Resenhas

KLEXOS, Corleone: faixa a faixa, finalmente chegamos

Qualquer um que tenha cruzado a Ponte da Fraternidade, fronteira entre o Brasil e Argentina, em uma noite de sábado com a simples intenção de comprar apenas alguns potes de doce de leite, mas chegando lá tenha encontrado todo tipo de iguaria alimentícia diferenciada e rica em sabores pode entender bem o conceito de ser surpreendido em sua euforia e expectativa.

Trazendo essa metáfora para uma vivência que contemple mais pessoas do que as que já tiveram a chance de estar ao Sul do nosso país, imagine uma viagem de carro onde você vai curtindo o caminho, o que já está ótimo, mas chegado ao seu destino, aí é que a diversão começa.

Foi assim que me senti ouvindo pela primeira vez KLEXOS, novo EP da iguaçuense Corleone.

Mas para falar sobre KLEXOS, preciso voltar um pouco antes na nossa viagem para dar à você o total conceito complexo do que é ter uma banda de rock na qual confiar e amar em pleno 2019.

A Corleone surgiu em 2006, você imagina, o mundo era outro. Em uma cena rock tão simples de coração quanto inventiva, em Foz do Iguaçu, no Paraná, a gente tinha todo tipo de banda e cada uma trazia algo de novo e interessante para as nossas noites do interior: Visão Alternativa, Poronga Joke, Receita Federaus, Pantufas Vermelhas, entre outras. E tinha a Corleone. Com um repertório básico de covers e algumas canções próprias, a banda foi trilhando seu caminho, com muita teimosia e sinceridade em um cenário que ia morrendo com o passar dos anos. E enquanto o mundo ia mudando e as bandas iam acabando, a Corle continuava.

Em 2017 chegou o primeiro EP real oficial, o It Must Be The Wave. Com uma pegada meio Arctic Monkeys da fronteira em suas seis faixas autorais, esse lançamento trazia um tom mais melancólico, mesmo nas canções mais pesadas.

Era como uma viagem de carro, você olhando pela janela, sentindo o vento no rosto e pensando na sua vida. Não com tristeza, mas com algum tipo de sentimentos mais contemplativo.

São seis músicas para mostrar para você a beleza de todos esses tons azuis. Deve ser a onda.

Já em 2018, chega o single Rinding the Storm. Aqui a banda acelera um pouco, mostrando que está a caminho de algo – e no caminho certo.

Mais uma vez, as letras vão além do simples exercício de alguma mensagem de amor, trazendo a densidade de um hino motivacional sem clichê nenhum. Je suis your brand new colors / Je suis your golden god tonight .

Momentos importantes e belos que nos trouxeram até aqui, essa linda segunda-feira de outubro de 2019, quando a Corleone lança seu segundo EP e a sensação é de que finalmente chegamos.

Em KLEXOS, a banda finalmente desce do carro e coloca os pés em seu destino final. São 5 faixas, todas enérgicas e cheias de vontade, mostrando que vale a pena estar vivo e que valeu passar todos esses anos batendo cabeça pela estrada.

Faixa a faixa, o que temos em KLEXOS é:

  1. Bixby: a música que abre o EP ainda traz um pouco da sonoridade dos trabalhos anteriores, mas já mostra a que veio quando acelera o que estamos acostumados a ouvir com a Corleone. O rifzinho no terço final da música é tudo para mim, e meu alimento dia e noite. Tá chorando por quê, Arctic Monkeys? Os meninos já foram embora.
  2. Bitter Water: Ao que tudo indica, essa é aquela música em que você volta do bar com duas Heineken, entrega uma para a sua garota e vocês dançam um pouco, rindo. Tão sexy quanto uma noite de sábado que já está garantida do que pode ser, porque você tem alguém a quem amar e ela é linda, eu gosto do ar correto de amor tranquilo e sexo garantido que essa música traz.
  3. Unicorn: Tentei confirmar com o pessoal, mas não há nada factual que comprove minha teoria de que são anjos no backing vocal dessa música. Eu acho que são – e dentro desse reduto cultural chamado “meu blog”, só a minha opinião importa. De todo modo, vale dizer, essa é a mais divertida do EP, e perfeita pela força com que mostra sua intenção.
  4. Tiger Her: Essa música fala sobre Roller Derby, superação dando no couro das adversidades, se vestir feito uma rockstar e ser o orgulho de um grunge dos anos 90. Eu amo o crescendo da melodia e como ela é motivacional sem ser piegas. Eu adoro o fato de ela ser uma homenagem para alguém especial – e se você descobrir sozinho quem é essa pessoa sem eu precisar dizer que sou eu, é um favor que você me faz.
  5. Dirty Glass: Encerrando o EP, temos essa canção cheia de raiva e peso, lembrando um pouco do motivo de ainda estarmos tentando. O desfecho perfeito, a canção tem tudo o que estamos acostumados a ouvir na Corle, mas com uma roupagem sutilmente diferente, mostrando que a evolução tem a ver, em primeiro lugar, com continuar sendo quem você é.

Produzido e gravado em São Paulo, no Estúdio Costella, KLEXOS tem o frescor de uma banda cheia de otimismo, entusiasmo e amor por sua caminhada. Depois de tanto andar por aí, finalmente chegamos. Gosto de saber que em pleno 2019, o rock não só não morreu, como ainda surge por aí e nos chacoalha pelos ombros nos tirando para dançar através de bandas como a Corleone.

Para você que tem essa vivência, é como cruzar a Ponte da Fraternidade e descobrir que o Casino ainda está aberto mesmo sendo tão tarde.

É o seu dia de sorte.


Ouça KLEXOS no Spotify. Saiba mais sobre a Corleone e acompanhe seu trabalho pelo Twitter, Instagram e Facebook.

Brain Dump*

J. Balvin: dando o que as mulheres querem, ou seja, cultura

No clipe de um de seus singles mais recentes, J. Balvin divide a cena com Maluma. Em uma brincadeira logo no início do vídeo, J. Balvin imita Maluma, se filmando com a câmera frontal do celular e dizendo todo galã “Mamacita… Maluma Baby”. Já Maluma se olha no espelho e, em uma caricatura de J. Balvin, entoa: “blá, blá, blá…Colômbia…. blá, blá, blá… Cultura!”.

Como qualquer um disposto a concordar comigo pode confirmar, toda brincadeira esconde um fundo de verdade. Para além de nos mostrar o duelo de titãs entre os dois maiores nomes do reggaeton atual, o clipe de Que Pena! nos aponta uma verdade inegável: enquanto Maluma só pensa em ser sensual, J. Balvin tem sempre seu discurso apontado para a cultura.

No entanto, quando começou, em 2009, com seu primeiro álbum de estúdio, Real, J. Balvin ainda estava incerto sobre sua mensagem. Nessa pérola perdida, Balvin mescla consciência territorial com lamentos de algum tipo de amor platônico e genérico por qualquer mulher que lhe dê o mínimo de atenção.

Como esperado, o impacto foi zero. Para o ouvinte mediano, era apenas mais um cantor de reggaeton vestido de roupa social para poder ser aceito pela sociedade. Era preciso ir além.

Em seus discos seguintes, além dos vários singles e mix tapes para rádios, J. Balvin foi encontrando seu tom. Você nota isso pelo primeiro verso da primeira música de J Balvin Mix Tape, álbum de 2012, quando em “Seguiré Subiendo” ele diz: Y yo quiero seguir… / Y seguiré subiendo / Yo quiero ser la voz del pueblo. Quando J. Balvin finalmente entende isso e diz isso em voz alta, as coisas começam a acontecer.

Você pode pensar que o maior dilema para um cantor latino é que tamanho deixar o cabelo, mas a verdade é que o debate é muito mais complexo. Ao tomar para si a missão de levar sua cultura para o resto do mundo, J. Balvin se aprofundou em suas raízes colombianas, dando abertura para o resgate de uma música que é tipicamente latina e tornando-a amplamente palatável para o gosto mundial.

Por outro lado, a coisa de ser bonito ou um símbolo sexual, típica dos cantores latinos, ficou em segundo plano, usado quando convém ou para quem a química bate: tanto faz, o ponto não é esse. O ponto para J. Balvin é, Maluma mesmo disse, Colômbia, cultura. Ele não quer te levar para a cama, ele quer te levar para a América Latina.

Para tornar isso uma persona, a chave foi investir em um discurso pesado de valorização da cultura colombiana, ao mesmo tempo que o fazia através de feats com talentos nacionais e também de países amigos. Outra estratégia foi trabalhar não apenas com álbuns de estúdio, mas propagar sua mensagem por meio de muitos singles e participações soltas por aí, fazendo de J. Balvin um diamante partido em mil pedaços, difícil de ser catalogado, se espalhando pelo mundo em uma obra tão vasta quanto densa.

Assim, tivemos La Familia (2013) e La Familia B Sides (2014), além de Energia (2016) e Energia Lado B (2017), álbuns onde J. Balvin reforça valores como família, tradição e cultura, tendo o amor romântico como um pano de fundo útil, mas não imprescindível.

O sucesso veio em um crescendo, em paralelo com essas obras, através dos singles extraídos delas, sendo que consagração internacional viria mesmo em 2017, quando J. Balvin lançou o single “Mi Gente” com Willy William, que posteriormente foi regravado com feat de ninguém menos que Beyoncé. Dando a tônica de seu discurso, a letra da música não fala de amor romântico, fala de amor à música – e de como esse sentimento pode fazer o mundo girar:

Toda mi gente se mueve
Mira el ritmo cómo los tiene
Hago música que entretiene
El mundo nos quiere, nos quiere, y me quiere a mí

“Mi Gente”, inclusive, aparece posteriormente em Vibras, álbum de 2018 e um dos mais coesos da história do cantor. Mais uma vez indo contra a coisa do galã latino, a capa é uma simples ilustração: J. Balvin não tem tempo para isso.

Vibras, o álbum, é o CD definitivo do cantor – pelo menos até o momento. Com um conceito que segue contando uma história faixa a faixa, tudo ali é perfeito e faz sentido dentro da mensagem maior: vamos honrar nossas raízes aqui. E, ah, você é muito bonita dançando. Dando seguimento à tradição dos feats, a obra traz parcerias com Yandel, Wisin, Anitta, e até com a expoente Rosalía (a faixa é Brillo, um feat que se repetiria posteriormente com o single Con Altura), entre outros.

Já em 2019, chega Reggaeton, o single que define, resume e condensa toda a carreira e mensagem de J. Balvin. Com um clipe que resgata figuras definitivas do reggaeton, trazendo veteranos do gênero como  Daddy YankeeNicky Jam e Don Omar, entre outros, a estética 90′ e quase grunge, além da coisa da união de um povo são os destaques da história contada aqui. Vale assistir:

É uma afirmação do reggaeton “old school” de J. Balvin, um artista que não se curva ao pop americano, imprimindo a sua cultura pelo mundo todo.

A letra é literal e direta: Deus abençoe o reggaeton.

Ya tú sabes quienes son
Me resalto del montón
Dios bendiga el reggaetón, amén (amén)
Hasta abajo, así soy yo
Yankee pa’ esta me inspiró
Bajo fuerte como ron, ron, ron

Y si el pueblo pide (reggaetón, reggaetón)
No se lo voy a negar (reggaetón, reggaetón)
Si las mujeres piden (reggaetón, reggaetón)
Pues yo le’ voy a dar (reggaetón, reggaetón)

Nesse ponto, você entende que J. Balvin não está para brincadeira. É cativante e até doce ele reverter o clichê do discurso pop e, ao invés de prometer amor eterno por si só, dizer que traz o que as mulheres querem (reggaeton!) e faz isso por elas. É a malandragem do homem latino, que faz tudo por você, mostrando que te ama sem nunca dizer “eu te amo” de fato.

O que vemos ainda mais em seu novo álbum, lançado esses dias, Oasis. Abraçando de vez o feat., o trabalho é uma parceria com Bad Bunny, porto-riquenho conhecido por seu reggaeton que flerta com o trap.

O resultado é um CD altamente dançante, reggaeton sem frescura e sem bula. É como se, depois de passar décadas explicando o gênero (inclusive com uma música que literalmente se chama REGGAETON!), Balvin nos considerasse prontos para receber um álbum com canções que se explicam por si só.

Se você gostava dele até aqui, vai gostar mais. Se não gostava, já pode ir embora, porque ele é isso, é reggaeton, Colômbia e cultura e nada além disso. Gostem ou não.

O próximo passo? Difícil dizer, é um artista tão inventivo quanto imprevisível. De qualquer modo, sabemos que o caminho está pavimentado e, para J. Balvin, a trilha é tão clara quanto verdadeira: seguirá rompiendo e dando o que as mulheres querem: cultura & reggaeton.

Deus abençoe.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI: Dia 07: Space

Espaço???

Completando a primeira semana desse desafio de textos, percebo que desvirtuei totalmente a proposta da página que o desenvolveu. Era para ser um espaço para compartilhar pensamentos sobre saúde mental, no entanto eu só fiz dizer abobrinhas e até escrever fanfic!

E o que se pode fazer? Se eu dou um passo para frente, já é tarde demais para voltar para trás. Eu simplesmente sigo em frente, estando certa ou não!

Coisa da minha cabeça, mas quando penso em espaço eu sempre lembro do David Bowie! E nem é como se eu fosse uma profunda conhecedora da obra dele, uma fã nervosa ou algo do tipo. Simplesmente ficou na minha mente desse jeito, um tipo de associação sem sentido.

Ou quem sabe faça sentido, de algum modo.

Bom, jogando no Google eu compreendi que essa conexão provavelmente se deve por conta de Space Oddity que é, até onde entendi, (não estou sendo pedante, é que pode ser também um CD ou um livro, sei lá) uma música do David Bowie. Clicando na letra eu logo lembro que canção é essa, e então tudo faz sentido!

Indo além e procurando pelo clipe, me deparo com essa versão de 2019 para ele, o que me lembra (olha essas sinapses acontecendo!) que o Phelipe indicou mesmo esse vídeo na última edição de Um Milkshake Chamado Wanda. Por que é uma nova versão para esse clipe clássico, com algumas imagens inéditas. Quando ele disse isso no podcast eu não liguei muito, mas repare no mundo girando e me obrigando a assistir o tal clipe.

Vamos ver juntos:

Hmmm, muito bonito mesmo. Bowie era um homem tão chique, não é mesmo? Você podia colocar ele com um cumbuca de miojo, comendo em pé escorado na parede e o homem era lindo da mesma forma. Interessante.

Gente, para o próximo post eu prometo me emendar e falar a sério sobre algo.

Juro.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 06: Strength

A primeira coisa que eu penso quando penso na palavra strength (força, no original), é na música God Give Me Strength, do Elvis Costello com o Burt Bacharach. Sempre achei essa música muito curiosa e até cômica, pois o que está se dizendo literalmente é “Deus, me dê forças!!”, o que é engraçado pela dramaticidade, se você for pensar.

Elvis Costello sempre foi conhecido por suas parcerias, onde tiver duas pessoas com um atabaque e um violão ele se junta e tira um pagode. Não seria diferente com os medalhões da música chique. Por isso, em 1998 ele lançou Painted From Memory, um álbum em colab com ninguém menos do que o ilustre pianista Burt Bacharach.

Com 12 faixas, o CD versa sobre a dor de ser um homem, trazendo outros título tão interessantes como Toledo, The Sweetest Punch, The House is Empty Now, e a minha favorita, I Still Have That Other Girl (olha que filho da puta?).

Burt e Costello rindo muito, pois são amigos.

Desse álbum é que temos God Give Me Strentgh, uma música escrita e performada pela dupla. De uma poesia quase gospel, a canção tem sua intenção resumida por seu título: é isso mesmo, uma pessoa pedindo pelas forças celestiais, posto que já está no seu limite.

Uma situação com as quais muitos aqui podem se relacionar, sendo que eu mesma a vejo como uma canção para a qual eu posso facilmente erguer os braços e gritar “minha músicaaaa”, etc.

Quando você pensa na letra, aliás, é até de se espantar com a beatice, já que o Elvis Costello não é disso. Conhecido por suas letras raivosas, ciumentas e mundanas, foi com grande espanto que recebemos essa canção ecumênica. É de se apostar na boa influência de Bacharach na índole de Costello para tal milagre, acredita-se. De todo modo, não se pode deixar de considerar que as pessoas podem mudar. Em sua caminhada inevitável para a melhor idade, Costello tem mais e mais apostado em temas amenos e litúrgicos, voltados para a família, mostrando que água mole em pedra dura tanto bate até fura.

O que não é segredo para ninguém.

Now I have nothing, so God give me strength
‘Cos I’m weak in her wake
And if I’m strong I might still break
And I don’t have anything to share
That I won’t throw away into the air

That song is sung out
This bell is rung out
She was the light that I’d bless
She took my last chance of happiness
So God give me strength
God give me strength

E se ainda restassem dúvidas, você vê que a música é do Costello mesmo quando ele diz “Ela tirou minha última chance de felicidade”, pois nada é mais corno amargurado do que isso — e ser corno amargurado constitui 70% da obra do músico inglês.

Agora, a música é boa? Não sei, esse é um conceito relativo. Eu particularmente gosto bastante, mais pelo improvável da coisa do que pela qualidade da obra. A qualidade da obra eu deixo para o julgamento de vocês, que são críticos. Eu sou apenas uma pessoa amargurada cansada, dramática e cômica, erguendo os bracinhos e pedindo “Deus, me dê forças!”.

Uma coisa é certa: baita música chique. Sofrer de smoking é diferente.

Resenhas

Maluma: a narrativa criativa do cachorrinho do pop

Eu seria hipócrita se negasse que às vezes penso no Maluma. Presença constante nas paradas musicais de sucesso já há alguns anos, o impressionantemente bem-diagramado artista sempre se faz notícia quando o assunto é nos dar material para refletir.

Nascida e criada na Tríplice Fronteira, meu gosto para música sempre foi tão diverso e permissivo quanto uma barraquinha de camelô do Paraguai: contanto que divirta e esteja na boca do povo, estou consumindo. Sendo assim, não seria diferente no que diz respeito à obra do cantor Maluma: gosto e consumo sim. Eu amo reggaeton.

Deus abençoe o reggaeton.

No entanto, antes de ser uma consumidora eu sou uma pensadora, ou assim me vejo quando me olho no espelho da auto-afirmação. Assim, gosto sempre de analisar o que consumo pelo viés da construção de narrativa e, esses dias, ouvindo Maluma enquanto caminhava a pé por uma rua escura, me veio esse pensamento de como ele criou essa persona que hoje impacta tantas mulheres de meia-idade como eu.

Se não, vejamos.

Em seu debut em 2012, Maluma chega com o álbum “Magia“. Tendo como conceito um nada (ou, sendo otimista, uma sugestão de impacto do tipo “vejam que rosto bonito”), Maluma começa a galgar seu lugar ao Sol com um reggaeton básico de letras simplórias sobre amar mulheres casadas ou sobre como está obcecado por essa mulher que aparentemente tem critérios e não aceita seus cortejos. Mesmo que sem nenhuma narrativa explícita, esse álbum chama a atenção porque em algumas músicas Maluma se auto-intitula “rude boy“, um título que não colou, mas serviu de prenúncio para o personagem que ele começava a criar.

Com esse disco, Maluma trabalhou feito louco tentando emplacar com seu rostinho imberbe algum tipo de persona de predador sexual com sentimentos. No entanto, o flop nos charts aponta que ele era então muito novo para conseguir imprimir esse conceito em um cenário musical onde ou você é o anjinho doce ou é o machão pegador.

Apostando no segundo caminho, três anos depois, Maluma dá uma de louco e lança dois CDs no mesmo ano. Em 2015, então, temos “PB.DB. The Mixtape” e “Pretty Boy, Dirty Boy”, dois álbuns que apontam a guinada do cantor para o rumo do machão pegador.

Aqui temos a consolidação da narrativa que Maluma escolheria seguir principalmente porque deu certo: com “Pretty Boy, Dirty Boy” (ou Pretty Dirty Boy Boy, para os disléxicos), Maluma conseguiu emplacar seus primeiros hits, como El Perdedor e El Tiki. Essas canções ainda versam sobre os principais temas que o cantor gosta e conhece: ser rejeitado emocionalmente e continuar em pé na balada. Porém, o destaque aqui é que ele afina seu personagem e crava seu título: Maluma é o pretty boy, dirty boy: o cara bonito, mas safado.

Puxa vida.

Também é com esses trabalhos que Maluma consegue outro subtítulo, esse que o popularizou até mais do que o que dá nome aos CDs. Em quase todas as músicas, Maluma diz seu nome, o que é comum no reggaeton, e diz também “baby“, de uma maneira extremamente sedutora. Tais palavras impregnaram de tal forma no imaginário de seu público que por muitos anos o cantor ficou conhecido como Maluma Baby, como se ele fosse, sei lá, uma marca de pão bisnaguinha. O que é cômico e quem sabe até indesejado, mas é aquela coisa.. Whatever works.

E funcionou. Com “Pretty Boy, Dirty Boy”, Maluma estourou na música mundial, fazendo feats. com vários artistas de seu gênero musical (ou não), turnês ao redor do mundo e aparições diversas na TV. Era a fama e era perfeito. Era o auge.

Depois de anos de construção, chegava a hora de desconstruir o personagem. Afinal, nada grita mais “conceito” na música pop do que levar anos criando uma imagem para depois chegar com um CD e dizer: este sou eu de verdade, tudo que veio antes foi imposição da gravadora!

Tá chorando por que, Miley Cyrus?

Desse modo, nos dando absolutamente tudo o que queríamos e mais, Maluma surge em 2018 com cabelo e barba crescidos, além de uma fixação por fumar charuto e usar casacos de pele.

Quer dizer, tudo.

Absolutamente tudo.

É a era F.A.M.E., onde com um álbum de mesmo nome Maluma finalmente mostra a que veio. Com 15 canções, o CD traz um Maluma mais maduro, mas ainda capaz de dançar muito enquanto chora.

Os feats servem para mostrar o prestígio que conquistou, enquanto as letras seguem versando sobre desamor e balada, em um recorte fino do que o cantor realmente acredita: este é um homem que só se apaixona pela mulher errada.

A desconstrução de Maluma, aliás, é exatamente essa: deixando de lado a coisa do machão predador, o artista explora algumas narrativas interessantes das suas aventuras amorosas. Turns out, ele também tem sentimentos. Turns out, é sempre por mulheres comprometidas ou com critérios, como já víamos desde o começo. No entanto, o que muda aqui é que Maluma se permite falar sobre isso com mais dor do que arrogância, o que o expõe como um ser humano mais crível do que um simples e fantasioso pretty boy, dirty boy.

Fato é que, em algumas músicas de F.A.M.E., parece que o grande resumo da mensagem a ser passada é: “sei que você merece algo muito melhor e sei que sou um lixo de pessoa, mas a balada já está no final, então será que CUSTA me beijar?”

Existe sentimento mais humano do que esse? Eu acho que não.

Vindo nessa narrativa, chega 11:11, no ano seguinte. E mais uma vez somos impactados com algumas mudanças e afinamento de discurso.

Tirando com uma mão o que um dia nos deu com outra, Maluma surge com luzes neon, cabelos curtos e roupas de material sintético, o que é estranho e bom?

Trazendo parcerias ainda mais pesadas, como Ricky Martin e Madonna (falo mais disso lá para frente), em 11:11 Maluma abandona os títulos: não é mais pretty boy, dirty boy, não é mais Maluma Baby. Tal qual uma regra de português pouco usada, Maluma não tem justificativa ou motivos, ele apenas é.

A linearidade com as obras anteriores é mantida, no entanto, através de um fio muito sutil. Continuando sua narrativa, Maluma usa muito uma auto-referência que já tinha sido explorada em discos anteriores, de maneira quase subliminar: Maluma diz várias vezes em suas canções que ele é o seu “perro”.

Ou seja, ele diz que é o seu cachorro. O seu cachorrinho.

Tá chorando por que, Iggy Pop?

Se não é um personagem ou um alter ego, é um desejo pouco escondido e agora escancarado. Com 11:11, Maluma foi onde poucos seres humanos foram capazes de chegar, se apresentando pelo mundo todo e chegando ao alto escalão da música pop.

E de tudo isso, a consagração oficial veio com uma madrinha. De todos os feitos memoráveis que 2019 trouxe com esse CD, o maior de todos foi, sem dúvida, ter gravado 3 (eu disse três) músicas com Madonna: duas para o CD novo dela, uma para esse CD dele.

Era, enfim, o auge real oficial, com Maluma conquistando o topo sendo ele mesmo.

E ele mesmo é um cachorrinho.

Em Medellín, seu feat com Madonna, Maluma canta:

Discúlpame, yo sé que eres Madonna
Pero te voy a demostrar cómo este perro te enamora

O que é, honestamente, a tampa de qualquer caixão de resistência a este artista.

Com música e clipe, Madonna apresenta Maluma para a pequena parcela do mundo que ainda não o conhecia e é assim que Maluma chega: dizendo que é um cachorrinho por você. Tomando como uma alcunha isolada, você pode achar graça em um homem feito dizer que quer ser o cachorrinho da mulher amada.

Sendo uma mulher, você sabe o poder que isso encerra. Sendo uma pessoa ainda em dúvida, você pode simplesmente ver o clipe da música e conferir com seus próprios olhos como Madonna, the one and only, responde à esse chamado.

Assim, temos o desfecho do arco que Maluma começou a escrever lá em 2012, em “Magia”. Muito sem saber, e provavelmente se conhecendo mais conforme errava e acertava, o cantor finalmente se encontrou e chega ao final de 2019 com sua persona consolidada: Maluma é o cachorrinho do pop. O homem que se apaixona errado e não desiste, que faz tudo o que você pedir, que é másculo e carinhoso, que é um lixo, mas poxa, ele te ama.

Resistir à isso é um problema todo seu. Eu nasci na Tríplice Fronteira, como disse, não tenho condições de querer ir contra o que meu coração pede.

Eu sou o cachorrinho do meu próprio gosto musical.

Brain Dump*

Madonna é Madonna só porque tem dinheiro: essa falácia

I took a trip, it set me free. Forgave myself for being me

Voltando aqui para falar várias coisas, e depois, quem sabe, ir embora sem dizer nada.

Talvez você pense, “bom, Madonna com 60 anos e tá lá, se reinventando e criando coisas novas” e pense “eu também posso”. Ela tem mais dinheiro que a gente, fato. Mas nós também podemos dar os nossos pulos, voando mais leves por conta dos bolsos vazios.

Bicho, eu ando transtornada de maneira pouco saudável com esse feat. dela com o Maluma, ainda mais depois da apresentação de ontem na premiação da Billboard. Que poder é esse?

“about last night” — kkkkkk aquelas

Madonna, eu te desejo tudo de bom, saiba, caso você esteja lendo isso. Deus te conserve, embora o mundo em geral não te mereça.

E nesse ponto você começa a ver que não é sobre a Madonna, mas sobre a gente mesmo. No limiar de completar 35 anos de idade, me dou conta de que comecei esse Medium no limiar de completar os meus 32 anos de idade — e aí penso, o que estou fazendo além de deixar pegadas digitais por todos os cantos? Está na hora de assumir alguns marcos e fixar permanência em alguns lugares. Por enquanto. Até tudo mudar de novo.

Mas calma, esse não é um post sobre eu escrevendo um post.

Outra coisa que tem me deixado meio nervosa é a série Chambers. Tem na Netflix. Estou no sétimo episódio e não aguento mais ver gente cortando a própria carne assim à sangue frio com uma faquinha de pão. O clima todo é meio assim Stephen King, uma coisa meio obscura sem razão, o que também me deixa triggered, mas por motivos diferentes.

“E eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”, teriam dito os produtores de Chambers

É que eu estava falando com o meu terapeuta sobre como acabei de publicar meu décimo livro (Compre “desaparecer”, já disponível na Amazon em formato digital e um preço RIDÍCULO) e como eu nunca mais quero escrever livros. E então ele disse “Por quê?”, mas não apenas perguntando “Por quê?”, mas sim usando outras palavras mais misteriosas e murmúrios angustiantes e eu respondi, bom, é porque…

Honestamente, já estou cansada de escrever sempre a mesma história, eu vejo agora, no fundo todas as histórias são as mesmas histórias: as dos livros, as dos contos, dos blogs, das redes sociais, etc.

Da sua vida, ele disse, e eu falei que eu estava em um ponto da minha vida em que não podia chorar agora. Rimos (não), mas o ponto é que eu pensei (e disse): todas as histórias que eu escrevo são as mesmas histórias, o que aponta que ou eu sou uma péssima escritora, ou eu tenho um estilo muito forte, como o do Stephen King, que escreve sempre a mesma história há anos. Aí meu terapeuta riu mesmo e me deixou nessa incógnita, se eu sou um lixo ou o Stephen King.

Veja, se os dois extremos são esses, é quase como se eles fossem a mesma coisa e não houvesse diferença, afinal. Não que King seja ruim, pelo amor de Deus, mas o que diferencia o bom do ruim senão o nosso olhar sobre ele?

Pense nisso.

Mas isso aí também não é um problema, você vai vivendo e descobrindo coisas sobre si mesmo, aprendendo a conviver com elas e, em um último passo, maior e mais intenso, se apropriando delas e gostando delas ao entender que elas são quem você é. No limiar dos 35, olhando para todas essas pegadas que deixei em blogs, livros, redes sociais que já não são mais o que eram, vou fazendo o que posso e gostando cada vez mais de quem eu sou. E isso é ótimo.

E nisso faz todo o sentido, Madonna no palco roçando no Maluma como se não houvesse nada com o que se preocupar além de express yourself (a atitude, não a música) e você pensando: bicho, é isso. Essa mulher venceu. Eu vou vencer também. Ao meu modo, repetindo histórias, sendo eu mesma, rindo porque estou em um ponto da minha vida em que não posso chorar. Mas vou.

Avisa essa porra aqui que eu voltei.

Resenhas

As músicas que mais ouvi em 2016

Bates Motel — 2013

O ano em que me rendi ao pop de vez

Essa é uma análise de final de ano que provavelmente interessa menos para os outros do que a que fiz dos livros, eu sei. Quando você fala dos livros que leu, é mais fácil que outras pessoas se inspirem a ler também. Já música é uma questão muito mais pessoal e se eu te disser que One Direction é bom, ainda que você acredite em mim duvido que seja a minha opinião que te fará escutar a banda se não for o tipo de música que você goste por princípio. E eu sou uma pessoa que basicamente só ouve música pop.

De todo modo, o Last.FM — que segue quase firme e quase forte — fez um review bem bonitinho para seus usuários e eu quis analisar o meu. Vou separar por blocos para deixar minhas ̶j̶u̶s̶t̶i̶f̶i̶c̶a̶t̶i̶v̶a̶s̶ ̶ análises bem claras.

O review começa com esse “geralzão” que na verdade é impreciso: por mais que eu lute e me esforce, não consigo consertar um erro primordial do Last.FM que é o fato de ele não scrobbliar músicas que eu escuto na rua. Já notaram isso? Do que você escuta no Spotify, o Last.FM só manda pro seu perfil o que você ouve no desktop! Ou seja, a música que você escuta via mobile não conta. Isso é um erro deles que não vejo como contornar e sendo assim, esse review acaba sendo uma análise apenas do que escuto enquanto estou no trabalho, no computador, basicamente.

Dito isso, vamos em frente. One Direction continua sendo a minha banda mais ouvida, comprovando que a coisa mais perene que ficou da adolescência foi esse gosto incurável por pop e boy bands. A novidade é mesmo Silva, cantor que descobri esse ano (por indicação de um amigo! será que esse post servirá de algo, afinal?) e cujo álbum Júpiter foi o que mais ouvi no ano!

Pra quem se interessar, Silva é um cantor que toca MPB e é todo cheio de sentimentos envoltos em pianos e bela voz. A gente costuma defini-lo como “o Guilherme Arantes dessa geração”. Se você gosta de música que vem do coração, pode gostar do som do Silva.

Aqui algo que não sofre influência pelo fato da análise ser apenas do tempo em que estou no trabalho. Independente disso, o período que mais ouço música é mesmo das 11h ao meio-dia e na segunda-feira. Eu amo segunda-feira. É verdade. É sempre o dia em que estou mais pilhada para trabalhar, então ouço música o dia todo para manter o foco. O horário em que mais ouço também mostra isso: sempre sou mais animada pela manhã, então chego às 10h no trabalho, dou uma organizada no que tenho que fazer, ligo o som e vou que vou nos jobs.

Treze dias ouvindo música sem parar. Eu não sei que feitiço foi esse. E outra, o que aconteceu comigo em 01 de fevereiro de 2016? Era uma segunda-feira e eu devia estar atolada de trabalho… Dá pra notar que eu adoro ouvir música enquanto trabalho, né?

Eu acho que lembro desses dias do On Repeat. Tirando o de One Direction, que eu realmente ouço muito todo dia e não saberia diferenciar um deles em especial, esse do Video Hits foi de um dia em que acordei com muita saudade da banda. E do Mc João, foi quando descobri que tinha Baile de Favela no Spotify e fiquei feliz demais.

E acaba aí o review do Last.FM. Para não dizer que não falei das flores, amplio um pouco mais e mostro o que o Spotify me mandou. Sim, o Spotify também mandou uma análise do ano, essa bem mais completa e que reafirma o que eu já sabia: minha alma definitivamente foi vendida para o pop.

Essa parte dos “Seu gêneros” chega a ser hilária. Pop Christmas? Isso com certeza foi das vezes em que esqueci e deixei o CD de Natal do Hanson rolando. O que é post-teen pop? Será que são os álbuns mais recentes do Backstreet Boys, que já passaram da adolescência faz tempo? Não sei mesmo. E olha ali de novo: o dia que eu mais escuto música é na segunda-feira! No mais, muito pop, pop pra caramba, em todos os estilos.

Para 2017 eu não vou prometer nada, claro. Acho que música é muito mais de como você está se sentindo do que de objetivos a serem alcançados. Se bem que esses dias mesmo eu prometi que ouviria mais Fall Out Boy, uma banda que gosto muito, mas só lembro que existe quando sai música deles em filme. Então vai ser isso. E mais a avalanche pop de sempre.

E você, como foi seu ano em música? Descobriu bandas novas ou só ficou nas já queridas? Também prefere ouvir música quando trabalha? Segunda-feira é seu dia favorito da semana, igual a mim? Comenta aí, quero saber!

Para quem quiser ser meu amigo nas redes mencionadas neste post: meu perfil no Last.FM e no Spotify. Só adicionar.

Processo Criativo

Inspiração é um negócio muito louco

Lindo e forte, renasce das cinzas

E ainda vai te enlouquecer também

Em algum momento todos ao meu redor se cansaram de me ouvir falar de Daniel Johns, meu role model de doença, se é que podemos chamar assim. O cara em quem me inspirei quando estava no pior do câncer. Parei de falar sobre o assunto, também. Hoje descobri, maravilhada e surpresa, que uma (uma! apenas uma!) amiga minha ainda não sabia da linda história de superação de Johnsty. O despertar se deu quando, casualmente, coloquei o clipe de Cool On Fire no nosso random diário.

– Menina, eu não sabia que ele tinha mudado! Achei que ainda estava cabisbaixo!

– Mulher, ele mudou! Ele agora é pop, é tipo Usher, ele superou as doenças todas e tacou o foda-se pro rock!

– Tô vendo! Ele passou por umas tretas sérias, eu lembro.

– Anorexia, artrite, depressão… Ficou sumido uns anos, aí voltou todo contente e saudável tocando música pop.

– Menina, que loucura.

– Quando eu descobri, fiquei desgraçada da minha cabeça. Foi bem na época da minha doença. Eu meio que me espelhei nele. Nessa coisa da superação, sabe?

– Menina…

– Foi aí que escrevi três livros sobre ele.

– Quando eu fico meio obcecada assim eu só procuro umas fotos do artista no Google…

– Pois é, é que eu…

Eu não tenho muita explicação para isso. Inspiração é um negócio muito louco. Mesmo.


Os livros estão aí.

Os novos trabalhos de Daniel Johns, todo pop & eletrônico, também.

Brain Dump*

Sites de deixaram de nos amar como deviam — e que a gente segue amando

Foto: Death for Stock

Eu ainda não te perdoei, LastFM, e ainda não te esqueci, Google Reader

Sem aviso, sem explicação, sem alardes. Tudo muda e a gente fica se sentindo traído e abandonado. Como alguém que entrou para a vida adulta sendo mimada pelas redes sociais em seus mais distintos serviços fúteis & fundamentais, tem horas em que me pego pensando, entre magoada e saudosista, nos sites que não deram certo.

Ou que deram certo enquanto duraram, se formos pensar de maneira mais poética.

Eu não posso nem pensar no Google Reader que a minha perna treme. Tudo era perfeito ali. Vivíamos em uma comunidade clandestina onde nós contrabandeávamos textos científicos, artigos opinativos, fotos bonitas de tumblr, entre outros. Era tudo nosso, era íntimo e perto. No pouco tempo que durou, o Reader foi o meu clubinho virtual de leitura, onde me sentia muito especial compartilhando conteúdo interessante com meus amigos, trocando referências e piadinhas nerds só nossas. Um dia, decidiram que não tinha mais a ver e acabaram com tudo. Foi doloroso.

Sim, eu já tentei outros serviços similares. Sim, você adivinhou, eu não gostei de nenhum.

Além dos que somem por completo, existem os serviços que mudam e perdem a identidade que nos cativou a princípio. Isso aconteceu com o Foursquare, por exemplo. Era muito emocionante dar check in nos lugares e ler as dicas — escrever dicas também era toda uma chiqueza. E tinha as badges, medalhas virtuais que a gente ganhava quando batia alguma meta inventada por eles. Nosso sonho era que essas badges se tornassem físicas por meio de bottons ou adesivos, batalhávamos para consegui-las, mas tudo foi pelos ares quando resolveram mudar a plataforma e dividi-la em duas: o Foursquare e o Swarm. Agora, a parte de check in e badges (sem todo aquele glamour) fica com o Swarm e para o Foursquare sobrou apenas a parte de dicas. Assim desmantelado, feito por dois o serviço não vale por um e perdeu o encanto de vez.

Também gostava muito do Get Glue, onde você dava check in em séries e ganhava badges — essas muito mais legais, pois você recebia pelo correio no formato de adesivo. Demorava uma vida para chegar, mas vinha. Eu recebi umas quatro remessas até que mudaram o formato da plataforma para algo que me decepcionou tanto que nem sei que fim levou. Só sei que nunca mais recebi os adesivos.

Mas nenhuma dessas mudanças me magoou mais do que a do Last.FM. Isso porque o que aconteceu com o Last não foi nem uma mudança exatamente. Na real, foi o contrário: ele nunca mudou de maneira significativa. E, com isso, ficou obsoleto, foi engolido pelas novidades que surgiam ao seu redor e ficou para trás.

Tenho perfil por lá desde 2008 e no decorrer dos anos acompanhei a plataforma tentar com todas as forças, sem sucesso, tomar parte na corrida das outras redes sociais que chegavam. Tentou mudar em algumas coisas, criou aquilo da rádio, o serviço pago e assinado, mas nada vingou. O site em si ficou meio defasado em seu layout com o passar do tempo. Não conversava mais com o que a gente via na aba ao lado. E os fóruns dentro dele passaram a morrer.

E era uma rede muito boa! Costumava ser. Por lá, você acompanhava os lançamentos dos seus artistas favoritos, agenda de shows e comparava seu gosto musical com o dos seus amigos. Na coluna lateral da direita, você podia instalar uns plugins descolados que traziam mais informações sobre o que você ouvia e suas bandas prediletas.

E, você sabe, nada diz mais sobre uma pessoa do que as músicas que ela escuta. Pelo menos é isso que nos fazem acreditar desde a adolescência, quando a gente se acha f#da pra crlh por ouvir rock ou conhecer aquela banda de garagem de uma cidadezinha do Sul do Texas.

Foi com o Last que eu descobri que, quem sabe, Elvis Costello fosse o meu artista favorito.

E é, até hoje, por onde eu me guio para ver o que estou ouvindo pouco ou como é que eu fui ficar tão obcecada por este ou aquele artista no mês.

Em que outro lugar Justin Bieber e Logic poderiam reinar em harmonia com tanta propriedade senão no meu coração? Além de nos aproximar de tudo o que havia de novo dentro do universo de artistas que a gente mais gostava, o LastFm agrupava nossos amores musicais de maneira exata e os apresentava em tabelas bonitas que faziam a gente se sentir muito moderno e cool.

Hoje em dia, essas tabelas bonitas são meio que a única coisa que restou de boa no site.

O que não se sustenta. Não quando você tem mais outras dezoito redes sociais para alimentar e dar banho. Não com o Orkut voltando e com o Snapchat ali do lado, te pedindo tanta atenção.

Com isso em mente, dá até pra pensar que esses sites todos morreram para que outros pudessem chegar. Quem sabe seja tudo melhor agora e a gente só esteja sendo saudosista. Pode ser, mas eu nunca mais li tanto online quanto lia quando tinha o Reader (ler timeline de Facebook não conta como leitura), pra citar um exemplo.

E nem tive mais aquela alegria de ser adicionada no LastFM e pensar, todo orgulhosa, meu perfil é um arraso mesmo.

Se bem que, bom, não ando tendo isso com rede atual nenhuma. É, quem sabe a culpa seja minha mesmo.

Admito.

Ainda assim, não te perdoei e nem te esqueci, Last.


Caso queira me adicionar no LastFM, pois ainda não desisti do meu perfil por lá, clique aqui.

Resenhas

A odisseia amorosa de Elvis Costello

Elvis Costello em registro de 1977

Assim como uma boa canção, o amor não é fácil de se assimilar logo de cara, ele precisa amadurecer junto com você

O ano é 1976 e Elvis Costello toca guitarra baixinho na cozinha enquanto no quarto, sua esposa e filho dormem. É madrugada e ele dedica esse horário que deveria ser de descanso para finalizar seu primeiro álbum. De dia, trabalha como profissional de TI atendendo empresas que precisem configurar seus computadores. Na década de 70, você pode imaginar, esse não era o serviço mais solicitado do mundo. Por isso, Costello – que naquela época ainda atendia por seu nome de batismo, Declan McManus – trabalhava sério em um projeto que poderia lhe dar, senão um futuro melhor, uma vida mais feliz. Ele queria ser um músico de sucesso.

Em 1977 Costello finalmente terminou seu primeiro álbum, My Aim Is True, o nome sendo um verso emprestado de Alison, canção que abre o disco. Com toda a audácia de um jovem em seus 23 anos de idade, o músico passou um dia inteiro na frente do prédio de uma rádio até que alguém ouvisse sua fita e se comprometesse a produzi-la. Deu certo. E foi um sucesso tremendo.

My Aim Is True — 1977

Na capa do disco, um Elvis Costello franzino e quase cômico em uma imitação imperfeita de Buddy Holly aparece de pernas tortas, trazendo no rosto a expressão de raiva disfarçada pela vontade de ser bom moço e vender. My Aim Is True era meio punk, mas também tinha aquele tom de rock comercial que conquista imediatamente. Elvis era um moço bonitinho, branco e inofensivo. Como não amar? Um homem desse, assim desarmado e sincero, só pode estar falando de amor.

E estava, mas não exatamente da maneira mais correta. Já de início, Alison conta a história de uma moça que está se casando, mas ainda é amada pelo ex. “Alison, eu sei que esse mundo está matando você. Alison, o meu objetivo é verdadeiro”, ele canta com persuasiva decisão, querendo que a moça mude de ideia enquanto corta o bolo da festa do próprio casamento. Traiçoeiro, você diz. Bom, era só o começo.

You’re upstairs with the boyfriend while I’m left here to listen.
I hear you calling his name, I hear the stutter of ignition.
I could hear you whispering as I crept by your door.
So you found some other joker who could please you more.

Isso é de outra música do mesmo disco. O amor parecia ser algo que Costello deveria roubar dos outros ou conquistar aos gritos, naqueles anos. Quando comecei a me interessar pela obra dele, isso há uns bons dez anos, me espantou o fato de não ter nada muito quotável em suas letras. Eu explico. Não é que ele não seja bom letrista, não é que ele fale frivolidades. A questão é que quando Elvis fala sobre amor no começo de sua carreira, há tanta raiva em seus versos que fica um pouco difícil achar algo utilizável quando se pensa em passar esse sentimento adiante.

Bebe Buell e Costello — um caso cheio de idas e vindas

Com o sucesso meteórico, Costello também se separou da esposa tão rápido quanto pôde. Se o primeiro casamento tinha sido precoce por conta de uma gravidez inesperada, agora ele era um rockstar e não tinha tempo a perder. Os anos de silêncio contido na cozinha da casa diminuta nos subúrbios tinham chegado ao fim. Maravilhado com a fama e seus encantos, menos de um ano depois do lançamento de My Aim Is True, Elvis já estava envolvido e perdidamente apaixonado por Bebe Buell, a groupie das groupies, mãe de Liv Tyler e ex de Steven Tyler, Iggy Pop, David Bowie, Mick Jagger e Rod Stewart, só para citar alguns.

Você pode dizer que é leviano analisar a obra de um artista tendo como base a sua vida amorosa. Mas isso não é coisa de revista de fofoca quando o que o artista em questão produz é reflexo direto dos seus relacionamentos. Algo fácil de se provar quando analisamos, por exemplo, This Year’s Model segundo álbum de Costello, lançado no ano seguinte, 1978. “Don’t wanna be a goody-goody / I don’t want just anybody / No, I don’t want anybody / Saying “You belong to me, you belong to me”” ele diz em uma canção do disco, todo “contentinho” com sua pretensa solteirice, para então bradar na canção seguinte:

I don’t like those other guys looking at your curves
I don’t like you walking ‘round with physical jerks
Everything they say and do is getting on my nerves
Soon they will be lucky to be picking up the perks
’Cause when they pull the shutters down and throw up in the dark
They’ll find that all the dogs outside bite much worse than they bark

Ou seja, ele não é de ninguém, mas você tem dono, moça. Péssimo. A despeito de suas inúmeras composições de amor, esse parecia ser o sentimento que Costello menos entendia. E mais:

No, don’t ask me to apologise.
I won’t ask you to forgive me.
If I’m gonna go down,
you’re gonna come with me

Costello e Buell em um flagra de papparazzi

O nome da música é Hand in Hand, para registro. Uma música em que Elvis sugere que ele e seu par afundem juntos, já que não conseguem resolver seus problemas. É… Bem longe do ideal.

Em um esforço para construir sua persona como compositor e celebridade em si, Costello deixava à mostra toda a sua insegurança por meio de suas canções. Criticas ao governo e lembranças magoadas do tempo de trabalhador assalariado se mesclavam a composições onde o amor é uma luta e não um porto seguro. Em peso, suas letras falam da raiva de amar alguém que o deixa à deriva, que o provoca e não lhe ama na mesma medida. Alguém que o faz de bobo e nunca está ali por ele, enquanto ele… Ele largou tudo por ela. Amar Buell era assim, pois Costello também era assim.

There’s so many fish in the sea
That only rise up in the sweat and smoke like mercury
But they keep you hanging on
They say you’re so young
Your mind is made up but your mouth is undone

Certamente alguma coisa estava acontecendo ali. O relacionamento com Bebe não era dos mais calmos, posto que Elvis mesmo não era uma figurinha fácil. No auge da fama, por essa época, Costello se afundou em drogas e álcool e manteve um comportamento irascível que o fez ser banido por décadas da TV americana — suas apresentações eram furiosas demais e ele nunca seguia o combinado.

Tanta raiva havia de ser extravasada em algo e o namoro, que nunca fora um alicerce, começou a ruir de todo. A grande ficha começa a cair por volta de 1986, quando cansados de tanta tensão, Costello e Buell rompem em definitivo.

He thought he was the King of America
Where they pour Coca Cola just like vintage wine
Now I try hard not to become hysterical
But I’m not sure if I am laughing or crying
I wish that I could push a button
And talk in the past and not the present tense
And watch this hurtin’ feeling disappear
Like it was common sense
It was a fine idea at the time
Now it’s a brilliant mistake

Essa letra é de Brilliant Mistake, de 1986. O último capítulo desse relacionamento viria na forma do álbum Blood & Chocolate, décimo primeiro de Costello, inteira e abertamente dedicado à Bebe Buell. O título era uma referência ao hábito de Buell de comer chocolate desesperadamente quando estava menstruada. Foi nesse disco que Elvis gravou I Want You, uma das canções de amor mais lindas e doloridas de todos os tempos.

Oh my baby baby, I love you more than I can tell
I don’t think I can live without you
And I know that I never will
Oh my baby baby, I want you so it scares me to death
I can’t say anymore than “I love you”
Everything else is a waste of breath

Mas, é claro, a raiva e o ciúme ainda estavam ali, como podemos ver na faixa I Hope You Are Happy Now. Tão rápido quanto deixou Costello, Buell arranjou outro. Certa ela.

He’s a fine figure of a man and handsome too
With his eyes upon the secret places he’d like to undo
Still he knows who knows who and where and how
And I hope you’re happy now

Depois de anos chorando de raiva, Costello decide rir

Foi o fim de uma era. Após Blood & Chocolate, Costello ficou três anos sem gravar — ele costumava entregar até dois álbuns por ano. Seu retorno aconteceu com Spike, lançado em 1989 e tido como a sua grande obra-prima até hoje, a maior de todas. Em uma reinvenção de si próprio que beirava o ridículo, Elvis surge se auto-intitulando “the beloved entertainer” e entrega um álbum mais maduro e sério, a despeito das brincadeiras da capa. Homenagens sentimentais a parentes, reflexões sobre a vida em geral e um pouquinho de cinismo indisfarçável permeiam o disco que recolocou Costello nos trilhos.

O tom das letras se suavizou com o passar dos anos, então. Flertando sem medo com o jazz e o erudito, temos um álbum mais “sério” que o outro e nisso o amor é visto pelo cantor como algo a ser descoberto com calma e cuidado. Finalmente, em 2003, Costello se casa com Diana Krall, cantora e pianista canadense que viria a lhe dar dois filhos e fazer do músico um homem “de família”. No mesmo ano, lançou “North”. Esse norte sendo, por óbvio, o amor de Diana.

Costello e Diana

Com Costello, Diana se sentiu motivada a se lançar também como compositora. Com Diana, Costello largou a raiva e o ciúme irracional das composições anteriores e mergulhou em letras mais elaboradas e sóbrias sobre família, amor e temas clássicos. Foi o momento das grandes parcerias, como por exemplo com a Orquestra Sinfônica de Londres, Marian McPartland e tantas outras. Em 2008 ele retornaria do jazz para os braços do rock com Momofuku, álbum recheado de riffs ácidos e ligeiros em faixas com menos de 3 minutos de duração — o mesmo tempo de preparo do macarrão instantâneo criado por Momofuku Ando. Uma piada, é claro. Costello se permitia sorrir novamente e dessa vez sem passar por cima de ninguém — nem dele mesmo. Uma das canções do disco, My Three Sons, deixa essa mudança na cara de todos já no título e também quando diz:

I love you more than I can say
What I give to one
The other cannot take away
I bless the day you came to be
With everything that is left to me

Seguro de si, Costello fez de tudo. Mais parcerias de jazz, dois discos de country, mais rock, tango (!), e o mais recente, um disco todo moderninho com “a banda do Jimmy Fallon”, a The Roots. Hoje, as canções de Costello são mais quotáveis, sim. No decorrer de sua odisseia amorosa, ele experimentou a raiva, o ciúme, a solidão e todos esses sentimentos estão transparentes em suas canções. Não há fingimento, está tudo lá. Após tantos anos, é possível amá-lo por isso e se reconhecer nele. Para além disso, é possível ver que o amor pode salvar, ainda que não seja fácil de começo. Nunca é, verdade seja dita. Mas vale o esforço.


Para ouvir: