crônicas

Como forma de agrado

Foto: Death to Stock

O amor tem uma receita muito simples

Vou procurar aqui uma receita de torta salgada, bem simples, vou comprar os ingredientes e fazer para você. Eu não sei cozinhar muitas coisas, no entanto sei e me disseram que cozinhar é uma demonstração de amor.

Sei que isso é verdade porque por mim você aprendeu a cozinhar. E é por mim que você faz os mais deliciosos pratos, mesmo quando está cansado, com outras coisas para fazer. Você também tem que adivinhar o que eu quero quando chego faminta e digo que quero comer alguma coisa, mas não sei o que e nem quero dar trabalho. Você abre a geladeira, descongela carnes, inventa receitas na hora e depois coloca a comida na mesa, querendo saber se eu descubro os ingredientes que foram usados. E nem isso eu sei.

Eu sei que não estamos em uma competição, mas eu sempre sinto que faço tão pouco e que você merece sempre muito mais. Uma receita de torta salgada nem é difícil de fazer, eu li a receita, não é como se eu merecesse uma medalha por ter tido essa ideia, mas sei lá. Pelo menos hoje eu vou tentar.

Tem a ração especial do gato que diz na embalagem “Sirva como forma de agrado” e eu fiquei com isso na cabeça, afinal de contas é isso mesmo. É tudo como uma forma de agrado. Uma torta salgada como forma de agrado. Tomara que fique boa.


Texto publicado originalmente em 04 de setembro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Contos

Desculpa o áudio enorme

Créditos da imagem: Visual Hunt

Nem percebi que tinha falado tanto

Oi amor, queria te explicar o que aconteceu naquele dia, a gente nunca falou sobre isso e já passou um mês. Vinha certo de fazer isso hoje, só que cheguei atrasado no trabalho, você sabe que segunda é sempre puxado pra mim, ainda mais agora, eu até disse pra minha mãe “essa semana vai ser puxada”, ela me olhou com uma cara que… Enfim. Eu cheguei atrasado no trabalho, peguei o ônibus errado e mesmo assim fui esperto e desci antes do estrago ser maior, se eu contar pra você a minha vida toda você CHORA.

Nisso eu tô entrando no elevador do trabalho e vem a mulher e fala. Peraí que tá barulho aqui. Vem a mulher e fala ah porque não é pra ficar girando a catraca com tanta força eu grito “o quê?” e ela levou um puta susto, ficou me olhando com cara de bosta e… Nossa! Sabe? Precisa?

Eu nem ligo, já te falei que estou bem, não tô falando pra te preocupar, eu tô só contando, tá? Tô só contando, são coisas diferentes. Não são essas coisas pequenas que vão me abalar, apesar de que, nossa, é mesmo um inferno como estão sempre me incomodando por qualquer coisa. Aqui no trabalho tem um cara que toda vez que passa pelo corredor batuca na minha mesa, eu chamo ele de CIA DO BATUQUE mentalmente. Eu sou muito chato, eu sei. Eu sou um lixo.

Do que eu estava falando? Você soube que abriu uma nova vaga aqui? Vem trabalhar aqui, me manda seu currículo que eu falo com alguém pra te indicar. Só não vai pegar a minha vaga, hein? Hahaha.

Tô voltando do almoço. Queria te falar certinho o que me aconteceu, você tem direito a isso, a gente tá junto há oito meses e depois daquilo tudo eu sumi, eu sei que não foi certo, mas nossa. É um milagre eu ainda estar aqui, minha mãe disse, ah, se eu tivesse demorado mais pra chegar em casa eu não quero nem pensar no que seria de você, seu Pedro Henrique, ela falou isso com mais raiva do que medo, não sei explicar direito, fico me sentindo culpado, sendo que é uma coisa que eu não tenho como controlar sozinho, só com remédio, né? Você mesmo disse que com você foi igual, eu fico pensando sempre nisso, que foi igual com tanta gente, eu não vou morrer de algo que tantas pessoas NÃO morreram.

Tá bom, muitas pessoas morreram SIM também. Mas eu tenho que ser positivo, o médico mesmo disse, você já disse, minha mãe já disse. E, caralho, como eu me arrependo, já pensou se eu tivesse conseguido. Sei lá, não…

Eu já tenho que voltar pro trabalho e já falei um monte, acho que já deu três minutos esse áudio, não posso ver porque se eu vejo eu acabo apagando sem querer, que ódio desses meus dedos gordos. Escuta, é normal ainda sentir essa angústia mesmo com os remédios?

Você também se sente assim?

Nossa, acabou de passar um caminhão aqui. Você me ouviu?

Você também se sente assim?

Preciso voltar pro trabalho. Desculpa o áudio enorme, nem percebi que tinha falado tanto. Beijos, eu te amo. Nossa, acabei de ver um boné que é a sua cara, será que eu compro? Verde. Vou entrar na loja ver o preço e já vou pro trabalho. Se for até 50 reais eu compro. Hahaha. Sua cara o boné, parece o que você me deu, vamos sair de boné combinando? Hahaha. Desculpa por tudo. Escuta, eu amo você. Eu não fui até o fim só por você. Ah, credo, 170 reais. Fica pra outra vez! Beijo.

crônicas

Seis anos de amor

Foto por Natália Nambara (2011)

E como aprendemos juntos nesses anos que se passaram

“Lembra daquela vez que saímos do mercado cheios de sacolas pra pegar ônibus e descobrimos que a São Silvestre ia passar pela rua? A gente era tão pequeno…”

Parece que todas as nossas lembranças tem esse mesmo fator em comum: a gente era tão pequeno quando nos conhecemos. “Pequenos” no sentido de jovens, inexperientes. Inocentes, quase. Eu vinda do Paraná especialmente para ficar contigo, incerta sobre continuar na minha profissão por aqui, você ainda enrolado em empregos desgastantes e nós dois juntos tentando alinhar esse nova vida dentro do que nos deixava feliz. Da parte do amor era tranquilo, sabíamos bem que estávamos absolutamente apaixonados. Agora, a vida prática era outra questão. Aprendemos juntos a ser adultos. As contas a pagar, os planos, as possibilidades de começar algo. Não queríamos um sonho, nunca foi idealizado o que vivemos. Sempre fomos nos ajustando ao que acontecia e sendo pé no chão o suficiente para viver um dia de cada vez, o que nos protegia de ilusões e nos fazia reconhecer de imediato quando as coisas boas surgiam.

Você me pediu em casamento em uma noite depois de um dia difícil desses. A grana curta, o futuro incerto, dúvidas sobre como resolver problemas que caiam aos montes em nossos colos, o calor da noite, nós dois debaixo das cobertas conversando e rindo, quando você fez a pergunta que eu jamais esperava: “Quer casar comigo?”. E eu disse sim.

No dia do casamento, fomos só os dois no cartório e só os dois bebemos uma cerveja na padaria na rua de baixo, já com a certidão na mão, a certidão que dizia que agora era pra valer. O que nós dois já sabíamos. Parcelamos as alianças em seis vezes com o último cartão de crédito com saldo que eu tinha. A gente era tão pequeno naquela época, conhecíamos um ao outro e a nós mesmos a cada briga, silêncio ou negativa.

Seis anos depois, já não somos tão pequenos. Somos fortes e valentes, foram seis anos de imprevistos, sustos e alegrias, situações que exigiram demais de nós dois. Juntos, construímos e reconstruímos nosso amor, moldamos ele conforme fomos descobrindo quem somos de fato. Crescemos juntos nessa cidade imensa e exigente, caminhamos de mãos dadas debaixo de cada chuva de pedra que a Terra da Garoa jogava em nossas cabeças.

Seis anos depois, ainda somos nós dois contra o mundo, ainda é como no começo, mas agora de pequenos já temos pouco. Temos nossos planos e sonhos, gostamos de querer ir além do que já temos. Sonhamos alto e estipulamos rotas que nos levarão ao futuro que queremos.

Seis anos depois, do tempo em que éramos pequenos só ficou mesmo a lembrança e o que tinha que ficar: o nosso amor puro e forte, a certeza de que é feito para durar. Ainda te amo como no primeiro dia, quando você acenou para mim do outro lado da sala de desembarque do aeroporto e eu pensei “rapaz, não é que ele veio mesmo?”. Te amo mais, até. Amo a pessoa que você é, tenho orgulho de ter você comigo. Sou feliz por estarmos juntos. Mais feliz ainda por saber que não acaba aqui, que é só o começo. Seis anos é pouco para nós, agora que não somos mais pequenos e aprendemos a andar. Juntos.

Brain Dump*

A gente devia

É tudo tão simples, a gente devia

A gente devia beber mais vezes. E sentar mais no meio-fio em noites geladas pra conversar, mesmo sem ter o que dizer. Ficar ali inventando assunto para preencher o vazio, até o vazio inevitavelmente surgir e a gente perceber que ele nem é tão ruim assim. E deixar ele ficar.

E, bêbados, repensar em tudo para então concluir que nada é tão grave assim. Rir das coisas que nos fizeram chorar de raiva até algumas horas atrás. Enrolar os dedos em nossos cabelos, arranhar a borda do copo com a unha. Perceber o quanto é outro é bonito. Agarrar a barra da camiseta. Reconhecer a sua voz de longe e se entender só com um olhar. Dizer coisas idiotas só pra rir um do outro. Prometer que amanhã vai ser melhor, agora que a gente sabe que é tudo tão simples.

É tão simples como desistir de brigar e de ter razão. Tão simples como retomar a conversa depois de discutir. Pedir desculpa não pelo o que fez, mas por ter magoado. É tão simples como voltar pra casa no começo da madrugada, se jogar na cama, jogar os gatos pro alto, puxar você pra perto e esquecer que um dia, um dia tão distante, a gente achava que tudo isso era impossível. Nada é impossível pra gente, a cada dia sabemos mais disso. Um pequeno passo de aproximação, a certeza do seu amor, beijar seu sorriso, rir de você pra te fazer rir. É tudo tão simples e a gente devia ser assim pra sempre. E a gente vai ser, eu sei.


Texto publicado originalmente em 11 de outubro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.