivesse 70 anos. Mas Sean quer usar cores mais vibrantes, materiais poderosos, e é aí que os Fab5 entram em ação, construindo uma das reformas mais inspiradoras da série.

10. Paging Dr. Yi (S5 E9)

Às vezes, no turbilhão das suas ambições, trabalho duro e vida cotidiana, pode acontecer de você esquecer de si mesmo. Esse episódio é muito sobre isso, ao mostrar a história de Dr. Yi, uma jovem pediatra prestes a começar no emprego dos sonhos em um hospital renomado. No processo de conquistar esse cargo tão sonhado, ela acabou deixando a educação da filha pequena com o marido, e hoje se sente “sobrando” no núcleo familiar. Os Fab5 entram em ação e fazem da história de Yi um despertar para muitas de nós que estamos por aí colocando tudo antes de nós mesmas.

9. Sky’s the Limit (S2 E5)

Os Fabulosos ajudam um homem trans se recuperando de uma mastectomia a dar uma festa de agradecimento pelo apoio dos amigos, em um dos episódios mais emocionais da série. Vale dizer que nenhum dos Fab5 era (ou é) totalmente versado em cultura trans para fazer esse episódio, mas não deixaram de mostrar que estão ali para aprender. Principalmente Tan, que com toda a delicadeza conduz o makeover de estilo de Skyler, dosando tudo o que o personagem “sempre quis” vestir como homem com o que fica melhor nele fisicamente para aquele momento. Um episódio para chorar muito, de alegria, definidor do quanto essa série é importante para levar visibilidade sobre as minorias para o público geral. Aliás, vale ler essa entrevista do próprio Skyler sobre como foi participar do programa.

8. Disable But Not Really (S4 E2)

Provavelmente o episódio mais crucial do Karamo na série como mediador de conflitos, aqui temos um ex-rebelde que precisa mudar de vida após ficar paraplégico em uma briga envolvendo arma de fogo. É função de Karamo facilitar os meios de curar essa ferida emocional e ele o faz da maneira mais incrível possível, ao mediar uma conversa entre Wesley e o homem que o deixou paraplégico. É tenso, mas libertador, ver Wesley conversar com essa pessoa, entender o seu lado da questão e, por fim, conseguir perdoá-la. Esse episódio, aliás, é todo sobre liberdade, uma liberdade que é viabilizada com a reforma de Bobby na casa de Wesley, a tornando ampla e acessível. A liberdade está também na consultoria de moda de Tan, que entende as necessidades de Wesley e pensa com ele em roupas que funcionem melhor para pessoas que estão em cadeira de rodas. Por fim, é libertador também para Tan, que em um momento de troca conta para Wesley que só “saiu do armário” para sua família quando entrou para o Queer Eye (e aí não tinha mais como esconder) – o que foi um momento decisivo e de impacto em sua vida. Não é um episódio fácil, mas conquistar a liberdade também não é. Episódios como esses, no entanto, nos dão a esperança de que é possível.

7. Black Girl Magic (S3 E5)

Jess é uma garota lésbica negra que, ao ser rejeitada por sua família, encontra abrigo no afeto de pessoas que realmente se importam com ela. Esse é mais um episódio extremamente emocional sobre aceitação e amor, onde o destaque é a personalidade cativante de Jess, uma garota doce e divertida apesar de todos os perrengues. Aqui também temos mais de Bobby e Tan se abrindo sobre suas batalhas pessoais, demonstrando uma vulnerabilidade que é o que torna esse cast tão precioso.

6. Groomer Has It (S5 E2)

“Eu tento de tudo, mas parece que a vida me atrapalha…” Uma van caindo aos pedaços era tudo o que Rahanna tinha em seu serviço de banho e tosa de pets, mas ali estavam todos os seus sonhos de ser uma empreendedora de sucesso. Antes, é claro, ainda eram necessárias algumas reformas externas e pessoais. Os Fab5 entram em ação e fazem esse um dos episódios mais bonitos e positivamente histéricos da série. Rahanna é uma garota negra e muito alta (quase dois metros de altura!), pelo o que sempre sofreu de baixa-estima. Além disso, um namorado infiel em um relacionamento estagnado não ajudavam. Karamo do your thing e coloca os dois para conversar. Vai dar certo? Não sabemos, mas o moço garante que sim. Enquanto isso, toda a marca de Rahanna é reformulada e um desfile canino (rindo) acontece para comemorar. Temos de volta a obsessão de Antoni por corgis e mais: além da reforma na casa, os Fab5 presenteiam Rahanna com uma van nova e equipada para ela continuar com seu empreendimento e finalmente decolar. Como Tan diz: é um exagero de gastos para um episódio? Provavelmente sim, mas Rahanna merece. Um episódio delicioso, cheio de risadas, gatos, cachorros, aprendizados e os Fab5 se emocionando com uma história como há tempos não víamos na série.

5. Bringing Sexy Back (Especial Japão – E4)

Olha, eu sei que o Especial Japão é problemático, mas será que a gente pode atentar para a densidade desse episódio aqui? Um casal juntos há sete anos, que já não se fala mais, se toca ou sequer faz sexo. Eles ainda se amam, só que perderam o jeito de se aproximar um do outro e nessa distância crescente se fez um muro que parece intransponível. Até os Fab5 chegarem, claro. O personagem é o marido do casal, um diretor de rádio que precisa superar sua excruciante timidez para dizer à mulher que ama que ainda precisa dela, ainda a deseja e que eles devem continuar juntos. É absolutamente lindo e perfeito, nos fazendo pensar em como deixamos as situações saírem do nosso controle pelo simples medo de tomar uma atitude. Felizmente para Makoto e sua esposa, ainda deu tempo de consertar.

4. Jones Bar B-Q (S3 E3)

É para chorar feito bebê com esse episódio inspirador sobre duas irmãs donas de uma van de churrasco e detentoras de um molho secreto que garante uma clientela fiel. Uma rápida cirurgia dental é o gatilho para incrementar a confiança de uma delas e nos fazer cair aos prantos em posição fetal com a conquista de uma felicidade tão simples e valiosa. Nos dois anos de série, nunca houve personagens tão cativantes e merecedores de apoio como as irmãs Jones.

3. Without Further Ado (S4 E1)

Chegando à quarta temporada, cada Fabuloso já é um fandom em si, por isso nada mais justo do que usá-los como personagens auxiliares. É o caso dessa pérola vibrante do entretenimento, onde os Fab5 viajam até a cidade natal de Jonathan e fazem o makeover de uma de suas professoras do tempo de adolescente. A alegria histérica de Jonathan em rever sua escola é contagiante, assim como são tocantes as histórias que ele compartilha de um passado não tão distante, quando a bomba explosiva de autoconfiança que ele é hoje ainda estavam em formação. E, é claro, como esquecer a reforma monumental que Bobby conduz na sala de descanso dos professores ou do momento apoteótico em que Jonathan corta o mullet balzaquiano da professora? Esse episódio também traz um ensinamento de moda muito precioso do Tan, que fala sobre você se vestir do mesmo jeito por anos, mesmo aquele estilo não te representando mais, porque é “seguro”. Que você precisa olhar pra si mesmo de tempos em tempos e rever seu estilo, porque a gente muda o tempo todo e estar vestido de uma maneira que nos representa contribui muito para a nossa autoestima. Isso me tocou muito, e toda a felicidade que esse episódio traz faz dele um dos meus favoritos, que revejo sempre.

2. You Can’t Fix Ugly (S1 E1)

Esse episódio é importante por tantos motivos! Sendo a estreia da série, é digno de nota como eles conseguiram imprimir com tanta propriedade qual era o espírito desse projeto, trazendo um reboot que atualiza e amplia o valor e o significado da série original. E o personagem não poderia ser melhor, um homem já idoso, desacreditado do seu potencial, buscando por um amor, mas achando impossível porque “você não pode consertar a feiura”. Acho que todo mundo já se sentiu assim, pensando que pode fazer de tudo, mas é “feio” mesmo e não tem conserto para isso. A forma como os Fab5 acolhem esse homem e mudam a vida dele – e o seu modo de ver a vida – é definitiva para ele e para nós: a partir dali não existe muita saída para o público. Ou você ama a série ou você não vai seguir com ela. Eu escolhi amar e nunca me arrependi.

1. God Bless Gay (S2 E1)

Mamma Tammye é uma devota religiosa com um filho gay, que abre os braços para receber uma reforma de estilo dos Fabulosos. Parecia só isso, mas a verdade é que a personalidade incrível de Tammye se sobrepõe a qualquer tentativa de protagonismo por parte dos Fab5. É Mamma Tammye quem ouve, ensina, dá conselhos e acolhe cada um deles, fazendo do episódio um dos mais catárticos da série. A maneira com que ela pega cada um deles pela mão e diz o motivo dele ser especial para o mundo é de se debulhar em lágrimas, o que todos fazem, mas especialmente Antoni, que quebra com tanto sentimento sendo colocado para fora. É um episódio muito importante também para Bobby, que começa nem pisando na igreja, por conta de todos seus traumas passados, mas acaba ele também se permitindo aceitar as diferenças e rever seus conceitos. Um episódio lindo e perfeito sobre aceitação e amor ao próximo, que mostra a religião como ela realmente deveria ser, onde sobram lições e esperanças para cada um de nós. Daqueles que você revê sempre que precisa renovar a fé nas pessoas, o que hoje em dia é uma necessidade quase diária.

Sem mais episódios para ranquear ou emocional para continuar, encerro aqui esse post, na esperança de que Queer Eye seja renovada ainda por mais 89 temporadas, e continue nos ensinando, mas também evoluindo e se tornando cada vez melhor.

E sempre com looks incríveis, a gente agradece.

Filmes, Resenhas

SAGA CREPÚSCULO: assisti aos 5 filmes e olha só o que deu

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers dos filmes da saga Crepúsculo, que você mesmo falou que nunca vai assistir.

Puxa vida. Como falar de Shakespeare? Como falar de Machado de Assis? Como falar dos Beatles ou de Janela Indiscreta? Como falar de Crepúsculo? Como falar dos clássicos?

É difícil. Mas a missão do escritor, do historiador e do pensador é essa, por isso eu, que sou escritora, historiadora e pensadora, fiz esse esforço colossal de me debruçar na mais densa dessas obras e peguei todos os filmes da saga Crepúsculo para assistir e resenhar aqui para você. Não foi fácil. A complexidade de tais filmes vai além do meu raso entendimento de vida. No entanto, assim é o trabalho do crítico pop. Que sou eu. Eu sou crítica pop. Ao final dessa aventura, muito foi aprendido, pouco foi compreendido e ainda mais foi questionado. Foi uma coisa louca. Trago tudo isso para você agora. A seguir. Vamos lá?

Crepúsculo (2008) – Dir. Catherine Hardwicke

Os livros da saga Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer, já eram sucesso quando o primeiro filme da franquia foi lançado, em 2008. Estrelado pelos coitados Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, que nem sabiam no que estavam se metendo, o filme é geralmente o único que as pessoas já viram nessa história. Era o meu caso, Crepúsculo foi minha única reprise nessa aventura.

De cara, o filme já chama a atenção pelas cores pavorosas, tudo cinza e azul morte. Michael Bay ficaria orgulhoso, Hardwicke aqui nos faz ter calafrios, mas não pelos motivos que ela queria. A caracterização dos vampiros, como se tornou icônico, é de um pálido brutal e cômico. Brutal e cômico, aliás, são adjetivos que podem definir esse filme como um todo.

A história? Filha de pais separados, Bella (Kristen Stewart) decide passar uma temporada com o pai. Chegando na cidade, ela começa as aulas na escola dali e se encanta pelo misterioso Edward “The Hair” Cullen (Robert Pattinson), um adolescente que parece ter 30 anos de idade e é sério, babaca e infeliz como qualquer pessoa transitando nessa faixa de idade.

Correndo pelas beiradas, trotando feito um cachorrão grandão, está Jacob (Taylor Lautner), vizinho de Bella, um rapaz caloroso que parece querer mais do que amizade. Infelizmente, Bella está hipnotizada demais pelo gélido amor de Edward para perceber.

Não demora, Bella e Edward começam a se envolver, apesar de tudo parecer ser muito proibido, perigoso e peculiar (PPP). Logo Bella descobre o motivo de tanto mistério: Edward é um (say it!!!) vampiro. Cruzes! Isso seria suficiente para afastar Bella, mas Stephenie Meyer não leu tanto Shakespeare à toa: agora sim é que nossa heroína quer ficar com este homem PPP e viver esse romance muito PPP.

Nessas, o que era para ser uma bela história de amor acaba se tornando uma grande celeuma, pois outros vampiros começam a questionar o fato de Bella, uma humana, estar de trelelê com vampiros. Vocês vão comer ou não? Aquela coisa. A saída para o casalzinho continuar junto seria Bella se tornar vampira, mas essa é uma decisão um pouco complicada para uma garota de 16 anos e burra. O que fazer? Enquanto isso, o amor adolescente clama por uma resolução. Bella não pode nem beijar Edward direito, pois ele é muito voluptuoso e ela é virgem. Meu pai amado, é difícil demais ser jovem, Bella só queria dar uns beijos (e algo mais), eu hein.

Apesar do cafona de tudo, Crepúsculo é sim um bom filme. Não podemos desprezar suas cenas antológicas, como a batalha do beisebol e o Edward segurando o carro para não machucar a Bella. A trilha sonora é ótima. Por outro lado, a interpretação de Robert Pattinson é limitada e dolorosa, assim como a de Kristen Stewart, o que nos dá um norte de como esse casal era endgame desde o começo. Fato curioso é saber que RPatz nem sabia do que se tratava o filme e aceitou fazer parte dele apenas para estar do lado de Stewart, por quem tinha se encantado ao assistir Na Natureza Selvagem, onde a atriz tem pequena participação. Nascidos um para o outro, até certo ponto, os atores começaram a namorar já durante a produção de Crepúsculo, em uma história paralela cujos desdobramentos patéticos veremos mais à frente.

No fim das contas, em Crepúsculo, tudo se resolve de alguma forma, apesar de Bella não ter exatamente o que quer. Foi salva dos vampiros mais bravos e está com Edward, naquelas. O garoto ama sua humana, no entanto hesita em trazê-la para o vampirismo. E qual seria a saída, se eles querem transar? É brutal e cômico.

Lua Nova (2009) – Dir. Chris Weitz

Uma realidade mais quente nos aguarda em Lua Nova, filme seguinte da série e tido como o pior da franquia. Honestamente, eu já vi piores, mas eu também vejo muita coisa.

Dando prosseguimento à história, o filme traz um Edward sumido Em Busca de Se Encontrar e uma Bella toda grunge, as roupas cada vez mais horríveis, solitária demais. Essa solidão é a brecha para que ela se aproxime do vizinho Jacob, que cortou o cabelo, ficou grandão, parou de usar camiseta e está mais do que disposto a preencher a lacuna deixada no coração da nossa mocinha.

É aí que ficamos sabendo, embora já desconfiássemos, é que Jacob é um Lobisomem!!! Uma raça inimiga dos vampiros, então você imagina o climão. Desenganada pela literatura fantástica, Bella fica um pouco balançada, e Jacob não deixa de apontar os motivos pelos quais ela não deve se aliar aos dentuços. Atento aos prejuízos do webnamoro cósmico, o holograma de Edward persegue e protege Bella de todos os esses perigos, ainda que a estética fragilizada do ator não contribua para incrementar a nossa confiança.

No fim das contas, Bella segue deixando Jacob na gaveta das amizades e fica por isso mesmo. Por conta de uma série de cálculos, sonhos e demais metodologias equivocadas, Edward quase se mata, mas acaba retornando à cidade e propõe à Bella um acordo: ou ela se transforma em vampira depois da formatura, pelas dentadas de Alice, outra vampira do clã, ou se transforma pelas dentadas de Edward, assim que eles se casarem.

É o pedido de casamento mais esquisito da história, por isso Bella nem responde e o filme termina assim em aberto.

Eclipse (2010) – Dir. David Slade

Cacetada, bicho, qual a dificuldade em manter um mesmo diretor para dois filmes seguidos em uma franquia? Nessa em particular, isso não parece ter sido sequer uma questão. E vamos de terceiro filme, com uma abordagem totalmente diferente das anteriores.

Eclipse traz Bella preparando o terreno para se tornar vampira, ainda que um tanto incerta sobre isso. Para ajudar, Jacob intensifica a sedução, então nos vemos em um inóspito triângulo amoroso entre Bella, Edward e Jacob. Em linhas gerais, é uma mulher tendo que decidir entre um defunto e um cachorro. Existe uma terceira opção óbvia (sumir dali e ter um relacionamento saudável com um ser humano normal), mas a Bella sendo a Bella… A garota se transforma no poste mais mijado do cinema mundial, com dois seres sobrenaturais metidos em disputas patéticas por sua atenção.

E é claro que no meio disso as famílias se envolveriam, então temos uma grande disputa entre Lobos e Vampiros. Quem ganha com isso é só a Bella, a nossa querida sonsa que fica ali no meio sendo a Suíça do rolê e deixando que todos se matem por ela. Verdade seja dita, a garota consegue a luta e a união entre as raças, mesmo com aquele jeitinho blasé.

Algo que eu adoro nesse filme é como eles constroem a tridimensionalidade dos personagens secundários, simplesmente colocando pessoas aleatórias para conversar com a Bella e contar a história de suas vidas desde o século XV. Sendo o boneco de pano das duas raças, vampiros e lobos, Bella é levada de lá pra cá conforme a narrativa da história precisa ser contextualizada. O que ela tem a ver com isso é indiferente.

No mais, Edward continua negando sexo para Bella, achando que vai matar a garota com o pau centenário dele. Eu tenho lá minhas dúvidas, mas deixo para vocês as teorias. Terceiro filme e o máximo que tivemos foi uns beijinhos sem sal. Força, guerreira.

Por fim, Bella decide que vai casar, sim, com o Edward. Não adiantou nada tomar anabolizantes, Jacob.

Amanhecer – Parte 1 (2011) – Dir. Bill Condon

Ai, honestamente, é de partir o coração ver as fotos de bastidores desse filme e saber toda a merda que rolou depois, mas vamos que vamos.

Esse é o filme mais soft do casal, na medida em que Bella e Edward finalmente se casam e têm alguns momentos de paz, felicidade e amor, a história já abre com isso. Curiosamente, ninguém questiona o fato de uma menina de 18 anos estar se casando com um rapaz com pouco mais do que isso (atribuído). Normal. Grande festa na família, brindes pavorosos são feitos na festa e vamos de celebração.

De todos os lugares do mundo, a Lua de Mel se passa no Brasil. Isso aí era da época que o país ainda investia em turismo e divulgação internacional, cultura, etc. Outros tempos. É enternecedor ver Edward falando português, RPatz treinou e tudo. Já Bella não faz tanto esforço, está mais preocupada em consumir logo (e várias vezes) o casamento. Não é assim tão simples quando seu carisma e grau de sedução é quase nulo, como é o caso. As cenas dela de lingerie fazendo pose são de urrar de constrangimento. Ainda assim, temos momentos bem bonitinhos e sensuais (kk) do casal finalmente fazendo o que queria fazer desde o começo dessa infame história.

E é comendo um galeto, ainda no Brasil, que Bella se dá conta de que pegou barriga. Tudo acontece muito rápido quando uma humana engravida de um vampiro, aparentemente. Eles voltam para casa mais do que depressa, e agora a treta é manter a Bella viva durante essa gravidez de risco. Caso não tenha ficado claro, um bebê assim inter-espécies tem grande potencial de nascer um monstrengo perigoso. Quem diria. Cuidado aí no Tinder, meninas.

E o que tinha tudo para ser apenas mais um filme ruim se torna de extremo mau gosto com as cenas grotescas do parto de Bella, além da figura em si do bebê, um protótipo robotizado que já virou cult.

Para sobreviver ao parto, Bella é transformada em vampiro por Edward, que tentou evitar isso o quanto pôde. Não deu.

Amanhecer – Parte 2 (2012) – Dir. Bill Condon

Bill Condon fez uma pra Deus ver e se consagrou como o único diretor a assinar dois títulos da saga. Tudo isso pensando no sentido de unidade desse arco final da trama, onde a história de um livro foi dividida em dois filmes.

E olha, nem precisava tanto esforço. Chegando nesse ponto, a fórmula pronta de “Bella se envolve em enrascada com alguma raça sobrenatural aleatória” já anda com as próprias pernas, precisando de muito pouco para funcionar.

No filme final da saga, Bella acorda com fome. Agora ela é uma vampira, e das bravas. Cabe à Edward educá-la, para além das funções parentais do casal, agora com a menina Renesmee (que nome!) também crescendo à galope. O banho de loja da Alice deu resultados e agora Bella parece quase bem vestida, embora ainda com aquele jeitão jeca dela. Outra nota triste para esse filme, parece que dessa vez acertaram cabelo e maquiagem dos vampiros, mas agora de que adianta?

E, caramba, Bella e Edward finalmente podem transar propriamente e sem medo, já que são da mesma espécie. E dá-lhe fazer a cabaninha dos Cullen-Swan ferver na madrugada.

Tumultuando esse cenário idílico, lá vem de novo os Volturi, de olho na menina Renesmee, que é um bicho diferente por ser meio humana, meio vampira. Às vezes penso se não falta uma ocupação para os Volturi, um emprego de meio período que seja, para que eles tivessem o que fazer e parassem de arrumar treta.

Em todo caso, Bella e sua nova família (a anterior, com pai e tudo, foi prontamente deixada de lado) se unem em mais um confronto, meu senhor, quem é que aguenta mais um confronto. Acho que todo mundo pensou isso também porque, no fim, era tudo apenas um sonho vívido e nada aconteceu. Eu, hein.

Para coroar uma história terrível como um todo e ultrajante em vários momentos, Amanhecer Parte 2 fecha com um novo arco extremamente de mau gosto, que é a revelação de que a menina Renesmee é o imprinting do Jacob. Ou seja, a menina que acabou de nascer é a alma gêmea daquele Lobo marmanjo, que fica cercando ela por todos os lados. Incrível como ninguém acha isso problemático, o filme termina com Bella e Edward curtindo a vidinha de casados e com muita aventura para viver sendo vampiros, enquanto a filha deles é literalmente largada nas mãos do Jacob, seu guardião além-vida.

É no mínimo inacreditável, beirando o criminoso. Embora não seja meu lugar de fala criticar alienação parental no âmbito sobrenatural, na minha opinião esse imbróglio fecha essa história já complicada com um laço de fita feito de pura bosta.

Se é que podemos colocar assim.

Saldo final e outros sentimentos

Se você chegou até aqui, quero te parabenizar e agradecer. Sei que não é fácil, apesar de todo o meu talento como historiadora, pensadora, escritora, crítica pop e todas as outras coisas que inventei lá em cima.

Assistindo aos cinco filmes da saga, o saldo final que fica é que Crepúsculo é, antes de tudo, a batalha de uma garota para fazer sexo com o cara que ela escolheu. No meio do caminho, outros coitados tentam, raças entram em conflito, a humanidade em si não colabora, mas não tem jeito. Essa garota quer dar pro Edward e nada pode detê-la. Seria uma história comum de qualquer mulher tentando exercer sua sexualidade, mas colocaram uns vampiros e lobos no meio e deu nisso. E assim, temos uma história ridícula de um jeito hilário, cheia de falhas de roteiro, além de interpretações e caracterizações terríveis. E dolorosamente longa.

Bom mesmo, eu acho, é só o primeiro filme. Apesar das cores questionáveis, Crepúsculo tem sim uma história interessante, além de uma trilha sonora que amarra a trama e dá o tom anos 2000 da produção. Mesmo em sua cafonice, é uma peça perfeita. Já os filmes seguintes, parece que deram um murro no nosso estômago e vão empurrando a gente com pequenos chutes no baço, ladeira abaixo.

Por fim, é ainda mais triste saber que RPatz e Stewart namoraram durante a saga toda, para ela traí-lo publicamente um pouco antes do lançamento do último filme, quando já tinham quase quatro anos de namoro. É a última pá de cal nesse túmulo de vampiro, deixando tudo com um gosto amargo.

Mas é aquela coisa, né. Todo clássico tem seu lado triste. Você compara com Shakespeare, por exemplo. É complicado e, na dúvida, prefiro fazer como Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, esses coitados, e simplesmente tentar esquecer que tudo isso um dia aconteceu.

Apesar de todos os cinco filmes estarem disponíveis no Prime Video para você assistir quando quiser; foi onde assisti, aliás.

Ainda assim, sugiro esquecer. O segredo do clássico é ficar guardado na estante, mantendo a aura de intocável, sem jamais ser revisitado.

Façamos o mesmo com a saga Crepúsculo.

Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Resenhas, Séries

MATCHDAY INSIDE FC BARCELONA: Bom, o que eu esperava?

Série documental sobre clube de futebol massacra jovem, entenda:

Dizer que Luis Suárez fez um churrasco em casa em um domingo de 2018 é spoiler? Então, sim, esse texto contém spoilers.

Suárez nem mesmo cogita deixar o som ligado enquanto faz seu trabalho. Não se preocupa em criar um ambiente, esse conceito é supérfluo se o que se pretende ali é ser tão verdadeiro quanto possível. Suárez não é de criar ambientes, ele simplesmente aceita as coisas como são e as executa da melhor maneira possível. E embora não faça aquilo sempre, a rotina lhe é familiar: escolher os melhores cortes da carne, preparar as peças a seu modo, colocar na churrasqueira. Fazer o arroz e os acompanhamentos, tudo é parte do ritual. Quando boa parte da refeição já está encaminhada, Messi surge na varanda. Não tocou a campainha, não avisou antes, não foi anunciado: é de casa.

Ele e Suárez nem mesmo se cumprimentam, nem um “oi”, nada além de uma rápida de troca de olhar. Não é como se ficassem mais do que seis horas por dia sem se falar ou se ver, logo a proximidade constante torna tais formalidades desnecessárias. Messi traz uma embalagem de um açougue caro da cidade e a coloca na mesa. Suárez avisa que a mulher não estará presente porque está cuidado do filho mais novo, que está febril. A isso Messi também não responde, apenas acena com a cabeça. Inspecionando a embalagem recebida, Suárez comenta contrariado que já tem daquele corte, muitos quilos, todos já descongelados e prontos para irem ao fogo. “Não descongela esse, então”, Messi responde na defensiva, “deixa para fazer outro dia”.

Visivelmente incomodado pela falta de compromisso do amigo com seus rituais culinários, Suárez dá de ombros e volta a mexer nos espetos na churrasqueira, calado. Messi se acomoda por perto, braços cruzados, olhos atentos ao que o amigo faz. Mas não comenta nada, já deu bola fora com aquilo da carne “repetida”. Está com fome, o pior é isso, e acredita que o almoço ainda vai demorar. Questionar isso seria insanidade, no entanto. Suárez está bravo e, no fim das contas, deve saber o que está fazendo. Suárez sempre sabe.


Isso poderia ser um trecho de uma fanfic #Messuarez minha (pode ser que ainda se torne), mas não é. Se trata de uma cena de MatchDay: Inside FC Barcelona, série documental que estreou na Netflix agora em maio. Chegando nesse ponto, inteligente como só você é, já deve estar claro do que se trata: um longo apanhado de cenas de bastidores do clube, com momentos inéditos capazes de dar um boost na criatividade de qualquer fanfiqueira. Temos todos os detalhes da temporada 18/19 do clube da Catalunha e muita romantização a respeito desse que é um dos maiores times de futebol do mundo.

Sedenta por qualquer imagem em vídeo que mostre Suárez olhando para Messi com aquela mistura indelével de amor e ódio, absorvi compulsoriamente cada um dos oitos episódios disponíveis, levando seu conteúdo mais a sério do que seu próprio e improvável narrador, John Malkovich. Ao final, me sinto absolutamente desnorteada e pronta para escrever mais 25 fanfics, sendo que uma delas invariavelmente terá um delírio sobre Suárez fazendo um churrasco privê para seu amor Lionel Messi.

E tendo assistido ao que eu assisti em MatchDay: Inside FC Barcelona, fica até óbvio que seria assim. Cenas de bastidores, campeonatos ganhos, derrotas humilhantes, crianças iguais aos pais, jovens com suas tatuagens horríveis e penteados duvidosos decidindo o futuro de um time milionário. É claro que eu viraria refém desse conteúdo e foi o que aconteceu. Bom, o que eu esperava?

Assim como o próprio clube que documenta, MatchDay é um produto perfeito, asséptico, coeso e visualmente reconfortante. É o ASMR do documentário, assim como o Barcelona é o ASMR do futebol: é tudo tão bonito e certo que seu coração se acalma tão logo as cores azul e vermelho dominam a tela, pois você sabe que tais cores são sinônimo de paz e “nada pode dar errado”.

Narrada por John Malkovich (não pergunte), a série cobre a temporada 2018/2019 do Barcelona, dando conta da sua disputa pelos títulos dessa fase, o que inclui eventuais eliminações dolorosas cercadas de traumas. Cada episódio conta uma dessas batalhas (sempre os jogos cruciais, nunca as partidas que os levaram até ali) e traz um personagem de apoio para desenvolver a trama, como um torcedor com uma história de vida que se conecta com o Barça de maneira lacrimosa, um funcionário do clube que é muito carismático ou simplesmente um doidinho que viaja atrás do Barcelona onde quer que ele vá. Costurando a trama desse personagem anônimo com a de algum jogador decisivo na partida em questão, o mote da série é humanizar o clube, ao mesmo tempo em que nos presenteia com cenas de bastidores que parecem muito exclusivas, mas são, verdade seja dita, apenas aquilo que eles quiseram mostrar.

Sergi e Busquets, dois lordes carismáticos e bons.

Mas o que cativa mesmo em MatchDay, além da adorável pausa dramática que o americano Malkovich faz antes de falar qualquer nome latino especialmente complicado como Coutinho, é ver a trajetória de alguns personagens menos incensados pela torcida ou grande mídia, como Aleña, o francês Lenglet e o próprio Coutinho. Ofuscados pelas estrelas maiores do elenco, esses jogadores têm no documentário um espaço para mostrar a paixão pelo clube e o peso pessoal que é jogar em um time de tal porte.

E, claro, é incrível ver o Piqué se confirmando como o personagem goofy do cast, Suárez o gigante de bom coração e Messi, bom, Messi sendo o Messi e respondendo assim 🥺 a toda e qualquer interação. São os arquétipos que conhecemos brevemente pelos jogos e entrevistas e se confirmam nas cenas de bastidores de acelerar o coração, como aquela do Suárez puto no vestiário porque o Diego Costa xingou o Messi ou o Piqué sendo zoado por suas investidas fashion questionáveis a cada vez que chega para jogar.

Além de, cacetada, poder ver a reação da Shakira, esposa de Piqué, e o filho Milan, à derrota do Barcelona para o Liverpool por 4 a 0, que custou a eliminação do Barça na edição de 2018/2019 da Champions.

O fato do documentário trazer um episódio inteiro sobre essa eliminação histórica foi, inclusive, motivo para uma boa polêmica. Quando do lançamento da série, primeiro para Rakuten TV ainda em novembro do ano passado, os torcedores questionaram a necessidade de dar tanto destaque à um momento vexatório na história do clube. Mas olhando a série como um todo, que conta uma história tão perfeita e exemplar, o fato de eventos menos nobres terem seu espaço parece mais como proposital do que descuido: a intenção aqui também parece ser humanizar o clube, mostrando que mesmo o Deus Todo Poderoso Barcelona é passível de falhas.

No mais, momentos deliciosos que jamais esqueceremos. Os títulos muito almejados, o Messi freando o carro no sinal e encarando o Suárez enquanto conversam sobre uma caneleira, Piqué chegando de terno para um treino normal, o roupeiro do Barcelona que é best do Rakitic. Ao longo de suas quase 8 horas de duração, MatchDay: Inside FC Barcelona entrega uma narrativa perfeita até em seus erros, confortável e plasticamente indefectível.

É o Barcelona sendo o Barcelona. Bom, o que eu esperava? É perfeito.

Resenhas, Séries

ELITE: temporada 03 – O que teve?

O Omar com a bandeja ali no canto é TUDO pra mim

Importante: esse texto não contém spoiler, Até gostaria, mas você é um mimado do caramba, então escrevi sem.

Minha filha, você me pergunta o que teve? Teve morte!! Morte!

Chegando ao terceiro ciclo (kk) da nossa novelinha hot preferida, é preciso fazer um breve recap das temporadas anteriores. Na verdade, é bem rápido:

Temporada 01: Morre a doidinha lá, todos querem saber quem matou.

Temporada 02: Linchamento social de quem matou + trama paralela absolutamente inútil com o sumiço do palhaço do Samu.

Temporada 03 (nova!): MAIS linchamento social de quem matou e MAIS uma morte.

Ah, porque você achou que ia aproveitar os episódios inéditos para desanuviar um pouco e pegar ideias de looks, né? E vamos de enredo sombrio nessa temporada nova!

Tal qual Lucrécia, tudo o que sei fazer na vida é ser bonita e chorar

Assim como o brasileiro médio fazendo yoga na sala e reutilizando como pode o arroz do almoço, o povo de Elite não sabe mais o que é ter uma alegria sincera que seja relacionada a uma esperança para o futuro. Não sabe. Tudo é incerto, sombrio e triste nesta nova temporada da série.

É tanto crime, tanta briga, tanta guerra, que você assiste de coração pesado. Parece até que está vendo aqueles dramas da HBO, sabe? Nesta terceira temporada, nossos heróis mergulham fundo em suas tragédias pessoais e na decepção compartilhada. Todo mundo briga com todo mundo, os namoros são falsos, existe o Perigo das Drogas, o sexo é horrível, uma pessoa adoece, as festas sempre acabam em conflitos armados aleatórios e não existe um motivo sequer para sorrir.

Parece ou não parece o Brasil?

E é estranho, porque Elite tem esse DNA (kk o que eu tô falando?) de ser aquela série que te diverte pelos seus perigos, e não que te entristece por conta deles. No entanto, é de se imaginar que após duas temporadas construindo esse cenário caótico, a conclusão dele se dê, sim, neste vale de lágrimas em que o telespectador é jogado sem aviso.

Se trata, sim, de um fim. Ao final dessa temporada, sabemos que vários personagens-chave estão se despedindo da trama (afinal, se formaram e não há motivos para continuarem na história, que se dá principalmente no colégio). Então, esse fechamento vem com um gosto agridoce, que permeia todas as ações e torna o drama tão real que é quase palpável. Até o Crime (O Assassinato) dessa temporada parece uma despedida do mundo de Elite como o conhecíamos. Um sepultamento daquela ilusão que vivemos.

A tragédia que vem para renovar a vida. O sacrifício a ser feito para seguir em frente.

Se é que me entendes.

O Brasil hoje.

Amiga, você lembra quando assistia Elite pra ver gente de 27 anos dizendo que tinha 15 e se pegando? Você lembra as cenas? Amiga, tudo isso acabou! Nessa temporada, todas as interações sexuais (risos) são dignas de pena, consternação ou espanto. E faz todo o sentido, pois não tem clima pra sexo se o mundo tá desabando!

Eu repito: parece ou não parece o Brasil?

Os personagens novos são “ok” apenas, não chegam a atrapalhar. Temos uma evolução incrível do personagem da Lucrécia e mesmo Rebeca tem a sua chance de brilhar. Para mim, porém, o melhor personagem desta temporada é mesmo o Polo. Confesso que ele nunca foi dos meus favoritos, mas essa season nova foi toda dele e Alvaro Rico soube carregar muito bem todo o drama dos conflitos internos de seu personagem sem parecer (muito) apenas um dramalhão latino.

A Emmy tape jogada NO LIXO, pois nem Emmy vai ter mais nessa situação que se encontra o mundo

Voltando ao ponto de que esse é um encerramento: sim, é um encerramento. A trama faz seu full circle, mata uns, injustiça outros, conserta este ou aquele relacionamento e, por fim, nos deixa ali na beira da estrada, sozinhos.

E por mais que doa encerrar ciclos e nos despedir de personagens queridos, acredito que seja necessário. Pelo bem da série e da nossa saúde mental, não dá para imaginar mais uma temporada de Elite estendendo essa sangria desatada e essa fórmula cansada de alguém morto, alguém em conflito, alguém doente, Guzman merendando todos na porrada. Chega! Basta! Lembrem-se que este é um conteúdo jovem de entretenimento, não um documentário sobre a economia mundial na Grande Depressão. Pois embora a gente saiba que Elite não é só fun & games, a gente espera, sim, alguma diversão. Foi para isso que a gente começou a assistir, para início de conversa. A trama hoje não tem mais escape nesse sentido, todos os personagens foram devastados e traumatizados de tal forma que não tem festa na boate lá favorita deles que dê jeito nisso.

Então… Honestamente, gostei dessa temporada, mas estou ansiosa pela próxima, com novos personagens e o que de interessante os roteiristas podem trazer dentro dessas possibilidades. Serei eternamente grata à todos do elenco já eliminados da trama, Deus sabe quanta alegria eles me deram, mas vamos olhar para frente, por favor?

A gente precisa, e fico feliz em saber que uma das minhas séries favoritas pode fazer isso por mim.

E chega de morte, pelo amor de Deus!

Em tempo: também falei sobre Elite (a segunda temporada) aqui.

Filmes, Resenhas

Assisti a trilogia “50 tons” e olha só o que aconteceu

aiaiai kk só eu mesmo

Atenção: esse texto contém spoilers dos três filmes que compõem a saga “50 Tons”, o que não deve ser um problema, já que você mesmo falou que nunca vai assistir a esses filmes, porque você é culto demais pra isso.

Você sabe o que é ligar a TV e não ter um mísero jogo de futebol ao vivo passando na tela? Será que você sabe o que é ter todos os campeonatos do mundo cancelados? Você entra nos sites esportivos e só tem notícia de doença afetando os profissionais do mundo da bola, você liga a TV e estão fazendo call ao vivo, cada jornalista na sua casa. É sempre uma estante com canecas, livros e miniaturas. Você começa a lembrar, com ódio, da vez que ligou a TV e estava passando Barcelona x Real Madrid ao vivo e você mudou pra ver uma série horrível na Netflix. Você se questiona sobre o tempo perdido. Você perde muito tempo, não tem nada de futebol na TV. Um joguinho de Amigos do Cafu x Amigos do Vinny Mexe a Cadeira sequer. Nada. O mundo parou no VT. Não existe mais nada além de medo, tédio e imagens de péssima qualidade de um jogo de futebol de 1994.

Resolvi assistir toda a trilogia de 50 Tons, de uma vez só.

Não existe situação ruim que eu não possa piorar!

Verdade seja dita, ainda que eu não seja a mais versada nessa trama, ela sempre me despertou simpatia, pois sou especialmente cativada por produtos de entretenimento que sejam mais bregas do que bons. Como vocês já sabem. Nesse caso em específico, o ponto em que me encontrava antes de começar essa maratona era: já tinha lido o primeiro livro e assistido ao primeiro filme, anos atrás. Sou grande fã do Jamie Dornan, por conta de The Fall. E nada além disso.

Acho que cabe também dizer que a saga de 50 Tons me parecia simpática porque ela foi concebida inicialmente como uma fanfic de Crepúsculo. Sim, é verdade! A autora dos livros, E. L. James, até tinha dado os nomes de Bella e Edward para Anastasia e Christian Grey, em um primeiro momento. Mas aí a fama veio e ela mudou os nomes para publicar. E não é como se eu fosse uma grande fã de Crepúsculo (preciso assistir primeiro), mas gosto dessa trilogia porque ela é uma fanfic também, esta de um livro que eu realmente amo: O Morro dos Ventos Uivantes.

Ou seja, Crepúsculo é uma fanfic de O Morro dos Ventos Uivantes e 50 Tons, por sua vez, é uma fanfic de Crepúsculo. Parece loucura, mas essas três histórias têm mesmo muito em comum. O que veremos a seguir, entre outras coisas, na minha análise aprofundada que só foi possível após assistir mais de 6 horas de Dakota Johnson e Jamie Dornan nhanhando. Vamos lá?

50 Tons de Cinza (2015)

A educação sexual de Anastasia

No primeiro filme da saga, conhecemos Anastasia e Christian Grey. O caminho deles se cruza quando a best da Ana(stasia) adoece (o filme previu o COVID-19, veja) e Ana vai no lugar dela entrevistar o misterioso bilionário bonito demais Christian Grey, Sr. Grey pra você.

A atração entre Ana e Grey é imediata e explosiva (kk), então eles ficam meio de joguinho até o Grey literalmente colocá-la contra a parede e beijá-la no elevador (puxa vida). A partir daí, Grey vai aos poucos se revelando para Ana, o que lhe causa um pouco de medo, pois ela é uma virgem reprimidézima e ele é um sádico que só curte coisa pesadona no sexo. kk.

Nas mãos da diretora Sam Taylor-Johnson, que tentou como pôde suavizar a bomba machista e equivocada que é o livro, o filme se passa por uma chick flic um tanto noir, se vamos colocar assim. É tudo muito errado em tudo o que Grey faz desde o começo: ele é ciumento, controlador, impulsivo e extremamente enxerido. No entanto, tudo é perdoado, porque a figura dele, em si, não é ameaçadora, e ele é podre de rico, além de bonito de um jeito suave. Aliás, em declarações à época, Jamie Dornan disse que tinha mesmo trabalhado nessa caracterização de um homem muito magro, quase frágil, sem barba, como forma de suavizar a impressão que Grey passaria para o público, mostrando que seu personagem, apesar de meio esquisito, não é um monstro. Apenas humano, é isto que Grey é. Um humano meio frango e com uma personalidade extremamente complicada.

Dakota Johnson, por sua vez, tem como principais trunfos interpretativos a franja cobrindo a testa e o hábito irritante de morder os lábios o tempo todo. A química entre ela e Dornan é óbvia, e os dois funcionam muito bem juntos, vamos colocar assim, hehe. E ainda que seja problemática, a relação de Ana e Grey não parece tão errada, já que ambos estão se divertindo: ele gosta de mandar, ela gosta de fingir que não gosta de obedecer.

Nessa toada, o grande conflito da trama é que Ana, muitas palmadas no bumbum depois, começa a ficar bolada com essa coisa que Grey tem de punir quem ama. Ao invés de recomendar terapia, ela chora feito uma condenada, termina com ele e assim acaba também o filme: de maneira muito abrupta e sem sentido, com os dois separados e um vale de lágrimas entre eles.

Não dá para dizer que o filme é ruim. Ruim é uma palavra muito forte. Vamos dizer assim que ele é hilário, porque constrange em muitos momentos, mas de alguma forma é cativante. Os atores são muito bonitos, as cenas de nudez são pura obra de arte, e existe algum humor (a cena deles negociando o contrato do relacionamento é tudo). Além disso, a trilha sonora é maravilhosa, com músicas de Ellie Goulding, The Weekend e Beyoncé feitas exclusivamente para o longa.

Ou seja, dá para assistir sim, você que é chato.

50 Tons Mais Escuros (2017)

O desnudar da alma de Sr. Grey

Dois anos e muito barulho depois, chega aos cinemas o segundo filme da trilogia, 50 Tons Mais Escuros. Algumas mudanças são sentidas, muitas delas baseadas no retorno do público. A direção agora é assumida por James Foley, um homem!, porque a autora E. L. James tretava tanto com a diretora do primeiro filme que ela desistiu do projeto. Ana agora usa batom, pois é uma mulher mais confiante. E Grey surge mais musculoso e de barba, um pedido do fandom, que sempre imaginou ele assim. Vai dando confiança pra fandom, vai…

Em cinco minutos de filme o cliffhanger do longa anterior é resolvido: é o Grey “fazer assim” que a Ana volta pra ele. E aí é aquele show de probleminha Notre-Dame, com ele cobrindo ela de presentes caros (24 mil dólares do nada, notebook, celular, carros, viagem de jatinho, vestido chique, quitação da casa dela na COHAB) e ela toda “ai nossa, não ligo pra dinheiro!!”.

Minha filha, fale por você.

Sexualmente falando (eu não consigo parar de rir), Ana ainda se comporta como uma pombinha assustada, na medida em que Grey aumenta a pressão (kk ai deus). No entanto, a trama aqui é sutilmente desviada da coisa do BDSM para outras trivialidades da vida das pessoas muito ricas: Ana é assediada por seu chefe, Grey compra a empresa onde ela trabalha e dá um jeito de demitir o cara. Nisso, o arrombado (estou falando do chefe assediador) começa a tramar um plano de vingança e fica tudo ainda mais perigoso no reino encantado do Quarto Vermelho da Dor.

Além disso, nesse filme temos Ana buscando entender melhor os motivos de Grey ser assim tão taciturno e emocionalmente um trapo. Investigando a infância do homem, ela descobre seus traumas, a vida pesada que ele teve até ser adotado por essa família de bilionários e a razão final para ele gostar de chicotear mulheres na cama: muito ódio pela mãe reprimido, né meu filho?

No mais, é tudo muito chique e bonito, Dakota e Jamie estão ainda mais lindos nesse filme, se é que isso é possível. A trilha sonora mais uma vez dá um pau em qualquer filme indie que você gosta, com canções icônicas feitas para o filme, como Bom Bidi Bom (Nick Jonas & Nicki Minaj) e I Don’t Wanna Live Forever (Zayn & Taylor Swift), além de Sia e uma não-creditada do Jeff Buckley.

O filme termina com o casal aparentemente no caminho para uma relação saudável. O contrato que ela devia assinar lá no primeiro filme é prontamente esquecido, Grey só quer ela do jeitinho que ela é, no strings attached. Em uma dialética complicada, por sua vez, Ana quer demais mudar esse homem, o que qualquer mulher com mais de 15 anos de idade sabe que é uma furada em qualquer relacionamento. Quem sabe o que pode acontecer? Às vezes a jornada vale mais do que o destino final. Grey pede Ana em casamento, ela aceita e lá vamos nós para o terceiro, e último, filme.

50 Tons de Liberdade (2018)

Grey e Ana descobrem a cura através do amor

Ainda sob direção de James Foley, o capítulo final da saga 50 Tons começa já com o casamento. E aí é tudo festa. Grey e Ana viajam o mundo juntos, tudo azul, Ana está infinitamente mais poderosa e atrevida, ninguém se mete mais na sua vida. Até terno ela usa, e dá invertida no mulherio que tenta se jogar pra cima do Grey.

Quer dizer, os humilhados finalmente sendo exaltados. Mas ainda que Grey queira manter Ana nesta redoma de sexo gostoso e muito dinheiro, surgem problemas no paraíso. O ex-chefe arrombado lá do filme anterior volta com tudo para fazer mal à nossa heroína. Além disso, Ana se descobre grávida, e Grey não reage nada bem à isso (tem ciúme do bebê, o nível é esse).

Nisso, temos um filme que é menos sobre a coisa do sexo selvagem (embora ainda tenha muito sexo selvagem) e mais sobre um casal bilionário e seus problemas. Coisa que eu particularmente amo, pois se quisesse pensar em problema de pobre eu pensava nos meus.

Esse filme se destaca por marcar a emancipação de Ana. Agora ela é uma mulher muito mais madura e livre, respondendo à altura os gestos de Grey, inclusive mandando nele. Quando é colocada em perigo, ela resolve a bronca sozinha, chegando a pegar em armas se necessário (foi necessário). Por essas e outras, o filme é considerado um bom encerramento para a trama, pois tira a protagonista do lugar de dama indefesa e a coloca como real dona da história.

Naquelas, né.

Grey se mostra um homem curado: ainda gosta de BDSM, mas já é capaz de demonstrar sentimentos e até chora. Tudo por conta do trabalho incansável de Ana, reafirmando a perigosa narrativa de que uma mulher pode curar um homem, como se mulher fosse ONG de homem, etc. Mas é aquela coisa, o cara é tão bonito que tudo é perdoável. E a Ana faz porque gosta dele, etc.

Assim, a “emancipação” de Ana é ainda naquele modelo antigo que vemos nos romances: curando seu homem, ela curou à si mesma.

Ana desiste de mudar Grey, porque no que precisava ele já mudou. Eles ficam juntos, felizes e podres de ricos, ainda se divertindo no quartinho e agora com dois bebês para criar. Final feliz!!!!

Entre os delírios da trama, ficará para sempre em minha memória Jamie Dornan, como Christian Grey, ao piano cantando e tocando Maybe I’m Amazed (a minha música favorita do Paul McCartney) em Aspen. E para mim, isso já valeu a trilogia inteira.

A trilha sonora aqui é ok.

O que eu achei, afinal?

Minha filha, o que eu vou te dizer? Eu achei tudo lindo e chique, ri bastante, suei de nervoso… Acho que não dá para esperar mais do que isso de uma obra de entretenimento, não é? Quer dizer, não é um Barcelona x Real Madrid ao vivo às 15h de um sábado logo depois que você faxinou a casa toda, tomou o banho e acabou de sentar a bunda no sofá. Mas olhando em perspectiva, hoje em dia mais nada é!

A trama em si não traz nada novo: a mulher ingênua e virginal sendo seduzida e tendo sua vida virada do avesso pelo homem controlador e autoritário. A cura através do amor. A emancipação feminina pelo amor de um homem. Tudo isso existe desde que o mundo é mundo e se repete mudando só uma coisa ou outra.

Você encontra esse modelo de romance em inúmeras obras, porque durante muito tempo foi assim. Aqui, a função da fanfic foi modernizar esse modelo, mas mantendo sua essência. Por isso o sentido de unidade tão reconfortante quando você pega O Morro dos Ventos Uivantes, um livro de 1847, e encontra isso. E em Crepúsculo, você encontra isso. Em 50 Tons, lá está Grey olhando Ana dormir, feito um vampiro, e controlando tudo o que ela faz porque apesar de muito bravo ele é extremamente inseguro. Homens inseguros querendo dominar mulheres que na verdade não são nada frágeis tem sido o motor da narrativa romântica há séculos, e não há sinais de que isso vá mudar tão cedo.

Quem gosta, ama. Quem não gosta, paciência.

Eu gosto e acho que é possível se divertir com obras assim, sabendo separar a romantização da realidade.

Quem sabe, em 40 dias volte a passar futebol na TV, e aí teremos mais possibilidades. Por enquanto, pode descer o chicote nesse povo sofrido, Sr. Grey!

Brain Dump*, Resenhas

Letra & Música: o amor como meio e não como fim

Letra & Música – Dir. Mark Lawrence (2007)
  • Atenção: este texto contém spoilers de Letra & Música, um filme de mais de dez anos atrás.

Uma pérola da comédia romântica, esse gênero cinematográfico em vias de ser criminalizado e banido de todas as salas de cinema do mundo, Letra & Música entrou para o catálogo da Netflix essa semana – o que me deu a chance de rever esse que já foi um dos meus filmes favoritos até eu assistir a outros duzentos títulos e esquecer dele por completo.

De 2007, incríveis treze anos atrás, o filme conta a história de Alex Fletcher (Hugh Grant), um músico de sucesso nos anos 80, mas hoje em suave ostracismo vivendo de shows menores para balzaquianas saudosas. Sua vida pacata muda quando ele conhece Sophie Fisher (Drew Barrymore), uma moça maluquinha e atrapalhada (claro), que surge na sua casa para regar suas plantas(!), mas acaba colaborando para uma composição por encomenda que Alex precisa fazer para gravar com a nova sensação pop do momento, Cora (Haley Bennet), e assim, quem sabe, voltar aos holofotes.

Na primeira vez que vi esse filme, com vinte anos de idade, o que mais me encantou foi a dinâmica entre Alex e Sophie, a maneira como eles combinam. A química entre os dois é inegável (embora Hugh Grant tenha revelado posteriormente que eles detestaram trabalhar juntos e que fez Drew chorar várias vezes, do que se arrepende). Porém, à época, acho que não compreendi o filme por completo.

É interessante como Letra & Música se vende como um filme de amor clássico, garota encontra garoto, mas se você assistir sem tanta idealização romântica compulsória consegue perceber que ele é muito mais do que isso. Ele fala de amor de uma maneira muito mais madura do que estamos acostumados a ver nesse tipo de produção.

É sobre amar o seu quadril e cuidar dele na terceira idade. Brincadeira.

Para começo de conversa, Letra & Música é das poucas romcoms onde o foco está no homem. Essa quebra de padrão na escolha da ótica pela qual a história será contada já nos dá uma pista de que essa é uma trama diferente. Comédias românticas, por definição, nos contam a história de mulheres descobrindo o amor em lugares improváveis e lutando, com muito humor e estoicismo, para fazer esse relacionamento dar certo. Aqui, no entanto, o protagonista é o mocinho, Alex Fletcher, um cara chegando à meia-idade e no meio de uma cruzada pessoal entre aceitar o esquecimento ou tentar mais uma vez conquistar um lugar ao Sol, profissionalmente falando. É nesse ponto que somos apresentados à ele e é nesse ponto também que Sophie o conhece.

Sophie, a seu modo, também está em um ponto de estagnação quando Fletcher cruza seu caminho. Vinda de uma relação traumática, onde foi exposta por seu ex abusivo, ela se encontra meio perdida, em um sub-emprego no comércio da irmã e com um bloqueio criativo, fruto desse relacionamento anterior, que a impede de dar prosseguimento em sua carreira de escritora e poetisa.

Apesar dessas questões de ambos, o amor entre Sophie e Alex surge. E esse amor, curiosamente, não é mostrado como um desafio ou drama. Trajetórias diferentes, traumas, dinheiro ou idade, tudo isso poderia ser um conflito na história de amor de Letra & Música, mas não é. O amor entre eles não é mais um problema a ser resolvido, por que não é disso que se trata o filme. O que só fui entender agora.

Quando você sabe, você sabe…

Colocar o amor de Alex e Sophie como um problema seria uma abordagem fácil e previsível para uma comédia romântica, mas Letra & Música faz mais do que isso. Visando mostrar os verdadeiros conflitos dos personagens, a trama evita o caminho mais fácil e faz do amor dos protagonistas um amor tranquilo, que nasce espontaneamente e os ajuda a encontrar um novo caminho, um caminho melhor, para viver. E é esse todo o mote do filme, em contraponto às romcoms padrão: o amor dos dois é um meio e não um fim.

Como par, eles usam o amor que sentem um pelo outro como uma estrada e não como uma residência fixa: é o que os ajuda a seguir em frente. Quando, apaixonados, colaboram na escrita de uma canção, vão muito além de simplesmente compor uma música juntos: como casal, mostram um ao outro que existem outras possibilidades além de simplesmente aceitar a vida como ela está.

Quando Fletcher encontra Sophie, descobre nela uma nova inspiração para escrever, algo no que ele notoriamente não é muito bom. Mas Sophie tem a doçura e a leveza capaz de inspirá-lo, e mais, de motivá-lo a compor algo que possa mudar sua situação.

E da mesma forma que Sophie ajuda Alex ao compor com ele e o tira da escuridão, a vida de Sophie também é transformada por esse amor tranquilo que eles constroem. Sob a influência de Alex, com seu humor ferino e senso prático, Sophie encontra a motivação para voltar a escrever e até descobre forças para confrontar o ex (com o apoio gracioso de Alex, em uma cena memorável do filme).

I’ve been watching but the stars refuse to shine
I’ve been searching but I just don’t see the signs

Assim, a não ser por uma eventual briga para dar a tensão necessária para o desfecho do longa, inexiste conflito entre Sophie e Alex. Ao contrário da maioria dos filmes de amor, os protagonistas aqui não se envolvem em mentiras ou dilemas morais maiores que os impeçam de ficar juntos. Nada impede Sophie e Alex de ficar juntos, e eles ficam. E o filme é sobre isso: sobre duas pessoas que se encontram em um estado de estagnação conformada, e juntos acham um motivo novo para tentar, através de um relacionamento saudável e tranquilo.

Por isso, Letra & Música é sutilmente diferente de outros títulos do gênero: é uma história de amor sobre um amor que não se encerra em si, mas que é o ponto de partida para outros arcos possíveis para os personagens. Diferente do padrão, não é um filme que diz: “ok, a gente se ama, como vamos lidar com esse sentimento?”, mas sim um filme que diz: “ok, a gente se ama, então vamos juntos conquistar nossos sonhos”. É uma outra visão para o amor, uma visão mais madura e sólida.

Desse modo, assistindo hoje ao filme, na aurora dos meus 30+, consigo ver nele muito mais valor e profundidade do que encontrei na primeira vez que o assisti, quase uma década e meia atrás. Envolto em múltiplas camadas adoráveis de humor, música pop, diálogos afiados e questionáveis escolhas fashion da protagonista, Letra & Música fala ao coração daqueles que já estão no jogo a tempo suficiente para entender que o amor não é sobre relacionamentos apenas. O amor é sobre tudo, sobre absolutamente tudo do que a sua vida é composta. E se você é capaz de encontrar alguém disposto a trilhar esse caminho ao seu lado lhe ajudando a crescer e evoluindo junto com você, não pode perder isso por nada. Nada tem mais valor do que isso.

Revendo agora, Letra & Música retoma seu posto como um dos meus filmes favoritos, justamente por sua capacidade de dizer tantas coisas em uma história aparentemente superficial. Treze anos depois, foi preciso que eu amadurecesse para poder entender do que o amor é capaz, vivendo isso em minha própria vida. O que torna tão especial encontrar nesse filme simples muito do que acredito como pessoa.

E ainda querem criminalizar a romcom, imagine.

Resenhas

“Modo Avião”, Larissa Manoela e o alívio quintessencial de poder ser isso aí mesmo que você está vendo, isso aí mesmo que você é

Credito: Aline Arruda/Netflix/Divulgação.Cena do filme Modo avião, da Netflix, com Larissa Manoela
  • Esse texto não contém spoiler de nada. Relaxa, pelo amor de Deus.

Esses dias eu abri isso aqui para escrever sobre a nova minissérie do Drácula, aquela da BBC e tal. Negócio chique, Mark Gatiss e Steven Moffat, o luxo. Bom para quem gosta, perfeito para quem odeia. A série é feita para o tuiteiro: impecável, todo mundo odiou. Eu amei. Fiquei brava com o tuiteiro.

Acabou que desisti do texto no meio, porque percebi que minhas motivações para escrevê-lo estavam erradas. Eu queria escrever porque estava brava com o pessoal que não gostou. Moffat virou lixo de um dia para o outro. Foi o Rubens Ewald Filho morrer, pronto. Todo mundo quer o lugar dele. Tudo é ruim.

Como podem ter achado Drácula ruim (sim, eu vi o episódio final)? Que inferno, bicho. Agora, uma coisa. Eu vou escrever por isso? Esse vai ser o meu norte criativo? Direito de resposta que ninguém pediu, em nome de quem nem sabe quem sou eu na fila do pão?

a audácia do tuiteiro

Sabe?

Daí nem escrevi nada, foda-se, quem se importa? O Drácula não merece tanto esforço, eu não tenho toda essa energia para gastar. Passei por muita coisa esses dias. Vamos focar no lado bom da vida (kkkk) e parar de deixar o ódio (alheio, nosso, do mundo) ser o motor de tudo.

Veio o filme novo da Larissa Manoela e eu pensei que esse sim merecia um texto (meu!) porque eu não quero defendê-lo, eu quero apenas contar o valor dele para mim. E outra, ninguém está falando mal desse filme. Por que se o filme é da Larissa Manoela, “bom” ou “ruim” são juízos de valor irrelevantes. Lari Manu está naquele invejado posto no imaginário coletivo que ou você ama o que ela faz, ou você nem se dá ao trabalho de saber o que ela está fazendo.

É outro patamar. É uma paz enorme.

É ótimo.

Modo Avião (2020) – Dir. César Rodrigues

Eu gosto da Larissa Manoela. Parece estranho porque eu tenho 35 anos, mas o fato é que se eu tenho 35 hoje é porque já tive 14 um dia, e é difícil superar isso. Quando se é uma mulher, então? Nem vivendo mil anos, eu acho.

Os filmes da Lari Manu são ótimos. Eles entregam absolutamente tudo o que você quer, sem que você se sinta culpada em receber essa indulgência em forma de entretenimento. Em Modo Avião, temos a comédia romântica adolescente em seu estado puro. O que quer dizer que por 90 minutos você pode se jogar no sofá e se deixar ser engolfada por uma trama leve e adorável com muitas risadinhas, suspiros apaixonados e looks incríveis.

Como eu disse, tudo. No filme ela é Ana, uma influencer digital viciada em internet (claro) que tem um choque de realidade e precisa reavaliar sua vida. Igualzinho a você, mas você continua dando murro em ponta de faca e não muda em nada nunca. Mas a Ana, a Lari Manu, ela muda. Vai pro interior, pra casa do vô, e começa a sua evolução pessoal baseada em não usar mais o celular e também em dar uns beijos em um rapaz ali da vila.

Cacetada. Tá chorando, né John Hughes? Por que eu tô.

Primeira produção da atriz com a NETFLIX, Modo Avião tem um roteiro redondinho, feito sob encomenda para a plataforma. Ao contrário dos filmes anteriores da Lari Manu, que se originaram de best sellers teens. Você nota a diferença porque a história de Modo Avião é um pouco mais direta. O que não quer dizer que é ruim. Mas não dá para comparar com o melhor filme dela, Meus Quinze Anos, por exemplo, que tem inspirações em Juno, Mean Girls e Clueless. Uma profundidade. Feito para o povo da plataforma, Modo Avião é mais rápido, aposta no conforto visual dos looks e na comicidade da linguagem memética. E no talento dramático da Larissa Manoela, lógico, que aproveita o reinado e faz miséria com cena rápida de breakdown no trânsito (quem nunca? eu sempre).

Assim, atriz.

Além disso, o filme ainda tem participações luxuosas de Katiuscia Canoro (Lady Kate iconic) e Erasmo Carlos(!!!!). Generoso por definição, aqui ele abaixa o tom um pouquinho e deixa Lari Manu brilhar, como se ele fosse apenas um senhor qualquer fazendo um freela de final de ano.

Um homem que fez o que fez em Paraíso Perdido, sabe? Puxa vida.

Mas o que estou querendo dizer é que é muito boa a carreira cinematográfica da Larissa Manoela. Nos dá algo em que acreditar ou, pelo menos, algo em que não pensar. Você pode ficar assistindo tranquila sem medo de ser feliz, sendo exatamente quem você é: essa garotinha de 14 anos um pouco preocupada com o rumo que as coisas estão tomando, mas não o suficiente para entender o plano geral das coisas e se desesperar a ponto de tomar uma atitude. Enquanto o filme estiver rolando na tela, está tudo em suspenso, o que quer dizer que está tudo bem.

E além do mais, meu Deus, os looks dela no filme.

No fim das contas, tá certo o tuiteiro. Quem é Drácula? Moffat? Moffat apenas sonha.

Errada tô eu.

Boa mesmo é a Lari Manu.

Resenhas

O sonho possível, enfim

Era absolutamente tudo. Quando “Com Amor, Vincent” chegou aos cinemas, imaginei que era tão incrível quanto natural. Como não fizeram um filme assim antes? Para fazer faltava tecnologia e a sensibilidade, no mínimo, mas o momento enfim tinha chegado.

O filme é lindo, um trabalho tão profundo quanto emotivo. A história de vida de Van Gogh é delicada e triste, envolve mexer em assuntos que são dolorosos e presentes até hoje, ainda mais hoje, além de todo aquele mistério sobre sua morte.

Existe também, é claro, a atualidade de sua obra, que faz com que seus quadros sejam hoje itens da cultura pop, desdobrados em produtos de consumo dos mais variados. Virar moda, aqui, é um privilégio todo nosso. É ótimo ver suas pinturas espalhadas por todos os lugares, nos mais variados formatos. É uma delícia, na verdade.

Mas o filme, como fizeram esse filme?

Para responder essa pergunta, e outras, estreia dia 30 de janeiro nos cinemas brasileiros o documentário “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível”. A missão é exatamente levar para o telespectador um pouquinho do que foi a produção da animação de 2017. Com distribuição da Elite Filmes, o doc explora os dez anos de luta para levar o filme às telas.

Sim, dez anos.

Tudo sobre “Com Amor, Vincent” impressiona, como sabemos vendo o filme, como confirmamos com esse documentário. Com entrevistas dos envolvidos e cenas inéditas de bastidores, em “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível” vamos descobrindo mais sobre essa obra que nasceu pelas mãos e coração de Dorota Kobiela, uma jovem cineasta polonesa. Novata no cinema, por quase uma década Dorota capitaneou essa empreitada, lidando com a falta de incentivo e de dinheiro, em um esforço monumental que teve a participação de 115 pintores e se transformou em animação com os 65 mil quadros que estes produziram.

Sessenta e cinco mil quadros. Quando finalmente foi lançado, o filme recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de 2018, a aclamação definitiva de todos os anos de dedicação.

Em entrevista ao documentário, Dorota se emociona ao dizer que gostaria que Van Gogh um dia soubesse o quanto sua obra influenciou e motivou tantas pessoas ao redor do mundo, por todos esses anos.

Como fã do artista, gosto de pensar que é isso que estamos fazendo quando continuamos revivendo sua vida e obra, desdobrando sua arte em coisas nossas que carregamos conosco por todos os lados. Estamos deixando ele saber, de algum modo.

O sonho impossível se materializa assim, nesses momentos e nessas homenagens, como a de Dorota, que traz um pouco daquele universo que nos encanta há décadas e jamais deixará de encantar, posto que é eterno.

* O blog assistiu ao documentário “Com Amor, Van Gogh: O Sonho Impossível” a convite da Elite Filmes.