Resenhas, Séries

MATCHDAY INSIDE FC BARCELONA: Bom, o que eu esperava?

Série documental sobre clube de futebol massacra jovem, entenda:

Dizer que Luis Suárez fez um churrasco em casa em um domingo de 2018 é spoiler? Então, sim, esse texto contém spoilers.

Suárez nem mesmo cogita deixar o som ligado enquanto faz seu trabalho. Não se preocupa em criar um ambiente, esse conceito é supérfluo se o que se pretende ali é ser tão verdadeiro quanto possível. Suárez não é de criar ambientes, ele simplesmente aceita as coisas como são e as executa da melhor maneira possível. E embora não faça aquilo sempre, a rotina lhe é familiar: escolher os melhores cortes da carne, preparar as peças a seu modo, colocar na churrasqueira. Fazer o arroz e os acompanhamentos, tudo é parte do ritual. Quando boa parte da refeição já está encaminhada, Messi surge na varanda. Não tocou a campainha, não avisou antes, não foi anunciado: é de casa.

Ele e Suárez nem mesmo se cumprimentam, nem um “oi”, nada além de uma rápida de troca de olhar. Não é como se ficassem mais do que seis horas por dia sem se falar ou se ver, logo a proximidade constante torna tais formalidades desnecessárias. Messi traz uma embalagem de um açougue caro da cidade e a coloca na mesa. Suárez avisa que a mulher não estará presente porque está cuidado do filho mais novo, que está febril. A isso Messi também não responde, apenas acena com a cabeça. Inspecionando a embalagem recebida, Suárez comenta contrariado que já tem daquele corte, muitos quilos, todos já descongelados e prontos para irem ao fogo. “Não descongela esse, então”, Messi responde na defensiva, “deixa para fazer outro dia”.

Visivelmente incomodado pela falta de compromisso do amigo com seus rituais culinários, Suárez dá de ombros e volta a mexer nos espetos na churrasqueira, calado. Messi se acomoda por perto, braços cruzados, olhos atentos ao que o amigo faz. Mas não comenta nada, já deu bola fora com aquilo da carne “repetida”. Está com fome, o pior é isso, e acredita que o almoço ainda vai demorar. Questionar isso seria insanidade, no entanto. Suárez está bravo e, no fim das contas, deve saber o que está fazendo. Suárez sempre sabe.


Isso poderia ser um trecho de uma fanfic #Messuarez minha (pode ser que ainda se torne), mas não é. Se trata de uma cena de MatchDay: Inside FC Barcelona, série documental que estreou na Netflix agora em maio. Chegando nesse ponto, inteligente como só você é, já deve estar claro do que se trata: um longo apanhado de cenas de bastidores do clube, com momentos inéditos capazes de dar um boost na criatividade de qualquer fanfiqueira. Temos todos os detalhes da temporada 18/19 do clube da Catalunha e muita romantização a respeito desse que é um dos maiores times de futebol do mundo.

Sedenta por qualquer imagem em vídeo que mostre Suárez olhando para Messi com aquela mistura indelével de amor e ódio, absorvi compulsoriamente cada um dos oitos episódios disponíveis, levando seu conteúdo mais a sério do que seu próprio e improvável narrador, John Malkovich. Ao final, me sinto absolutamente desnorteada e pronta para escrever mais 25 fanfics, sendo que uma delas invariavelmente terá um delírio sobre Suárez fazendo um churrasco privê para seu amor Lionel Messi.

E tendo assistido ao que eu assisti em MatchDay: Inside FC Barcelona, fica até óbvio que seria assim. Cenas de bastidores, campeonatos ganhos, derrotas humilhantes, crianças iguais aos pais, jovens com suas tatuagens horríveis e penteados duvidosos decidindo o futuro de um time milionário. É claro que eu viraria refém desse conteúdo e foi o que aconteceu. Bom, o que eu esperava?

Assim como o próprio clube que documenta, MatchDay é um produto perfeito, asséptico, coeso e visualmente reconfortante. É o ASMR do documentário, assim como o Barcelona é o ASMR do futebol: é tudo tão bonito e certo que seu coração se acalma tão logo as cores azul e vermelho dominam a tela, pois você sabe que tais cores são sinônimo de paz e “nada pode dar errado”.

Narrada por John Malkovich (não pergunte), a série cobre a temporada 2018/2019 do Barcelona, dando conta da sua disputa pelos títulos dessa fase, o que inclui eventuais eliminações dolorosas cercadas de traumas. Cada episódio conta uma dessas batalhas (sempre os jogos cruciais, nunca as partidas que os levaram até ali) e traz um personagem de apoio para desenvolver a trama, como um torcedor com uma história de vida que se conecta com o Barça de maneira lacrimosa, um funcionário do clube que é muito carismático ou simplesmente um doidinho que viaja atrás do Barcelona onde quer que ele vá. Costurando a trama desse personagem anônimo com a de algum jogador decisivo na partida em questão, o mote da série é humanizar o clube, ao mesmo tempo em que nos presenteia com cenas de bastidores que parecem muito exclusivas, mas são, verdade seja dita, apenas aquilo que eles quiseram mostrar.

Sergi e Busquets, dois lordes carismáticos e bons.

Mas o que cativa mesmo em MatchDay, além da adorável pausa dramática que o americano Malkovich faz antes de falar qualquer nome latino especialmente complicado como Coutinho, é ver a trajetória de alguns personagens menos incensados pela torcida ou grande mídia, como Aleña, o francês Lenglet e o próprio Coutinho. Ofuscados pelas estrelas maiores do elenco, esses jogadores têm no documentário um espaço para mostrar a paixão pelo clube e o peso pessoal que é jogar em um time de tal porte.

E, claro, é incrível ver o Piqué se confirmando como o personagem goofy do cast, Suárez o gigante de bom coração e Messi, bom, Messi sendo o Messi e respondendo assim 🥺 a toda e qualquer interação. São os arquétipos que conhecemos brevemente pelos jogos e entrevistas e se confirmam nas cenas de bastidores de acelerar o coração, como aquela do Suárez puto no vestiário porque o Diego Costa xingou o Messi ou o Piqué sendo zoado por suas investidas fashion questionáveis a cada vez que chega para jogar.

Além de, cacetada, poder ver a reação da Shakira, esposa de Piqué, e o filho Milan, à derrota do Barcelona para o Liverpool por 4 a 0, que custou a eliminação do Barça na edição de 2018/2019 da Champions.

O fato do documentário trazer um episódio inteiro sobre essa eliminação histórica foi, inclusive, motivo para uma boa polêmica. Quando do lançamento da série, primeiro para Rakuten TV ainda em novembro do ano passado, os torcedores questionaram a necessidade de dar tanto destaque à um momento vexatório na história do clube. Mas olhando a série como um todo, que conta uma história tão perfeita e exemplar, o fato de eventos menos nobres terem seu espaço parece mais como proposital do que descuido: a intenção aqui também parece ser humanizar o clube, mostrando que mesmo o Deus Todo Poderoso Barcelona é passível de falhas.

No mais, momentos deliciosos que jamais esqueceremos. Os títulos muito almejados, o Messi freando o carro no sinal e encarando o Suárez enquanto conversam sobre uma caneleira, Piqué chegando de terno para um treino normal, o roupeiro do Barcelona que é best do Rakitic. Ao longo de suas quase 8 horas de duração, MatchDay: Inside FC Barcelona entrega uma narrativa perfeita até em seus erros, confortável e plasticamente indefectível.

É o Barcelona sendo o Barcelona. Bom, o que eu esperava? É perfeito.