Filmes, Resenhas

SAGA CREPÚSCULO: assisti aos 5 filmes e olha só o que deu

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers dos filmes da saga Crepúsculo, que você mesmo falou que nunca vai assistir.

Puxa vida. Como falar de Shakespeare? Como falar de Machado de Assis? Como falar dos Beatles ou de Janela Indiscreta? Como falar de Crepúsculo? Como falar dos clássicos?

É difícil. Mas a missão do escritor, do historiador e do pensador é essa, por isso eu, que sou escritora, historiadora e pensadora, fiz esse esforço colossal de me debruçar na mais densa dessas obras e peguei todos os filmes da saga Crepúsculo para assistir e resenhar aqui para você. Não foi fácil. A complexidade de tais filmes vai além do meu raso entendimento de vida. No entanto, assim é o trabalho do crítico pop. Que sou eu. Eu sou crítica pop. Ao final dessa aventura, muito foi aprendido, pouco foi compreendido e ainda mais foi questionado. Foi uma coisa louca. Trago tudo isso para você agora. A seguir. Vamos lá?

Crepúsculo (2008) – Dir. Catherine Hardwicke

Os livros da saga Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer, já eram sucesso quando o primeiro filme da franquia foi lançado, em 2008. Estrelado pelos coitados Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, que nem sabiam no que estavam se metendo, o filme é geralmente o único que as pessoas já viram nessa história. Era o meu caso, Crepúsculo foi minha única reprise nessa aventura.

De cara, o filme já chama a atenção pelas cores pavorosas, tudo cinza e azul morte. Michael Bay ficaria orgulhoso, Hardwicke aqui nos faz ter calafrios, mas não pelos motivos que ela queria. A caracterização dos vampiros, como se tornou icônico, é de um pálido brutal e cômico. Brutal e cômico, aliás, são adjetivos que podem definir esse filme como um todo.

A história? Filha de pais separados, Bella (Kristen Stewart) decide passar uma temporada com o pai. Chegando na cidade, ela começa as aulas na escola dali e se encanta pelo misterioso Edward “The Hair” Cullen (Robert Pattinson), um adolescente que parece ter 30 anos de idade e é sério, babaca e infeliz como qualquer pessoa transitando nessa faixa de idade.

Correndo pelas beiradas, trotando feito um cachorrão grandão, está Jacob (Taylor Lautner), vizinho de Bella, um rapaz caloroso que parece querer mais do que amizade. Infelizmente, Bella está hipnotizada demais pelo gélido amor de Edward para perceber.

Não demora, Bella e Edward começam a se envolver, apesar de tudo parecer ser muito proibido, perigoso e peculiar (PPP). Logo Bella descobre o motivo de tanto mistério: Edward é um (say it!!!) vampiro. Cruzes! Isso seria suficiente para afastar Bella, mas Stephenie Meyer não leu tanto Shakespeare à toa: agora sim é que nossa heroína quer ficar com este homem PPP e viver esse romance muito PPP.

Nessas, o que era para ser uma bela história de amor acaba se tornando uma grande celeuma, pois outros vampiros começam a questionar o fato de Bella, uma humana, estar de trelelê com vampiros. Vocês vão comer ou não? Aquela coisa. A saída para o casalzinho continuar junto seria Bella se tornar vampira, mas essa é uma decisão um pouco complicada para uma garota de 16 anos e burra. O que fazer? Enquanto isso, o amor adolescente clama por uma resolução. Bella não pode nem beijar Edward direito, pois ele é muito voluptuoso e ela é virgem. Meu pai amado, é difícil demais ser jovem, Bella só queria dar uns beijos (e algo mais), eu hein.

Apesar do cafona de tudo, Crepúsculo é sim um bom filme. Não podemos desprezar suas cenas antológicas, como a batalha do beisebol e o Edward segurando o carro para não machucar a Bella. A trilha sonora é ótima. Por outro lado, a interpretação de Robert Pattinson é limitada e dolorosa, assim como a de Kristen Stewart, o que nos dá um norte de como esse casal era endgame desde o começo. Fato curioso é saber que RPatz nem sabia do que se tratava o filme e aceitou fazer parte dele apenas para estar do lado de Stewart, por quem tinha se encantado ao assistir Na Natureza Selvagem, onde a atriz tem pequena participação. Nascidos um para o outro, até certo ponto, os atores começaram a namorar já durante a produção de Crepúsculo, em uma história paralela cujos desdobramentos patéticos veremos mais à frente.

No fim das contas, em Crepúsculo, tudo se resolve de alguma forma, apesar de Bella não ter exatamente o que quer. Foi salva dos vampiros mais bravos e está com Edward, naquelas. O garoto ama sua humana, no entanto hesita em trazê-la para o vampirismo. E qual seria a saída, se eles querem transar? É brutal e cômico.

Lua Nova (2009) – Dir. Chris Weitz

Uma realidade mais quente nos aguarda em Lua Nova, filme seguinte da série e tido como o pior da franquia. Honestamente, eu já vi piores, mas eu também vejo muita coisa.

Dando prosseguimento à história, o filme traz um Edward sumido Em Busca de Se Encontrar e uma Bella toda grunge, as roupas cada vez mais horríveis, solitária demais. Essa solidão é a brecha para que ela se aproxime do vizinho Jacob, que cortou o cabelo, ficou grandão, parou de usar camiseta e está mais do que disposto a preencher a lacuna deixada no coração da nossa mocinha.

É aí que ficamos sabendo, embora já desconfiássemos, é que Jacob é um Lobisomem!!! Uma raça inimiga dos vampiros, então você imagina o climão. Desenganada pela literatura fantástica, Bella fica um pouco balançada, e Jacob não deixa de apontar os motivos pelos quais ela não deve se aliar aos dentuços. Atento aos prejuízos do webnamoro cósmico, o holograma de Edward persegue e protege Bella de todos os esses perigos, ainda que a estética fragilizada do ator não contribua para incrementar a nossa confiança.

No fim das contas, Bella segue deixando Jacob na gaveta das amizades e fica por isso mesmo. Por conta de uma série de cálculos, sonhos e demais metodologias equivocadas, Edward quase se mata, mas acaba retornando à cidade e propõe à Bella um acordo: ou ela se transforma em vampira depois da formatura, pelas dentadas de Alice, outra vampira do clã, ou se transforma pelas dentadas de Edward, assim que eles se casarem.

É o pedido de casamento mais esquisito da história, por isso Bella nem responde e o filme termina assim em aberto.

Eclipse (2010) – Dir. David Slade

Cacetada, bicho, qual a dificuldade em manter um mesmo diretor para dois filmes seguidos em uma franquia? Nessa em particular, isso não parece ter sido sequer uma questão. E vamos de terceiro filme, com uma abordagem totalmente diferente das anteriores.

Eclipse traz Bella preparando o terreno para se tornar vampira, ainda que um tanto incerta sobre isso. Para ajudar, Jacob intensifica a sedução, então nos vemos em um inóspito triângulo amoroso entre Bella, Edward e Jacob. Em linhas gerais, é uma mulher tendo que decidir entre um defunto e um cachorro. Existe uma terceira opção óbvia (sumir dali e ter um relacionamento saudável com um ser humano normal), mas a Bella sendo a Bella… A garota se transforma no poste mais mijado do cinema mundial, com dois seres sobrenaturais metidos em disputas patéticas por sua atenção.

E é claro que no meio disso as famílias se envolveriam, então temos uma grande disputa entre Lobos e Vampiros. Quem ganha com isso é só a Bella, a nossa querida sonsa que fica ali no meio sendo a Suíça do rolê e deixando que todos se matem por ela. Verdade seja dita, a garota consegue a luta e a união entre as raças, mesmo com aquele jeitinho blasé.

Algo que eu adoro nesse filme é como eles constroem a tridimensionalidade dos personagens secundários, simplesmente colocando pessoas aleatórias para conversar com a Bella e contar a história de suas vidas desde o século XV. Sendo o boneco de pano das duas raças, vampiros e lobos, Bella é levada de lá pra cá conforme a narrativa da história precisa ser contextualizada. O que ela tem a ver com isso é indiferente.

No mais, Edward continua negando sexo para Bella, achando que vai matar a garota com o pau centenário dele. Eu tenho lá minhas dúvidas, mas deixo para vocês as teorias. Terceiro filme e o máximo que tivemos foi uns beijinhos sem sal. Força, guerreira.

Por fim, Bella decide que vai casar, sim, com o Edward. Não adiantou nada tomar anabolizantes, Jacob.

Amanhecer – Parte 1 (2011) – Dir. Bill Condon

Ai, honestamente, é de partir o coração ver as fotos de bastidores desse filme e saber toda a merda que rolou depois, mas vamos que vamos.

Esse é o filme mais soft do casal, na medida em que Bella e Edward finalmente se casam e têm alguns momentos de paz, felicidade e amor, a história já abre com isso. Curiosamente, ninguém questiona o fato de uma menina de 18 anos estar se casando com um rapaz com pouco mais do que isso (atribuído). Normal. Grande festa na família, brindes pavorosos são feitos na festa e vamos de celebração.

De todos os lugares do mundo, a Lua de Mel se passa no Brasil. Isso aí era da época que o país ainda investia em turismo e divulgação internacional, cultura, etc. Outros tempos. É enternecedor ver Edward falando português, RPatz treinou e tudo. Já Bella não faz tanto esforço, está mais preocupada em consumir logo (e várias vezes) o casamento. Não é assim tão simples quando seu carisma e grau de sedução é quase nulo, como é o caso. As cenas dela de lingerie fazendo pose são de urrar de constrangimento. Ainda assim, temos momentos bem bonitinhos e sensuais (kk) do casal finalmente fazendo o que queria fazer desde o começo dessa infame história.

E é comendo um galeto, ainda no Brasil, que Bella se dá conta de que pegou barriga. Tudo acontece muito rápido quando uma humana engravida de um vampiro, aparentemente. Eles voltam para casa mais do que depressa, e agora a treta é manter a Bella viva durante essa gravidez de risco. Caso não tenha ficado claro, um bebê assim inter-espécies tem grande potencial de nascer um monstrengo perigoso. Quem diria. Cuidado aí no Tinder, meninas.

E o que tinha tudo para ser apenas mais um filme ruim se torna de extremo mau gosto com as cenas grotescas do parto de Bella, além da figura em si do bebê, um protótipo robotizado que já virou cult.

Para sobreviver ao parto, Bella é transformada em vampiro por Edward, que tentou evitar isso o quanto pôde. Não deu.

Amanhecer – Parte 2 (2012) – Dir. Bill Condon

Bill Condon fez uma pra Deus ver e se consagrou como o único diretor a assinar dois títulos da saga. Tudo isso pensando no sentido de unidade desse arco final da trama, onde a história de um livro foi dividida em dois filmes.

E olha, nem precisava tanto esforço. Chegando nesse ponto, a fórmula pronta de “Bella se envolve em enrascada com alguma raça sobrenatural aleatória” já anda com as próprias pernas, precisando de muito pouco para funcionar.

No filme final da saga, Bella acorda com fome. Agora ela é uma vampira, e das bravas. Cabe à Edward educá-la, para além das funções parentais do casal, agora com a menina Renesmee (que nome!) também crescendo à galope. O banho de loja da Alice deu resultados e agora Bella parece quase bem vestida, embora ainda com aquele jeitão jeca dela. Outra nota triste para esse filme, parece que dessa vez acertaram cabelo e maquiagem dos vampiros, mas agora de que adianta?

E, caramba, Bella e Edward finalmente podem transar propriamente e sem medo, já que são da mesma espécie. E dá-lhe fazer a cabaninha dos Cullen-Swan ferver na madrugada.

Tumultuando esse cenário idílico, lá vem de novo os Volturi, de olho na menina Renesmee, que é um bicho diferente por ser meio humana, meio vampira. Às vezes penso se não falta uma ocupação para os Volturi, um emprego de meio período que seja, para que eles tivessem o que fazer e parassem de arrumar treta.

Em todo caso, Bella e sua nova família (a anterior, com pai e tudo, foi prontamente deixada de lado) se unem em mais um confronto, meu senhor, quem é que aguenta mais um confronto. Acho que todo mundo pensou isso também porque, no fim, era tudo apenas um sonho vívido e nada aconteceu. Eu, hein.

Para coroar uma história terrível como um todo e ultrajante em vários momentos, Amanhecer Parte 2 fecha com um novo arco extremamente de mau gosto, que é a revelação de que a menina Renesmee é o imprinting do Jacob. Ou seja, a menina que acabou de nascer é a alma gêmea daquele Lobo marmanjo, que fica cercando ela por todos os lados. Incrível como ninguém acha isso problemático, o filme termina com Bella e Edward curtindo a vidinha de casados e com muita aventura para viver sendo vampiros, enquanto a filha deles é literalmente largada nas mãos do Jacob, seu guardião além-vida.

É no mínimo inacreditável, beirando o criminoso. Embora não seja meu lugar de fala criticar alienação parental no âmbito sobrenatural, na minha opinião esse imbróglio fecha essa história já complicada com um laço de fita feito de pura bosta.

Se é que podemos colocar assim.

Saldo final e outros sentimentos

Se você chegou até aqui, quero te parabenizar e agradecer. Sei que não é fácil, apesar de todo o meu talento como historiadora, pensadora, escritora, crítica pop e todas as outras coisas que inventei lá em cima.

Assistindo aos cinco filmes da saga, o saldo final que fica é que Crepúsculo é, antes de tudo, a batalha de uma garota para fazer sexo com o cara que ela escolheu. No meio do caminho, outros coitados tentam, raças entram em conflito, a humanidade em si não colabora, mas não tem jeito. Essa garota quer dar pro Edward e nada pode detê-la. Seria uma história comum de qualquer mulher tentando exercer sua sexualidade, mas colocaram uns vampiros e lobos no meio e deu nisso. E assim, temos uma história ridícula de um jeito hilário, cheia de falhas de roteiro, além de interpretações e caracterizações terríveis. E dolorosamente longa.

Bom mesmo, eu acho, é só o primeiro filme. Apesar das cores questionáveis, Crepúsculo tem sim uma história interessante, além de uma trilha sonora que amarra a trama e dá o tom anos 2000 da produção. Mesmo em sua cafonice, é uma peça perfeita. Já os filmes seguintes, parece que deram um murro no nosso estômago e vão empurrando a gente com pequenos chutes no baço, ladeira abaixo.

Por fim, é ainda mais triste saber que RPatz e Stewart namoraram durante a saga toda, para ela traí-lo publicamente um pouco antes do lançamento do último filme, quando já tinham quase quatro anos de namoro. É a última pá de cal nesse túmulo de vampiro, deixando tudo com um gosto amargo.

Mas é aquela coisa, né. Todo clássico tem seu lado triste. Você compara com Shakespeare, por exemplo. É complicado e, na dúvida, prefiro fazer como Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, esses coitados, e simplesmente tentar esquecer que tudo isso um dia aconteceu.

Apesar de todos os cinco filmes estarem disponíveis no Prime Video para você assistir quando quiser; foi onde assisti, aliás.

Ainda assim, sugiro esquecer. O segredo do clássico é ficar guardado na estante, mantendo a aura de intocável, sem jamais ser revisitado.

Façamos o mesmo com a saga Crepúsculo.

Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Filmes, Resenhas

Assisti a trilogia “50 tons” e olha só o que aconteceu

aiaiai kk só eu mesmo

Atenção: esse texto contém spoilers dos três filmes que compõem a saga “50 Tons”, o que não deve ser um problema, já que você mesmo falou que nunca vai assistir a esses filmes, porque você é culto demais pra isso.

Você sabe o que é ligar a TV e não ter um mísero jogo de futebol ao vivo passando na tela? Será que você sabe o que é ter todos os campeonatos do mundo cancelados? Você entra nos sites esportivos e só tem notícia de doença afetando os profissionais do mundo da bola, você liga a TV e estão fazendo call ao vivo, cada jornalista na sua casa. É sempre uma estante com canecas, livros e miniaturas. Você começa a lembrar, com ódio, da vez que ligou a TV e estava passando Barcelona x Real Madrid ao vivo e você mudou pra ver uma série horrível na Netflix. Você se questiona sobre o tempo perdido. Você perde muito tempo, não tem nada de futebol na TV. Um joguinho de Amigos do Cafu x Amigos do Vinny Mexe a Cadeira sequer. Nada. O mundo parou no VT. Não existe mais nada além de medo, tédio e imagens de péssima qualidade de um jogo de futebol de 1994.

Resolvi assistir toda a trilogia de 50 Tons, de uma vez só.

Não existe situação ruim que eu não possa piorar!

Verdade seja dita, ainda que eu não seja a mais versada nessa trama, ela sempre me despertou simpatia, pois sou especialmente cativada por produtos de entretenimento que sejam mais bregas do que bons. Como vocês já sabem. Nesse caso em específico, o ponto em que me encontrava antes de começar essa maratona era: já tinha lido o primeiro livro e assistido ao primeiro filme, anos atrás. Sou grande fã do Jamie Dornan, por conta de The Fall. E nada além disso.

Acho que cabe também dizer que a saga de 50 Tons me parecia simpática porque ela foi concebida inicialmente como uma fanfic de Crepúsculo. Sim, é verdade! A autora dos livros, E. L. James, até tinha dado os nomes de Bella e Edward para Anastasia e Christian Grey, em um primeiro momento. Mas aí a fama veio e ela mudou os nomes para publicar. E não é como se eu fosse uma grande fã de Crepúsculo (preciso assistir primeiro), mas gosto dessa trilogia porque ela é uma fanfic também, esta de um livro que eu realmente amo: O Morro dos Ventos Uivantes.

Ou seja, Crepúsculo é uma fanfic de O Morro dos Ventos Uivantes e 50 Tons, por sua vez, é uma fanfic de Crepúsculo. Parece loucura, mas essas três histórias têm mesmo muito em comum. O que veremos a seguir, entre outras coisas, na minha análise aprofundada que só foi possível após assistir mais de 6 horas de Dakota Johnson e Jamie Dornan nhanhando. Vamos lá?

50 Tons de Cinza (2015)

A educação sexual de Anastasia

No primeiro filme da saga, conhecemos Anastasia e Christian Grey. O caminho deles se cruza quando a best da Ana(stasia) adoece (o filme previu o COVID-19, veja) e Ana vai no lugar dela entrevistar o misterioso bilionário bonito demais Christian Grey, Sr. Grey pra você.

A atração entre Ana e Grey é imediata e explosiva (kk), então eles ficam meio de joguinho até o Grey literalmente colocá-la contra a parede e beijá-la no elevador (puxa vida). A partir daí, Grey vai aos poucos se revelando para Ana, o que lhe causa um pouco de medo, pois ela é uma virgem reprimidézima e ele é um sádico que só curte coisa pesadona no sexo. kk.

Nas mãos da diretora Sam Taylor-Johnson, que tentou como pôde suavizar a bomba machista e equivocada que é o livro, o filme se passa por uma chick flic um tanto noir, se vamos colocar assim. É tudo muito errado em tudo o que Grey faz desde o começo: ele é ciumento, controlador, impulsivo e extremamente enxerido. No entanto, tudo é perdoado, porque a figura dele, em si, não é ameaçadora, e ele é podre de rico, além de bonito de um jeito suave. Aliás, em declarações à época, Jamie Dornan disse que tinha mesmo trabalhado nessa caracterização de um homem muito magro, quase frágil, sem barba, como forma de suavizar a impressão que Grey passaria para o público, mostrando que seu personagem, apesar de meio esquisito, não é um monstro. Apenas humano, é isto que Grey é. Um humano meio frango e com uma personalidade extremamente complicada.

Dakota Johnson, por sua vez, tem como principais trunfos interpretativos a franja cobrindo a testa e o hábito irritante de morder os lábios o tempo todo. A química entre ela e Dornan é óbvia, e os dois funcionam muito bem juntos, vamos colocar assim, hehe. E ainda que seja problemática, a relação de Ana e Grey não parece tão errada, já que ambos estão se divertindo: ele gosta de mandar, ela gosta de fingir que não gosta de obedecer.

Nessa toada, o grande conflito da trama é que Ana, muitas palmadas no bumbum depois, começa a ficar bolada com essa coisa que Grey tem de punir quem ama. Ao invés de recomendar terapia, ela chora feito uma condenada, termina com ele e assim acaba também o filme: de maneira muito abrupta e sem sentido, com os dois separados e um vale de lágrimas entre eles.

Não dá para dizer que o filme é ruim. Ruim é uma palavra muito forte. Vamos dizer assim que ele é hilário, porque constrange em muitos momentos, mas de alguma forma é cativante. Os atores são muito bonitos, as cenas de nudez são pura obra de arte, e existe algum humor (a cena deles negociando o contrato do relacionamento é tudo). Além disso, a trilha sonora é maravilhosa, com músicas de Ellie Goulding, The Weekend e Beyoncé feitas exclusivamente para o longa.

Ou seja, dá para assistir sim, você que é chato.

50 Tons Mais Escuros (2017)

O desnudar da alma de Sr. Grey

Dois anos e muito barulho depois, chega aos cinemas o segundo filme da trilogia, 50 Tons Mais Escuros. Algumas mudanças são sentidas, muitas delas baseadas no retorno do público. A direção agora é assumida por James Foley, um homem!, porque a autora E. L. James tretava tanto com a diretora do primeiro filme que ela desistiu do projeto. Ana agora usa batom, pois é uma mulher mais confiante. E Grey surge mais musculoso e de barba, um pedido do fandom, que sempre imaginou ele assim. Vai dando confiança pra fandom, vai…

Em cinco minutos de filme o cliffhanger do longa anterior é resolvido: é o Grey “fazer assim” que a Ana volta pra ele. E aí é aquele show de probleminha Notre-Dame, com ele cobrindo ela de presentes caros (24 mil dólares do nada, notebook, celular, carros, viagem de jatinho, vestido chique, quitação da casa dela na COHAB) e ela toda “ai nossa, não ligo pra dinheiro!!”.

Minha filha, fale por você.

Sexualmente falando (eu não consigo parar de rir), Ana ainda se comporta como uma pombinha assustada, na medida em que Grey aumenta a pressão (kk ai deus). No entanto, a trama aqui é sutilmente desviada da coisa do BDSM para outras trivialidades da vida das pessoas muito ricas: Ana é assediada por seu chefe, Grey compra a empresa onde ela trabalha e dá um jeito de demitir o cara. Nisso, o arrombado (estou falando do chefe assediador) começa a tramar um plano de vingança e fica tudo ainda mais perigoso no reino encantado do Quarto Vermelho da Dor.

Além disso, nesse filme temos Ana buscando entender melhor os motivos de Grey ser assim tão taciturno e emocionalmente um trapo. Investigando a infância do homem, ela descobre seus traumas, a vida pesada que ele teve até ser adotado por essa família de bilionários e a razão final para ele gostar de chicotear mulheres na cama: muito ódio pela mãe reprimido, né meu filho?

No mais, é tudo muito chique e bonito, Dakota e Jamie estão ainda mais lindos nesse filme, se é que isso é possível. A trilha sonora mais uma vez dá um pau em qualquer filme indie que você gosta, com canções icônicas feitas para o filme, como Bom Bidi Bom (Nick Jonas & Nicki Minaj) e I Don’t Wanna Live Forever (Zayn & Taylor Swift), além de Sia e uma não-creditada do Jeff Buckley.

O filme termina com o casal aparentemente no caminho para uma relação saudável. O contrato que ela devia assinar lá no primeiro filme é prontamente esquecido, Grey só quer ela do jeitinho que ela é, no strings attached. Em uma dialética complicada, por sua vez, Ana quer demais mudar esse homem, o que qualquer mulher com mais de 15 anos de idade sabe que é uma furada em qualquer relacionamento. Quem sabe o que pode acontecer? Às vezes a jornada vale mais do que o destino final. Grey pede Ana em casamento, ela aceita e lá vamos nós para o terceiro, e último, filme.

50 Tons de Liberdade (2018)

Grey e Ana descobrem a cura através do amor

Ainda sob direção de James Foley, o capítulo final da saga 50 Tons começa já com o casamento. E aí é tudo festa. Grey e Ana viajam o mundo juntos, tudo azul, Ana está infinitamente mais poderosa e atrevida, ninguém se mete mais na sua vida. Até terno ela usa, e dá invertida no mulherio que tenta se jogar pra cima do Grey.

Quer dizer, os humilhados finalmente sendo exaltados. Mas ainda que Grey queira manter Ana nesta redoma de sexo gostoso e muito dinheiro, surgem problemas no paraíso. O ex-chefe arrombado lá do filme anterior volta com tudo para fazer mal à nossa heroína. Além disso, Ana se descobre grávida, e Grey não reage nada bem à isso (tem ciúme do bebê, o nível é esse).

Nisso, temos um filme que é menos sobre a coisa do sexo selvagem (embora ainda tenha muito sexo selvagem) e mais sobre um casal bilionário e seus problemas. Coisa que eu particularmente amo, pois se quisesse pensar em problema de pobre eu pensava nos meus.

Esse filme se destaca por marcar a emancipação de Ana. Agora ela é uma mulher muito mais madura e livre, respondendo à altura os gestos de Grey, inclusive mandando nele. Quando é colocada em perigo, ela resolve a bronca sozinha, chegando a pegar em armas se necessário (foi necessário). Por essas e outras, o filme é considerado um bom encerramento para a trama, pois tira a protagonista do lugar de dama indefesa e a coloca como real dona da história.

Naquelas, né.

Grey se mostra um homem curado: ainda gosta de BDSM, mas já é capaz de demonstrar sentimentos e até chora. Tudo por conta do trabalho incansável de Ana, reafirmando a perigosa narrativa de que uma mulher pode curar um homem, como se mulher fosse ONG de homem, etc. Mas é aquela coisa, o cara é tão bonito que tudo é perdoável. E a Ana faz porque gosta dele, etc.

Assim, a “emancipação” de Ana é ainda naquele modelo antigo que vemos nos romances: curando seu homem, ela curou à si mesma.

Ana desiste de mudar Grey, porque no que precisava ele já mudou. Eles ficam juntos, felizes e podres de ricos, ainda se divertindo no quartinho e agora com dois bebês para criar. Final feliz!!!!

Entre os delírios da trama, ficará para sempre em minha memória Jamie Dornan, como Christian Grey, ao piano cantando e tocando Maybe I’m Amazed (a minha música favorita do Paul McCartney) em Aspen. E para mim, isso já valeu a trilogia inteira.

A trilha sonora aqui é ok.

O que eu achei, afinal?

Minha filha, o que eu vou te dizer? Eu achei tudo lindo e chique, ri bastante, suei de nervoso… Acho que não dá para esperar mais do que isso de uma obra de entretenimento, não é? Quer dizer, não é um Barcelona x Real Madrid ao vivo às 15h de um sábado logo depois que você faxinou a casa toda, tomou o banho e acabou de sentar a bunda no sofá. Mas olhando em perspectiva, hoje em dia mais nada é!

A trama em si não traz nada novo: a mulher ingênua e virginal sendo seduzida e tendo sua vida virada do avesso pelo homem controlador e autoritário. A cura através do amor. A emancipação feminina pelo amor de um homem. Tudo isso existe desde que o mundo é mundo e se repete mudando só uma coisa ou outra.

Você encontra esse modelo de romance em inúmeras obras, porque durante muito tempo foi assim. Aqui, a função da fanfic foi modernizar esse modelo, mas mantendo sua essência. Por isso o sentido de unidade tão reconfortante quando você pega O Morro dos Ventos Uivantes, um livro de 1847, e encontra isso. E em Crepúsculo, você encontra isso. Em 50 Tons, lá está Grey olhando Ana dormir, feito um vampiro, e controlando tudo o que ela faz porque apesar de muito bravo ele é extremamente inseguro. Homens inseguros querendo dominar mulheres que na verdade não são nada frágeis tem sido o motor da narrativa romântica há séculos, e não há sinais de que isso vá mudar tão cedo.

Quem gosta, ama. Quem não gosta, paciência.

Eu gosto e acho que é possível se divertir com obras assim, sabendo separar a romantização da realidade.

Quem sabe, em 40 dias volte a passar futebol na TV, e aí teremos mais possibilidades. Por enquanto, pode descer o chicote nesse povo sofrido, Sr. Grey!

Brain Dump*, Resenhas

Letra & Música: o amor como meio e não como fim

Letra & Música – Dir. Mark Lawrence (2007)
  • Atenção: este texto contém spoilers de Letra & Música, um filme de mais de dez anos atrás.

Uma pérola da comédia romântica, esse gênero cinematográfico em vias de ser criminalizado e banido de todas as salas de cinema do mundo, Letra & Música entrou para o catálogo da Netflix essa semana – o que me deu a chance de rever esse que já foi um dos meus filmes favoritos até eu assistir a outros duzentos títulos e esquecer dele por completo.

De 2007, incríveis treze anos atrás, o filme conta a história de Alex Fletcher (Hugh Grant), um músico de sucesso nos anos 80, mas hoje em suave ostracismo vivendo de shows menores para balzaquianas saudosas. Sua vida pacata muda quando ele conhece Sophie Fisher (Drew Barrymore), uma moça maluquinha e atrapalhada (claro), que surge na sua casa para regar suas plantas(!), mas acaba colaborando para uma composição por encomenda que Alex precisa fazer para gravar com a nova sensação pop do momento, Cora (Haley Bennet), e assim, quem sabe, voltar aos holofotes.

Na primeira vez que vi esse filme, com vinte anos de idade, o que mais me encantou foi a dinâmica entre Alex e Sophie, a maneira como eles combinam. A química entre os dois é inegável (embora Hugh Grant tenha revelado posteriormente que eles detestaram trabalhar juntos e que fez Drew chorar várias vezes, do que se arrepende). Porém, à época, acho que não compreendi o filme por completo.

É interessante como Letra & Música se vende como um filme de amor clássico, garota encontra garoto, mas se você assistir sem tanta idealização romântica compulsória consegue perceber que ele é muito mais do que isso. Ele fala de amor de uma maneira muito mais madura do que estamos acostumados a ver nesse tipo de produção.

É sobre amar o seu quadril e cuidar dele na terceira idade. Brincadeira.

Para começo de conversa, Letra & Música é das poucas romcoms onde o foco está no homem. Essa quebra de padrão na escolha da ótica pela qual a história será contada já nos dá uma pista de que essa é uma trama diferente. Comédias românticas, por definição, nos contam a história de mulheres descobrindo o amor em lugares improváveis e lutando, com muito humor e estoicismo, para fazer esse relacionamento dar certo. Aqui, no entanto, o protagonista é o mocinho, Alex Fletcher, um cara chegando à meia-idade e no meio de uma cruzada pessoal entre aceitar o esquecimento ou tentar mais uma vez conquistar um lugar ao Sol, profissionalmente falando. É nesse ponto que somos apresentados à ele e é nesse ponto também que Sophie o conhece.

Sophie, a seu modo, também está em um ponto de estagnação quando Fletcher cruza seu caminho. Vinda de uma relação traumática, onde foi exposta por seu ex abusivo, ela se encontra meio perdida, em um sub-emprego no comércio da irmã e com um bloqueio criativo, fruto desse relacionamento anterior, que a impede de dar prosseguimento em sua carreira de escritora e poetisa.

Apesar dessas questões de ambos, o amor entre Sophie e Alex surge. E esse amor, curiosamente, não é mostrado como um desafio ou drama. Trajetórias diferentes, traumas, dinheiro ou idade, tudo isso poderia ser um conflito na história de amor de Letra & Música, mas não é. O amor entre eles não é mais um problema a ser resolvido, por que não é disso que se trata o filme. O que só fui entender agora.

Quando você sabe, você sabe…

Colocar o amor de Alex e Sophie como um problema seria uma abordagem fácil e previsível para uma comédia romântica, mas Letra & Música faz mais do que isso. Visando mostrar os verdadeiros conflitos dos personagens, a trama evita o caminho mais fácil e faz do amor dos protagonistas um amor tranquilo, que nasce espontaneamente e os ajuda a encontrar um novo caminho, um caminho melhor, para viver. E é esse todo o mote do filme, em contraponto às romcoms padrão: o amor dos dois é um meio e não um fim.

Como par, eles usam o amor que sentem um pelo outro como uma estrada e não como uma residência fixa: é o que os ajuda a seguir em frente. Quando, apaixonados, colaboram na escrita de uma canção, vão muito além de simplesmente compor uma música juntos: como casal, mostram um ao outro que existem outras possibilidades além de simplesmente aceitar a vida como ela está.

Quando Fletcher encontra Sophie, descobre nela uma nova inspiração para escrever, algo no que ele notoriamente não é muito bom. Mas Sophie tem a doçura e a leveza capaz de inspirá-lo, e mais, de motivá-lo a compor algo que possa mudar sua situação.

E da mesma forma que Sophie ajuda Alex ao compor com ele e o tira da escuridão, a vida de Sophie também é transformada por esse amor tranquilo que eles constroem. Sob a influência de Alex, com seu humor ferino e senso prático, Sophie encontra a motivação para voltar a escrever e até descobre forças para confrontar o ex (com o apoio gracioso de Alex, em uma cena memorável do filme).

I’ve been watching but the stars refuse to shine
I’ve been searching but I just don’t see the signs

Assim, a não ser por uma eventual briga para dar a tensão necessária para o desfecho do longa, inexiste conflito entre Sophie e Alex. Ao contrário da maioria dos filmes de amor, os protagonistas aqui não se envolvem em mentiras ou dilemas morais maiores que os impeçam de ficar juntos. Nada impede Sophie e Alex de ficar juntos, e eles ficam. E o filme é sobre isso: sobre duas pessoas que se encontram em um estado de estagnação conformada, e juntos acham um motivo novo para tentar, através de um relacionamento saudável e tranquilo.

Por isso, Letra & Música é sutilmente diferente de outros títulos do gênero: é uma história de amor sobre um amor que não se encerra em si, mas que é o ponto de partida para outros arcos possíveis para os personagens. Diferente do padrão, não é um filme que diz: “ok, a gente se ama, como vamos lidar com esse sentimento?”, mas sim um filme que diz: “ok, a gente se ama, então vamos juntos conquistar nossos sonhos”. É uma outra visão para o amor, uma visão mais madura e sólida.

Desse modo, assistindo hoje ao filme, na aurora dos meus 30+, consigo ver nele muito mais valor e profundidade do que encontrei na primeira vez que o assisti, quase uma década e meia atrás. Envolto em múltiplas camadas adoráveis de humor, música pop, diálogos afiados e questionáveis escolhas fashion da protagonista, Letra & Música fala ao coração daqueles que já estão no jogo a tempo suficiente para entender que o amor não é sobre relacionamentos apenas. O amor é sobre tudo, sobre absolutamente tudo do que a sua vida é composta. E se você é capaz de encontrar alguém disposto a trilhar esse caminho ao seu lado lhe ajudando a crescer e evoluindo junto com você, não pode perder isso por nada. Nada tem mais valor do que isso.

Revendo agora, Letra & Música retoma seu posto como um dos meus filmes favoritos, justamente por sua capacidade de dizer tantas coisas em uma história aparentemente superficial. Treze anos depois, foi preciso que eu amadurecesse para poder entender do que o amor é capaz, vivendo isso em minha própria vida. O que torna tão especial encontrar nesse filme simples muito do que acredito como pessoa.

E ainda querem criminalizar a romcom, imagine.

Brain Dump*

Assisti a 30 filmes indicados ao Oscar 2020 e veja o que aconteceu

1917 – Dir. Sam Mendes (2019)
  • Esse texto não tem spoiler de nada. Caralho, deve ser exaustivo ser você!

Sentimentos! O que mais senti nessa maratona do Oscar foi, não vou mentir, sentimentos. O que não chega a ser novidade para ninguém. O ponto interessante aqui, a meu ver, é que hoje, manhã pós-Oscar, a cidade de São Paulo submersa em chuva e ódio lento, acordei e ainda me sinto eufórica, um pouco boba e, por que não?, com a sensação de que eu de alguma forma faço parte de algo grandioso.

Por que eu vi 30 filmes dos 53 indicados e eu fiz uma festa em casa para ver a premiação.

Sendo o cinema uma ilusão que nos embala e nos ajuda no que é essencial, ainda mais hoje: escapismo.

Eu sempre gostei de filmes. Como qualquer pessoa. Sempre acompanhei os lançamentos da sétima arte, até aí nada demais. Alguns anos atrás, tive a oportunidade de trabalhar na cobertura das premiações do entretenimento e aí as engrenagens começaram a girar de fato para mim. Por que até então parecia um processo aleatório e incompreensível. No entanto, quando você começa a acompanhar de perto os prêmios, você percebe como tudo segue um raciocínio lógico (ou pelo menos deveria seguir) e como cada prêmio da temporada vai construindo o que vai acontecer (ou deve acontecer) no Oscar, que é a premiação máxima.

Brad Pitt customizando com miçangas seu Oscar 2020 por Melhor Ator Coadjuvante

E na verdade, é aí que começa a ficar divertido. Há pelo menos três anos eu desenvolvi um sentimento muito forte de gameficação com o Oscar, onde tento ao máximo ver todos os filmes indicados. O que é invariavelmente impossível, mas devo dizer que tenho me aprimorado a cada ano.

O que nos leva a hoje, 2020, quando eu consegui ver 30 filmes dos 53 indicados, como falei. Nunca tinha ido tão longe. Uma das vantagens desse feito é, como já devem ter notado, ficar repetindo-o sem parar. Mas a principal vantagem, e é sobre ela que se debruça esse meu texto, é o quão gratificante e confortável é você sentir que tem embasamento sobre um assunto sobre o qual todos estão falando. E mais, o quanto você aprende e amplia sua visão de mundo quando se propõe a assistir, basicamente, todos os filmes que importam daquele ano.

Life Overtakes Me – Dir. Kristine Samuelson, John Haptas (2019)

Por exemplo, esse documentário Life Overtakes Me, tem na Netflix, sobre crianças que simplesmente “apagam” em situações de muito stress. Elas podem ficar assim por anos, do nada, como se estivessem em coma. Tem acontecido principalmente com crianças refugiadas na Suécia. A medicina ainda não entende como funciona, e o documentário tenta mostrar o quanto essa situação vem crescendo e como ela é pesada para as famílias dessas crianças. Eu nem sabia de nada disso até ver o doc.

Além disso, maratonar os indicados ao Oscar me faz ver filmes que eu normalmente não assistiria. O que me faz descobrir favoritos em lugares improváveis e aumenta a quantidade de gêneros cinematográficos para os quais eu tenho algum respeito. Nesse sentido, esse ano a grande surpresa para mim foi 1917, que eu jamais assistiria por ser filme de guerra, normalmente um gênero chatinho, mas que me cativou absurdamente tanto pela narrativa quanto pelo poder de sua fotografia.

Bastidores de gravação de 1917

Maratonar o Oscar é, de fato, bastante simples. Você só precisa abrir mão da sua vida pessoal ter um pouco de organização e disposição. Claro, a lista de indicados sai apenas um mês antes da cerimônia, mas antes disso você já pode estar atento e procurando assistir aos filmes que estão sendo mais comentados. Para me ajudar na organização, levei para o meu bullet journal a lista oficial e ia anotando quais já tinha visto, tendo uma visão melhor dos que eu ainda precisava ver e me programando a partir disso.

A parte de gameficação fica ainda mais divertida quando você faz essa maratona junto com outra pessoa. Assim como nos anos anteriores, para 2020 eu e minha melhor amiga, a Carol, combinamos de ver os filmes da lista, o máximo que conseguíssemos. Nem sempre juntas, claro, mas sempre que possível sim. Então, isso também rendeu um grande aprimoramento da nossa amizade, pois tivemos mais motivos para nos encontrar e também mais assunto para conversar no dia a dia.

No fim das contas, a Carol viu poucos filmes a menos do que eu. Mas ela venceu no bolão e acertou mais vencedores (emplacou 15, eu só acertei 12). Outro momento divertido que o Oscar nos rendeu, quando ontem nos reunimos para fazer as nossas apostas, tomar Mimosas, comer salgadinhos de padaria e assistir à premiação na minha casa.

Para além de toda essa festa do escapismo, o Oscar esse ano foi muito impactante pelos inesperados, mas extremamente merecidos, prêmios para o filme Parasita, inclusive o prêmio mais importante da noite, de Melhor Filme. É claro que em celebrações como essas a gente tende a ceder facilmente à frivolidade dos looks e dos rostinhos bonitos. Mas é importante lembrar o peso que tem uma premiação dessas e o quanto ela define os rumos da nossa cultura. Por isso, é um sopro de esperança quando acontece algo como o que aconteceu ontem: um filme em língua não inglesa vence.

Isso significa que estamos, ainda que muito devagar e muitas vezes sem vontade, rompendo a bolha do nosso mundinho colorido de ver apenas produções americanas sendo celebradas nas premiações. E isso é algo de que se orgulhar, eu acredito.

Elenco e realizadores de Parasita comemorando os Oscars recebidinhos

Tudo isso, veja, todo esse universo de informações, descobertas e oportunidades de pensar de outra forma nos é dado em eventos culturais como o Oscar. Dessa maneira, maratonar os filmes é uma oportunidade incrível de mergulhar nesse universo, que se renova e se expande a cada ano. Por isso é tão divertido. Por isso é tão bom fazer parte.

Sentimentos! Fiquei muito feliz em acompanhar os indicados tão de perto esse ano. Parece besteira e é um privilégio inegável, mas no fim do dia é tão bom. Se sentir parte de algo, aprender algo novo. Comer salgadinhos e beber Mimosas usando roupas chiques e chinelos.

Mal posso esperar para a próxima maratona. 🙂

Resenhas

“Modo Avião”, Larissa Manoela e o alívio quintessencial de poder ser isso aí mesmo que você está vendo, isso aí mesmo que você é

Credito: Aline Arruda/Netflix/Divulgação.Cena do filme Modo avião, da Netflix, com Larissa Manoela
  • Esse texto não contém spoiler de nada. Relaxa, pelo amor de Deus.

Esses dias eu abri isso aqui para escrever sobre a nova minissérie do Drácula, aquela da BBC e tal. Negócio chique, Mark Gatiss e Steven Moffat, o luxo. Bom para quem gosta, perfeito para quem odeia. A série é feita para o tuiteiro: impecável, todo mundo odiou. Eu amei. Fiquei brava com o tuiteiro.

Acabou que desisti do texto no meio, porque percebi que minhas motivações para escrevê-lo estavam erradas. Eu queria escrever porque estava brava com o pessoal que não gostou. Moffat virou lixo de um dia para o outro. Foi o Rubens Ewald Filho morrer, pronto. Todo mundo quer o lugar dele. Tudo é ruim.

Como podem ter achado Drácula ruim (sim, eu vi o episódio final)? Que inferno, bicho. Agora, uma coisa. Eu vou escrever por isso? Esse vai ser o meu norte criativo? Direito de resposta que ninguém pediu, em nome de quem nem sabe quem sou eu na fila do pão?

a audácia do tuiteiro

Sabe?

Daí nem escrevi nada, foda-se, quem se importa? O Drácula não merece tanto esforço, eu não tenho toda essa energia para gastar. Passei por muita coisa esses dias. Vamos focar no lado bom da vida (kkkk) e parar de deixar o ódio (alheio, nosso, do mundo) ser o motor de tudo.

Veio o filme novo da Larissa Manoela e eu pensei que esse sim merecia um texto (meu!) porque eu não quero defendê-lo, eu quero apenas contar o valor dele para mim. E outra, ninguém está falando mal desse filme. Por que se o filme é da Larissa Manoela, “bom” ou “ruim” são juízos de valor irrelevantes. Lari Manu está naquele invejado posto no imaginário coletivo que ou você ama o que ela faz, ou você nem se dá ao trabalho de saber o que ela está fazendo.

É outro patamar. É uma paz enorme.

É ótimo.

Modo Avião (2020) – Dir. César Rodrigues

Eu gosto da Larissa Manoela. Parece estranho porque eu tenho 35 anos, mas o fato é que se eu tenho 35 hoje é porque já tive 14 um dia, e é difícil superar isso. Quando se é uma mulher, então? Nem vivendo mil anos, eu acho.

Os filmes da Lari Manu são ótimos. Eles entregam absolutamente tudo o que você quer, sem que você se sinta culpada em receber essa indulgência em forma de entretenimento. Em Modo Avião, temos a comédia romântica adolescente em seu estado puro. O que quer dizer que por 90 minutos você pode se jogar no sofá e se deixar ser engolfada por uma trama leve e adorável com muitas risadinhas, suspiros apaixonados e looks incríveis.

Como eu disse, tudo. No filme ela é Ana, uma influencer digital viciada em internet (claro) que tem um choque de realidade e precisa reavaliar sua vida. Igualzinho a você, mas você continua dando murro em ponta de faca e não muda em nada nunca. Mas a Ana, a Lari Manu, ela muda. Vai pro interior, pra casa do vô, e começa a sua evolução pessoal baseada em não usar mais o celular e também em dar uns beijos em um rapaz ali da vila.

Cacetada. Tá chorando, né John Hughes? Por que eu tô.

Primeira produção da atriz com a NETFLIX, Modo Avião tem um roteiro redondinho, feito sob encomenda para a plataforma. Ao contrário dos filmes anteriores da Lari Manu, que se originaram de best sellers teens. Você nota a diferença porque a história de Modo Avião é um pouco mais direta. O que não quer dizer que é ruim. Mas não dá para comparar com o melhor filme dela, Meus Quinze Anos, por exemplo, que tem inspirações em Juno, Mean Girls e Clueless. Uma profundidade. Feito para o povo da plataforma, Modo Avião é mais rápido, aposta no conforto visual dos looks e na comicidade da linguagem memética. E no talento dramático da Larissa Manoela, lógico, que aproveita o reinado e faz miséria com cena rápida de breakdown no trânsito (quem nunca? eu sempre).

Assim, atriz.

Além disso, o filme ainda tem participações luxuosas de Katiuscia Canoro (Lady Kate iconic) e Erasmo Carlos(!!!!). Generoso por definição, aqui ele abaixa o tom um pouquinho e deixa Lari Manu brilhar, como se ele fosse apenas um senhor qualquer fazendo um freela de final de ano.

Um homem que fez o que fez em Paraíso Perdido, sabe? Puxa vida.

Mas o que estou querendo dizer é que é muito boa a carreira cinematográfica da Larissa Manoela. Nos dá algo em que acreditar ou, pelo menos, algo em que não pensar. Você pode ficar assistindo tranquila sem medo de ser feliz, sendo exatamente quem você é: essa garotinha de 14 anos um pouco preocupada com o rumo que as coisas estão tomando, mas não o suficiente para entender o plano geral das coisas e se desesperar a ponto de tomar uma atitude. Enquanto o filme estiver rolando na tela, está tudo em suspenso, o que quer dizer que está tudo bem.

E além do mais, meu Deus, os looks dela no filme.

No fim das contas, tá certo o tuiteiro. Quem é Drácula? Moffat? Moffat apenas sonha.

Errada tô eu.

Boa mesmo é a Lari Manu.

Resenhas

O sonho possível, enfim

Era absolutamente tudo. Quando “Com Amor, Vincent” chegou aos cinemas, imaginei que era tão incrível quanto natural. Como não fizeram um filme assim antes? Para fazer faltava tecnologia e a sensibilidade, no mínimo, mas o momento enfim tinha chegado.

O filme é lindo, um trabalho tão profundo quanto emotivo. A história de vida de Van Gogh é delicada e triste, envolve mexer em assuntos que são dolorosos e presentes até hoje, ainda mais hoje, além de todo aquele mistério sobre sua morte.

Existe também, é claro, a atualidade de sua obra, que faz com que seus quadros sejam hoje itens da cultura pop, desdobrados em produtos de consumo dos mais variados. Virar moda, aqui, é um privilégio todo nosso. É ótimo ver suas pinturas espalhadas por todos os lugares, nos mais variados formatos. É uma delícia, na verdade.

Mas o filme, como fizeram esse filme?

Para responder essa pergunta, e outras, estreia dia 30 de janeiro nos cinemas brasileiros o documentário “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível”. A missão é exatamente levar para o telespectador um pouquinho do que foi a produção da animação de 2017. Com distribuição da Elite Filmes, o doc explora os dez anos de luta para levar o filme às telas.

Sim, dez anos.

Tudo sobre “Com Amor, Vincent” impressiona, como sabemos vendo o filme, como confirmamos com esse documentário. Com entrevistas dos envolvidos e cenas inéditas de bastidores, em “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível” vamos descobrindo mais sobre essa obra que nasceu pelas mãos e coração de Dorota Kobiela, uma jovem cineasta polonesa. Novata no cinema, por quase uma década Dorota capitaneou essa empreitada, lidando com a falta de incentivo e de dinheiro, em um esforço monumental que teve a participação de 115 pintores e se transformou em animação com os 65 mil quadros que estes produziram.

Sessenta e cinco mil quadros. Quando finalmente foi lançado, o filme recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de 2018, a aclamação definitiva de todos os anos de dedicação.

Em entrevista ao documentário, Dorota se emociona ao dizer que gostaria que Van Gogh um dia soubesse o quanto sua obra influenciou e motivou tantas pessoas ao redor do mundo, por todos esses anos.

Como fã do artista, gosto de pensar que é isso que estamos fazendo quando continuamos revivendo sua vida e obra, desdobrando sua arte em coisas nossas que carregamos conosco por todos os lados. Estamos deixando ele saber, de algum modo.

O sonho impossível se materializa assim, nesses momentos e nessas homenagens, como a de Dorota, que traz um pouco daquele universo que nos encanta há décadas e jamais deixará de encantar, posto que é eterno.

* O blog assistiu ao documentário “Com Amor, Van Gogh: O Sonho Impossível” a convite da Elite Filmes.

Brain Dump*

Adam Driver: o enigma de John Hamm e seus desdobramentos na sociedade

Marriage Story (2019)

A questão agora era se Adam Driver é bonito ou não. Um debate que já existe desde a participação dele na franquia Star Wars (não me pergunte qual filme), uma questão capciosa e, mais do que tudo, um assunto que não importa.

Tenho a minha teoria. Conheci o ator assistindo a Girls (eu assistia a série, ele atuava nela, não confunda). Não lembro ter considerado ele exatamente bonito, mas ele tinha um impacto, pois era o cara que fazia a protagonista de gato e sapato e – posteriormente – se envolveu em outro arco amoroso que dava engulhos em qualquer telespectadora de bem.

Agora com Marriage Story, o ator voltava ao centro da polêmica. Afinal, ele é bonito ou não?

Acabei não dizendo a minha teoria. É que não formulei ela direito, mas o meu ponto é que quando você diz que é impossível um homem feio como Adam Driver ser par romântico de uma mulher linda como Scarlet Johansson, você despreza o fato de que deram uma enfeiada nela para esse filme, até onde é possível deixar uma mulher como Scarlet Johansson feia: lhe dando um corte de cabelo horrível que a desfavorece.

Você quer ser hipócrita, seja aí na sua casa. Não conte comigo para isso.

Por isso, não acho que o Adam ser bonito ou não seja uma questão nesse ponto, porque acho que os dois estão feios e bonitos na mesma medida no filme. Estão igualmente indefiníveis. São bonitos, mas meio feios. Como a gente, em um dia normal. Essa é a magia da arte que, quando se esforça, imita a vida.

Isso resolve, em partes, o enigma do filme, mas não responde a questão central do debate: Adam Driver é intrinsecamente bonito? Ele é bonito no geral?

Resolvi rever Girls para buscar essa resposta, como um arqueólogo que precisa olhar o primeiro vaso de porcelana da história para entender como foi que fizeram esse vaso de porcelana aqui.

Você está feliz, Noah Baumbach?

Girls – season 1 (2012)

Três episódios de Girls e 90 minutos de sono atrasado depois, essa arqueóloga está exausta. Estudo inconclusivo, o enigma prevalece. Tal qual o cachorrinho daquele meme, não dá para saber ainda. Minha conclusão é de que Adam Driver é um homem grande, certamente digno de atenção, mas cravar que ele é bonito é algo que requer uma certeza que não tenho. Ele é alto, isso é certo.

O que nos direciona a outra questão, como se a gente tivesse poucas. A beleza indefinida de Adam Driver se relaciona diretamente ao Enigma de John Hamm: é bom ator ou apenas alto?

Não tem como eu saber, porque não tenho conhecimento para isso e porque a ciência está preocupada com outras coisas (a cura do câncer, mais remédios para alergias) e não se dedica a esse tema em específico, que é o que nos importa agora. Tal desamparo científico torna a nossa luta empírica e mambembe, fazendo com que ela resulte em pouco menos do que frustração e brigas na rede social. Ou seja, não leva a nada.

Assumo minha limitação e digo que não sei se Adam Driver é bonito. Ninguém sabe – e se disser que sabe é por clubismo, por ser fã de Star Wars ou de BlacKkKlansman. Vamos assumir a nossa ignorância e deixar isso pra lá, gente.

BlacKkKlansman (2018)

Quem sabe quando ele fizer um filme do Batman a gente tenha uma resposta? A gente vai se falando…

Mas foi bom ter revisto Girls. Devo continuar, inclusive, porque é uma série confortável de se ver, quando você já viu inteira. Existe algo na futilidade de cada uma das personagens que aquece o coração, porque você precisa ser muito segura de si para se permitir ser fútil assim. E isso é incrível.

Decidi que vou continuar revendo Girls porque estou nessa fase de tomar decisões. Mudar o padrão estabelecido. Tal qual em 2013, quando decidi que ia parar de usar roupas jeans (peças inferiores, como calça, shorts, saia) e sustento isso até hoje. Sou assim, decido coisas importantes em um segundo. É o meu jeito.

Faz um tempo, decidi também que não uso mais nada estampado com imagens ou dizeres. Tipo camiseta de seriado ou filme, sabe? Ou então com frases aleatórias em inglês. Ai, não gosto mais. Sinto as pessoas me olhando e tentando entender a referência. Não gosto mais disso, me incomoda. Agora só uso roupas de uma cor só e sem estampa. Acho chic. Passa uma mensagem. A mensagem é: você só vai saber a minha mensagem quando eu abrir a minha boca. E é muito provável que eu não abra.

Isso vai em sintonia com a minha decisão de fazer cada vez menos. Meu projeto pessoal é me tornar uma incógnita. E é uma escalada. Primeiro as atitudes na vida prática, depois a minha postura nas redes sociais, e por fim mudanças no meu vestuário. Tudo culminando comigo sendo a pessoa mais introspectiva (e plena por dentro) possível. Por fora, quem sabe o que se passa? Ninguém. A ciência me ajudou com a cura do câncer, mas não vai te ajudar com isso.

Em breve, você vai olhar para mim e não vai saber se eu tenho algo a dizer ou não. Só vai saber se eu disser, mas eu não vou dizer.

Eu vou ser o Adam Driver da mensagem.

Fique de olho.

Resenhas

Nossa, Grace Kelly, com você é tudo na base da aclamação, do talento e da beleza

Ladrão de Casaca (To Catch a Thief) – 1955 – Dir. Alfred Hitchcock

Ontem eu cometi um erro – aqui eu peço a sua bondade em acreditar que ontem eu cometi apenas um erro – e coloquei a roupa para lavar às 22h30. Normalmente às 23h eu já estou no berço, porém o dia foi atribulado e eu me perdi nos horários. Desse modo, ontem era 22h30 e eu não podia ir dormir ainda, então precisei inventar algo e enrolar até a roupa terminar de bater e eu poder estender nos varais.

Não, eu não vou simplesmente deixar a máquina batendo e vou dormir com ela ligada. Vocês nunca leem nada sobre acidentes domésticos?

Não, eu não vou deixar a roupa lá batida e estender só amanhã cedo. Vocês são o quê, psicopatas?

Não, eu não aceitei a gentileza do meu marido se oferecendo para cuidar disso. Eu pareço alguém que aceita ajuda?

Enfim! Estando o erro cometido, não me restou outra alternativa senão tirar o melhor proveito dele aproveitando esse tempinho acordada para me entupir de cultura pop e eliminar o equivalente a 0,0001% da ansiedade causada por sentir que não assistimos ainda a todos os filmes e séries do mundo.

Fui ver um filme na Amazon Prime.

Ás vezes eu gosto de ver um filme muito velho que eu nunca tenha visto, pois acho que o cinema antigo traz um tipo de comicidade cafona que cativa e conforta como poucas peças da sétima arte são capazes. As roupas, os diálogos, as interpretações exageradas, o descaso na trama… É tudo muito bom em filme velho, aprendi isso com a minha amiga Carol.

Então ontem o meu escolhido foi Ladrão de Casaca (To Catch a Thief ) de 1955. A direção é do Alfred Hitchcock, o que garante um filme bom e horrível sempre na mesma medida. Ou seja, perfeito.

Atenção: 
este texto não contém spoilers do filme, pode ler tranquilo.

Bom, o filme conta a história de um ex-ladrão (kk) de jóias, que fugiu da cadeia e está na maciota. Aí, surgem novos roubos de jóias e passam a desconfiar que é esse rapaz que está roubando de novo. O rapaz, por sua vez, diz que não é ele, mas sim alguém copiando seu estilo. Em busca de se inocentar no caso e elucidar a situ, ele parte em busca de ocasiões onde o ladrão atacaria para ver se consegue pegar ele no pulo.

Isso foi o que eu entendi depois de ver 15 minutos de filme e me dar conta de que estava dublado em espanhol sem legendas. Aí mexi nas configurações e descobri que o filme não tinha legendas em português, de modo que optei por assistir ao filme todo em inglês, idioma original, e com legendas em inglês também, gastando em aproximadamente duas horas absolutamente todo o conhecimento de idiomas obtido via Duolingo que estava armazenado no meu cérebro.

Como a maioria das obras de Hitchcock, Ladrão de Casaca traz uma enternecedora comicidade involuntária que é potencializada pelo tempo. Não é que os filmes dele envelheceram mal, é que eles envelheceram muito. É muito engraçado ver mulheres falando todas lânguidas, sendo ousadas de maneira polida. É impagável ver o Cary Grant, um senhor de 51 anos, fazendo mais uma vez o papel do galã irresistível de apenas 30 aninhos. Nadando e saindo do mar encolhendo a barriga, sabe?

Eu quero dizer, que tipo de pessoa sai do mar e deita na areia pura? E só por dois segundos, sabendo que um informante estava ali e iria chamá-lo para em um canto escondido da praia(!) lhe entregar uma lista contendo o nome de todas as pessoas da cidade que têm jóias caras e podem ser roubadas pelo ladrão falsário(!)?

Sabe?

E o nome do personagem dele, o ladrão que não rouba mais, é The Cat.

Sabe?!

Para além disso, é adorável imaginar essa década de 50 estilizada de Hitchcock, onde todas as mulheres são vingativas e todos os homens são difíceis de se conquistar o coração.

A própria tradução do título do filme é boa demais. Ladrão de Casaca? Tá, mas qual casaca? Ele rouba jóias! Ele nem usa casaca, sabe? É bobo, mas eu gosto dessas coisas.

No entanto, nem todo o meu cinismo de assistir a um filme feito 64 anos atrás e achar defeitos nele como se fosse um produto feito em 2019 pela Marvel me protegeu do impacto que foi ver pela primeira vez um filme da Grace Kelly.

Meninas, a Grace Kelly…

Vocês conhecem a Grace Kelly? Pergunto isso porque muita gente é nova e não tem tempo de se educar, priorizando zerar as notificação dos apps no celular a conhecer o que quer que seja que amplie sua visão de mundo.

Resumindo bem para te ajudar, a Grace Kelly foi uma aclamada atriz americana, que posteriormente se casou com um príncipe(!) e virou a Princesa de Mônaco.

Antes de casar, ela fez 11 filmes, sendo que 3 são do Hitchcock. Ladrão de Casaca foi o primeiro filme dela que vi e o impacto foi real.

Tudo na Grace Kelly é perfeito. Tudo. O porte, a elegância, o corpo, o sorriso, o cabelo. Neste filme em especial, os vestidos, as jóias(!), as falas afiadas e a linguagem corporal que fazem de Cary Grant uma lamentável marionete peluda de dois metros de altura nas mãos dela. Tudo em Grace Kelly é leveza esperta, delicadeza malandrinha. Tudo é sutil, mas firme.

Em Ladrão de Casaca, Grace Kelly surge como Frances Stevens, uma mocinha absurdamente rica com jóias que The Cat, o personagem de Cary Grant, poderia roubar. Mas ele diz que não rouba mais, algo no que a Grace Kelly não acredita – e essa provocação dela cria a tensão sexual entre eles, que se envolvem nesse jogo de gato e rato (a semiótica, meu pai) que move o filme do seu segundo terço em diante.

Quando o Cary Grant diz “You’re here in Europe to buy a husband” e a Grace Kelly responde “The man I want doesn’t have a price” e o Cary Grant responde “Well, that eliminates me”, rapaz… Que grande momento para todos nós.

No fim das contas, como na maioria das obras dessa época, a trama começa bem, mas vai se perdendo pelo final e o filme termina de um jeito abrupto e beirando o insatisfatório. O que acaba nem sendo um problema, porque pouco antes disso Ladrão de Casaca nos entrega uma cena maravilhosa de um baile extremamente chique, onde tudo é perdoado porque todos os vestidos são tão lindos.

Uma curiosidade mórbida de Ladrão de Casaca é que o filme tem uma cena de perseguição em uma estrada de Mônaco, onde a personagem de Grace Kelly dirige em alta velocidade, em fuga com Cary Grant ao seu lado. Em dado momento, eles também param o carro e fazem um piquenique no veículo mesmo, parados no acostamento.

Quase 30 anos após o lançamento do filme, em 1982, Grace Kelly viria a morrer, aos 52 anos de idade, em um acidente de carro. Segundo foi noticiado à época, Grace sofreu um infarto enquanto dirigia e perdeu a direção, se acidentando e vindo à falecer. Posteriormente, foi revelado que a filha dela era quem estava ao volante e a menina, então com 17 anos, dirigia de maneira temerária, o que causou a tragédia.

De todo modo, o que se conta é que o acidente aconteceu nessa mesma estrada de Mônaco por onde Grace Kelly dirige em fuga em Ladrão de Casaca. O lugar da cena do piquenique, dizem também, foi onde seu carro finalmente parou, após a colisão.

Verdade ou lenda, o fato é que histórias como essas só contribuem para essa aura que vemos em Grace Kelly, como se tudo o que ela fizesse ou tocasse não pudesse ser nada menos do que hipnotizante e digno de consternação.

Os olhares, os sorrisos, os vestidos perfeitos em um corpo mais do que perfeito, a voz e o jeito de andar.

O tipo de encantamento que faz você ficar acordada feliz até as duas da manhã em um dia de semana, depois estender roupa de madrugada e finalmente ir dormir, sonhando com belezas irreais e carismas inalcançáveis.

E sentindo que tudo valeu a pena, como sempre valerá enquanto houverem filmes como esses, sejam eles de ontem ou de meio século atrás.

Resenhas

ENCONTROS: Uma romcom dos nossos tempos

Mélanie vive com a cara no celular, nervosa com uma palestra que precisa apresentar no trabalho, só faz trabalhar e dormir. Rémy tem passado por maus bocados quando toda a sua equipe no trabalho é demitida e só ele fica, pelo stress disso não consegue descansar de jeito nenhum. Os dois moram um do lado do outro, e nunca se viram.

Assim começa ENCONTROS (Deux Moi), novo longa do diretor Cédric Klapischi. Um conto moderno sobre amor, o filme mostra os caminhos que vão fazer Mélanie e Rémy descobrirem mais sobre si mesmos antes de conseguir olhar para fora e enxergar o outro.

Falando sobre questões atuais como amor líquido, depressão e a solidão dos tempos modernos, ENCONTROS traz uma história possível e que se relaciona muito com o que vivemos cotidianamente. Mélanie e Rémy, cada um a seu modo, tem suas próprias questões que travam suas interações sociais. Reclusos e solitários, são adultos funcionais, aparentemente felizes, mas quebrados por dentro de alguma forma.

Separadamente, buscam por terapia e nessas conversas perseguem o entendimento das suas reais motivações, descobrindo quais são os gatilhos que destravam esses medos que os impedem de ter uma vida feliz.

A terapia

Por motivos diferentes, os dois protagonistas buscam auxílio médico (ou “ver alguém”, como dizem) para tratar das angústias que estão impedindo que suas vidas corram normalmente. Rémy é o que mais demonstra resistência ao assunto, se questionando sobre a real necessidade disso. Mélanie, por sua vez, encontra nas sessões um canal imediato para desabafar sobre traumas recentes.

O olhar do filme sobre a questão da terapia é muito positivo e esclarecedor. Uma das bases do longa, é interessante notar como os profissionais que atendem os protagonistas têm abordagens diferentes e tratam de auxiliar os personagens a encontrar seu caminho, enquanto desmistificam o preconceito que paira sobre a necessidade que temos de cuidar da nossa saúde mental.

As coincidências, a graça de tudo isso

Mas se fosse só para falar de dores e traumas, essa não seria uma comédia romântica. O grande trunfo de ENCONTROS é trazer essa conversa sobre saúde mental de uma maneira leve, o que está longe de dizer que é de uma maneira rasa, trabalhando paralelamente com alguns alívios cômicos que nos colocam em uma posição confortável.

De fato, são nesses momentos engraçados do filme que vemos como ele se relaciona com a vida real. Mesmo em um quadro de stress, nem tudo são lágrimas. A jornada dos protagonistas é suavizada com alguns encontros divertidos e com uma linguagem amigável, que nos torna íntimos deles, nos fazendo torcer para que consigam ter sucesso em suas aspirações.

O jogo de gato e rato que nos leva a acreditar que Mélanie e Rémy vão se encontrar em algum momento cria escapes cômicos, que dão todo o charme da trama. A gente torce muito por eles, mesmo sabendo, no decorrer do longa, que não é o fato de eles ficarem juntos, se ficarem, que vai solucionar todos os seus problemas.

Solidão em um mundo que não para

Mais do que falar sobre saúde mental ou criar um trama de coincidências que pavimente o encontro dos protagonistas, que nunca sabemos se acontecerá de fato ou não, ENCONTROS tem o mérito de mostrar suas jornadas para além da busca pelo amor pura e simples.

Ao falar de depressão, solidão e da busca pelo autoconhecimento, o filme encanta ao mostrar que cada indivíduo é único — e que o amor, nesse contexto, vem para complementar, não para suprir uma falta.

Com humor, delicadeza e um poderoso discurso sobre a necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental, ENCONTROS surpreende pela doçura com que aborda o amor em nossos tempos modernos. É uma comédia romântica dos nossos tempos, mais do que tudo, onde amor romântico e cuidado próprio andam lado a lado, somando e nunca tomando o lugar um do outro.

Imperdível.


〰️ ENCONTROS estreia nos cinemas brasileiros em 03 de outubro. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite do Adoro Cinema.