Futebol

ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO: SUÁREZ VAI EMBORA, MESSI FICA (TRISTE) (E VAI FICAR AINDA MAIS)

Bom, gente. É preciso muito sangue frio e sobriedade aqui, para poder analisar a situação a partir de um viés semiótico neutro, destituído da vontade de sair matando.

Após longa novela (você soube tudo aqui), Messi fica no Barcelona. Não sem antes dar uma entrevista já histórica, onde não esboça um traço sequer de alegria, involuntariamente espelhando a fisionomia de um brasileiro normal que pula da cama e só coloca o chinelo para se considerar “no trabalho”.

É difícil a escolha de Messi, preservando família em detrimento a processar o clube por ter faltado com a palavra na coisa do acordo de poder sair sem multas no final da temporada. Ficou um disse-me-disse, onde todos estão errados e até que meio certos. No fim, é tudo uma questão de interpretação algo que, sabemos, nunca foi o forte em seres humanos (carece fontes desse tópico no meio animal), ainda mais envolvendo dinheiro.

Gostaria de estar escrevendo sobre a beleza da vida e como meu cabelo fica perfumado com Óleo de Coco, porém esse assunto se torna banal (coisa que não é) quando observamos esse novo desdobramento: Messi fez de tudo para ir embora, fez de tudo para Suárez ficar. E deu tudo errado, como quando você planeja uma noite inteira de diversão jogando The Sims e a luz acaba já às 17h. O destino é implacável em destruir seus sonhos, e ele tem pressa para isso.

As coisas vão ficando mais poéticas quanto mais sofridas, haja vista que a poesia é um modo de dar vazão a dores inevitáveis.

Divago. Voltando ao assunto, o fato de Messi ficar contra sua vontade já é algo que todos assimilamos, inclusive o próprio. Resignação é a palavra forte da nossa vida e da dele. Em uma atualização rápida do que aconteceu desde o meu último post, quando tudo ainda era confuso sobre a situação do jogador argentino no clube, o que tivemos, foi:

Cronologia sem datas, pois o tempo é um conceito que nos impuseram para vender relógio e calendário de mesa:

  • Messi fica. Não por querer, mas porque os filhos choraram pra não sair da cidade, e o Barcelona chorou em ameaças de uma multa de 70 quaquilhões de notas de 200 reais.
  • Começa a doer a barriga do Suárez. Após a demissão por telefone, ele finge que foi só uma noite ruim e vai treinar normalmente, como se nada.
  • “Como se nada” se torna uma das minhas expressões favoritas, e passo a buscar chances de usá-la.
  • Messi esboça seu primeiro sorriso em meses, durante treino ao lado dEle (Suárez).
  • Voltam as conversas sobre Suárez sair do Barcelona.
  • Messi se mantém calado, como uma mulher de 36 anos (eu) que espera que o silêncio ostensivo seja suficiente para que os outros entendam o motivo de tanto silêncio.
  • Suárez é incensado como um jogador grandioso (que ele é), mas que está em fase complicada (idem), o que torna seu valor de venda muito caro e muito barato ao mesmo tempo.
  • As negociações continuam.
  • Messi não sorri mais.
  • Não acho mais nenhuma oportunidade de usar “como se nada”.
  • Meu gato senta perigosamente do meu lado na mesa, arriscando deitar no teclado e perder todas as edições desse texto.
  • Suárez é anunciado como nova contratação do Atlético de Madrid.

Caralho, viu.

A partir daí, muitos sentimentos. É mesmo estranho, em 2020 o digital vai substituir o sentimento. Tudo o que sabemos vem do Instagram e do Twitter dos envolvidos. Rei da Social Media, o Barcelona até faz algumas homenagens e tenta vender essa saída como pela porta da frente, mas devido a tudo que aconteceu, a gente sabe que não foi bem assim.

Suárez marcou 198 gols em seus seis anos de Barcelona, e o que me preocupa é pensar que vai ficar sempre esse número horrível. Faltavam só dois gols. Para além disso, o uruguaio é o terceiro maior artilheiro da história do clube. E o amor da vida do Messi, caso ainda não tenha ficado claro.

Infelizmente, Suárez cabe apenas no coração de Messi e não mais nos projetos do clube catalão, por isso a demissão. Já oficial, a saída de Suárez rendeu diversos reposts de stories no perfil do dentuço no Instagram, lamentando a saída e falando que “bola pra frente” diga-se de passagem, um dos ditados mais assertivos e literais de maneira hilária quando falamos de futebol.

Dois conteúdos, no entanto, eram os mais esperados: o post oficial do Suárez sobre a saída, para a gente ver se ele falaria do Messi ou não, e o post oficial do Messi sobre a saída do Suárez, para a gente ver o que ele falaria.

Já temos ambos. Minha tela tá aparecendo aí pra vocês? Vou compartilhar o ppt, apesar de que hoje minha internet tá bem ruim.

Suárez optou por um sóbrio carrossel simples de seis imagens, com fotos dele e da família com seus troféus, além dessa foto posada no dia da despedida (Sergi bem no canto pra poder ser cropado com facilidade). Messi não é mencionado na legenda, e aparece nessa única foto, distante. Se desse para cortar a tristeza com uma faca, eu estaria agora procurando como amolar as minhas, que já estariam sem fio.

Interessante observar também como a legenda da postagem, em espanhol e inglês, evidencia o homem sentimental que é Suárez, exaltando o clube apesar da traição, lembrando muito o menino de 17 anos que entrou escondido no estádio do Barcelona e disse que um dia jogaria ali.

É foda.

A elegante maneira com que Suárez construiu seu post oficial de despedida, sem postar uma foto de cueca sacudindo as joias da família para a câmera, e sem mencionar Messi, nos dá um indicativo de que vem mais por aí. Suárez é um homem elegante, sim, mas também é bem nervosinho. Estão tirando dele o amor de sua vida. Isso não pode ficar assim. Eu acho que vem mais por aí, não sei não. Aguardem. Eu estou aguardando.

Dias depois, rompendo seu silêncio ensurdecedor nas redes sociais, Messi fez o post de despedida para o seu amor. Vamos começar pelas imagens escolhidas nesse literal carrossel de emoções.

  1. Foto do dia da despedida, linguagem corporal que grita “aqui não podemos”. Em que pese o terno belíssimo do Suárez e a questionável obsessão de Messi por jeans feios, fica claro quem manda aqui (o coração).
  2. Foto de um pós jogo em um passado distante onde podíamos nos tocar. Tente tirar os olhos da mão possessiva do Suárez na nuca do Messi e observe a pele impecável de ambos, indicativo de uma boa noite de muita conversa e entendimento debaixo dos lençóis, se é que me entendes, provável motivo da escolha dessa foto entre tantas.
  3. Caindo feito uma jaca no poço sem fundo do sentimentalismo, uma foto representando o famigerado hábito do casal de beber mate, bebida amarga como o fim de um grande amor. Tem uma música do Engenheiros do Hawaii sobre chimarrão que diz assim: “há um muro de concreto entre nossos lábios, há um Muro de Berlim dentro de mim”. Acho que é sobre isso.
  4. Existe a teoria de que Anto, Messi, Sofi e Suárez são um quadrisal (ou uma simples suruba), como na impressionantemente gráfica canção “Felices Los 4” do cantor Maluma. Ainda a confirmar.
  5. Confirmado.
  6. Colocar a família toda no meio é um modo de lembrar que são muitos os laços que unem esse romance.
  7. Quem é que nunca deu um abraço apertado só pra sentir o cheiro do cangote da pessoa? É uma das táticas mais comuns. Apesar do que tenta dizer a foto 1, essa aponta o que já sabemos, que o sentimento de “amor” não é algo que possa ser controlado. Assim, o carrossel se fecha em um círculo perfeito: abre com um panorama de como Messi e Suárez estão agora (forçadamente separados), conta toda a história de amor, mistura de casais, mate, títulos e reuniões em família e termina com um teaser do futuro, indicando que ainda estarão sempre juntos de alguma forma.

É o que queremos acreditar, mas estou me adiantando. Precisamos ainda analisar a legenda, o que vamos fazer agora. É bem menos protocolar do que a do post do Suárez, pegue os lencinhos de papel.

Já tinha pensado nisso, mas hoje entrei no vestiário e a ficha caiu de verdade. Como vai ser difícil não continuar compartilhando o dia a dia com você, tanto no campo quanto fora dele. Sentirei muita falta. Foram muitos anos, muitos mates, almoços, jantares … Muitas coisas que nunca serão esquecidas, todos os dias juntos.

Vai ser estranho te ver com outra camisa e muito mais te enfrentar. Você merecia sair como o que é: um dos jogadores mais importantes da história do clube, conseguindo coisas importantes tanto coletiva quanto individualmente. E não que te expulsassem, como fizeram. Mas a verdade é que a esta altura nada mais me surpreende.

Desejo a você tudo de bom neste novo desafio. Eu te amo muito, te amo muito. Até logo, amigo.

Amigo. Encerro aqui esse post.

Brincadeira.

Acho que qualquer pessoa aqui que já se aventurou por um webnamoro sabe que relacionamento à distância é complicado. Claro, olhando pelo viés da pandemia, esse é o padrão atual e não deve assustar. Porém, uma coisa é ficar fazendo Zoom com uma paquera descompromissada, outra totalmente diferente é acreditar no poder da conexão de internet para curar um relacionamento de anos que foi feito de pandeiro por diretores de clube.

Não sei como nossos heróis lidarão com essa nova realidade. Mais uma vez, as redes sociais nos darão todas as informações que podemos ter, ainda que não todas as que gostaríamos.

O que esperar do futuro?

Honestamente, se no limiar do final de 2020 você ainda espera algo do futuro, recomendo que se feche para o mundo e proteja a si mesmo desse diamante puro de otimismo que você é.

Em uma abordagem menos cínica, o que posso dizer é que agora a perspectiva é de que o Kissuco desse imbróglio “Messi trabalhando forçado no Barcelona” ferva ainda mais.

Confira o que temos:

  • Messi jogando sem a menor vontade, esperando o próximo fim de contrato, em um cenário pandêmico onde campeonatos acontecem apenas para manter a máquina girando.
  • Suárez em um novo clube, rival do Messi, o que abre todo um novo leque de narrativas de fanfic do subgênero lovers then enemies then lovers extremely hard.
  • Ainda esperamos o post oficial do Suárez dedicado apenas para o Messi.
  • Ainda pode acontecer algum desdobramento por conta do tom constrangedoramente “eu só acho engraçado que…” a respeito do Barcelona no post de Messi.

Vejam que me tornei a mais baixa casta do jornalismo (sou contadora), criando uma narrativa a partir de posts em redes sociais. Mas era isso ou ficar aqui chorando sozinha com minhas teorias.

De modos que vamos seguir assim, aguardando novas postagens e tendo que encarar essa dura realidade onde dois homens não podem mais amar e precisam seguir em frente em clubes separados, como se nada.

Como se nada.

Brain Dump*

Elton John está bem e tudo está em seu lugar

Se querem mesmo saber o que aconteceu, eu perdi um pouco o rumo desde aquela noite, mais precisamente na cena em que o Taron Egerton abre as portas, luxuoso em seu traje alaranjado, e você fala: rapaz… E então não acontece nada do que você pensa.

Não que o ponto seja esse. Como se o inesperado fosse uma novidade — e não uma constante. Oras, nada nunca acontece como você pensa. Não é essa a questão. Mas houve algo de especial em ver aquele filme pela segunda vez em uma semana, entrando bêbados no cinema e embalados em uma alegria que não tinha motivo algum, além de todos.

E aí, como eu dizia, Taron Egerton em trajes alaranjados, depois em mais outros de muitas outras cores. As músicas e os sorrisos, o ódio da vida adulta, divagações sobre talento & oportunidade, você ergue a cabeça e continua não por perseverança e nem por teimosia, mas por… Por quê? Algo sobre o jeito com que você fala comigo quando eu me mostro frágil, algo sobre a maneira com que você me acolhe justo quando eu acredito que não exista mais saída alguma.

Estamos falando de momentos sublimes escondidos dentro de cenas cotidianas. Você do outro lado da rua, encostado no muro e fumando. Eu olho para você sem ser vista, eu na fila para comprar pipoca. Somos dois mundos diferentes, duas existências diferentes, que se conectam no instante em que você olha para mim e sorri. Você sorri. Somos um do outro novamente. Atravessa a rua e vem na minha direção. Me beija com o ar gelado da noite, eu gosto tanto do seu beijo, compramos mais cervejas.

Está tudo muito complicado, os gatos estão a cada dia mais malucos e carinhosos. Corto os tomates em quatro e depois em grossas fatias, fazemos daquele jantar às 23h de uma quarta-feira uma ocasião única de paz em que preferimos não pensar nos problemas maiores.

Eu não sou o homem que eles pensam que eu sou em casa. É claro que não. Eu não finjo nada para os outros, mas eu guardo o meu melhor para você. Ás vezes eu penso nisso, como pudemos criar um mundo tão nosso, de um amor que quase dói, tão forte que dá a volta e se torna frágil.

Noite de video game, você diz algo absurdo só para me fazer gargalhar.

Noite de séries, me enrosco nos seus pés e rimos das mesmas exatas cenas.

Deus me pune pelas coisas mais banais. Tivesse chegado tarde na festa, o cachorro não teria mordido minha mão. O sangue pinga no chão, vou embora correndo, fugindo para o seu colo. Você me recebe, eu aos prantos, coberta de razão e exagerada, emotiva e emocional, sempre, meu Deus, sempre, um tom acima da média e do necessário.

Você cuida de mim, me ouve.

Mesmo estando tudo muito complicado.

Também fiquei pensando nisso. Tudo está sempre fora do lugar, o tempo todo. Que mania de ver o mundo assim! A gente passa a vida toda encarando cada dia como um dia atípico. Será que é tão difícil perceber qual é o padrão aqui? Esses dias, acho que foi ontem, olhei para você e finalmente entendi que o normal é essa loucura mesmo: quando não é um problema é outro, sempre muda o ponto de tensão — mas no fim está tudo bem. A gente dá um jeito. A gente consegue achar alguma diversão no meio do caos. A gente consegue dar as mãos e fugir dali, mesmo sem sair do lugar.

Veja o Elton John, por exemplo. Que complicado, tudo! Mas os trajes e as músicas e o ódio da vida adulta. Ajuda um pouco, não ajuda? Enquanto gastávamos nossa energia achando que tudo estava fora do lugar, nos tornávamos mais fortes para entender a realidade do que somos.

Somos fortes, somos bons. Nos amamos.

E aí, faz até sentido: mesmo com toda essa bagunça, está tudo bem. Estamos bem. Tão felizes como uma noite de cinema, no meio da semana, para ver um filme que instantaneamente amamos, um filme que fala de nós sem jamais contar a nossa história, como nós sabemos que um dia contaremos.

Contos

Aulas práticas para sentimentos teóricos

Photo by Nicole Mason on Unsplash

Algumas lições em poucas tardes de sábado

O ambiente do curso “Narrativas Nucleares: Aprenda a contar as histórias da sua família e se reconecte com seu passado” sempre fora calmo e cheio de boas vibrações, por isso foi um pouco chocante para todos quando aquele rapaz chegou no meio da aula e disse que, sinceramente, todos ali eram uns falsos.

Já era a terceira semana da turma quando ele chegou assim de supetão, então um vínculo já tinha se criado. A chegada do novo aluno desequilibrou o chi, foi o que disse a Aura, uma moça mirradinha com voz tão fina que era quase uma piada. Ninguém ria quando ela falava, entretanto.

Na segunda vez que o rapaz apareceu, tendo ficado desaparecido por dois encontros desde a bomba inicial da pretensa falsidade de todos, foi no dia em que deveriam escrever sobre suas figuras paternas.

Jéssica tinha escrito uma história curta, mil palavras bem espaçadas e tristes, sobre como o pai trabalhava muito e ainda assim tinha tempo de se vestir de palhaço nas festas da família. Leu seu texto com o coração na mão, acreditando que a quebra de parágrafos é recurso de estilo dos mais superestimados. O moço deu uma risada abafada que mais pareceu um soquinho. Doeu.

Quando foi ler o próprio texto, ele apresentou uma alegoria fantasiosa sobre um chefe de família que viaja para o espaço sideral em busca de salvação para o planeta. Jéssica nascera em 1997, mas teve a vaga impressão de já ter visto um filme assim.

A professora, professora não, condutora de aprendizado, disse que o texto do moço tinha sido o mais rico da tarde. Jéssica pensou consigo mesma que deveria ser mesmo o mais rico, quer dizer, Bruce Willis fez quanto de bilheteria em sua fase dourada?

Durante as semanas que se seguiram, o troféu simbólico, imaginário na cabeça dela, de melhor texto do sábado sempre ficava ou para Jéssica ou para o moço. Com três meses de curso, para o próximo encontro semanal, ela prometeu que se esforçaria ainda mais. Mexendo o café com a pazinha antes da aula começar, sua mão tremia. O moço chegou e passou por ela feito um furacão, fazendo até vento, e tomou um assento na roda compartilhada dos alunos. Jéssica foi até lá e sentou do lado dele.

O tema era amizade na época da infância. Jéssica bufou. Nunca pensara muito nas suas amizades de quando criança, era só o pessoal da escolinha e uma menina da vizinhança.

Escreveu sobre essa menina, focando em um detalhe banal, algo sobre a eventual necessidade de se esconder da mãe para não parar a brincadeira quando era hora de voltar para casa. Todos riram, enternecidos. Menos o moço, que compenetrado ainda lutava com as palavras em seu caderno apoiado no joelho.

Jéssica se aprumou na cadeira quando ele chegou na metade da leitura do texto.

“Admito que errei. Você errou também. E o que aconteceu depois, que lástima. Lembro de me sentir roubado quando a nossa amizade parou e todas as suas outras continuaram. Da maneira que eu vi você fazer, o que você fez foi o seguinte: deu para outra pessoa uma chance que poderia tranquilamente ser minha.

Não era sobre os seus princípios, não era “esse perdão eu não posso te dar”. Descobri que não era porque você perdoou erros dos outros que eram muito maiores do que os que cometi, mas não perdoou os meus erros nunca.

Então, não era sobre os erros. Era sobre mim.

“Não é nada pessoal”, você disse quando decidiu que não podíamos mais ser amigos. Pro inferno que não era, caralho.”

“Ah, pronto”, Jéssica pensou quando viu que a condutora de aprendizado lacrimejava. Ele tinha uma mania chata pra burro de ficar tremendo o pé no chão enquanto lia, ela já tinha reparado. Colocou a mão no joelho do moço e perguntou se ele estava bem.

“É muito fácil fingir algo”, ele respondeu, dando de ombros. Pela ampla janela do estúdio térreo que ocupavam, os raios de Sol batiam diretamente no rosto dele. Jéssica colocou a outra mão acima dos olhos para enxergá-lo melhor. Ele sorriu.

No intervalo, todos ficavam em um jardim anexo, com mesas de madeira e um café caríssimo e ruim. Jéssica tentava tirar uma selfie tendo ao fundo a verde cerca viva do ambiente, quando percebeu que ele viera sentar ao seu lado. Foi uma sensação quase normal.

– Escrever é fingir, você sabe disso, não sabe?

– Ah, nossa. Se enxerga, garoto.

O moço riu, dando de ombros mais uma vez. Ele tinha os cabelos lisos e longos passando um pouco do ombro, como um metaleiro tardio, de uma adolescência esquecida. Jéssica notou que gostava do contraste entre os dois. Seu cabelo era tão curtinho que sua mãe vivia reclamando que nem parecia uma moça.

– Toda vez que eu venho você fica puta com tudo o que eu faço.

– Eu estava fingindo.

Agora quem deu de ombros foi ela. Levou uns segundos para entender que a estampa da camiseta preta dele era uma versão minimalista da capa do segundo álbum do Coldplay. Sentiu uma mistura sólida de amor e ódio. Coldplay era sua banda favorita. Coçou a tatuagem no interior do ante-braço direito que dizia “ A rush of blood to the head”. Ele percebeu o movimento e ficou sem graça, como se estivesse esperando por isso há tempos e tivesse sido pego de surpresa por finalmente ter dado certo o que planejara.

– Não menti quando escrevi sobre as amizades.

– É claro que não. Dá para ver pelas suas unhas todas roídas.

– Sobre o meu pai eu menti, naquele texto.

– Ah, não brinca.

– O que te fez escolher esse curso?

– Tempo livre?

– Eu vim pra ver se conseguia desabafar um pouco.

– No curso?

– Não. Hoje. Aqui com você.

Desabafar?!

Jéssica ajeitou o cós da calça de cintura alta de linho. Sempre se sentia dentro de um pneu quando se sentava sem apoio nas costas. Viu os dedos dele batucarem a sola do tênis, ele apoiara o pé no joelho e olhava para baixo, pensativo. Era um crime como todo sentimento precisava ser catalogado para ser aceito. Não era o sentir que doía, era esse catalogar que machucava tanto.

O pessoal em volta discutia figuras de linguagem, o que era terrível em todo e qualquer sentido. Jéssica esticou os pés embaixo da mesa, girando os calcanhares fizeram um estalo terrível de morte. O moço riu.

– Deixa de eu te falar, Mateus. Seus textos são ótimos, mas se você continuar se afundando em auto-piedade ninguém vai te levar à sério.

– A condutora de aprendizado gosta de mim.

– Ah, claro. Olha o seu rosto.

Gostou como ele gargalhou alto, chamando a atenção de todos. Não poderia imaginar que ele fosse uma pessoa que gargalhasse, ela mesma ria tão pouco. Mexeu um pouco nos farelos de bolo no pratinho à sua frente na mesa. O moço passou a mãos nos cabelos e os prendeu em um rabo de cabelo baixo, rente à nuca. Que terrível, Jéssica pensou, ele realmente tinha sido metaleiro em alguma fase recente da vida.

Lentamente as pessoas retornavam para a sala de aula. Jéssica sentiu que o ar ficava pesado conforme a conversa dos dois morria. Sepultada a sete palmos abaixo da terra estava a sua vontade de parar de ouvir a voz dele.

– Deixa de eu te falar, Jéssica. Seus textos são ótimos, mas se você continuar agindo como se tudo fosse uma disputa ninguém vai te levar à sério.

– Eu jamais vou parar, meu caro. Até porque ainda não ganhei porcaria nenhuma. Eu não paro até conseguir. E eu vou conseguir.

– Ah, claro. Olha o seu rosto.

Ela encostou o queixo no ombro e sorriu, coquete. Era um sinal, é lógico, e a próxima coisa que aconteceu foi que Jéssica fechou os olhos e sentiu os lábios do moço beijando os seus. Não foi a sensação de um milhão de borboletas voando em seu estômago, nem fogos de artifícios explodindo pelos ares. Foi adequado e certo.

A próxima coisa que ela soube é que gostaria demais de sentir essa normalidade mais vezes, muitas vezes. Se sentir normal assim era vencer a disputa, afinal de contas.

Sentada ao lado da porta, ao ver os dois entrarem juntos de mãos dadas, Aura sentiu o corpo todo se sacudir em um calafrio que vinha da base da coluna e acabava na nuca.

O chi da sala já não tinha mais a menor salvação.

crônicas

Como forma de agrado

Foto: Death to Stock

O amor tem uma receita muito simples

Vou procurar aqui uma receita de torta salgada, bem simples, vou comprar os ingredientes e fazer para você. Eu não sei cozinhar muitas coisas, no entanto sei e me disseram que cozinhar é uma demonstração de amor.

Sei que isso é verdade porque por mim você aprendeu a cozinhar. E é por mim que você faz os mais deliciosos pratos, mesmo quando está cansado, com outras coisas para fazer. Você também tem que adivinhar o que eu quero quando chego faminta e digo que quero comer alguma coisa, mas não sei o que e nem quero dar trabalho. Você abre a geladeira, descongela carnes, inventa receitas na hora e depois coloca a comida na mesa, querendo saber se eu descubro os ingredientes que foram usados. E nem isso eu sei.

Eu sei que não estamos em uma competição, mas eu sempre sinto que faço tão pouco e que você merece sempre muito mais. Uma receita de torta salgada nem é difícil de fazer, eu li a receita, não é como se eu merecesse uma medalha por ter tido essa ideia, mas sei lá. Pelo menos hoje eu vou tentar.

Tem a ração especial do gato que diz na embalagem “Sirva como forma de agrado” e eu fiquei com isso na cabeça, afinal de contas é isso mesmo. É tudo como uma forma de agrado. Uma torta salgada como forma de agrado. Tomara que fique boa.


Texto publicado originalmente em 04 de setembro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Inundação

“The Lady of Shalott”, de John William Waterhouse (1888)

Não espere que ser feliz não tenha um preço

Sonhei que você chegava na minha casa, abria o portão e sorria. No sonho você tinha a idade que eu tenho hoje, metade da que realmente tem nesses dias. Você usava um jeans azul escuro e uma blusa de tricô de um verde militar escuro também, seu cabelo muito bonito completava o tom da elegância simples que você emanava. Na cozinha da minha casa, casa esta que você ainda nem conhece na vida real, você dava risada tentando conter uma goteira que vazava pelo teto. “Meu amor, vai inundar tudo!”, você dizia e ria, porque já passou muito por isso.

Encostados na janela da varanda da casa de um amigo, fomos surpreendidos por nós mesmos contando um ao outro segredos sobre nossos sonhos mais imediatos. Dei um gole na cerveja e confessei que ando sentindo muito medo, pois ando feliz demais. Você riu de mim (um claro sinal de que eu estava errada e isso me alivia como poucas coisas na vida) e disse que não havia motivo para ter medo. É bom ser feliz, pensei. Eu deveria aceitar essa felicidade, me cobrei, não sem julgamento.

Eu deveria, não é mesmo? Passo o dia subindo e descendo escadas tentando entender que a minha vida é esta e que não há problemas em ser feliz. Por muito tempo, fui levada a acreditar que queria demais, emprego, reconhecimento, coisas. Não preciso, na verdade. Meu trabalho paga as minhas contas e não tem problema se eu jogar video game por uma hora entre uma entrega e outra. Minha casa é bonita e eu posso ter uma casa bonita sem pensar que não a mereço. Meu casamento é feliz e tenho dois gatos lindos. Eu só preciso acreditar que valho essa felicidade toda.

Existe um senso comum de que você precisa sofrer muito para depois ser feliz. Se você é uma pessoa que acha que merece tudo de ruim que lhe acontece, é como se a hora em que ser feliz é permitido nunca chegasse. Minha mãe, no meu sonho com a minha idade, dizia que vai inundar tudo. Acho que vai mesmo. Já está inundando tudo essa felicidade: minha casa, meu casamento, meu coração. Os sonhos todos sendo revelados entre um gole de cerveja e outra, gargalhadas antes de dormir e depois sozinha na rua, lembrando.

Vai inundar tudo, mãe.

crônicas

Viagem sentimental à Paraíba

Açude de Pilões / Paraíba

Nenhum catálogo de viagens te prepara para a vida real

Foi a menor bagagem da vida: cada um com uma mochila nas costas para passar quase quinze dias fora. Levamos só o necessário e desse necessário ainda deixamos a metade em casa. Fomos.

Dizer que a Paraíba é bonita é ser óbvio demais. O que torna tudo diferente são as pessoas ali. Fomos para visitar parentes, parentes esses que não eram visitados há mais de duas décadas. Havia em cada encontro uma efusividade que transbordava carinho e surpresa incontida. Fomos abraçados em hospitalidade e atitudes, palavras e conversas que se esticavam um pouco mais para contar os causos que iam surgindo na memória.

Em poucos dias já sabíamos que aquela seria uma viagem diferente. Não eram apenas os cartões postais ou os dias na praia. Nossos corações foram imediatamente engolfados por uma atmosfera acolhedora e risonha que nos mostrava que estávamos vivendo um momento especial de reencontro, de felicidade, de ver pessoas e conversar com elas. Trocar histórias. Ouvir.

Ponho na conta da minha origem paranaense essa timidez crônica que me é tão particular. Falo pouco, encaro o chão, sempre acho que a conversa não é comigo, que não tenho nada interessante a ser dito. Nessa viagem, me vi forçada a mudar isso. Porque as pessoas queriam saber de mim. Queriam me ouvir, me entender, saber quem era essa menina que Alex trouxe com ele. E eu me deixei levar. Tentei o meu melhor, um pouco ansiosa em não errar. Atropelando frases, mexendo no cabelo, deixando o celular de lado. Tentando responder com mais de uma palavra as perguntas que me faziam.

No sertão, dias depois, nossa experiência se aprofundou em sentimentos. No meio da paisagem solitária, longas viagens de carro nos levavam a casas enormes cravadas no meio do mais absoluto nada. A vista alcançava apenas uns gados preguiçosos vivendo um dia de cada vez. Como nós mesmos fazíamos. A casa simples que nos abrigou trazia segredos e truques. Café da manhã com tapioca, queijo coalho e doce de leite feito ali mesmo. O banheiro do chuveiro bom era o dos fundos, o que não fazia muita diferença se sempre tinha pouca água. Um quarto só para o casal foi um luxo que entendemos como um presente pela visita. No fim de tarde, no alpendre, a vó balançava devagar na rede e com seus 94 anos de história e de idade, recitava quadras de cordel e cantava canções do rádio. Sorria quando via que estávamos prestando atenção.

Uma curta caminhada até o bar onde o padrinho faria uma peixada e pudemos ter uma ideia do que é viver por lá. O Sol castiga de um jeito inexplicável. Passamos pela barragem do açude, naquelas águas tantas memórias e saudades que a vista fica nublada de lágrimas diante do céu sem nuvens. Os sorrisos e os olhares cheios de entendimento que trocamos foi a prece silenciosa que fizemos ali, sentados por cinco minutos no valoroso Bar Peixada Quente antes de respirar fundo e seguir em frente.

Seguimos. Em cada casa, histórias diferentes e fortes. Mulheres que morreram tragicamente por doença ou por amor, relatos contados com sorrisos tímidos sob a vigilância dos retratos na parede. Homens que foram embora cedo demais. A morte, tão presente quanto certa, levou aqueles que mais amamos, mas estamos aqui para lembrar. Lembramos.

A história de uma família não pode ser contada por livros, mesmo que estes sejam só de índice. Não cabe, a vida real transborda. A história de uma família, e foi isso o que aprendi nos meus doze dias conhecendo uma parte dessa família que me acolheu e agora é minha também, precisa ser vivida e contada pessoalmente. Tia Randinha trazendo copos de suco em sua bandeja mais bonita, que imita prata. Tia Helena cuidando da mãe em sua casinha pequena. Vó Franscisquinha na ponta da mesa em todas as refeições, participando da conversa. Tia Marione trazendo os álbuns de fotos para a gente ver. Josier e Marinez sentados com a gente na varanda e rindo.

Doze dias depois, voltamos para casa. Já não éramos os mesmos. Ainda trazíamos só o necessário, mas o necessário agora era outro. Tem mais a ver com amor, com se importar um com o outro. Com a noção do que é fundar uma família e dar valor à ela. Tem a ver com amor, um amor forte e sólido, capaz de nos proteger de qualquer mal. Um amor como o nosso, que cresce e se enraíza nesses momentos que vivemos, nas histórias que criamos juntos e que nos prepara para tudo mais que está por vir. Nenhum catálogo de viagem te dá isso. Só o amor é capaz.

crônicas

Confissões Amorosas: o primeiro amor

Ilustração: Hilary Knight em “Eloise: A Book for Precocious Grown Ups Hardcover”

Não digo que foi fácil, mas digo que não me esforcei também

O primeiro menino por quem me apaixonei se chamava Fábio Ricco. Estudávamos na mesma sala, na 5ª C, no ano de 1995 da era cristã. Fábio Ricco não era muito diferente dos outros meninos do colégio: falastrão, não levava muito à sério questões de higiene, medianamente bonito, jogava bola na quadra da escola todo dia com seu calção do Grêmio e nunca faltava às aulas. Acho que o que me chamou a atenção nele é que ele sempre tinha uma mecha sebosa de cabelo caindo pela testa, o que aos meus olhos pueris era algo muito charmoso.

Lembro que eu não sabia ao certo o que era estar apaixonada (e como saberia, aos onze anos de idade?), mas me esforçava para gostar de Fábio Ricco dada a minha urgente necessidade de aparentar ser uma moça crescida. De alguma forma, o amor que eu sentia (acreditava sentir) era algo muito mais parecido com idolatria. Era assim naquele tempo, não sei se algo mudou hoje em dia. Nós meninas escolhíamos um menino para amar e perseguir por todo o ensino médio, endeusando suas raras qualidades e sublimando seus muitos defeitos. Acredito que os meninos fizessem o mesmo por nós, mas como o diálogo sobre o assunto não era o forte entre os dois lados, a roda da baixa-estima continuava a girar livre de impedimentos, assim nos moldando de maneira perene até a vida adulta.

Pois mesmo tendo esse pequeno vislumbre do que poderia ser o amor, nunca fui além disso. Não havia a necessidade. Ficar espionando Fábio Ricco pelos corredores me era suficiente. Feito uma detetive em versão de bolso, com meus cadernos de capa monocromática cedidos pelo governo e minha firme disposição em ser desprezada, eu estava sempre por perto, seguindo seus passos, mas Fábio Ricco nunca notou minha presença. O mais perto que cheguei dele foi quando escreveu no meu Caderno de Recordações:

 “Quando precisar de um amigo nem precisa me chamar. Me chame sem pensar”.

 O que era terrivelmente mentira, pois jamais conversamos e jamais tivemos tal intimidade. Além disso, rapidamente descobri que ele escreveu a mesma coisa no caderno de mais três meninas da minha sala e de mais duas da 5ªA. Ainda assim, tudo poderia ser perdoado, nós meninas perdoávamos tudo, não fosse a nova aresta que seria acrescentada à esse quadrado seco que era a nossa inexistente relação.

Pois por meio de muita investigação e alguma fofoca, vim a descobrir que Fábio Ricco gostava da menina mais bonita e rica do colégio, a famosa Tatiane Moreira Salles. Cruel como ele só, o karma já ali se fez presente: ela mesma não dava muita bola para ele, o que fazia com que nós representássemos o mais apático triângulo amoroso já visto, sem paixão ou grandes acontecimentos, calado e indiferente.

Tatiane Moreira Salles era tudo o que eu queria ser: linda, popular, divertida, rica. E ainda por cima, o Fábio Ricco gostava dela. Uau. O ápice desse titubeante sentimento que nutríamos os três em segredo e sem vontade foi quando Fábio Ricco deu um cartão do dia dos namorados para a Tatiane Moreira Salles, pedindo-a em namoro. Eu era amiguinha da Tatiane Moreira Salles e ela me segredou que não ia aceitar namorar com Fábio Ricco porque estava gostando de Jonathan Pierre Saldanha, da 7ª B. Isso me deixou totalmente em choque e, consequência dessa bomba, meio que me desencantou desse amor como um todo. De repente, gostar do Fábio Ricco era out. O quente do verão era gostar dos meninos da sétima série.

Foi aí que comecei a gostar de Gustavo Falcão.

PS:

  • Em uma época em que “sororidade” era um conceito tão vago quanto cevada em cerveja ruim, nada me causou maior alegria do que descobrir, anos depois, que Tatiane Moreira Salles estava fazendo supletivo à noite, o que me fez concluir, em uma mórbida e apressada constatação, que a vida dela não era tão perfeita quanto eu pensava.
  • Muitos anos depois, vi Fábio Ricco na rua. Continuava igual, só que com as pernas mais compridas.
  • Gustavo Falcão, titubeante herói do time de vôlei da 7ª A, tinha a língua presa e também não gostava de mim.
crônicas

A vida se revirando e ele sorrindo

Trainspotting — Danny Boyle (1996)

Memórias de dois segundos atrás sobre um cara incrível

O cinema nem estava lotado, mas fervia de animação. A bateria do celular tinha acabado antes mesmo de comprar a pipoca, quem tirou a foto dele na frente do cartaz fui eu, na telona o seu filme favorito, no rosto o sorriso de criança ganhando o melhor presente nunca antes imaginado: assistir na maior tela de todas a história mais amada.

A cada cena trágica ele ria; nas de violência, gargalhava. E eu tentava entender como podia ser engraçado ver um cara arranjar briga no bar pura e simplesmente por diversão, no entanto entendi rápido que ali isso não era para ser um problema. Na telona diante de nós, tudo que acontecia ele já sabia de cor. Antecipava os diálogos e revelava detalhes de produção. E ria das cenas tristes.

Não foram poucas as vezes em que ele me carregou no colo. Na saúde e na doença, dizem os votos que fizemos primeiro para nós mesmos, depois para o cartório. No mais escuro dos meus dias, eu chegava a acreditar que era simples passar pela pior doença de todas, aquela cujo nome nunca é dito em voz alta, só porque ele me dizia que ficaria tudo bem. E ficou. Um dia após o outro. Uma batalha de cada vez. Porque ele estava lá.

Cortaram a luz uma vez. O aluguel atrasou e o senhorio vinha bater na porta. Você viu que vai ter jogo no mesmo dia que eu vou cobrir a premiação? Para tudo há uma saída, ele procura até que acha. Faz o impossível, resgata soluções, faz por onde. Faz. Essa noite mesmo, passou acordado resolvendo a nossa vida enquanto eu dormia. Questão de meia hora depois da briga, sorria para mim e me mostrava quão ridícula era a foto exposta na parede do hotel. Me fazia rir, enquanto por dentro eu tremia de medo das coisas tão pequenas que sempre teimam em querer me derrubar.

A vida é escolha, você sabe. Você sempre pode optar entre permanecer em pé ou cair. Alguns dias são mais difíceis e você acaba indo ao chão contra a sua vontade, mas é importante que saiba, sempre existirá outra saída, uma melhor, mesmo quando você já estiver no chão.

Ter alguém que te mostra saídas é uma dádiva. É um presente. Um presente raro, daqueles que você carrega no coração por todos os segundos da sua vida e agradece se jogando no sofá para ler um livro enquanto ele fica jogando video game até às duas da manhã em um dia comum. Faz cócegas no seu pé enquanto carrega a próxima partida. No outro dia de manhã, você deixa ele dormir até o último segundo antes do “tchau”. Ele fica tão bonitinho dormindo, além do mais.

Não existe o impossível se a sua vontade é de coração. Não existe a dor se você quiser vencê-la. Isso eu sei por ter aprendido com ele. Até a felicidade, essa quimera, nós conseguimos de tanto tentar. De tanto não desistir. Somando méritos em uma conta que nunca foi feita, sei que devo quase tudo o que sou e o que somos à ele. Seu jeito calmo de resolver nos momentos de tensão. Seu jeito bravo que se acalma quando cai em si. O riso sempre pronto para acontecer e nos salvar de qualquer perrengue. Os absurdos inesperados que me fala e viram Histórias de Facebook. Um filtro de esperança e humor foi acrescentado à minha vida desde que ele me encontrou. E eu me apaixonei.

Me apaixonei pelas risadas, pela força de vontade, pela calma nos momentos difíceis, pela humildade de reconhecer erros e fraquezas, pela grandeza de caráter de nunca abaixar a cabeça e nem se deixar levar por sonhos que não sejam os seus. Nessa vida que é uma briga constante, ele anda sorrindo e desviando dos socos, sem jamais beijar a lona.

Você sabe aquela cena em Trainspotting em que o Begbie joga para trás o copo cheio de cerveja, acaba acertando a cabeça de um cara e tudo vira uma enorme confusão, tudo vira um inferno? Aquela cena é a vida. Diante de um cenário desses, você pode chorar, partir pro soco ou simplesmente rir. Eu tenho a maior sorte do mundo porque com ele, o mundo acabando e a gente fazendo piada, com ele a escolha é sempre rir.

crônicas

Seis anos de amor

Foto por Natália Nambara (2011)

E como aprendemos juntos nesses anos que se passaram

“Lembra daquela vez que saímos do mercado cheios de sacolas pra pegar ônibus e descobrimos que a São Silvestre ia passar pela rua? A gente era tão pequeno…”

Parece que todas as nossas lembranças tem esse mesmo fator em comum: a gente era tão pequeno quando nos conhecemos. “Pequenos” no sentido de jovens, inexperientes. Inocentes, quase. Eu vinda do Paraná especialmente para ficar contigo, incerta sobre continuar na minha profissão por aqui, você ainda enrolado em empregos desgastantes e nós dois juntos tentando alinhar esse nova vida dentro do que nos deixava feliz. Da parte do amor era tranquilo, sabíamos bem que estávamos absolutamente apaixonados. Agora, a vida prática era outra questão. Aprendemos juntos a ser adultos. As contas a pagar, os planos, as possibilidades de começar algo. Não queríamos um sonho, nunca foi idealizado o que vivemos. Sempre fomos nos ajustando ao que acontecia e sendo pé no chão o suficiente para viver um dia de cada vez, o que nos protegia de ilusões e nos fazia reconhecer de imediato quando as coisas boas surgiam.

Você me pediu em casamento em uma noite depois de um dia difícil desses. A grana curta, o futuro incerto, dúvidas sobre como resolver problemas que caiam aos montes em nossos colos, o calor da noite, nós dois debaixo das cobertas conversando e rindo, quando você fez a pergunta que eu jamais esperava: “Quer casar comigo?”. E eu disse sim.

No dia do casamento, fomos só os dois no cartório e só os dois bebemos uma cerveja na padaria na rua de baixo, já com a certidão na mão, a certidão que dizia que agora era pra valer. O que nós dois já sabíamos. Parcelamos as alianças em seis vezes com o último cartão de crédito com saldo que eu tinha. A gente era tão pequeno naquela época, conhecíamos um ao outro e a nós mesmos a cada briga, silêncio ou negativa.

Seis anos depois, já não somos tão pequenos. Somos fortes e valentes, foram seis anos de imprevistos, sustos e alegrias, situações que exigiram demais de nós dois. Juntos, construímos e reconstruímos nosso amor, moldamos ele conforme fomos descobrindo quem somos de fato. Crescemos juntos nessa cidade imensa e exigente, caminhamos de mãos dadas debaixo de cada chuva de pedra que a Terra da Garoa jogava em nossas cabeças.

Seis anos depois, ainda somos nós dois contra o mundo, ainda é como no começo, mas agora de pequenos já temos pouco. Temos nossos planos e sonhos, gostamos de querer ir além do que já temos. Sonhamos alto e estipulamos rotas que nos levarão ao futuro que queremos.

Seis anos depois, do tempo em que éramos pequenos só ficou mesmo a lembrança e o que tinha que ficar: o nosso amor puro e forte, a certeza de que é feito para durar. Ainda te amo como no primeiro dia, quando você acenou para mim do outro lado da sala de desembarque do aeroporto e eu pensei “rapaz, não é que ele veio mesmo?”. Te amo mais, até. Amo a pessoa que você é, tenho orgulho de ter você comigo. Sou feliz por estarmos juntos. Mais feliz ainda por saber que não acaba aqui, que é só o começo. Seis anos é pouco para nós, agora que não somos mais pequenos e aprendemos a andar. Juntos.

Brain Dump*

A gente devia

É tudo tão simples, a gente devia

A gente devia beber mais vezes. E sentar mais no meio-fio em noites geladas pra conversar, mesmo sem ter o que dizer. Ficar ali inventando assunto para preencher o vazio, até o vazio inevitavelmente surgir e a gente perceber que ele nem é tão ruim assim. E deixar ele ficar.

E, bêbados, repensar em tudo para então concluir que nada é tão grave assim. Rir das coisas que nos fizeram chorar de raiva até algumas horas atrás. Enrolar os dedos em nossos cabelos, arranhar a borda do copo com a unha. Perceber o quanto é outro é bonito. Agarrar a barra da camiseta. Reconhecer a sua voz de longe e se entender só com um olhar. Dizer coisas idiotas só pra rir um do outro. Prometer que amanhã vai ser melhor, agora que a gente sabe que é tudo tão simples.

É tão simples como desistir de brigar e de ter razão. Tão simples como retomar a conversa depois de discutir. Pedir desculpa não pelo o que fez, mas por ter magoado. É tão simples como voltar pra casa no começo da madrugada, se jogar na cama, jogar os gatos pro alto, puxar você pra perto e esquecer que um dia, um dia tão distante, a gente achava que tudo isso era impossível. Nada é impossível pra gente, a cada dia sabemos mais disso. Um pequeno passo de aproximação, a certeza do seu amor, beijar seu sorriso, rir de você pra te fazer rir. É tudo tão simples e a gente devia ser assim pra sempre. E a gente vai ser, eu sei.


Texto publicado originalmente em 11 de outubro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.