Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Resenhas, Séries

MATCHDAY INSIDE FC BARCELONA: Bom, o que eu esperava?

Série documental sobre clube de futebol massacra jovem, entenda:

Dizer que Luis Suárez fez um churrasco em casa em um domingo de 2018 é spoiler? Então, sim, esse texto contém spoilers.

Suárez nem mesmo cogita deixar o som ligado enquanto faz seu trabalho. Não se preocupa em criar um ambiente, esse conceito é supérfluo se o que se pretende ali é ser tão verdadeiro quanto possível. Suárez não é de criar ambientes, ele simplesmente aceita as coisas como são e as executa da melhor maneira possível. E embora não faça aquilo sempre, a rotina lhe é familiar: escolher os melhores cortes da carne, preparar as peças a seu modo, colocar na churrasqueira. Fazer o arroz e os acompanhamentos, tudo é parte do ritual. Quando boa parte da refeição já está encaminhada, Messi surge na varanda. Não tocou a campainha, não avisou antes, não foi anunciado: é de casa.

Ele e Suárez nem mesmo se cumprimentam, nem um “oi”, nada além de uma rápida de troca de olhar. Não é como se ficassem mais do que seis horas por dia sem se falar ou se ver, logo a proximidade constante torna tais formalidades desnecessárias. Messi traz uma embalagem de um açougue caro da cidade e a coloca na mesa. Suárez avisa que a mulher não estará presente porque está cuidado do filho mais novo, que está febril. A isso Messi também não responde, apenas acena com a cabeça. Inspecionando a embalagem recebida, Suárez comenta contrariado que já tem daquele corte, muitos quilos, todos já descongelados e prontos para irem ao fogo. “Não descongela esse, então”, Messi responde na defensiva, “deixa para fazer outro dia”.

Visivelmente incomodado pela falta de compromisso do amigo com seus rituais culinários, Suárez dá de ombros e volta a mexer nos espetos na churrasqueira, calado. Messi se acomoda por perto, braços cruzados, olhos atentos ao que o amigo faz. Mas não comenta nada, já deu bola fora com aquilo da carne “repetida”. Está com fome, o pior é isso, e acredita que o almoço ainda vai demorar. Questionar isso seria insanidade, no entanto. Suárez está bravo e, no fim das contas, deve saber o que está fazendo. Suárez sempre sabe.


Isso poderia ser um trecho de uma fanfic #Messuarez minha (pode ser que ainda se torne), mas não é. Se trata de uma cena de MatchDay: Inside FC Barcelona, série documental que estreou na Netflix agora em maio. Chegando nesse ponto, inteligente como só você é, já deve estar claro do que se trata: um longo apanhado de cenas de bastidores do clube, com momentos inéditos capazes de dar um boost na criatividade de qualquer fanfiqueira. Temos todos os detalhes da temporada 18/19 do clube da Catalunha e muita romantização a respeito desse que é um dos maiores times de futebol do mundo.

Sedenta por qualquer imagem em vídeo que mostre Suárez olhando para Messi com aquela mistura indelével de amor e ódio, absorvi compulsoriamente cada um dos oitos episódios disponíveis, levando seu conteúdo mais a sério do que seu próprio e improvável narrador, John Malkovich. Ao final, me sinto absolutamente desnorteada e pronta para escrever mais 25 fanfics, sendo que uma delas invariavelmente terá um delírio sobre Suárez fazendo um churrasco privê para seu amor Lionel Messi.

E tendo assistido ao que eu assisti em MatchDay: Inside FC Barcelona, fica até óbvio que seria assim. Cenas de bastidores, campeonatos ganhos, derrotas humilhantes, crianças iguais aos pais, jovens com suas tatuagens horríveis e penteados duvidosos decidindo o futuro de um time milionário. É claro que eu viraria refém desse conteúdo e foi o que aconteceu. Bom, o que eu esperava?

Assim como o próprio clube que documenta, MatchDay é um produto perfeito, asséptico, coeso e visualmente reconfortante. É o ASMR do documentário, assim como o Barcelona é o ASMR do futebol: é tudo tão bonito e certo que seu coração se acalma tão logo as cores azul e vermelho dominam a tela, pois você sabe que tais cores são sinônimo de paz e “nada pode dar errado”.

Narrada por John Malkovich (não pergunte), a série cobre a temporada 2018/2019 do Barcelona, dando conta da sua disputa pelos títulos dessa fase, o que inclui eventuais eliminações dolorosas cercadas de traumas. Cada episódio conta uma dessas batalhas (sempre os jogos cruciais, nunca as partidas que os levaram até ali) e traz um personagem de apoio para desenvolver a trama, como um torcedor com uma história de vida que se conecta com o Barça de maneira lacrimosa, um funcionário do clube que é muito carismático ou simplesmente um doidinho que viaja atrás do Barcelona onde quer que ele vá. Costurando a trama desse personagem anônimo com a de algum jogador decisivo na partida em questão, o mote da série é humanizar o clube, ao mesmo tempo em que nos presenteia com cenas de bastidores que parecem muito exclusivas, mas são, verdade seja dita, apenas aquilo que eles quiseram mostrar.

Sergi e Busquets, dois lordes carismáticos e bons.

Mas o que cativa mesmo em MatchDay, além da adorável pausa dramática que o americano Malkovich faz antes de falar qualquer nome latino especialmente complicado como Coutinho, é ver a trajetória de alguns personagens menos incensados pela torcida ou grande mídia, como Aleña, o francês Lenglet e o próprio Coutinho. Ofuscados pelas estrelas maiores do elenco, esses jogadores têm no documentário um espaço para mostrar a paixão pelo clube e o peso pessoal que é jogar em um time de tal porte.

E, claro, é incrível ver o Piqué se confirmando como o personagem goofy do cast, Suárez o gigante de bom coração e Messi, bom, Messi sendo o Messi e respondendo assim 🥺 a toda e qualquer interação. São os arquétipos que conhecemos brevemente pelos jogos e entrevistas e se confirmam nas cenas de bastidores de acelerar o coração, como aquela do Suárez puto no vestiário porque o Diego Costa xingou o Messi ou o Piqué sendo zoado por suas investidas fashion questionáveis a cada vez que chega para jogar.

Além de, cacetada, poder ver a reação da Shakira, esposa de Piqué, e o filho Milan, à derrota do Barcelona para o Liverpool por 4 a 0, que custou a eliminação do Barça na edição de 2018/2019 da Champions.

O fato do documentário trazer um episódio inteiro sobre essa eliminação histórica foi, inclusive, motivo para uma boa polêmica. Quando do lançamento da série, primeiro para Rakuten TV ainda em novembro do ano passado, os torcedores questionaram a necessidade de dar tanto destaque à um momento vexatório na história do clube. Mas olhando a série como um todo, que conta uma história tão perfeita e exemplar, o fato de eventos menos nobres terem seu espaço parece mais como proposital do que descuido: a intenção aqui também parece ser humanizar o clube, mostrando que mesmo o Deus Todo Poderoso Barcelona é passível de falhas.

No mais, momentos deliciosos que jamais esqueceremos. Os títulos muito almejados, o Messi freando o carro no sinal e encarando o Suárez enquanto conversam sobre uma caneleira, Piqué chegando de terno para um treino normal, o roupeiro do Barcelona que é best do Rakitic. Ao longo de suas quase 8 horas de duração, MatchDay: Inside FC Barcelona entrega uma narrativa perfeita até em seus erros, confortável e plasticamente indefectível.

É o Barcelona sendo o Barcelona. Bom, o que eu esperava? É perfeito.

Contos

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 05: Something positive

Diga algo positivo

um conto fanficcional por Tati Lopatiuk

O caminho de volta do trabalho para casa era tão curto que muitas vezes eles precisavam pegar um desvio e parar em algum acostamento, se quisessem passar mais tempo juntos. Faziam isso tantas vezes que nem era mais uma fuga, era sabido por suas esposas que os esperavam em casa, era tudo um grande segredo que qualquer um podia ver. E ainda assim, aparentemente ninguém via.

Dois bons amigos que gostavam de conversar. Só isso.

Quando o carro encosta no meio-fio, logo desliga, como em um anúncio de algo solene prestes a começar. Suárez, diante do volante, respira fundo. Ou diz agora ou não diz nunca. Se conhecendo como se conhece, aposta que não dirá nunca. A desconfiança o corrói, morde o lábio, sabe que nem precisa contar até dez, conta um, dois, três, quatro e… Messi finalmente fala:

— Diga algo positivo. Você só vê o lado ruim de tudo, está sempre bravo, sempre de mau humor.

— O que de bom há para ser dito? Você toda hora lesionado, o meu rendimento baixo. E ainda tem esse cara.

— Esse cara não é ninguém, ele não vai ser um problema.

— Esse cara — Suárez imita o tom com desdém — já é um problema. Caso contrário, não estaríamos aqui discutindo.

— Só você está discutindo. Deus, como você é possessivo!

— Adoro como você tergiversa para não precisar falar a sério comigo. Messi, você não é nem louco de me aprontar uma dessas, hein. Você sabe disso. Nem ouse.

— Adoro como você tem tentado palavras novas.

Eles riem. Desde que Griezmann entrara para o time, o clima entre os dois estava estranho. Desde antes disso, na verdade. Nas férias de temporada, a viagem para Ibiza tinha sido uma tentativa de colocar as coisas no lugar. Não dera exatamente certo. Viajar com as famílias era sempre complicado. Ficar se escondendo pelos cantos, procurando oportunidades de estarem à sós, tudo isso mais desgastava do que era instigante.

E afinal, já fazia cinco anos que viviam assim, entre idas e vindas. Sempre que pensavam em como tornar mais simples o que tinham, algo surgia e complicava ainda mais. O ano de 2019 não estava sendo exatamente generoso com eles. Mesmo com os prêmios ganhos, Messi ainda pairava com um imenso ponto de interrogação sob si: as lesões constantes não deixavam ele entrar em um ritmo em que se pudesse confiar. Em um efeito dominó, que só denunciava o quanto eram ligados, Suárez rendia muito menos sem Messi por perto.

Estavam em uma situação ruim, era isso. Secretamente, Messi desejava que Neymar Jr. voltasse ao time. Se pudessem ter o trio MSN de volta, quem sabe tudo voltasse a ser como era antes. Mas não podia dizer isso a Suárez, sabia o quanto o uruguaio era ciumento. E além do mais, nem ele tinha tanta certeza assim se estava pronto para desenterrar esses sentimentos todos. Precisava aceitar que Neymar era passado. Agora ele e Suárez estavam juntos e bem. Quase bem. Inegavelmente juntos.

Até Griezmann surgir, claro. Suárez se vira no banco do carro, para encarar Messi melhor. Nunca poderá dizer tudo o que sente, seria se expor demais e ele tem o seu orgulho. Precisa achar um jeito de dizer o que consegue, de forma que doa menos.

— Diga logo, você e o Griezmann. Eu preciso me preocupar ou não?

— Com o que você precisaria se preocupar? — Messi quase ri, fingindo surpresa.

— Conheço você. Sei que adora uma novidade.

— Luis, por favor. Olha a situação em que estamos. Você acha que eu preciso de mais problemas?

— Você não arranja problemas porque precisa. Arranja porque gosta deles.

— Nisso preciso concordar com você.

Suárez ainda está de cara fechada quando Messi toma seu rosto entre as mãos e beija seus lábios. Isso não era tergiversar, o argentino dizia o que dizia de coração. No entanto, o coração de Messi, e ele próprio sabia disso como ninguém, não era a mais constante das bússolas. Entre dizer algumas verdades e esconder outras, Leo encontrava seu jeito de deixar a todos felizes, de alguma forma. Não era o melhor dos cenários, mas olhando de uma maneira mais ampla, quando é que tudo foi perfeito? Nunca foi perfeito. Ele faz o que pode, acredita, enquanto envolve o uruguaio em seus braços, intensificando o beijo, ali no carro parado em uma rua escura, prometendo tudo o que ele já sabe de antemão que não poderá cumprir.


Suárez está terrivelmente bravo, está no seu limite. Arruma suas coisas com pressa, no vestiário, depois do jogo. Messi não fala nada, sabe que nessas horas é melhor nem insistir. Já disse mil vezes que não há nada entre os dois, mas no jogo de hoje, quando seu passe resultou em um gol de Griezmann, e os dois correram para os braços um do outro, olhos nos olhos e só sorrisos, ficou difícil manter o clima ameno.

Tenta uma última vez, correndo atrás de Suárez antes que este deixe o vestiário. Não pode ser tão direto quanto gostaria, se limita a segurar seu braço e lhe pedir que espere para que possam ir embora juntos. O uruguaio nega, respondendo entre dentes que Messi está por conta própria.

Típico, Messi pensa, e volta para o seu lugar. Não está nem surpreso. Sabe como o uruguaio é. Sentado no banco, apoia os cotovelos nos joelhos e afunda o rosto nas mãos. Deus, como era difícil.

— Ele descobriu, não foi?

A voz de Griezmann tira Messi de seus devaneios culpados. Erguendo a cabeça, encontra o rosto do francês tão próximo do seu que é quase engraçado, uma cena de cartoon. Se afasta minimamente no banco. Alguns jogadores ainda terminam de se arrumar, saindo dali em seguida.

— Não há nada para ninguém descobrir.

— Passei da conta hoje, eu admito.

— Na situação que estamos, conseguir marcar um gol é algo de perder o juízo mesmo. Não culpo você.

— Você sabe que não foi só por conta do gol…

A mão de Griezmann pousa suave na coxa de Messi. Agora estão sozinhos ali, o que faz o coração do argentino acelerar. Quando foi que tudo aquilo começou? Ah, sim. Um beijo roubado saindo do chuveiro, primeiro ele achou que era brincadeira, vai entender esses franceses, e então… Puxa vida, era mesmo Griezmann beijando-o em pleno vestiário. Foi tão instantâneo e tão forte que imediatamente se tornaram reféns daquilo, sempre buscando por mais.

Como agora. Mais uma vez, Messi cede e se deixa ser beijado, antevendo a sensação na qual rapidamente se viciou: o prazer de fazer algo proibido, errado. É tudo sobre isso, e sem isso não sobra mais nada.

Que o diga sua relação com Suárez, ultimamente.

Messi pega a mão de Griezmann e a segura entre as suas. Quer dizer o que pensa e colocar limites no que está acontecendo entre eles, mas a cor da pele de Griezmann é tão bonita. Branca, quase translúcida nos punhos, transparecendo suas veias. Se perde um pouco nisso, subindo o olhar e encarando aqueles olhos verdes, emoldurados pelo cabelo loiro ondulado e cheiroso. Fica difícil ser sério, ser honesto ou justo. Tudo fica um pouco nebuloso, aproveita essa incerteza e não faz nada além de aceitar, quando o francês o puxa pela nuca e o beija mais uma vez. Cede com uma facilidade que é constrangedora.

— Hoje à noite, na minha casa de novo. Posso esperar você?

— Griez, não. Você sabe que é melhor a gente parar com isso agora, antes que tudo fique pior.

— Pior? Não vai ficar pior, vai ficar melhor!

A insistência dele é cômica e lisonjeira, mais um beijo e Messi assume que não tem controle algum. Sente que está se afundando em mais um problema, Suárez sempre esteve certo em sua desconfiança, tem dificuldade em aceitar isso. Mas como ser desejado por um homem tão lindo pode ser um problema? Muitos beijos depois, segura os pulsos de Griezmann como forma de contê-lo e pede que ele vá embora. Não sem antes prometer, é claro, que irá na casa do francês mais tarde, como tem feito quase todas as noites desde que ele entrou para o time.

— Antoine — Messi chama, antes que o jogador deixe o vestiário —, me diga algo positivo.

— Estamos longe da nossa melhor versão, mas tudo ficará melhor. Com o tempo, ficará melhor.

— Sem essa ladainha de atleta. Me diga algo verdadeiro.

Je crois vraiment en nous deux. — Griezmann sorri, achando graça. Não são de falar muito e, além do mais, precisam constantemente fingir que praticamente se odeiam, para alimentar a imprensa e acalmar as desconfianças de Suárez.

Sorrindo, Griezmann fica dolorosamente mais bonito, se é que isso é possível. Messi levanta do seu banco e vai até ele, o beijando por iniciativa própria, isso sim algo inédito entre os dois. Feliz com o gesto, Griezmann o beija mais, pressionando seu corpo contra a porta fechada do vestiário. É com uma força sobre-humana que Messi consegue convencê-lo a parar por ali para continuar depois, na casa do francês.

Em silêncio e sozinho no vestiário, Messi decide contar até dez antes de ir embora. Sai dali antes que a contagem chegue ao número cinco.


Já em casa, Suárez tem uma iluminação. Repensa sua postura mais cedo, decidindo ser menos emburrado, tentar ver o lado bom das coisas. Dar o braço a torcer não pode ser tão ruim, certo? Pega o celular e chama pelo número privado de Messi, disposto a dizer que tudo vai ficar bem.

A ligação cai direto na caixa postal. Em cinco anos, isso nunca aconteceu antes. Nunca, nunca mesmo. Tenta mais uma vez. Caixa postal, de novo. Suárez devolve o celular para o bolso, atordoado. Se joga no sofá. Olha para o teto, pensando.

Percebe que está cravando as unhas nas palmas das mãos, raivoso. É claro que mudar sua postura não vai adiantar de nada, se Messi nunca muda. É tão cansativo, e tão previsível.

Tenta de novo. Mesma coisa, a ligação cai direto. Nota as palmas das mãos já machucadas. Impossível continuar se sentindo assim. Quem sabe sua intuição esteja errada, mas se estiver certa, é a coisa mais óbvia que poderia acontecer. Ser pessimista tem esse mérito, Luis pensa, o faz antecipar tanto os piores cenários que eles até se naturalizam em sua cabeça, causando pouco menos do que tédio quando se tornam reais.

Decide que não vai tentar telefonar novamente. É algo simples de ser resolvido, afinal de contas. É quase trivial, se você for ver. Levanta de supetão do sofá e pega as chaves do carro. Sabe onde Griezmann mora e sabe que ele mora sozinho. Sabe que Messi jamais deixaria de atender o número privado que eles têm e sabe quando ele está mentindo. Não é difícil juntar uma coisa e outra.

Vai ser rápido acabar com tudo isso. Vai ser bom, e no fim, vai ser uma coisa positiva.

Vai ser uma coisa positiva, como Messi gosta, Suárez diz para si mesmo.

Acelerando o carro e ganhando a rua, Suárez não consegue deixar de sorrir.

Processo Criativo

Exercitando a escrita: sem medo do mudar um pouquinho os rumos

Imagem: Death to Stock

Ou como escrevi uma história de 11 mil palavras em 20 dias

Trabalhando de casa há quase três meses, percebo a minha criatividade brotar nos momentos mais inesperados. E percebo também que já não tenho mais tanto medo dela, deixo as ideias chegarem e tento tratar de resolver o conflito de “escrevo ou não escrevo?” o quanto antes e da maneira mais prática possível: escrevendo. Não tem jeito, o único jeito de fazer é fazendo.

Eu estava no meu horário de almoço, assistindo na TV a um jogo do Barcelona do dia anterior. Macarrão e carne moída escorriam com o calor (guardem essa frase), quando a câmera deu um close no rosto do Messi. O jogador argentino parecia triste com algo que não podíamos adivinhar, mas parecia vir de fora das quatro linhas. Eu pensei:

Cara, o Messi deve estar triste demais sem o Neymar.

No dia seguinte, eu já tinha 500 palavras de uma fanfic sobre a saída do Neymar para o PSG e como isso afetou sua relação com o Messi. Eu não queria escrever uma fanfic naquele momento. Eu não queria escrever nada. Tentei por 24 horas fugir de escrever essa história. Eu tenho mais o que fazer e, além do mais, quem é que precisa de uma fanfic em pleno 2017? E, no entanto, lá estava eu, empolgadíssima com pesquisa, ideias de estrutura para o livro e onde poderia hospedá-lo.

Messi e Neymar. Só de pensar dá um pouquinho de vergonha. Mas, caramba, a ideia era tão boa! Pensando com cinismo, tudo isso é um pouco ridículo. A coisa é que eu não conseguia parar de pensar nessa ideia. Tentei negociar. Escrever aquela história me era irresistível e eu podia resolver rapidinho, contanto que começasse logo. Então, fiz um acordo comigo mesma de terminar com isso de uma vez, tirar aquela ideia da frente para poder voltar para a outras em que já estava trabalhando.

Estou desde o começo do ano revisando livros que escrevi de 2014 em diante. Atualmente na revisão do quinto livro (são seis) e quase terminando, me vi em um ponto em que já estava saturada. Ainda amo aqueles personagens e suas histórias, mas sinto que já tive o tanto deles que era bom. Meu senso de continuidade (existe isso?) me cobra, diz que não posso deixar esse trabalho sem conclusão, preciso terminar essa revisão, colocar tudo no ar e aí seguir em frente. A grande questão é que pode acabar se tornando desmotivador confrontar diariamente uma escrita de quase cinco anos atrás. Embora eu ainda me reconheça nela, mudei muito meu modo de pensar uma história, e muitos vícios de escrita que eu tinha quando comecei me incomodam hoje. Olhando com objetividade o que escrevi nos meus primeiros livros, consigo enxergar todas as minhas intenções por trás de cada linha e ainda que esteja meu coração ali, nem de longe aquela escrita representa como eu escreveria um livro agora.

Então, durante a revisão dos livros, sempre me vinha um pensamento: “eu não escreveria assim hoje”. E de tanto pensar, se tornou uma provocação. Como você escreveria, então? Após aquelas primeiras 500 palavras, percebi com surpresa e muita alegria que a ideia da fanfic #NeyMessi era uma alternativa rápida de provar para mim mesma que meu caminho mudou. E isso me motivaria a voltar para a revisão com mais confiança assim que terminasse essa história em particular.

Comecei no dia 05 de novembro e terminei no dia 25 do mesmo mês. Foram quase doze mil palavras. Nesses 20 dias de intensivão de escrita, me diverti horrores, me atormentei entre me considerar um gênio e um lixo, e me realizei ao ver que posso escrever sobre o que eu quiser. Veja, não é que eu saiba escrever sobre o que eu quiser. Mas eu posso. Não preciso me justificar ou esperar aprovação alheia. Não preciso nem mesmo fazer sentido. Eu faço isso por mim e posso fazer o que eu quiser.

Rápido como começou, o desafio terminou. Hoje o livro está sendo lançado e está do jeito que eu queria que ele fosse, sem tirar nem pôr. E estou feliz demais por ter me permitido seguir em frente com essa ideia, mesmo que a princípio ela parecesse tão fora do que eu podia ou precisava.

Aprendi duas coisas ao escrever esse livro: um livro nunca é sobre o que você acha que é. E você só vai descobrir sobre o que é o seu livro escrevendo-o. Não tem como ficar divagando, imaginando, pensando como seria. Essa ideia vai te assombrar pelo resto da vida e te deixar empacado nela. Escreva logo a porcaria do livro, do artigo, do conto, do textão. Escreva logo e ao invés de ter uma grande e nebulosa ideia na gaveta, tenha dezenas de pequenas grandes ideias espalhadas por aí que postas em prática te prepararão para a Grande Ideia Definitiva que ainda chegará. Não se esqueça que escrever é um exercício no qual você fica melhor com a prática. E não tem como escrever dez livros sem escrever primeiro um.

(se bem que eu acho que essa Grande Ideia Definitiva nunca chega, porque quando ela parece vir, você já quer outra coisa, veja o meu caso, desesperada com cada nova ideia que tenho).

PS: Ah, sim. O livro está disponível completo gratuitamente no Wattpad. Macarrão e carne moída escorriam com o calor é uma das frases do capítulo inicial dele. Achei que merecia essa piada interna, depois de tanta loucura. 🙂