Processo Criativo

Escreva um livro, assista a TV, tanto faz: tudo é escapismo pop e romântico

A segunda temporada de Elite chegou com os dois pés no peito do fã. Still a better love story than Twilight, a novelinha espanhola tem em sua cafonice e dramas desmedidos o trunfo inesperado que conquista pelo coração mesmo o streamer (fiquei em dúvida sobre usar a palavra “telespectador”, um termo hoje tão raso quanto chamar uma pessoa com celular de “datilógrafo”) mais resistente.

Gosto dessa série porque ela é como se Gossip Girl fosse feita com vontade, o que sabemos que não foi. Os crimes, o sexo, a beleza inatingível de todo (eu disse todo) o elenco, os looks, e, ah, o fato de ser em espanhol. Toda vez que a Lucrécia(!) chama alguém de cariño eu desisto de ser ruim com os outros. Toda vez que o Ander beija o Omar eu penso, bom, quem sabe (eu disse quem sabe) o mundo tenha salvação.

Nessa nova temporada, os conflitos se intensificam e extrapolam de um jeito absurdo. A tensão acerca do crime misterioso da vez só não é maior do que a que ronda absolutamente todos os relacionamentos da trama. Até o sonso do Samu, o nosso Ted Mosby latino, consegue ter alguma expressividade. E quem rouba a cena, mais uma vez, é Lucrécia, que precisa provar sua esperteza incontáveis vezes, enquanto, um a um, todos que ela ama a traem pelas costas de algum jeito.

Não me peça para falar de Guzman, eu choro.

Assistindo a essa novelinha, eu me senti mais segura sobre estar no caminho certo com meu novo livro, esse que lancei essa semana. Eu estava finalizando a escrita dele quando a S2 de Elite chegou. Estava bem desmotivada de tudo, como qualquer autor independente sempre está, e os dissabores vivenciados pelos personagens da série me deram força para viver. Não tem jeito, mesmo a história mais cafona precisa ser contada. Só existe um modo de fazê-lo, que é o seu.

No entanto, eu insisto, é cansativo demais fazer todo o trabalho sozinha. Chegando ao meu livro de número onze (insira aqui o gif do JVN dizendo can you believe?), eu me vejo em um ponto onde não tenho mais para onde ir. É como uma droga na qual você é viciado há tanto tempo que não tem mais a opção de tentar parar. Dizendo isso até parece algo muito inspirador ou mesmo pedante. Me acredite, não é nenhum dos dois.

Quando lancei meu décimo livro, prometi que seria o último. Infelizmente, não consigo parar de ter ideias e não consigo parar de escrevê-las. Gostaria de não tê-las mais, e poder dedicar minha energia a outras coisas, como bordado ou artesanato em gesso, por exemplo. Tais atividades não tem uma comunidade ao seu redor que sempre é mais talentosa e bem-sucedida que você, eu acho. Escrever um livro e soltá-lo no mundo, fazendo dele o instrumento mais frágil pelo qual você luta por aceitação é de um sangue frio que eu nunca imaginei que teria. Já fiz isso dez vezes. O meu coração hoje é um pandeiro surrado.

Ainda assim, fiz isso mais uma vez.

Beijando Horrores, o meu décimo primeiro livro, lançado essa semana, é mais uma tentativa de me fazer ser ouvida. Escrever histórias é necessário. Se não para todos, é para mim. Estava quieta no meu canto quando, vítima de mais uma inspiração insuportável e pouco prática, em menos de três meses escrevi a história exata que eu estava precisando ler. Romance, pegação, humor, tudo em uma narrativa simples e rápida, feita para desanuviar a cabeça mesmo.

Não sei se o mundo precisa ler esse livro, mas eu precisava escrevê-lo. Quem sabe meu único compromisso seja esse: comigo mesma. De fato, escrevendo Beijando Horrores, você nota já pelo nome do livro, o meu único compromisso era terminar cada capítulo me sentindo feliz horrores comigo mesma.

Isso eu consegui. Foi assim que comecei e foi assim que conclui essa história. Divertimento puro em um tempo em que nada nos é mais caro do que conseguir terminar o dia sorrindo. Curar o mundo está se tornando uma tarefa progressivamente mais difícil, não conseguimos curar nem a nós mesmos. Da minha parte, fiz o que sei e o que posso: inventei uma história. Caprichei no romance. Coloquei algumas piadinhas. Acreditei, eu quis acreditar, que essa história poderia ser divertida e útil para alguém. Assim como foi para mim criá-la.

Tem uns produtos pop que a gente consome e nos impactam de maneira perene. Mesmo hoje sendo tudo tão descartável e feito para consumo imediato, algumas histórias ficam ecoando na nossa mente por dias, semanas, meses ou até anos. Eu ainda lembro do quanto Call Me By Your Name mexeu comigo. O romance de Jim e Pam, em The Office, foi meu alimento dia e noite por um bom tempo.

Às vezes, no limiar de uma crise existencial causada pela nossa vida a cada dia mais dolorosa, é uma cena boba que nos salva. Seja na TV, na música ou nos livros.

Escapismo pop e romantismo é a minha receita para salvar o mundo. E eu só posso salvar o mundo lá fora começando pelo meu aqui dentro. Cansada de tudo, escrevi mais um livro. Feito Guzman, chorando feito um imbecil por nada, os dentes grandes que mal cabem na boca, eu fiz um escândalo dentro de mim e transformei em uma história de incríveis 261 páginas. Submeti essa história em um concurso. Dormi menos e me alimentei pior, perdi o foco, não foquei em mais nada.

Agora está aí. Se você precisar dela, está aqui. Disponível na Amazon, tendo seu valor por conta do seu preço. Esperando que te atinja com os dois pés no peito, como sabemos que você precisa.

Se não a cultura pop, o que mais faria isso por você? Carboidratos?

Processo Criativo

Quando você escreve 10 livros, você precisa se explicar

É cansativa a vida a escritora independente (Imagem: Jane The Virgin / divulgação)

Fica mais fácil se você fizer um infográfico, então eu fiz.

Bom, meninas. Eu já contei essa história aqui diversas vezes e das mais diversas formas, então, pelo menos uma vez na vida, que vai ser agora, vou tentar ser prática: nos últimos cinco anos eu escrevi dez livros.

Livros de 50 páginas, livro de 300 páginas. Trilogias e duologias, histórias que completas formam um arco definitivo, universos que se visitam ou se olham à distância, coexistindo dentro da minha mente e da minha obra.

Como isso começou? Em 2014, com um câncer e o tempo “livre” durante a quimioterapia. Depois, curada, continuei no mesmo embalo da escrita. Foi um bom exercício de escapismo. Rendeu dez histórias, então deve ter sido útil, também, de alguma forma.

Mas sempre que eu vou contar que já escrevi dez livros, me perguntam por onde começar a ler meus trabalhos. Acabei compreendendo que fica mais fácil se eu fizer um gráfico explicando tudo. Então eu fiz.

Escrevi livros de romance, fanfics, histórias sobrenaturais, enredos românticos piegas e também dei voz à homens tristes e bravos tentando lidar consigo mesmos. Falei sobre garotas que querem desaparecer e outras que olhando para o lado acabam por se encontrar. Falei de tudo o que povoou minha mente e coração nesses últimos cinco anos e antes, coloquei nesses livros tudo o que a minha mente imaginativa, carente e carinhosa já imaginou um dia.

Está tudo aí. Eis o mapa:

Se interessou por algum? Estão todos disponíveis em formato digital, alguns até de graça. Basta clicar e começar a ler.

Leia:

Este é o meu mundo todo, que compartilho com você. Depois me conta o que achou. Vou adorar saber o que essas histórias todas causaram em você, e se elas te tocaram de alguma forma.

Agora vamos criar coisas novas.

Processo Criativo

Como eu publiquei 3 livros de uma só vez

Photo by Thought Catalog on Unsplash

Não parece fácil e realmente não é — mas também não é impossível

Tem essa história que eu sempre conto de como sempre escrevi sobre tudo, mas não escrevia ficção porque tinha vergonha (!) de escrever diálogos. Aí meu marido me disse que isso era a única coisa que me impedia de criar coisas maiores, o que era uma grande besteira. Então, eu simplesmente parei com essa bobagem de ter vergonha e comecei a escrever romances, histórias de ficção.

Incrível como as suas maiores limitações geralmente são apenas coisas da sua cabeça. Difícil mudar isso, mas tendo essa noção, o caminho da mudança fica muito mais suave.

O primeiro livro que escrevi na vida se chama All Across The World. Ele foi um trabalho bruto e brutal, quase físico, já que, enquanto o escrevia, eu estava em tratamento de quimioterapia de um câncer de intestino. De certa forma, escrever era um alívio no meio da realidade dura que eu vivia então. Ele foi publicado no Wattpad e eu escrevia um capítulo e já publicava, uma clara atitude de quem está louca de remédios. A revisão era pífia, o planejamento era inexistente. Eu queria apenas escrever enquanto estava viva.

All Across The World gerou entrevistas para portais de notícias, um fandom (que resiste bravamente até hoje), mais de 18 mil visualizações no Wattpad e duas continuações: uma direta, que saiu como All Across The World 2 e um tipo de spin off, intitulado Perto.

São romances novelescos, chick lit sem medo de ser piegas. Moça encontra rapaz. Tem muito do meu coração ali, bastante erros de principiante e etc, mas o mais importante é que esses livros carregam a minha verdade mais profunda: a certeza de que para escrever um livro você não precisa ser o Bukowski ou a Ferrante. Você não precisa ter tudo pronto. Não precisa saber de tudo ou fazer milhões de cursos para te dar alguma confiança.

Você só precisa começar. Ter uma ideia e trabalhar por ela.

Pode ser que leve anos, mas você consegue.

Essas são as primeiras capas de AATW, meu primeiro livro. A primeira, claramente feita no paint por mim. A outra foi feita depois, pelo Tico. ❤

Nesse ponto, preciso esclarecer que All Across The World surgiu como uma fanfic do Daniel Johns, ex-líder da silverchair e atual artista andrógino do pop eletrônico (Jesus!). Eu me inspirei muito nele nos meus dias de doença porque ele cantou muito sobre seus problemas de saúde (artrite, anorexia, depressão) e ele, tipo, SOBREVIVEU. Eu também queria sobreviver.

Então, inventei Nicky, essa moça paulistana que conhece um cara misterioso e se apaixona por ele, até que um dia… Nada de novo, mas para mim era um mundo sendo descoberto. E consegui imprimir a minha marca ali, criando uma história cativante, divertida e adorável (isso foi o que me contaram).

Capas originais do livro dois. Mais uma vez, a primeira capa eu fiz no paint. Anos depois, o Tico faria essa nova para mim. ❤

O segundo livro surgiu logo em seguida, continuando aquela história. Nicky estava de volta com aventuras ainda mais loucas. Criei algumas tramas paralelas para dar sustentação e, nisso, um personagem que tinha surgido apenas para criar um conflito acabou crescendo muito. Com o final do livro dois, achei que ele merecia um desfecho só dele. Foi aí que surgiu “Perto”.

Capa original de Perto. Essa eu não importunei o Tico e fiz no PicMonkey!

“Perto” foi importante para mim como escritora porque foi o primeiro romance “não-fanfic” que escrevi. Aqui eu já estava um pouco mais experiente — e não estava mais doente — então pude trabalhar um pouco mais a minha ideia, escrever com mais calma e desenvolver melhor os personagens e a minha escrita.

Todos esses três livros foram publicados no Wattpad em menos de dois anos. Como eu disse, eu tinha muita pressa em estar viva.

Eu ainda escreveria mais dois contos (“Invisível” e “Malvarrosa”) no Wattpad, até criar coragem de começar a publicar na Amazon.

Então, fiz o caminho inverso, fui do fim para o começo: peguei esses dois últimos contos e levei para lá como teste. Deu certo, escrevi um terceiro (sexto?) livro, este inédito, Despertar, e publiquei direto na Amazon.

Tendo passado quase quatro anos, com esses seis livros escritos (e mais uma curta fanfic #NeyMessi, pois uma vez fanfiqueira, sempre fanfiqueira!), eu sentia que estava na hora de criar uma história totalmente nova. Quem sabe até uma trama que não fosse uma história de amor, algo totalmente diferente do que já fiz, sabe?

Porém, eu sentia também que faltava alguma unidade na minha obra, porque essa trilogia de AATW estava jogada no Wattpad e os outros livros estavam bonitinhos na Amazon. Parecia que algo estava fora do lugar, incompleto e injusto.

Foi quando me dei conta de que para andar para frente, eu precisaria parar um pouco e dar uma boa olhada para trás. Antes de seguir naquele turbilhão de um novo romance, precisava parar e deixar a casa arrumada. A solução me veio com clareza: eu teria que trilhar o caminho das pedras novamente, pegar aqueles primeiros livros e revisá-los adequadamente para levá-los para a Amazon e deixar minha bibliografia unificada.

Escrever um livro é difícil, reescrever é infinitamente pior. Em agosto de 2017 eu comecei esse processo, que fez com que eu me odiasse, risse de mim, sentisse orgulho e vontade de morrer, tudo ao mesmo tempo.

Em um primeiro momento, a principal preocupação da revisão era tirar o verniz de fanfic da história, então eu mudei nomes de alguns dos personagens e adaptei características que os tornavam caricatos nesse sentido.

Depois, tratei de tirar algumas referências que já soavam datadas, além de, é claro, corrigir enganos e até alguns erros de digitação. Por último, tentei ver o livro como um todo (algo inédito no caso dos dois primeiros, que foram escritos capítulo a capítulo) e tornar a história mais coesa. Foi o momento de tomar a história novamente pelas mãos e ver o que podia mudar, o que tinha que ser cortado.

Nisso muita coisa mudou e foi eliminada, porque quando você escreve um capítulo por semana (e as pessoas esperam a semana toda por esse capítulo), você acaba fazendo-o mais extenso do que deveria, para “durar mais” para o leitor. Em um livro único, essas partes a mais precisavam ser enxugadas, em prol de tornar o livro mais dinâmico. Os capítulos também precisavam ser menores, para dar ao leitor a sensação de que ele leu mais rápido (sim, tem isso), então houve essa reestruturação também.

Para além desses aspectos práticos, foi também um tremendo exercício de olhar para a minha escrita, ver o quanto eu tinha mudado, o que eu pensava de início e como poderia seguir adiante depois de tudo isso. Foi um processo muito trabalhoso, intenso de sentimentos, mas valeu a pena porque eu queria isso. Eu quero isso, então não desistiria jamais.

Ainda pensando na necessidade de desvincular da fanfic (“All Across The World” é o nome de uma música da silverchair), eu precisava de um título novo para os dois primeiros livros da série — “Perto” seguiria sendo “Perto”. Isso é um assunto muito delicado, mudar o título de um livro é como tirar a toalha de uma mesa posta. Conversando com o fandom, chegamos juntas a um novo nome, que condizia com a história e com o meu alinhamento como escritora: Encantamento. Uma palavra só, como em todos os meus livros posteriores. Uma palavra forte e bonita, como a história que ela agora passaria a dar nome.

Meus amigos Tico & Jules mais uma vez entraram em ação e produziram novas capas, tão lindas quanto ver um sonho se realizar com o suor do seu trabalho.

E então, passados quatro anos desde a primeira página escrita e oito meses desde o começo da revisão mais terapêutica que já fiz na vida, eu tinha meus primeiros três livros prontos para serem publicados na Amazon e ganharem o mundo (sendo o mundo tão vasto quanto um Kindle pode dizer).

É com muito orgulho que os apresento agora para você.

Encantamento 1, Encantamento 2 e Perto. Mais uma vez, capas do mais do que talentoso Tico.

Orbitando em missões espaciais pelos confins do universo, astronautas podem ver mesmo da Lua que eu sou a pessoa mais feliz deste planeta. Ao meu lado, meu marido pode ver o quanto estou feliz. Julie, minha melhor amiga, tem recebido incontáveis áudios meus onde eu apenas grito, com uma calma que não tenho, um infinito “aaaaaaaaaaaaaaa” febril e entusiasmado.

Essa é a minha maior realização. E, ao mesmo tempo, é só a primeira.

Com o lançamento desses três livros, encerro um ciclo. Essa foi a minha primeira “era” como escritora. Foram as minhas primeiras experimentações, a época de dar a cara a tapa.

E o que eu aprendi? Escrever não é fácil, mas você precisa tentar. Publicar não é impossível, mas você precisa correr atrás. Seus amigos de verdade continuarão ao seu lado mesmo você só tendo um assunto por quatro anos seguidos. Todo trabalho vale o esforço quando chega ao final.

Escrever pode curar sua alma ao estraçalhar ela todinha. E vai ser bom para você.

Por último? Ah, sim. Eu aprendi que escrever diálogos não é nenhum bicho de sete cabeças. Aliás, hoje eu até escrevo contos inteiros só de diálogos!

Com esses seis livros na rua, eu volto para dentro de casa. E recomeço a criar. Limpo a estante dessas velhas ideias e personagens que me acompanharam por tantos anos e abro espaço para o novo. Dou a vocês essas histórias, para que as conheçam ou as revisitem.

É tudo lindo e maravilhoso, tudo feito com um amor que sempre tive e uma coragem que eu nem sabia que tinha.

Obrigada a todos que estiveram comigo nessa jornada.

Alex, Julie, Tico, Carol e Daniel Johns (poxa, lógico): eu não conseguiria sem vocês.

Aguardem novas histórias. E curtam muito essas, enquanto isso.


Encantamento 1, Encantamento 2, Perto, Invisível, Malvarrosa e Despertar. Você pode encontrar todos os meus livros à venda em formato digital na Amazon. Já Amor em Jogo, a minha fanfic #NeyMessi, você lê gratuitamente no Wattpad.

Estou produzindo meu oitavo livro, ainda com o título provisório de “A Mulher Que Todo Dia Desaparecia”. Não prometo data, mas a intenção é publicar ainda este ano pela Amazon.

Processo Criativo

Bloqueio criativo e camadas de realidade: dicas na hora de criar histórias

Photo by Danielle MacInnes on Unsplash

Um pouco do que aprendi em uma aula de youtube

Ouvindo o maravilhoso podcast #ImaginaJuntas das meninas Jeska Grecco e Carol Tchulim (e do Gus Lanzetta), fiquei sabendo que o Lucas “da Fresno” Silveira estava promovendo um curso online sobre música. Achei incrível, pois sempre fui muito fã de Fresno – considero o Lucas um dos compositores mais primorosos do Brasil, além de um excelente cantor.

Foi como cheguei à Universidade Invisível, o tal curso online. Se trata de uma plataforma virtual onde você pode aprender sobre tudo o que envolve o processo de criar música: a parte criativa, a questão de produção e até a etapa final, de se vender para o seu público.

É um curso mais voltado para músicos (e para os que querem se tornar músicos), no entanto, a parte de criatividade e inspiração, ministrada pelo Lucas, é muito interessante para escritores em geral, a meu ver.

Ao se cadastrar no site (as aulas são pagas, mas esse cadastro inicial é aberto ao público, sem taxas) você tem direto a assistir uma master class do Lucas Silveira, onde ele dá dicas ótimas sobre processo criativo. São 67 minutos de aula. Eu assisti a essa aula e dela pude depreender muitos tópicos importantes, os quais trago alguns aqui para vocês como aperitivo, baseados no meu aprendizado deles. Lembrando que para ver a aula completa (e se matricular no curso) é só acessar o site da Universidade Invisível.

O que mais me chamou atenção na aula como um todo foi a questão do bloqueio criativo e das camadas de realidade. É disso que vou falar a seguir.

Photo by Maaria Lohiya on Unsplash

Uma das coisas mais interessantes que o Lucas disse foi que a inspiração vem de uma ideia, a ideia vem de uma experiência de vida e a experiência de vida vem VIVENDO. Parece óbvio para você? Na verdade, não é tão óbvio assim quando a gente pensa em expressões famosas como “bloqueio criativo”.

É muito comum a gente sentar para escrever e não vir nada. Nada, nem uma frase sequer. Isso acontece, geralmente, não por não sermos bons, mas porque não estamos “abastecidos” o suficiente de vivências para transformar em um texto. Como alguém zerado de histórias pode produzir alguma? Como falar da vida se você não está vivendo-a?

Uma dica do Lucas é que quando o tal bloqueio pintar, você tente se perguntar se esse “branco” de ideias não é um branco na sua vida em geral. Existencialista demais? Que nada. Tente pensar aí: será que você não está trabalhando demais, preocupado demais com tudo e sem tempo de respirar e olhar a vida lá fora? Por que são essas coisas que nos trazem ideias para histórias: olhar a vida.

Mesmo um drama sci-fi que se passe em Marte e tenha como personagens extraterrestres mudos de vinte pernas pode ter sido originada de uma conversa de bar que você teve com um primo e ele te disse “nossa, parece que sou um ser bizarro de vinte pernas, ninguém me ouve!”.

Ou essa mesma inspiração pode vir de algum contato imediato de terceiro grau que você tenha vivido essa semana, é claro.

Quando a gente fala em “vivência”, não significa que você precisa todo dia escalar uma montanha, encontrar um ET ou dançar na chuva para dizer que tem uma história diferente para contar. Falando com base em minha própria experiência como escritora, as maiores inspirações que já tive vieram de acontecimentos cotidianos banais, diálogos bobos. Coisas que nem aconteceram comigo diretamente. Acredito que com você também seja assim.

É claro, têm dias que o texto não sai porque você está com a cabeça cheia de problemas ou tempo curto para desenvolver, mas, de um modo geral, um bom escritor (ou compositor ou contador de histórias, em seu sentido mais amplo) é uma pessoa que vive em constante estado mental de inspiração. Isso quer dizer que você precisa estar sempre de antenas ligadas, observando o que acontece ao seu redor e guardando esses momentos para costurar na colcha de retalhos que vai ser o seu texto.

O conceito de que um texto fictício nada mais é do que uma costura de acontecimentos reais contados de forma romanceada é algo muito frisado pelo Murakami em seu livro “Romancista Como Vocação”, aliás. Romanceando ou não, projetando ou não, escrevemos sobre o que vivemos ou observamos. Nunca se sabe de onde virá uma boa ideia para um texto que você está querendo escrever. Por isso, é tão importante estar atento e sair do seu casulo, que muitas vezes é fundamentado no medo de tentar (algo para um post futuro, sem dúvida).

Quando você é um produtor de conteúdo, precisa estar sempre ligado no que acontece ao seu redor. Um escritor se difere dos demais quando consegue ver algo que a maioria não vê, em algo que todos estão vendo. Por exemplo, e esse é um exemplo do Lucas, você pode andar na rua e se deparar com uma pessoa esperando a condução em um ponto de ônibus. E tudo bem, vida que segue. Já outra pessoa pode ver a mesma cena e se sentir inspirada por ela a escrever uma poesia, uma letra de música. E qual a razão dessa cena tão corriqueira despertar a atenção de uma pessoa e não de outra?

Tudo depende do olhar. Nada é o mesmo, cada um enxerga as coisas de um modo diferente e tira algo de diferente de cada situação. É o que podemos ver naquele famoso caso de “copo meio cheio ou meio vazio”, sabe? Tudo depende de como você encara as coisas e, nisso, você pode ver algo que ninguém viu, porque você está prestando atenção e está impulsionado pela sua inspiração e pela sua criatividade.

São as chamadas “camadas de realidade”, como o Lucas chama.

Onde alguém viu apenas uma pessoa esperando o ônibus, outro viu o argumento inicial para um livro de trezentas páginas. Onde ele viu isso? Ele despiu aquela cena de sua camada prosaica e descobriu uma outra camada mais poética. Nenhuma das duas camadas está errada. Ambas são verdadeiras e todas as duas servem — depende apenas do seu propósito para elas no momento.

Com isso eu não quero dizer que você precisa ver poesia em tudo, mas sim que você pode vê-la em algo que normalmente não veria, se estiver disposto a isso. Despida da camada de “apenas um dia comum”, pode ser que você encontre ali outra camada mais profunda, a camada que a sua poesia e a sua criatividade podem usar como tela para criar algo maior.

Quando você tem um olhar treinado, é capaz de ver essas camadas de realidade e fazer uso delas para a sua arte. Mas o olhar treinado só vem da tentativa e da prática, então não deixe de tentar.

Comece agora.

Vença o bloqueio criativo desacreditando dele e acreditando em você. Se muna de experiências, olhe lá fora, ouça as pessoas e se abra para o novo. Você já tem tudo o que você precisa para começar a escrever. Basta começar.


Os conceitos trazidos nesse artigo englobam apenas um trecho curto da master class do Lucas Silveira, que fica disponível por pouco tempo, então recomendo que você corra para assistir enquanto ainda está no ar! O curso já está em pré-venda na Universidade Invisível. Como dito, são lições focadas para produção musical, mas acredito que todos podem aprender muito sobre processo criativo, sendo músicos ou não.

Este não é um conteúdo pago pela Universidade Invisível (quem me dera!).


Processo Criativo

Exercitando a escrita: sem medo do mudar um pouquinho os rumos

Imagem: Death to Stock

Ou como escrevi uma história de 11 mil palavras em 20 dias

Trabalhando de casa há quase três meses, percebo a minha criatividade brotar nos momentos mais inesperados. E percebo também que já não tenho mais tanto medo dela, deixo as ideias chegarem e tento tratar de resolver o conflito de “escrevo ou não escrevo?” o quanto antes e da maneira mais prática possível: escrevendo. Não tem jeito, o único jeito de fazer é fazendo.

Eu estava no meu horário de almoço, assistindo na TV a um jogo do Barcelona do dia anterior. Macarrão e carne moída escorriam com o calor (guardem essa frase), quando a câmera deu um close no rosto do Messi. O jogador argentino parecia triste com algo que não podíamos adivinhar, mas parecia vir de fora das quatro linhas. Eu pensei:

Cara, o Messi deve estar triste demais sem o Neymar.

No dia seguinte, eu já tinha 500 palavras de uma fanfic sobre a saída do Neymar para o PSG e como isso afetou sua relação com o Messi. Eu não queria escrever uma fanfic naquele momento. Eu não queria escrever nada. Tentei por 24 horas fugir de escrever essa história. Eu tenho mais o que fazer e, além do mais, quem é que precisa de uma fanfic em pleno 2017? E, no entanto, lá estava eu, empolgadíssima com pesquisa, ideias de estrutura para o livro e onde poderia hospedá-lo.

Messi e Neymar. Só de pensar dá um pouquinho de vergonha. Mas, caramba, a ideia era tão boa! Pensando com cinismo, tudo isso é um pouco ridículo. A coisa é que eu não conseguia parar de pensar nessa ideia. Tentei negociar. Escrever aquela história me era irresistível e eu podia resolver rapidinho, contanto que começasse logo. Então, fiz um acordo comigo mesma de terminar com isso de uma vez, tirar aquela ideia da frente para poder voltar para a outras em que já estava trabalhando.

Estou desde o começo do ano revisando livros que escrevi de 2014 em diante. Atualmente na revisão do quinto livro (são seis) e quase terminando, me vi em um ponto em que já estava saturada. Ainda amo aqueles personagens e suas histórias, mas sinto que já tive o tanto deles que era bom. Meu senso de continuidade (existe isso?) me cobra, diz que não posso deixar esse trabalho sem conclusão, preciso terminar essa revisão, colocar tudo no ar e aí seguir em frente. A grande questão é que pode acabar se tornando desmotivador confrontar diariamente uma escrita de quase cinco anos atrás. Embora eu ainda me reconheça nela, mudei muito meu modo de pensar uma história, e muitos vícios de escrita que eu tinha quando comecei me incomodam hoje. Olhando com objetividade o que escrevi nos meus primeiros livros, consigo enxergar todas as minhas intenções por trás de cada linha e ainda que esteja meu coração ali, nem de longe aquela escrita representa como eu escreveria um livro agora.

Então, durante a revisão dos livros, sempre me vinha um pensamento: “eu não escreveria assim hoje”. E de tanto pensar, se tornou uma provocação. Como você escreveria, então? Após aquelas primeiras 500 palavras, percebi com surpresa e muita alegria que a ideia da fanfic #NeyMessi era uma alternativa rápida de provar para mim mesma que meu caminho mudou. E isso me motivaria a voltar para a revisão com mais confiança assim que terminasse essa história em particular.

Comecei no dia 05 de novembro e terminei no dia 25 do mesmo mês. Foram quase doze mil palavras. Nesses 20 dias de intensivão de escrita, me diverti horrores, me atormentei entre me considerar um gênio e um lixo, e me realizei ao ver que posso escrever sobre o que eu quiser. Veja, não é que eu saiba escrever sobre o que eu quiser. Mas eu posso. Não preciso me justificar ou esperar aprovação alheia. Não preciso nem mesmo fazer sentido. Eu faço isso por mim e posso fazer o que eu quiser.

Rápido como começou, o desafio terminou. Hoje o livro está sendo lançado e está do jeito que eu queria que ele fosse, sem tirar nem pôr. E estou feliz demais por ter me permitido seguir em frente com essa ideia, mesmo que a princípio ela parecesse tão fora do que eu podia ou precisava.

Aprendi duas coisas ao escrever esse livro: um livro nunca é sobre o que você acha que é. E você só vai descobrir sobre o que é o seu livro escrevendo-o. Não tem como ficar divagando, imaginando, pensando como seria. Essa ideia vai te assombrar pelo resto da vida e te deixar empacado nela. Escreva logo a porcaria do livro, do artigo, do conto, do textão. Escreva logo e ao invés de ter uma grande e nebulosa ideia na gaveta, tenha dezenas de pequenas grandes ideias espalhadas por aí que postas em prática te prepararão para a Grande Ideia Definitiva que ainda chegará. Não se esqueça que escrever é um exercício no qual você fica melhor com a prática. E não tem como escrever dez livros sem escrever primeiro um.

(se bem que eu acho que essa Grande Ideia Definitiva nunca chega, porque quando ela parece vir, você já quer outra coisa, veja o meu caso, desesperada com cada nova ideia que tenho).

PS: Ah, sim. O livro está disponível completo gratuitamente no Wattpad. Macarrão e carne moída escorriam com o calor é uma das frases do capítulo inicial dele. Achei que merecia essa piada interna, depois de tanta loucura. 🙂

Processo Criativo

Diário de uma revisão

Foto: Julie Fernanda

Dois anos depois, corações ainda pulsam

Em um universo paralelo, Pedro e Gabo ainda vivem. Sentados à mesa do Mickey’s, o bar sujo da esquina, eles bebem cerveja e riem, dez ou vinte anos depois da última página.

Renascerão em breve, uma história lapidada para que possa ser contada novamente. Beijando boas lembranças, cortando as inspirações ruins, nenhum livro será mais uma válvula de escape para frustrações. Aqui só será permitida a beleza. Sem mágoas, sem indiretas, sem projeções. O retrato fiel do que tenho a oferecer, vindo do material emocional que só pertence à mim.

Nicky renascerá. Divertida, doce, forte e coesa.

Daniel renascerá. Irresistível, pessoa que evolui através do amor.

Pedro renascerá. O homem forte que descobriu a si mesmo.

Eu renascerei. Dona de mim e do que produzo. Auto suficiente e durona. Plena e íntegra. Eu serei quem eu sempre fui, quem eu sofri tanto para ser.

E serei minha.

Processo Criativo

5 dicas para escrever mais

Inspirações para voltar (ou começar) a produzir mais conteúdo

Li não sei onde, escrever é bom porque une as duas maiores alegrias: falar sozinho e falar para uma multidão. Como uma pessoa que tem a escrita como profissão e como principal lazer, é com certo espanto que reajo a declarações de amigos do tipo “queria tanto escrever, não sei como você consegue”. Oras, não sei como você não consegue. É só colocar as palavras no papel, assim uma a uma, e ver o que vai dar lá na frente. Não?

Ok, concordo que não é assim tão simples, mas é tão bom! E fica mais fácil com a prática. Recentemente ministrei um workshop sobre processo criativo em escrita e vi que uma das maiores questões para as pessoas que querem produzir mais é esse medo de não estar no caminho certo. Bom, é difícil saber se o seu caminho está certo se você não começa caminho nenhum. É preciso tentar, experimentar! Por isso, resolvi trazer para cá algumas das dicas sobre as quais conversamos por lá. Não que eu possa ser uma grande professora para alguém ou esteja contando algum segredo dourado que só eu saiba sobre a arte de escrever. Pelo contrário, acho que esses conselhos são bons justamente porque são coisas que você já sabe. E, como a maioria das coisas que já sabemos, precisamos que outra pessoa nos diga para que a gente acredite.

  • Escreva tudo primeiro, sem critério

Se a inspiração veio, escreva de uma vez só. Não se preocupe em lapidar seu texto em um primeiro momento, não se preocupe sequer em fazer sentido. Apenas escreva e deixe que o bruto do que você quer dizer seja dito. Esse é o ponto inicial e o mais importante. Pode ser que sua ideia inicial tenha cinco linhas. Escreva-a e depois se preocupe em transformá-la em cinco parágrafos, cinco páginas ou capítulos — ou cinco livros, se você for a J.K. Rowling. Comece pelo fim e termine pelo começo, se assim desejar. Não importa a ordem, dando o pontapé inicial você já abriu o caminho e isso é o que vale.

  • Não se force, mas se force um pouco

Se está difícil demais, dê um tempo. Tome um café, assista a um seriado. E volte. Lembre-se que um texto que foi chato de escrever, provavelmente será chato de ler. Se não está rolando, dê um tempo até voltar a rolar. Certo? Certo. Mas aí… Você deixou aquele texto de lado para pensar um pouco e já faz seis dias. E a vontade de escrevê-lo já é uma lembrança distante. Procure não deixar isso acontecer, porque quanto mais você demora, mais a sua ideia inicial perde a força. Tente mais um pouco, não desperdice o que já começou. Tente lembrar das emoções que te motivaram a escrever aquele texto. E continue.

  • Escreva o texto que você gostaria de ler

Com as redes sociais e o vício de aprovação que se criou, é comum a gente sempre se perguntar se vale o esforço fazer algo. No caso de escrever, sempre rola um “ah, mas ninguém vai ler”. Nisso as pessoas caem em dois erros: ou simplesmente deixam de escrever porque acham que ninguém vai se interessar, ou passam a escrever coisas que não as interessa, mas que podem despertar a atenção dos outros. Bom, se a ideia é ser verdadeiro com você mesmo, acredito que o ideal seja escrever mesmo sem saber se vai render likes, dizendo o que você quer dizer e não o que acha que os outros querem ler. É claro, não existe certo ou errado e seu conteúdo pode ser bom mesmo não sendo exatamente o que você queria falar. Mas ele te deixará feliz? Fará você se sentir realizado como se sentiria ao escrever o que realmente queria passar? Eu acredito firmemente que quando você é sincero de coração no que produz, as pessoas chegam até você. Honestidade cativa, entusiasmo cativa. E isso só é possivel quando você escreve sem pensar nos outros, mas sim em você, por mais egoísta que isso possa parecer.

  • Lembre-se que seu conhecimento pode não ser único, mas a sua experiência é

Mais do que aprender 25 dicas sobre como passar 18 dias na Disney gastando pouco, as pessoas querem saber como você se sentiu lá. Como foi conhecer? Você se cansou? Esse tipo de coisa. Detalhes técnicos podem ser adquiridos em sites de viagem, a sua experiência é única. Uma resenha sobre Trainspotting 2, que você viu no cinema, pode ser legal, mas o que as pessoas querem saber é: você gostou do filme? Te fez chorar, te emocionou? Escreva sobre coisas que não se acham no Google. Isso importa.

  • Não tenha medo de parecer um pouco bobo

Por fim, acredite que a coragem para falar te dá a autoridade para falar. Eu levei cinco anos para criar coragem de escrever ficção porque, embora fosse meu sonho, morria de vergonha de escrever diálogos. Até que me dei conta: “Oras, e quem é que sabe que eu não sei o que estou fazendo?”. Quando você dá a cara a tapa, você conquista o direito de tentar. E só de estar tentando você já está muito, muito à frente de qualquer pessoa que, sem ter a coragem para nada parecido, ouse te criticar.

Acho que é isso! Se escrever é a sua paixão ou simplesmente a sua vontade, não desista disso. Encontre meios, descubra seu jeito de escrever e faça disso parte de você. Nunca desista de algo que te faz feliz, minimamente que seja.

Processo Criativo

A jornada solitária de escrever um livro

Foto: Death to Stock

Aprendendo com o exercício de estar só

Comecei a escrever em agosto do ano passado o meu sexto livro. Tive a ideia para a história em uma noite de segunda-feira em que cheguei em casa especialmente cansada do trabalho. Deitada na cama com a cara afundada no travesseiro, o primeiro capítulo apareceu inteiro na minha cabeça e não tive outra alternativa senão levantar da cama, ligar o notebook e começar a escrever. Agora, faltando três capítulos para o fim, o que pensei a princípio para a história que quero contar já mudou inúmeras vezes.

Essas mudanças, longe de me desesperar, me motivam. Significam que finalmente estou me apropriando do argumento frágil que foi o sopro inicial deste livro. Peguei aquela ideia, a moldei como sabia e a transformei em algo. Doze capítulos prontos, o livro já tem um rosto e me convence que é bonito. Eu aprendi com ele, também. Principalmente sobre mim.

Uma coisa sobre escrever um livro, você nunca deixa por completo de pensar nele. Longe do ideal romântico do escritor atormentado, madrugadas em claro escrevendo embalado por doses de uísque e música blues, eu penso no meu livro enquanto estou me exercitando na academia. No banho ou ao lavar a louça. Se a reunião de trabalho atrasa. Enquanto estou descendo a rua à caminho do trabalho. Eu escrevo meu livro dentro do ônibus, uma mão digita no celular, a outra assume a responsabilidade de me manter firme no sacolejar daqueles cinquenta minutos que ao final me levarão para casa e me deixarão mais perto de ter um livro pronto quando finalmente for hora de descer.

Eu escrevo enquanto meu marido joga video game e também quando acordo mais cedo aos sábados e não consigo voltar a dormir. E penso o tempo todo na história que estou criando. Músicas me fazem lembrar, conversas ouvidas me inspiram, pessoas e seus trejeitos me trazem exemplos de como meus personagens podem ser.

Tudo isso dentro da minha cabeça. Meus outros livros eu publicava capítulo a capítulo, como um romancista do século passado com seus fascículos no jornal. Recebia feedback imediato dos leitores, o que acabava por interferir no meu modo de seguir com a história. Este não. Este é só meu. É o livro mais meu que já escrevi.

Existe o medo de, ao publicar, ninguém gostar. Só vou saber depois. Será que vão rir daquela piadinha que coloquei no começo do capítulo dois? Entenderão a referência do final deste mesmo capítulo? Será que terão dó de mim ao perceber que ousei tentar este ou aquele estilo no diálogo da página noventa? Fico um pouco angustiada. Sendo só meu, ele está protegido inclusive do fracasso. E se ninguém ler?

Todas essas questões e inseguranças não são nada além do reflexo das minhas próprias questões e inseguranças que já tenho normalmente em se tratando de qualquer assunto ou empreitada que invente de me meter. A diferença de encará-las através da produção de um livro é que elas tomam forma de uma maneira diferente dentro de você. É o mais introspectivo dos processos, por mais que tente dividi-lo com alguém que se importe em te ouvir, o mundo que você criou para sua história é absolutamente seu. Só depende de você. Só presta contas à você.

Um autor conhecido uma vez disse que o ruim de parar de fumar é que ele sentia que tinha perdido um amigo. Quando fumava, parava um pouco pra pensar na vida e nele mesmo. Escrever um livro é o cigarro mais longo que você fuma. Encostada no muro esperando a chuva passar, meu livro é a minha companhia e penso nele em longas tragadas.

Mudo cenas, invento motivações, coloco muito do meu coração ali. Não durmo sem reler pelo menos um capítulo e acabar mudando isso ou aquilo. Ao olhar a capa, já pronta, uma alegria inunda meu peito. Foi bom ter tido aquela ideia inicial, eu gosto mais de mim agora que tenho esse desafio. A história que criei é tão linda, eu adoro quando a protagonista sorri. Eu estou escrevendo o livro que gostaria de ler. Quando adolescente, queria ser escritora daqueles livros de banca de jornal tipo Julia, Bianca, Sabrina. Escrevendo eu realizo esse sonho como posso.

No exercício de escrever, calada e sozinha, me redescubro como alguém de quem eu gosto e sinto orgulho, pois estou fazendo algo que um dia só ousei sonhar. Perto do fim, se torna óbvio que vou sentir saudade quando terminar. Eu aprendi tanto com esse livro. A ideia de que mudei com ele se esclarece na minha mente. Acho que não mudei, não. Só me descobri um pouco mais com essa solidão que ele me trouxe. E, além do mais, acabei de conferir aqui: o primeiro capitulo é o único que permanece intacto desde aquele rascunho inicial que me fez levantar da cama e criar essa história.

Depois dali, tudo mudou.

Processo Criativo

Levei dez anos para realizar um sonho

Foto: Death to Stock

Ou como “da noite pro dia” eu publiquei meu primeiro livro

Um bom poema leva anos, já diria Paulo Leminski. Até entrar na faculdade, eu tinha cadernos onde escrevia religiosamente sobre o meu dia. Não eram exatamente “diários”, eu tentava dar um brilho na minha narrativa criando crônicas cotidianas com tiradinhas engraçadas, análises de comportamento humano, reflexões cheias de humor sobre mim mesma. Era apenas um exercício literário, mesmo que eu ainda não soubesse, da filha da Neti e do Nica que era metida a escritora, como diziam as vizinhas.

Depois veio a internet. Abri um blog e abandonei os manuscritos dos cadernos. Com dois ou três anos de Respeite Meus Mullets (esse era o nome do blog), já tinha uma base respeitável, para a época, de leitores. Ainda escrevia apenas crônicas, devaneios cômicos que as pessoas entravam na onda e riam comigo. Peguei gosto pela escrita ali, trabalhando em cada texto, vendo o que funcionava e o que não rendia. Quando o RMM acabou, seis anos depois, eu fundei o Elvis Costello Gritou Meu Nome, um blog um pouco mais introspectivo e sério, onde eu apurei ainda mais o meu estilo e inclui outras “editorias” como resenhas literárias — já que eu sempre fui a doida dos livros e sentia necessidade de contar o que eles me faziam sentir.

Quando o ECGMN acabou, mudei aqui pro Medium. Eu nunca parei de escrever, desde aquele primeiro caderno, nunca. Com o tempo, vi que tinha uma identidade no que eu escrevia. Que aquilo era meu, mais do que meu, aquilo era eu. Escrever era parte de mim, como é parte de mim ter nascido no Paraná ou torcer para o Palmeiras. Diante disso, me senti mais segura em publicar meus textos e me ver como alguém que escreve. Passei a trabalhar com redação também. Escrever por lazer e por obrigação ajudou a minha escrita e deu corpo ao meu trabalho, uma coisa completando a outra. Sentia ser mais sólido o meu jeito de escrever. Quando sentava diante do computador, já tinha as palavras prontas na cabeça, não passava um dia inteiro martelando aquilo — como era no começo. Foi aí que comecei a sonhar em escrever meu próprio livro. Mas como? Sobre o quê? Enquanto não tinha a resposta para essas perguntas, escrevia mais. E lia mais ainda.

Anos atrás, conversando com meu marido, ele disse que eu devia escrever ficção. A crônica eu já dominava, a meu modo, era hora de inventar histórias. Só que eu não conseguia nem me imaginar fazendo isso, não sabia por onde começar e nem se tinha talento mínimo para tanto. Essa foi mais uma das ideias que ficaram guardadas no meu coração por anos sem que eu soubesse o que fazer com ela. Durante o câncer, me aventurei a escrever meu primeiro romance. Não sei o que me deu, mas de repente eu estava cansada de esperar ser boa para escrever um livro. Eu já tinha escrito muito, por anos a fio, sobre todas as coisas, em todos os formatos. Eu já tinha entendido que não precisava ser boa porque não existe isso de “ser boa”: não pode existir juízo de valor em algo feito de coração. Com a doença e os anos pensando na ficção como próximo passo, achando que morreria amanhã eu queria escrever sem me importar no que daria.

Foi assim que surgiu All Across The World, uma história de amor meio doida, publicada capítulo a capítulo no Wattpad — plataforma digital para escritores iniciantes. Com o sucesso inesperado de AATW, foram mais de 15 mil leituras até a sua conclusão, hoje já passa das 18 mil, eu fui em frente e não parei mais.

Até o momento já escrevi seis livros, a maioria no Wattpad, alguns engavetados e ainda inéditos. Não sei se hoje em dia escrevo bem ou pelo menos melhor que antes, mas sigo escrevendo até descobrir. As coisas foram acontecendo pouco a pouco e sem planejamento: AATW virou uma trilogia, escrevi um livro pra um desafio de 10 mil palavras em trinta dias, outro é uma antologia dos melhores textos do RMM. No momento, estou escrevendo meu sétimo livro, uma história de amor sobre uma moça solitária em São Paulo.

E escrevi Malvarrosa. Malvarrosa foi um livro que eu tive a ideia de escrever quando uma das minhas melhores amigas, que hoje mora na Espanha, publicou uma foto que ela tirou de um festival que acontece por lá. Eu levei uma semana para delinear a ideia e dois meses para escrevê-la. Ali eu vi que já tinha uma obra, podemos dizer. Eram cinco livros no meu perfil do Wattpad e mais os arquivados. E agora?

Publicar livros não é fácil, pelo menos não no jeito clássico, com edição impressa, contrato com editora grande e coquetel de lançamento. Por todos esses anos, eu levei “não” de muitas editoras. Muitas pessoas me ajudaram também, ilustrando meus livros, ajudando a formatar, me apresentando a contatos. Ainda assim, não vingava. Parecia um panorama frustrante, não? Como fazer a transição de alguém que escreve para escritora sem ter nenhum livro publicado?

Um bom poema leva anos, disse Leminski. Cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra. Depois de tanto tempo entre criar coragem de escrever e criar coragem de publicar on-line, percebi que é preciso coragem até mesmo para tomar o que é seu para si. O que define como seus sonhos serão realizados? Quem diz o “agora sim” dos desejos que são só seus? Não existe uma receita certa, não existe um Deus que vá dizer se você pode realizar ou não. Me frustrei por anos porque nenhuma editora me queria até perceber que não preciso de editora nenhuma. Para me dizer escritora, não preciso do aval de ninguém além de mim. Não preciso de nada além dos meus livros. E tendo meus livros, os levo comigo por onde eu for e como eu for, como filhos pequenos seguindo a mãe em ninhada. Foi quando descobri isso que cansei de esperar, desisti de fazer as coisas do jeito dos outros e resolvi fazer do meu jeito.

Por um ano inteiro analisei a ideia de publicar via Amazon. O programa deles de publicação direta é bem atrativo, razoavelmente rentável e totalmente intuitivo. Li bastante sobre, reparei nas entrelinhas dos tutoriais, vi outras pessoas conhecidas publicando por lá. Assimilei a ideia. E então, um belo dia, decidi que publicaria meu livro lá. Algum livro meu. Qual?

Escolhi Malvarrosa por ser dos meus livros mais recentes e, por isso, ter uma certa segurança em relação a qualidade dele. Em questão de dois dias, entre preparar o arquivo, fechar contrato e esperar aprovação, eu fiz tudo sozinha. E então, de uma hora para outra, após dez anos de espera e trabalho, eu tinha um livro publicado. Uau!

Não sei se pode ser visto como demérito um livro ser publicado apenas digitalmente, mas a verdade é que, para mim, dá um orgulho danado ligar o Kindle e ver meu livro lá, no meio dos outros que estou lendo. Vê-lo no Skoob e no Goodreads, redes sociais para leitores, também me deixa toda boba. Me alegra saber que mais gente verá isso também. Publicado pela Amazon, meu livro faz parte do Kindle Unlimited, programa que eu adoro, e pode ser baixado de graça em lojas Kindle do mundo todo. Muita gente pode lê-lo, muito mais do que leria se ele fosse publicado apenas no Wattpad. Ou se ficasse no fundo da gaveta. Isso é algo grandioso, eu acho, algo a ser comemorado por alguém que começou a escrever em caderninhos, para ninguém.

Então hoje, você pode olhar minhas redes sociais e dizer que “do nada” eu escrevi esse livro. Mas, se você mesmo trabalha diariamente nos seus sonhos, sabe que não é bem assim. Esse livro começou a ser escrito muitos anos atrás, nos meus testes de crônicas, nos livros que já li, nas rejeições de cada editora. Começou a ser desenhado quando decidi que iria escrever ficção mesmo sem saber escrever ficção e quando escrevi dois livros em um ano em que também tive câncer. Não acho que ele poderia ter sido publicado cinco anos atrás. Não acho que ele poderia ter sido publicado nem mesmo semana passada. Cada coisa aconteceu a seu tempo para que só agora ele fosse à venda. Cada pequena decisão e todo pequeno gesto de coragem em seguir em frente mesmo sem certeza alguma fez com que hoje, depois de tanto tempo, eu pudesse publicá-lo.

Um livro, você vai dizer, não é grande coisa. Quem sabe não seja mesmo. O sentido dele vem quando você vê que não se trata apenas de algumas páginas de uma história inventada. Para quem o escreveu, pode ter sido a vida toda. Pode ser o sonho de uma vida. O significado dele vem de saber que tudo é possível, basta você acreditar em você mesmo e lutar pelo o que quer. Ter paciência em alguns momentos, ter raiva em outros. Desistir por meses e então voltar, como se nada tivesse acontecido.

Acreditar em si mesmo é algo estranho, não tem a roupagem que a gente acha que tem. É um sentimento que vai e volta, não dura o tempo todo, mas dura o suficiente para que aos poucos você vença. E um dia você consegue. E eu te digo com toda certeza que você tem o dom, o talento e a coragem necessária para realizar o que quer que seja. Mesmo que leve um dia ou dez anos. Assim como eu consegui.


Em breve todos os meus livros estarão na Amazon, esse é o próximo passo. Enquanto isso, você pode comprar “Malvarrosa” e ler no Kindle e/ou ler no Wattpad meus outros livros disponíveis .