Contos

Um novo começo

Photo by Vladyslav Dukhin from Pexels

Apagou o cigarro pisando na guimba no chão. Esfregou o tênis contra a brasa que morria, se sentindo um caubói mal-humorado e perigoso. Riu com a ideia. A jaqueta jeans de manga em moletom, com capuz, o deixava a anos-luz daquele conceito. A calça jeans justinha, pior ainda. A camiseta com sacadinha de Game of Thrones, então…Nada poderia ser mais inofensivo do que ele. Acendeu outro cigarro, no automático. E esperou.

Vinda de outro lado da cidade, ela tentava encontrar o encaixe exato com o qual o fone de ouvido funcionaria. Aquela porra estava com mau contato. Vítima de uma gripe recente, sentia sua voz ridiculamente rouca. Pigarreou alto no metrô, incomodada, as pessoas ao redor olharam assustadas, achando que ela ia falar algo. Não falou. Mais oito estações até a hora de descer.

Um morador de rua passou, procurando lugar para dormir. Era tarde para ficar na rua assim de bobeira. Para ele era bem claro que jamais estaria nessa se não fosse por ela. No finalzinho de abril, estaria indo embora da cidade, mas antes lhe devia isso. Cruzou os braços contra o frio inesperado daquele meio de março. Mesmo agora era frio demais para o seu gosto. Se ela viesse logo, seria melhor. Botou na cabeça que nem ia falar disso, era preferível falar o menos possível com ela. Estavam sempre brigando.

Quando ela chegou, riram ao perceber que a camiseta dela também era de Game of Thrones. Inferno de série imbecil, ela pensou. Trocaram um cumprimento rápido e desencontrado, apesar de toda intimidade que poderiam ter, era como se já não tivessem mais nenhuma. Foram andando lado a lado, sem mais esperar.

_Veio sem blusa, vai morrer congelada.

_ Mané morrer.

_ Já sabe se vão deixar mesmo você fazer isso?

_ Se vão deixar?

Como bem sabia, o caubói mal-humorado da história deles era ela. De canto de olho, notou com ela parecia abatida, os cabelos loiros caindo pelo rosto formando uma cortina apática. Era sempre pior tentar falar algo, ela levava tudo para o pessoal. Suspirou, tirando a jaqueta e colocando em seus ombros. Ela não agradeceu e nem parou de andar para vestir a peça, assumindo a gentileza dele como um gesto esperado.

_ É aqui. – Ela parou subitamente, apontando com o queixo o prédio à frente.

_ É aqui? Tão perto do meu trabalho.

_ Eu disse pra você.

_ Arriscado, hein.

Ela revirou os olhos, como sempre fazia quando ele tentava falar a sério. Interfonou e o porteiro autorizou que subissem. O elevador fazia um barulho estranho, foram dezessete andares de medo disfarçado para ambos. Morrer ali seria tão ruim quanto em qualquer outro lugar, mas morrer justo naquela noite parecia muito desperdício.

A chave ainda era aquela, funcionava na fechadura. Ela sorriu, feliz por ter previsto certo. Entraram no apartamento em silêncio furtivo. A preocupação dele era que o prédio devia ter câmeras e lógico que sabiam quem ela era, embora ele estivesse no lugar pela primeira vez. Mas em abril, iria embora. Em menos de um mês, quem sabe até antes, repetiu para si mesmo, como um mantra.

Girou nos calcanhares, assobiando baixinho. Era um puta apartamento. Pé direito alto, espaço enorme, móveis chiques. A vista era incrível, toda a cidade se abrindo naquele princípio de madrugada em um sem-fim de prédios altos e imponentes. Na sala, tinha até um piano. Imaginou como seria tocá-lo. Ela leu seu pensamento.

_ Não fode. Nem pense em encostar em nada. Não se distraia.

Ele guardou as mãos no bolso, enquanto a via entrar pelo corredor adentro. Sabia que tinham pressa, o cara devia voltar só no outro dia, mas também podia ser que voltasse a qualquer momento. Com suavidade, passou os dedos pelo piano, ensaiando abrir a tampa e tocar as teclas. Sentiu um arrepio como se quisesse roubar também a vida do dono do apartamento, entre todas as outras coisas.

Alguns minutos depois, ela voltou, com a mochila notavelmente cheia e os braços abarrotados. Ele tirou a mochila dele das costas e abriu o zíper, recebendo das mãos dela os bolos de notas de dinheiro.

_ Quanto tem aqui?

_ Cinquenta mil.

_ E você pegou quanto pra você?

_ Cinquenta mil também.

Ele engoliu em seco. Queria perguntar como tudo aquilo era possível, e que ela lhe garantisse mais uma vez que tudo era seguro. Mas quem sabe fosse melhor saber o menos possível, racionalizar o menos possível. Mais uma vez, ela leu seus pensamentos.

_ Não dá nada. É dinheiro sujo que ele esconde pro pai dele. Vai levar um mês até perceber que sumiu e, se der falta mesmo, nem vai poder falar nada. Não tem pra quem reclamar.

_ Ele vai saber que foi você.

_ Foda-se. Eu sei coisas dele. Acredita em mim, por tudo o que eu vi nesses seis meses de namoro, cem pau tá até de graça.

_ E se ele vier atrás de você?

_ Não vem, caralho. Já disse. Sei coisas dele.

O cabelo dela caiu de novo na cara, feito a cortina suja que era. Para ele, era como se ela nunca tivesse crescido, então era espantoso ver a criança que brincou com ele a infância toda agora lhe explicando calmamente como se daria aquele roubo. Não haverão consequências, ela disse, firme, ajudando ele a fechar a mochila lotada. Já tivemos essa conversa mil vezes, se acalma, ela murmurou, tensa, vendo que ele tremia ao colocar a mochila nas costas. Ele assentiu.

Pegaram o elevador sacolejante em silêncio, ela ia pedindo ao Uber que os buscasse dentro da garagem do prédio. Perigoso ser assaltado com essa grana toda, ela justificou, rindo um pouco da ironia da coisa. Gostava quando ela ria, era como uma ideia inesperada de que a vida poderia se tornar mais fácil. Mas no rosto dela o sorriso nunca combinava, o problema era esse, não encaixava direito. Era como tentar colocar cor em um filme que ele só conhecera em preto e branco.

Cinquenta mil não era exatamente uma fortuna. Não era um dinheiro que duraria para sempre. No entanto, ia ajudar naquele recomeço. Se sentia culpado por sentir a euforia querer invadir seu coração. Porra, cinquenta pau. Dava para ficar mais tranquilo, viver um pouco.

_ Quando você vai embora?

A voz dela, sempre dura e agora ainda mais cortante pela gripe, o tirou de seus devaneios.

_ Mais pro final do mês que vem. Quem sabe antes.

_ Vá antes.

_ Tá.

Teve vontade de abraçá-la, dizer que de qualquer modo as coisas dariam certo. Dizer “tudo vai dar certo” era algo tão vago que até cabia, no entanto ele nunca dizia essas coisas e ficaria estranho dizer justo ali. Ao seu lado no Uber, ela se fechava em si mesma, se encolhendo com frio dentro da jaqueta dele. O que ela pensava de verdade era inescrutável. Tentou acalmar seu coração lembrando o que dissera o terapeuta: busque primeiro compreender o que você sente, antes de querer adivinhar o sentimento do outro.

O motorista deixou ele em casa primeiro, a casa dela ainda era tão longe que a corrida ia dar uma bica. Bom, subitamente eles tinham dinheiro. Com a mão na trava da porta, ele quis dizer algo, mas só colocou a alça da mochila de qualquer jeito no ombro e ficou quieto pensando. Foi ela quem disse, afinal.

_ Eu vou embora também. Amanhã mesmo.

_ Tá.

_ Se cuida. A gente volta a se falar em uns meses, tá bom? Eu te procuro.

_ Tá bom.

_ Você vai ficar bem?

Não gostava como o modo dela dizer isso automaticamente fazia ele se sentir pequeno, indefeso, sempre protegido por ela, o que era verdade mesmo agora que eram adultos. Seus olhos se encheram de lágrimas sem motivo. Ela cedeu, envolvendo o pescoço dele em um abraço sem jeito. O motorista esperava.

_ Vai ficar tudo bem, tá? Vai embora logo. Se cuida.

Ele não respondeu, apenas desceu do carro e seguiu sem olhar para trás. Dava raiva como ela sempre sabia o quanto ele a amava e esperava a retribuição daquele amor nas menores migalhas. Ele era refém do amor dela do jeito mais puro que se podia ser, o que era péssimo para ele e confortável para ela.

Em casa, fumou dois cigarros que achou soltos na estante. O maço ficara na jaqueta, que ficou com ela. Suspirou pensando em novos começos, o medo que carregaria pra sempre por conta daquele furto, as razões que fizeram ele e a irmã se tornarem pessoas que assaltavam casas alheias na madrugada.

Não, não eram pessoas assim. Foi só dessa vez, pensou. Acendendo o terceiro cigarro, começou a fazer as malas. Houve um tempo em que tudo era mais simples, os segredos deles eram pequenos, como onde haviam escondido o pote de bolacha dos primos, se haviam mesmo lavado atrás das orelhas no banho.

Agora havia sobrado só essa existência mesquinha e dura. Desespero de não conseguir emprego, vontade de ir embora, o distanciamento inexplicável entre os dois.

Mas porra, cinquenta mil.

Em meia hora suas malas estavam prontas, se despediu de tudo sem cuidado e sem remorso.

No táxi a caminho da rodoviária, seu corpo se chacoalhou em um soluço de medo que ele não pôde conter. Precisava comprar um maço de cigarro antes de embarcar no ônibus, precisava achar onde ficar, precisava pensar no que faria.

Apertou contra o peito a mochila com o dinheiro, pesada feito seu coração, e sorriu um sorriso meio torto e novo.

Contos

Essa dor que chegou agora

Photo by Giulia Bertelli on Unsplash

Pode ser que não demore a ir embora

Era uma dor que vinha em ondas e caminhava pelo meu corpo todo em procissão. Sabe como? Eu sentia aquela dor andando por mim inteira.

Não sei quando começou, verdade. Mas a coisa é que em poucos dias eu já nem podia lembrar como era a minha vida antes dela.

Apalpava os lugares por onde ela passava. Boca do estômago, até onde alcançava nas costas. Deitava em cima dela na cama, de bruços a dor no peito amainava quando eu a sufocava contra o colchão. Brincávamos de pega-pega, eu e ela. Queria saber antes da dor onde ela me acertaria. Errava sempre.

Deixei ela se tornar minha companheira. Em momentos de indecisão, colocava a mão ao lado do umbigo, na barriga, e sentia pulsar a única certeza que me dizia que eu ainda estava ali. Com dor e com ressalvas, mas viva.

Não era a morte ou algum aviso mais severo. Era apenas uma dor. Simples e constante, humilde até. Uma dor que não desistia de mim.

Desci correndo do ônibus e correndo fui por alguns poucos metros até parar, sem ar. Me recompus e fingi que dor nenhuma existia. Já fez isso também? Fingir, para ver se a dor desaparecia. Me aprumei em meus saltos, um calor desse requer um pouco mais de postura, caso contrário a gente desaba na primeira esquina.

Calor e dor, andando fingindo eu quase esquecia das duas coisas. Parei com a brincadeira quando percebi que ela poderia ir embora. Ela, a dor. Notei que não queria isso. Foi a primeira vez que percebi o quanto eu dependia dela para me sentir viva.

Não quis contar para ninguém o que sentia. Ninguém poderia entender e eu tinha ciúmes só de pensar que alguém entenderia, então qual era o sentido? Usei aquilo como um escudo que me tornava mais valente perante os outros. Na minha cabeça, é claro. Eu e minha dor, eu e minha dor, eu e minha dor.

As estações passaram, uma após a outra. Meses e anos. Pulei na piscina com dor, me embrulhei em cachecóis e blusões com dor. Viajei com dor, amei e passei a detestar, com muita dor. Me acostumei com ela e soube que seria assim para sempre. Aceitei. Passei a gostar de mim assim, passei a me reconhecer assim. A menina que sempre carregava consigo uma dor.

Um dia, aquecida nos cobertores, levei um susto que me gelou o corpo todo. A dor tinha passado.

Assim, do nada, ela foi embora.

Procurei por todos os lugares, sendo os lugares tão poucos. Não estava nas costas e nem na barriga, não tinha corrido para os braços e nem ido para o pescoço. Suspirei, lembrando da vez que a dor tinha ido para o pescoço e eu me amedrontara imaginando que subiria para a cabeça, quando então eu enlouqueceria. Mas já não tinha enlouquecido?

Voltei a dormir. No outro dia, acordei cedo, pus a mesa do café. Sozinha, sozinha mesmo, percebi no segundo gole de chá. A dor tinha desaparecido. Sem vestígios e sem explicações.

Não é estranho como tudo vai ser sempre o mesmo até que não é mais?

Me ajeitei na cadeira, incomodada. Dei um tempo para a dor repensar o equívoco de sua decisão. Me entortei na cadeira, a provocando. Aqui perto da costela, afundei a mão até onde pude, cavando seu caminho. E nada. Nada. Ah, Deus, então era isso.

Aquela dor tinha ido embora, ponto final. Não havia muito o que fazer. Eu teria que procurar outras.

Contos

Aulas práticas para sentimentos teóricos

Photo by Nicole Mason on Unsplash

Algumas lições em poucas tardes de sábado

O ambiente do curso “Narrativas Nucleares: Aprenda a contar as histórias da sua família e se reconecte com seu passado” sempre fora calmo e cheio de boas vibrações, por isso foi um pouco chocante para todos quando aquele rapaz chegou no meio da aula e disse que, sinceramente, todos ali eram uns falsos.

Já era a terceira semana da turma quando ele chegou assim de supetão, então um vínculo já tinha se criado. A chegada do novo aluno desequilibrou o chi, foi o que disse a Aura, uma moça mirradinha com voz tão fina que era quase uma piada. Ninguém ria quando ela falava, entretanto.

Na segunda vez que o rapaz apareceu, tendo ficado desaparecido por dois encontros desde a bomba inicial da pretensa falsidade de todos, foi no dia em que deveriam escrever sobre suas figuras paternas.

Jéssica tinha escrito uma história curta, mil palavras bem espaçadas e tristes, sobre como o pai trabalhava muito e ainda assim tinha tempo de se vestir de palhaço nas festas da família. Leu seu texto com o coração na mão, acreditando que a quebra de parágrafos é recurso de estilo dos mais superestimados. O moço deu uma risada abafada que mais pareceu um soquinho. Doeu.

Quando foi ler o próprio texto, ele apresentou uma alegoria fantasiosa sobre um chefe de família que viaja para o espaço sideral em busca de salvação para o planeta. Jéssica nascera em 1997, mas teve a vaga impressão de já ter visto um filme assim.

A professora, professora não, condutora de aprendizado, disse que o texto do moço tinha sido o mais rico da tarde. Jéssica pensou consigo mesma que deveria ser mesmo o mais rico, quer dizer, Bruce Willis fez quanto de bilheteria em sua fase dourada?

Durante as semanas que se seguiram, o troféu simbólico, imaginário na cabeça dela, de melhor texto do sábado sempre ficava ou para Jéssica ou para o moço. Com três meses de curso, para o próximo encontro semanal, ela prometeu que se esforçaria ainda mais. Mexendo o café com a pazinha antes da aula começar, sua mão tremia. O moço chegou e passou por ela feito um furacão, fazendo até vento, e tomou um assento na roda compartilhada dos alunos. Jéssica foi até lá e sentou do lado dele.

O tema era amizade na época da infância. Jéssica bufou. Nunca pensara muito nas suas amizades de quando criança, era só o pessoal da escolinha e uma menina da vizinhança.

Escreveu sobre essa menina, focando em um detalhe banal, algo sobre a eventual necessidade de se esconder da mãe para não parar a brincadeira quando era hora de voltar para casa. Todos riram, enternecidos. Menos o moço, que compenetrado ainda lutava com as palavras em seu caderno apoiado no joelho.

Jéssica se aprumou na cadeira quando ele chegou na metade da leitura do texto.

“Admito que errei. Você errou também. E o que aconteceu depois, que lástima. Lembro de me sentir roubado quando a nossa amizade parou e todas as suas outras continuaram. Da maneira que eu vi você fazer, o que você fez foi o seguinte: deu para outra pessoa uma chance que poderia tranquilamente ser minha.

Não era sobre os seus princípios, não era “esse perdão eu não posso te dar”. Descobri que não era porque você perdoou erros dos outros que eram muito maiores do que os que cometi, mas não perdoou os meus erros nunca.

Então, não era sobre os erros. Era sobre mim.

“Não é nada pessoal”, você disse quando decidiu que não podíamos mais ser amigos. Pro inferno que não era, caralho.”

“Ah, pronto”, Jéssica pensou quando viu que a condutora de aprendizado lacrimejava. Ele tinha uma mania chata pra burro de ficar tremendo o pé no chão enquanto lia, ela já tinha reparado. Colocou a mão no joelho do moço e perguntou se ele estava bem.

“É muito fácil fingir algo”, ele respondeu, dando de ombros. Pela ampla janela do estúdio térreo que ocupavam, os raios de Sol batiam diretamente no rosto dele. Jéssica colocou a outra mão acima dos olhos para enxergá-lo melhor. Ele sorriu.

No intervalo, todos ficavam em um jardim anexo, com mesas de madeira e um café caríssimo e ruim. Jéssica tentava tirar uma selfie tendo ao fundo a verde cerca viva do ambiente, quando percebeu que ele viera sentar ao seu lado. Foi uma sensação quase normal.

– Escrever é fingir, você sabe disso, não sabe?

– Ah, nossa. Se enxerga, garoto.

O moço riu, dando de ombros mais uma vez. Ele tinha os cabelos lisos e longos passando um pouco do ombro, como um metaleiro tardio, de uma adolescência esquecida. Jéssica notou que gostava do contraste entre os dois. Seu cabelo era tão curtinho que sua mãe vivia reclamando que nem parecia uma moça.

– Toda vez que eu venho você fica puta com tudo o que eu faço.

– Eu estava fingindo.

Agora quem deu de ombros foi ela. Levou uns segundos para entender que a estampa da camiseta preta dele era uma versão minimalista da capa do segundo álbum do Coldplay. Sentiu uma mistura sólida de amor e ódio. Coldplay era sua banda favorita. Coçou a tatuagem no interior do ante-braço direito que dizia “ A rush of blood to the head”. Ele percebeu o movimento e ficou sem graça, como se estivesse esperando por isso há tempos e tivesse sido pego de surpresa por finalmente ter dado certo o que planejara.

– Não menti quando escrevi sobre as amizades.

– É claro que não. Dá para ver pelas suas unhas todas roídas.

– Sobre o meu pai eu menti, naquele texto.

– Ah, não brinca.

– O que te fez escolher esse curso?

– Tempo livre?

– Eu vim pra ver se conseguia desabafar um pouco.

– No curso?

– Não. Hoje. Aqui com você.

Desabafar?!

Jéssica ajeitou o cós da calça de cintura alta de linho. Sempre se sentia dentro de um pneu quando se sentava sem apoio nas costas. Viu os dedos dele batucarem a sola do tênis, ele apoiara o pé no joelho e olhava para baixo, pensativo. Era um crime como todo sentimento precisava ser catalogado para ser aceito. Não era o sentir que doía, era esse catalogar que machucava tanto.

O pessoal em volta discutia figuras de linguagem, o que era terrível em todo e qualquer sentido. Jéssica esticou os pés embaixo da mesa, girando os calcanhares fizeram um estalo terrível de morte. O moço riu.

– Deixa de eu te falar, Mateus. Seus textos são ótimos, mas se você continuar se afundando em auto-piedade ninguém vai te levar à sério.

– A condutora de aprendizado gosta de mim.

– Ah, claro. Olha o seu rosto.

Gostou como ele gargalhou alto, chamando a atenção de todos. Não poderia imaginar que ele fosse uma pessoa que gargalhasse, ela mesma ria tão pouco. Mexeu um pouco nos farelos de bolo no pratinho à sua frente na mesa. O moço passou a mãos nos cabelos e os prendeu em um rabo de cabelo baixo, rente à nuca. Que terrível, Jéssica pensou, ele realmente tinha sido metaleiro em alguma fase recente da vida.

Lentamente as pessoas retornavam para a sala de aula. Jéssica sentiu que o ar ficava pesado conforme a conversa dos dois morria. Sepultada a sete palmos abaixo da terra estava a sua vontade de parar de ouvir a voz dele.

– Deixa de eu te falar, Jéssica. Seus textos são ótimos, mas se você continuar agindo como se tudo fosse uma disputa ninguém vai te levar à sério.

– Eu jamais vou parar, meu caro. Até porque ainda não ganhei porcaria nenhuma. Eu não paro até conseguir. E eu vou conseguir.

– Ah, claro. Olha o seu rosto.

Ela encostou o queixo no ombro e sorriu, coquete. Era um sinal, é lógico, e a próxima coisa que aconteceu foi que Jéssica fechou os olhos e sentiu os lábios do moço beijando os seus. Não foi a sensação de um milhão de borboletas voando em seu estômago, nem fogos de artifícios explodindo pelos ares. Foi adequado e certo.

A próxima coisa que ela soube é que gostaria demais de sentir essa normalidade mais vezes, muitas vezes. Se sentir normal assim era vencer a disputa, afinal de contas.

Sentada ao lado da porta, ao ver os dois entrarem juntos de mãos dadas, Aura sentiu o corpo todo se sacudir em um calafrio que vinha da base da coluna e acabava na nuca.

O chi da sala já não tinha mais a menor salvação.

Contos

Desculpa o áudio enorme

Créditos da imagem: Visual Hunt

Nem percebi que tinha falado tanto

Oi amor, queria te explicar o que aconteceu naquele dia, a gente nunca falou sobre isso e já passou um mês. Vinha certo de fazer isso hoje, só que cheguei atrasado no trabalho, você sabe que segunda é sempre puxado pra mim, ainda mais agora, eu até disse pra minha mãe “essa semana vai ser puxada”, ela me olhou com uma cara que… Enfim. Eu cheguei atrasado no trabalho, peguei o ônibus errado e mesmo assim fui esperto e desci antes do estrago ser maior, se eu contar pra você a minha vida toda você CHORA.

Nisso eu tô entrando no elevador do trabalho e vem a mulher e fala. Peraí que tá barulho aqui. Vem a mulher e fala ah porque não é pra ficar girando a catraca com tanta força eu grito “o quê?” e ela levou um puta susto, ficou me olhando com cara de bosta e… Nossa! Sabe? Precisa?

Eu nem ligo, já te falei que estou bem, não tô falando pra te preocupar, eu tô só contando, tá? Tô só contando, são coisas diferentes. Não são essas coisas pequenas que vão me abalar, apesar de que, nossa, é mesmo um inferno como estão sempre me incomodando por qualquer coisa. Aqui no trabalho tem um cara que toda vez que passa pelo corredor batuca na minha mesa, eu chamo ele de CIA DO BATUQUE mentalmente. Eu sou muito chato, eu sei. Eu sou um lixo.

Do que eu estava falando? Você soube que abriu uma nova vaga aqui? Vem trabalhar aqui, me manda seu currículo que eu falo com alguém pra te indicar. Só não vai pegar a minha vaga, hein? Hahaha.

Tô voltando do almoço. Queria te falar certinho o que me aconteceu, você tem direito a isso, a gente tá junto há oito meses e depois daquilo tudo eu sumi, eu sei que não foi certo, mas nossa. É um milagre eu ainda estar aqui, minha mãe disse, ah, se eu tivesse demorado mais pra chegar em casa eu não quero nem pensar no que seria de você, seu Pedro Henrique, ela falou isso com mais raiva do que medo, não sei explicar direito, fico me sentindo culpado, sendo que é uma coisa que eu não tenho como controlar sozinho, só com remédio, né? Você mesmo disse que com você foi igual, eu fico pensando sempre nisso, que foi igual com tanta gente, eu não vou morrer de algo que tantas pessoas NÃO morreram.

Tá bom, muitas pessoas morreram SIM também. Mas eu tenho que ser positivo, o médico mesmo disse, você já disse, minha mãe já disse. E, caralho, como eu me arrependo, já pensou se eu tivesse conseguido. Sei lá, não…

Eu já tenho que voltar pro trabalho e já falei um monte, acho que já deu três minutos esse áudio, não posso ver porque se eu vejo eu acabo apagando sem querer, que ódio desses meus dedos gordos. Escuta, é normal ainda sentir essa angústia mesmo com os remédios?

Você também se sente assim?

Nossa, acabou de passar um caminhão aqui. Você me ouviu?

Você também se sente assim?

Preciso voltar pro trabalho. Desculpa o áudio enorme, nem percebi que tinha falado tanto. Beijos, eu te amo. Nossa, acabei de ver um boné que é a sua cara, será que eu compro? Verde. Vou entrar na loja ver o preço e já vou pro trabalho. Se for até 50 reais eu compro. Hahaha. Sua cara o boné, parece o que você me deu, vamos sair de boné combinando? Hahaha. Desculpa por tudo. Escuta, eu amo você. Eu não fui até o fim só por você. Ah, credo, 170 reais. Fica pra outra vez! Beijo.

Contos

Anotação n. 35 no caderno de 96 páginas

Créditos da imagem: Visual Hunt

Nunca se encare por mais de dez segundos no espelho

Virando a esquina ela vinha bêbada, tropeçando nos pés, muito rápida e nada sã, correndo achando que estava voando, fazendo da rua uma esteira em velocidade muito alterada, quantas mais metáforas vocês precisam, o que se está querendo dizer aqui todos já sabem.

Tinha sido uma noite e tanto.

E ao mesmo tempo, não. Entre se maquiar no espelho e escolher glitter no lugar de sombra, passar batom e simular um sorriso para visualizar como ficaria, como se ela não soubesse como era o seu sorriso até então, foi brindada com a constatação de que a língua cortada desde ontem tinha um motivo muito mais simples do que o insondável do corpo humano feminino que se machuca sozinho.

A porcaria do dente da frente tinha trincado.

E era só um trincado pequeno, a restauração velha caíra. Coisa simples de consertar. Quando analisava assim à frio era bastante prosaico, o tipo de coisa que não faz você chorar, mas faz seu humor mudar como se chorasse. Olhando no espelho, o sorriso ainda simulado, intacto, nem aparecia tanto. Parecia mais que tinha aqueles dentinhos separados que as modelos mais feias têm, o que é até charmoso quando não são os seus dentes.

No bar, falou a noite toda com a mão na boca, sorriu com a mão na boca, dançou com a mão na boca, até bebeu com a mão na boca, o que se mostrou não ser um problema, já que em dado momento se viu perdidamente bêbada.

Olha que estava tudo até ótimo, dançando e bebendo, saindo no fumódromo para, imagine só, fumar, e depois voltar, dançar mais. Sozinha, o dente trincado como única companhia.

No fim da noite, cansada, foi ao banheiro do bar retocar a maquiagem. Glitter voou por toda a bolsa, estourando como uma caneta estoura, já vinha vazando como vaza na geladeira uma garrafa de vinho guardada com a rolha meio frouxa depois de você já ter bebido quatro tacinhas e pensar, ei, vamos parar, eu ainda não estou tão mal assim para me tornar alcoólatra aos 26 anos. Estrago total.

Com as mãos cobertas de glitter, sangrando purpurina pelos dedos tal qual um médico e suas luvas que de azuis vão ficando rubras operando algum órgão vital (não são todos?), se olhou no espelho novamente e não conseguiu mais fingir o sorriso. Era uma máscara que caía ali, e isso não a surpreendia tanto, sempre fora tão transparente. Passou o glitter no rosto e se achou mais feia. Arrumou o cabelo tingido de azul no topo da cabeça e se achou triste demais.

Podia sentir o dente quebrado doer, não por estar quebrado, mas só por saber não ser o que se esperava dele.

Pensou que tudo nela era horrível e se forçava a não ser. Era um segredo que guardava só para si, se achava horrivelmente bonita. Difícil de explicar, o caso é que ela gostava do que via quando se olhava no espelho, só não gostava do jeito que achava que deveria gostar.

Então, não. Não gostava.

Chorou um pouco, lágrimas escorrendo de uma forma bonita que com certeza valeria uma foto para o Instagram, pena que não tinha humor para isso naquele momento. Chorou sem saber muito bem o motivo de estar chorando, o que só confirmava que sabia o motivo muito bem.

Foi para casa correndo, meio patética, o dente quebrado, as mãos e o rosto brilhando plástico reluzente e tóxico que faz muito mal para a natureza (meninas, glitter mata milhões de bichos!) e tentando apagar com lágrimas o incêndio que a falta de capacidade de se conter causava em seu coração.

No outro dia, a anotação n. 35 no caderno de 96 páginas dizia:

“espero que você consiga se livrar desses sentimentos todos, é muito pesado carregar tudo isso sozinha”

O que não significava absolutamente nada, mas é claro que fazia todo o sentido.

Processo Criativo

Capítulo Trinta e Quatro

Imagem: Death to Stock

Muito perto do fim

“E quem sou eu nesse cenário? A boa menina que vivia entre livros, sem ambição alguma. Agora, mais perto dos trinta que dos vinte, eu tenho o mundo em minhas mãos. Em três anos viajei e trabalhei mais do que na minha vida inteira. Me tornei alguém mais forte e mais esperta. Daniel surgiu para mudar minha vida por completo, me ensinou praticamente tudo o que sei hoje. Me deu a malícia e a ambição. Me tirou de onde eu estava e me deu algo no que investir: eu mesma. Mas me soltando no mundo me prendeu a ele. E agora já não sei se consigo me soltar: por amá-lo, por precisar dele. Por querê-lo. Mesmo com os altos e os baixos.

Ainda assim, preciso tentar. Quando chego em casa, ele está a minha espera e me estuda com o olhar enquanto tiro casaco e calçados. Passo por ele e ele me puxa pela mão. Me faz sentar em seu colo e me beija. Eu o amo tanto. Não sei o que fazer com ele e nem comigo. Seguro seu rosto com gentileza entre as mãos. O abraço e ele me pede desculpas. Não sei pelo o que, mas aceito. Vamos para o quarto sem trocar mais palavra alguma, deitamos na cama, quando ele me abraça e sinto sua respiração se acalmar quando finalmente adormece. Silêncio e solidão, adormecemos juntos. Não importa em que lugar do mundo estejamos, Daniel sempre tem apenas a mim e eu sempre tenho apenas a ele.

Estamos afundando juntos, eu já não tenho mais a menor dúvida. Uma descida vertiginosa que terá o seu inevitável baque final em breve, eu já posso sentir.”

Trecho de “All Across The World”, meu primeiro romance, escrito em 2014 e prestes a ser publicado em formato digital pela Amazon.