Filmes, Resenhas

SAGA CREPÚSCULO: assisti aos 5 filmes e olha só o que deu

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers dos filmes da saga Crepúsculo, que você mesmo falou que nunca vai assistir.

Puxa vida. Como falar de Shakespeare? Como falar de Machado de Assis? Como falar dos Beatles ou de Janela Indiscreta? Como falar de Crepúsculo? Como falar dos clássicos?

É difícil. Mas a missão do escritor, do historiador e do pensador é essa, por isso eu, que sou escritora, historiadora e pensadora, fiz esse esforço colossal de me debruçar na mais densa dessas obras e peguei todos os filmes da saga Crepúsculo para assistir e resenhar aqui para você. Não foi fácil. A complexidade de tais filmes vai além do meu raso entendimento de vida. No entanto, assim é o trabalho do crítico pop. Que sou eu. Eu sou crítica pop. Ao final dessa aventura, muito foi aprendido, pouco foi compreendido e ainda mais foi questionado. Foi uma coisa louca. Trago tudo isso para você agora. A seguir. Vamos lá?

Crepúsculo (2008) – Dir. Catherine Hardwicke

Os livros da saga Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer, já eram sucesso quando o primeiro filme da franquia foi lançado, em 2008. Estrelado pelos coitados Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, que nem sabiam no que estavam se metendo, o filme é geralmente o único que as pessoas já viram nessa história. Era o meu caso, Crepúsculo foi minha única reprise nessa aventura.

De cara, o filme já chama a atenção pelas cores pavorosas, tudo cinza e azul morte. Michael Bay ficaria orgulhoso, Hardwicke aqui nos faz ter calafrios, mas não pelos motivos que ela queria. A caracterização dos vampiros, como se tornou icônico, é de um pálido brutal e cômico. Brutal e cômico, aliás, são adjetivos que podem definir esse filme como um todo.

A história? Filha de pais separados, Bella (Kristen Stewart) decide passar uma temporada com o pai. Chegando na cidade, ela começa as aulas na escola dali e se encanta pelo misterioso Edward “The Hair” Cullen (Robert Pattinson), um adolescente que parece ter 30 anos de idade e é sério, babaca e infeliz como qualquer pessoa transitando nessa faixa de idade.

Correndo pelas beiradas, trotando feito um cachorrão grandão, está Jacob (Taylor Lautner), vizinho de Bella, um rapaz caloroso que parece querer mais do que amizade. Infelizmente, Bella está hipnotizada demais pelo gélido amor de Edward para perceber.

Não demora, Bella e Edward começam a se envolver, apesar de tudo parecer ser muito proibido, perigoso e peculiar (PPP). Logo Bella descobre o motivo de tanto mistério: Edward é um (say it!!!) vampiro. Cruzes! Isso seria suficiente para afastar Bella, mas Stephenie Meyer não leu tanto Shakespeare à toa: agora sim é que nossa heroína quer ficar com este homem PPP e viver esse romance muito PPP.

Nessas, o que era para ser uma bela história de amor acaba se tornando uma grande celeuma, pois outros vampiros começam a questionar o fato de Bella, uma humana, estar de trelelê com vampiros. Vocês vão comer ou não? Aquela coisa. A saída para o casalzinho continuar junto seria Bella se tornar vampira, mas essa é uma decisão um pouco complicada para uma garota de 16 anos e burra. O que fazer? Enquanto isso, o amor adolescente clama por uma resolução. Bella não pode nem beijar Edward direito, pois ele é muito voluptuoso e ela é virgem. Meu pai amado, é difícil demais ser jovem, Bella só queria dar uns beijos (e algo mais), eu hein.

Apesar do cafona de tudo, Crepúsculo é sim um bom filme. Não podemos desprezar suas cenas antológicas, como a batalha do beisebol e o Edward segurando o carro para não machucar a Bella. A trilha sonora é ótima. Por outro lado, a interpretação de Robert Pattinson é limitada e dolorosa, assim como a de Kristen Stewart, o que nos dá um norte de como esse casal era endgame desde o começo. Fato curioso é saber que RPatz nem sabia do que se tratava o filme e aceitou fazer parte dele apenas para estar do lado de Stewart, por quem tinha se encantado ao assistir Na Natureza Selvagem, onde a atriz tem pequena participação. Nascidos um para o outro, até certo ponto, os atores começaram a namorar já durante a produção de Crepúsculo, em uma história paralela cujos desdobramentos patéticos veremos mais à frente.

No fim das contas, em Crepúsculo, tudo se resolve de alguma forma, apesar de Bella não ter exatamente o que quer. Foi salva dos vampiros mais bravos e está com Edward, naquelas. O garoto ama sua humana, no entanto hesita em trazê-la para o vampirismo. E qual seria a saída, se eles querem transar? É brutal e cômico.

Lua Nova (2009) – Dir. Chris Weitz

Uma realidade mais quente nos aguarda em Lua Nova, filme seguinte da série e tido como o pior da franquia. Honestamente, eu já vi piores, mas eu também vejo muita coisa.

Dando prosseguimento à história, o filme traz um Edward sumido Em Busca de Se Encontrar e uma Bella toda grunge, as roupas cada vez mais horríveis, solitária demais. Essa solidão é a brecha para que ela se aproxime do vizinho Jacob, que cortou o cabelo, ficou grandão, parou de usar camiseta e está mais do que disposto a preencher a lacuna deixada no coração da nossa mocinha.

É aí que ficamos sabendo, embora já desconfiássemos, é que Jacob é um Lobisomem!!! Uma raça inimiga dos vampiros, então você imagina o climão. Desenganada pela literatura fantástica, Bella fica um pouco balançada, e Jacob não deixa de apontar os motivos pelos quais ela não deve se aliar aos dentuços. Atento aos prejuízos do webnamoro cósmico, o holograma de Edward persegue e protege Bella de todos os esses perigos, ainda que a estética fragilizada do ator não contribua para incrementar a nossa confiança.

No fim das contas, Bella segue deixando Jacob na gaveta das amizades e fica por isso mesmo. Por conta de uma série de cálculos, sonhos e demais metodologias equivocadas, Edward quase se mata, mas acaba retornando à cidade e propõe à Bella um acordo: ou ela se transforma em vampira depois da formatura, pelas dentadas de Alice, outra vampira do clã, ou se transforma pelas dentadas de Edward, assim que eles se casarem.

É o pedido de casamento mais esquisito da história, por isso Bella nem responde e o filme termina assim em aberto.

Eclipse (2010) – Dir. David Slade

Cacetada, bicho, qual a dificuldade em manter um mesmo diretor para dois filmes seguidos em uma franquia? Nessa em particular, isso não parece ter sido sequer uma questão. E vamos de terceiro filme, com uma abordagem totalmente diferente das anteriores.

Eclipse traz Bella preparando o terreno para se tornar vampira, ainda que um tanto incerta sobre isso. Para ajudar, Jacob intensifica a sedução, então nos vemos em um inóspito triângulo amoroso entre Bella, Edward e Jacob. Em linhas gerais, é uma mulher tendo que decidir entre um defunto e um cachorro. Existe uma terceira opção óbvia (sumir dali e ter um relacionamento saudável com um ser humano normal), mas a Bella sendo a Bella… A garota se transforma no poste mais mijado do cinema mundial, com dois seres sobrenaturais metidos em disputas patéticas por sua atenção.

E é claro que no meio disso as famílias se envolveriam, então temos uma grande disputa entre Lobos e Vampiros. Quem ganha com isso é só a Bella, a nossa querida sonsa que fica ali no meio sendo a Suíça do rolê e deixando que todos se matem por ela. Verdade seja dita, a garota consegue a luta e a união entre as raças, mesmo com aquele jeitinho blasé.

Algo que eu adoro nesse filme é como eles constroem a tridimensionalidade dos personagens secundários, simplesmente colocando pessoas aleatórias para conversar com a Bella e contar a história de suas vidas desde o século XV. Sendo o boneco de pano das duas raças, vampiros e lobos, Bella é levada de lá pra cá conforme a narrativa da história precisa ser contextualizada. O que ela tem a ver com isso é indiferente.

No mais, Edward continua negando sexo para Bella, achando que vai matar a garota com o pau centenário dele. Eu tenho lá minhas dúvidas, mas deixo para vocês as teorias. Terceiro filme e o máximo que tivemos foi uns beijinhos sem sal. Força, guerreira.

Por fim, Bella decide que vai casar, sim, com o Edward. Não adiantou nada tomar anabolizantes, Jacob.

Amanhecer – Parte 1 (2011) – Dir. Bill Condon

Ai, honestamente, é de partir o coração ver as fotos de bastidores desse filme e saber toda a merda que rolou depois, mas vamos que vamos.

Esse é o filme mais soft do casal, na medida em que Bella e Edward finalmente se casam e têm alguns momentos de paz, felicidade e amor, a história já abre com isso. Curiosamente, ninguém questiona o fato de uma menina de 18 anos estar se casando com um rapaz com pouco mais do que isso (atribuído). Normal. Grande festa na família, brindes pavorosos são feitos na festa e vamos de celebração.

De todos os lugares do mundo, a Lua de Mel se passa no Brasil. Isso aí era da época que o país ainda investia em turismo e divulgação internacional, cultura, etc. Outros tempos. É enternecedor ver Edward falando português, RPatz treinou e tudo. Já Bella não faz tanto esforço, está mais preocupada em consumir logo (e várias vezes) o casamento. Não é assim tão simples quando seu carisma e grau de sedução é quase nulo, como é o caso. As cenas dela de lingerie fazendo pose são de urrar de constrangimento. Ainda assim, temos momentos bem bonitinhos e sensuais (kk) do casal finalmente fazendo o que queria fazer desde o começo dessa infame história.

E é comendo um galeto, ainda no Brasil, que Bella se dá conta de que pegou barriga. Tudo acontece muito rápido quando uma humana engravida de um vampiro, aparentemente. Eles voltam para casa mais do que depressa, e agora a treta é manter a Bella viva durante essa gravidez de risco. Caso não tenha ficado claro, um bebê assim inter-espécies tem grande potencial de nascer um monstrengo perigoso. Quem diria. Cuidado aí no Tinder, meninas.

E o que tinha tudo para ser apenas mais um filme ruim se torna de extremo mau gosto com as cenas grotescas do parto de Bella, além da figura em si do bebê, um protótipo robotizado que já virou cult.

Para sobreviver ao parto, Bella é transformada em vampiro por Edward, que tentou evitar isso o quanto pôde. Não deu.

Amanhecer – Parte 2 (2012) – Dir. Bill Condon

Bill Condon fez uma pra Deus ver e se consagrou como o único diretor a assinar dois títulos da saga. Tudo isso pensando no sentido de unidade desse arco final da trama, onde a história de um livro foi dividida em dois filmes.

E olha, nem precisava tanto esforço. Chegando nesse ponto, a fórmula pronta de “Bella se envolve em enrascada com alguma raça sobrenatural aleatória” já anda com as próprias pernas, precisando de muito pouco para funcionar.

No filme final da saga, Bella acorda com fome. Agora ela é uma vampira, e das bravas. Cabe à Edward educá-la, para além das funções parentais do casal, agora com a menina Renesmee (que nome!) também crescendo à galope. O banho de loja da Alice deu resultados e agora Bella parece quase bem vestida, embora ainda com aquele jeitão jeca dela. Outra nota triste para esse filme, parece que dessa vez acertaram cabelo e maquiagem dos vampiros, mas agora de que adianta?

E, caramba, Bella e Edward finalmente podem transar propriamente e sem medo, já que são da mesma espécie. E dá-lhe fazer a cabaninha dos Cullen-Swan ferver na madrugada.

Tumultuando esse cenário idílico, lá vem de novo os Volturi, de olho na menina Renesmee, que é um bicho diferente por ser meio humana, meio vampira. Às vezes penso se não falta uma ocupação para os Volturi, um emprego de meio período que seja, para que eles tivessem o que fazer e parassem de arrumar treta.

Em todo caso, Bella e sua nova família (a anterior, com pai e tudo, foi prontamente deixada de lado) se unem em mais um confronto, meu senhor, quem é que aguenta mais um confronto. Acho que todo mundo pensou isso também porque, no fim, era tudo apenas um sonho vívido e nada aconteceu. Eu, hein.

Para coroar uma história terrível como um todo e ultrajante em vários momentos, Amanhecer Parte 2 fecha com um novo arco extremamente de mau gosto, que é a revelação de que a menina Renesmee é o imprinting do Jacob. Ou seja, a menina que acabou de nascer é a alma gêmea daquele Lobo marmanjo, que fica cercando ela por todos os lados. Incrível como ninguém acha isso problemático, o filme termina com Bella e Edward curtindo a vidinha de casados e com muita aventura para viver sendo vampiros, enquanto a filha deles é literalmente largada nas mãos do Jacob, seu guardião além-vida.

É no mínimo inacreditável, beirando o criminoso. Embora não seja meu lugar de fala criticar alienação parental no âmbito sobrenatural, na minha opinião esse imbróglio fecha essa história já complicada com um laço de fita feito de pura bosta.

Se é que podemos colocar assim.

Saldo final e outros sentimentos

Se você chegou até aqui, quero te parabenizar e agradecer. Sei que não é fácil, apesar de todo o meu talento como historiadora, pensadora, escritora, crítica pop e todas as outras coisas que inventei lá em cima.

Assistindo aos cinco filmes da saga, o saldo final que fica é que Crepúsculo é, antes de tudo, a batalha de uma garota para fazer sexo com o cara que ela escolheu. No meio do caminho, outros coitados tentam, raças entram em conflito, a humanidade em si não colabora, mas não tem jeito. Essa garota quer dar pro Edward e nada pode detê-la. Seria uma história comum de qualquer mulher tentando exercer sua sexualidade, mas colocaram uns vampiros e lobos no meio e deu nisso. E assim, temos uma história ridícula de um jeito hilário, cheia de falhas de roteiro, além de interpretações e caracterizações terríveis. E dolorosamente longa.

Bom mesmo, eu acho, é só o primeiro filme. Apesar das cores questionáveis, Crepúsculo tem sim uma história interessante, além de uma trilha sonora que amarra a trama e dá o tom anos 2000 da produção. Mesmo em sua cafonice, é uma peça perfeita. Já os filmes seguintes, parece que deram um murro no nosso estômago e vão empurrando a gente com pequenos chutes no baço, ladeira abaixo.

Por fim, é ainda mais triste saber que RPatz e Stewart namoraram durante a saga toda, para ela traí-lo publicamente um pouco antes do lançamento do último filme, quando já tinham quase quatro anos de namoro. É a última pá de cal nesse túmulo de vampiro, deixando tudo com um gosto amargo.

Mas é aquela coisa, né. Todo clássico tem seu lado triste. Você compara com Shakespeare, por exemplo. É complicado e, na dúvida, prefiro fazer como Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, esses coitados, e simplesmente tentar esquecer que tudo isso um dia aconteceu.

Apesar de todos os cinco filmes estarem disponíveis no Prime Video para você assistir quando quiser; foi onde assisti, aliás.

Ainda assim, sugiro esquecer. O segredo do clássico é ficar guardado na estante, mantendo a aura de intocável, sem jamais ser revisitado.

Façamos o mesmo com a saga Crepúsculo.

Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Resenhas, Séries

MATCHDAY INSIDE FC BARCELONA: Bom, o que eu esperava?

Série documental sobre clube de futebol massacra jovem, entenda:

Dizer que Luis Suárez fez um churrasco em casa em um domingo de 2018 é spoiler? Então, sim, esse texto contém spoilers.

Suárez nem mesmo cogita deixar o som ligado enquanto faz seu trabalho. Não se preocupa em criar um ambiente, esse conceito é supérfluo se o que se pretende ali é ser tão verdadeiro quanto possível. Suárez não é de criar ambientes, ele simplesmente aceita as coisas como são e as executa da melhor maneira possível. E embora não faça aquilo sempre, a rotina lhe é familiar: escolher os melhores cortes da carne, preparar as peças a seu modo, colocar na churrasqueira. Fazer o arroz e os acompanhamentos, tudo é parte do ritual. Quando boa parte da refeição já está encaminhada, Messi surge na varanda. Não tocou a campainha, não avisou antes, não foi anunciado: é de casa.

Ele e Suárez nem mesmo se cumprimentam, nem um “oi”, nada além de uma rápida de troca de olhar. Não é como se ficassem mais do que seis horas por dia sem se falar ou se ver, logo a proximidade constante torna tais formalidades desnecessárias. Messi traz uma embalagem de um açougue caro da cidade e a coloca na mesa. Suárez avisa que a mulher não estará presente porque está cuidado do filho mais novo, que está febril. A isso Messi também não responde, apenas acena com a cabeça. Inspecionando a embalagem recebida, Suárez comenta contrariado que já tem daquele corte, muitos quilos, todos já descongelados e prontos para irem ao fogo. “Não descongela esse, então”, Messi responde na defensiva, “deixa para fazer outro dia”.

Visivelmente incomodado pela falta de compromisso do amigo com seus rituais culinários, Suárez dá de ombros e volta a mexer nos espetos na churrasqueira, calado. Messi se acomoda por perto, braços cruzados, olhos atentos ao que o amigo faz. Mas não comenta nada, já deu bola fora com aquilo da carne “repetida”. Está com fome, o pior é isso, e acredita que o almoço ainda vai demorar. Questionar isso seria insanidade, no entanto. Suárez está bravo e, no fim das contas, deve saber o que está fazendo. Suárez sempre sabe.


Isso poderia ser um trecho de uma fanfic #Messuarez minha (pode ser que ainda se torne), mas não é. Se trata de uma cena de MatchDay: Inside FC Barcelona, série documental que estreou na Netflix agora em maio. Chegando nesse ponto, inteligente como só você é, já deve estar claro do que se trata: um longo apanhado de cenas de bastidores do clube, com momentos inéditos capazes de dar um boost na criatividade de qualquer fanfiqueira. Temos todos os detalhes da temporada 18/19 do clube da Catalunha e muita romantização a respeito desse que é um dos maiores times de futebol do mundo.

Sedenta por qualquer imagem em vídeo que mostre Suárez olhando para Messi com aquela mistura indelével de amor e ódio, absorvi compulsoriamente cada um dos oitos episódios disponíveis, levando seu conteúdo mais a sério do que seu próprio e improvável narrador, John Malkovich. Ao final, me sinto absolutamente desnorteada e pronta para escrever mais 25 fanfics, sendo que uma delas invariavelmente terá um delírio sobre Suárez fazendo um churrasco privê para seu amor Lionel Messi.

E tendo assistido ao que eu assisti em MatchDay: Inside FC Barcelona, fica até óbvio que seria assim. Cenas de bastidores, campeonatos ganhos, derrotas humilhantes, crianças iguais aos pais, jovens com suas tatuagens horríveis e penteados duvidosos decidindo o futuro de um time milionário. É claro que eu viraria refém desse conteúdo e foi o que aconteceu. Bom, o que eu esperava?

Assim como o próprio clube que documenta, MatchDay é um produto perfeito, asséptico, coeso e visualmente reconfortante. É o ASMR do documentário, assim como o Barcelona é o ASMR do futebol: é tudo tão bonito e certo que seu coração se acalma tão logo as cores azul e vermelho dominam a tela, pois você sabe que tais cores são sinônimo de paz e “nada pode dar errado”.

Narrada por John Malkovich (não pergunte), a série cobre a temporada 2018/2019 do Barcelona, dando conta da sua disputa pelos títulos dessa fase, o que inclui eventuais eliminações dolorosas cercadas de traumas. Cada episódio conta uma dessas batalhas (sempre os jogos cruciais, nunca as partidas que os levaram até ali) e traz um personagem de apoio para desenvolver a trama, como um torcedor com uma história de vida que se conecta com o Barça de maneira lacrimosa, um funcionário do clube que é muito carismático ou simplesmente um doidinho que viaja atrás do Barcelona onde quer que ele vá. Costurando a trama desse personagem anônimo com a de algum jogador decisivo na partida em questão, o mote da série é humanizar o clube, ao mesmo tempo em que nos presenteia com cenas de bastidores que parecem muito exclusivas, mas são, verdade seja dita, apenas aquilo que eles quiseram mostrar.

Sergi e Busquets, dois lordes carismáticos e bons.

Mas o que cativa mesmo em MatchDay, além da adorável pausa dramática que o americano Malkovich faz antes de falar qualquer nome latino especialmente complicado como Coutinho, é ver a trajetória de alguns personagens menos incensados pela torcida ou grande mídia, como Aleña, o francês Lenglet e o próprio Coutinho. Ofuscados pelas estrelas maiores do elenco, esses jogadores têm no documentário um espaço para mostrar a paixão pelo clube e o peso pessoal que é jogar em um time de tal porte.

E, claro, é incrível ver o Piqué se confirmando como o personagem goofy do cast, Suárez o gigante de bom coração e Messi, bom, Messi sendo o Messi e respondendo assim 🥺 a toda e qualquer interação. São os arquétipos que conhecemos brevemente pelos jogos e entrevistas e se confirmam nas cenas de bastidores de acelerar o coração, como aquela do Suárez puto no vestiário porque o Diego Costa xingou o Messi ou o Piqué sendo zoado por suas investidas fashion questionáveis a cada vez que chega para jogar.

Além de, cacetada, poder ver a reação da Shakira, esposa de Piqué, e o filho Milan, à derrota do Barcelona para o Liverpool por 4 a 0, que custou a eliminação do Barça na edição de 2018/2019 da Champions.

O fato do documentário trazer um episódio inteiro sobre essa eliminação histórica foi, inclusive, motivo para uma boa polêmica. Quando do lançamento da série, primeiro para Rakuten TV ainda em novembro do ano passado, os torcedores questionaram a necessidade de dar tanto destaque à um momento vexatório na história do clube. Mas olhando a série como um todo, que conta uma história tão perfeita e exemplar, o fato de eventos menos nobres terem seu espaço parece mais como proposital do que descuido: a intenção aqui também parece ser humanizar o clube, mostrando que mesmo o Deus Todo Poderoso Barcelona é passível de falhas.

No mais, momentos deliciosos que jamais esqueceremos. Os títulos muito almejados, o Messi freando o carro no sinal e encarando o Suárez enquanto conversam sobre uma caneleira, Piqué chegando de terno para um treino normal, o roupeiro do Barcelona que é best do Rakitic. Ao longo de suas quase 8 horas de duração, MatchDay: Inside FC Barcelona entrega uma narrativa perfeita até em seus erros, confortável e plasticamente indefectível.

É o Barcelona sendo o Barcelona. Bom, o que eu esperava? É perfeito.

Resenhas, Séries

ELITE: temporada 03 – O que teve?

O Omar com a bandeja ali no canto é TUDO pra mim

Importante: esse texto não contém spoiler, Até gostaria, mas você é um mimado do caramba, então escrevi sem.

Minha filha, você me pergunta o que teve? Teve morte!! Morte!

Chegando ao terceiro ciclo (kk) da nossa novelinha hot preferida, é preciso fazer um breve recap das temporadas anteriores. Na verdade, é bem rápido:

Temporada 01: Morre a doidinha lá, todos querem saber quem matou.

Temporada 02: Linchamento social de quem matou + trama paralela absolutamente inútil com o sumiço do palhaço do Samu.

Temporada 03 (nova!): MAIS linchamento social de quem matou e MAIS uma morte.

Ah, porque você achou que ia aproveitar os episódios inéditos para desanuviar um pouco e pegar ideias de looks, né? E vamos de enredo sombrio nessa temporada nova!

Tal qual Lucrécia, tudo o que sei fazer na vida é ser bonita e chorar

Assim como o brasileiro médio fazendo yoga na sala e reutilizando como pode o arroz do almoço, o povo de Elite não sabe mais o que é ter uma alegria sincera que seja relacionada a uma esperança para o futuro. Não sabe. Tudo é incerto, sombrio e triste nesta nova temporada da série.

É tanto crime, tanta briga, tanta guerra, que você assiste de coração pesado. Parece até que está vendo aqueles dramas da HBO, sabe? Nesta terceira temporada, nossos heróis mergulham fundo em suas tragédias pessoais e na decepção compartilhada. Todo mundo briga com todo mundo, os namoros são falsos, existe o Perigo das Drogas, o sexo é horrível, uma pessoa adoece, as festas sempre acabam em conflitos armados aleatórios e não existe um motivo sequer para sorrir.

Parece ou não parece o Brasil?

E é estranho, porque Elite tem esse DNA (kk o que eu tô falando?) de ser aquela série que te diverte pelos seus perigos, e não que te entristece por conta deles. No entanto, é de se imaginar que após duas temporadas construindo esse cenário caótico, a conclusão dele se dê, sim, neste vale de lágrimas em que o telespectador é jogado sem aviso.

Se trata, sim, de um fim. Ao final dessa temporada, sabemos que vários personagens-chave estão se despedindo da trama (afinal, se formaram e não há motivos para continuarem na história, que se dá principalmente no colégio). Então, esse fechamento vem com um gosto agridoce, que permeia todas as ações e torna o drama tão real que é quase palpável. Até o Crime (O Assassinato) dessa temporada parece uma despedida do mundo de Elite como o conhecíamos. Um sepultamento daquela ilusão que vivemos.

A tragédia que vem para renovar a vida. O sacrifício a ser feito para seguir em frente.

Se é que me entendes.

O Brasil hoje.

Amiga, você lembra quando assistia Elite pra ver gente de 27 anos dizendo que tinha 15 e se pegando? Você lembra as cenas? Amiga, tudo isso acabou! Nessa temporada, todas as interações sexuais (risos) são dignas de pena, consternação ou espanto. E faz todo o sentido, pois não tem clima pra sexo se o mundo tá desabando!

Eu repito: parece ou não parece o Brasil?

Os personagens novos são “ok” apenas, não chegam a atrapalhar. Temos uma evolução incrível do personagem da Lucrécia e mesmo Rebeca tem a sua chance de brilhar. Para mim, porém, o melhor personagem desta temporada é mesmo o Polo. Confesso que ele nunca foi dos meus favoritos, mas essa season nova foi toda dele e Alvaro Rico soube carregar muito bem todo o drama dos conflitos internos de seu personagem sem parecer (muito) apenas um dramalhão latino.

A Emmy tape jogada NO LIXO, pois nem Emmy vai ter mais nessa situação que se encontra o mundo

Voltando ao ponto de que esse é um encerramento: sim, é um encerramento. A trama faz seu full circle, mata uns, injustiça outros, conserta este ou aquele relacionamento e, por fim, nos deixa ali na beira da estrada, sozinhos.

E por mais que doa encerrar ciclos e nos despedir de personagens queridos, acredito que seja necessário. Pelo bem da série e da nossa saúde mental, não dá para imaginar mais uma temporada de Elite estendendo essa sangria desatada e essa fórmula cansada de alguém morto, alguém em conflito, alguém doente, Guzman merendando todos na porrada. Chega! Basta! Lembrem-se que este é um conteúdo jovem de entretenimento, não um documentário sobre a economia mundial na Grande Depressão. Pois embora a gente saiba que Elite não é só fun & games, a gente espera, sim, alguma diversão. Foi para isso que a gente começou a assistir, para início de conversa. A trama hoje não tem mais escape nesse sentido, todos os personagens foram devastados e traumatizados de tal forma que não tem festa na boate lá favorita deles que dê jeito nisso.

Então… Honestamente, gostei dessa temporada, mas estou ansiosa pela próxima, com novos personagens e o que de interessante os roteiristas podem trazer dentro dessas possibilidades. Serei eternamente grata à todos do elenco já eliminados da trama, Deus sabe quanta alegria eles me deram, mas vamos olhar para frente, por favor?

A gente precisa, e fico feliz em saber que uma das minhas séries favoritas pode fazer isso por mim.

E chega de morte, pelo amor de Deus!

Em tempo: também falei sobre Elite (a segunda temporada) aqui.

Resenhas

O sonho possível, enfim

Era absolutamente tudo. Quando “Com Amor, Vincent” chegou aos cinemas, imaginei que era tão incrível quanto natural. Como não fizeram um filme assim antes? Para fazer faltava tecnologia e a sensibilidade, no mínimo, mas o momento enfim tinha chegado.

O filme é lindo, um trabalho tão profundo quanto emotivo. A história de vida de Van Gogh é delicada e triste, envolve mexer em assuntos que são dolorosos e presentes até hoje, ainda mais hoje, além de todo aquele mistério sobre sua morte.

Existe também, é claro, a atualidade de sua obra, que faz com que seus quadros sejam hoje itens da cultura pop, desdobrados em produtos de consumo dos mais variados. Virar moda, aqui, é um privilégio todo nosso. É ótimo ver suas pinturas espalhadas por todos os lugares, nos mais variados formatos. É uma delícia, na verdade.

Mas o filme, como fizeram esse filme?

Para responder essa pergunta, e outras, estreia dia 30 de janeiro nos cinemas brasileiros o documentário “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível”. A missão é exatamente levar para o telespectador um pouquinho do que foi a produção da animação de 2017. Com distribuição da Elite Filmes, o doc explora os dez anos de luta para levar o filme às telas.

Sim, dez anos.

Tudo sobre “Com Amor, Vincent” impressiona, como sabemos vendo o filme, como confirmamos com esse documentário. Com entrevistas dos envolvidos e cenas inéditas de bastidores, em “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível” vamos descobrindo mais sobre essa obra que nasceu pelas mãos e coração de Dorota Kobiela, uma jovem cineasta polonesa. Novata no cinema, por quase uma década Dorota capitaneou essa empreitada, lidando com a falta de incentivo e de dinheiro, em um esforço monumental que teve a participação de 115 pintores e se transformou em animação com os 65 mil quadros que estes produziram.

Sessenta e cinco mil quadros. Quando finalmente foi lançado, o filme recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de 2018, a aclamação definitiva de todos os anos de dedicação.

Em entrevista ao documentário, Dorota se emociona ao dizer que gostaria que Van Gogh um dia soubesse o quanto sua obra influenciou e motivou tantas pessoas ao redor do mundo, por todos esses anos.

Como fã do artista, gosto de pensar que é isso que estamos fazendo quando continuamos revivendo sua vida e obra, desdobrando sua arte em coisas nossas que carregamos conosco por todos os lados. Estamos deixando ele saber, de algum modo.

O sonho impossível se materializa assim, nesses momentos e nessas homenagens, como a de Dorota, que traz um pouco daquele universo que nos encanta há décadas e jamais deixará de encantar, posto que é eterno.

* O blog assistiu ao documentário “Com Amor, Van Gogh: O Sonho Impossível” a convite da Elite Filmes.

Resenhas

ENCONTROS: Uma romcom dos nossos tempos

Mélanie vive com a cara no celular, nervosa com uma palestra que precisa apresentar no trabalho, só faz trabalhar e dormir. Rémy tem passado por maus bocados quando toda a sua equipe no trabalho é demitida e só ele fica, pelo stress disso não consegue descansar de jeito nenhum. Os dois moram um do lado do outro, e nunca se viram.

Assim começa ENCONTROS (Deux Moi), novo longa do diretor Cédric Klapischi. Um conto moderno sobre amor, o filme mostra os caminhos que vão fazer Mélanie e Rémy descobrirem mais sobre si mesmos antes de conseguir olhar para fora e enxergar o outro.

Falando sobre questões atuais como amor líquido, depressão e a solidão dos tempos modernos, ENCONTROS traz uma história possível e que se relaciona muito com o que vivemos cotidianamente. Mélanie e Rémy, cada um a seu modo, tem suas próprias questões que travam suas interações sociais. Reclusos e solitários, são adultos funcionais, aparentemente felizes, mas quebrados por dentro de alguma forma.

Separadamente, buscam por terapia e nessas conversas perseguem o entendimento das suas reais motivações, descobrindo quais são os gatilhos que destravam esses medos que os impedem de ter uma vida feliz.

A terapia

Por motivos diferentes, os dois protagonistas buscam auxílio médico (ou “ver alguém”, como dizem) para tratar das angústias que estão impedindo que suas vidas corram normalmente. Rémy é o que mais demonstra resistência ao assunto, se questionando sobre a real necessidade disso. Mélanie, por sua vez, encontra nas sessões um canal imediato para desabafar sobre traumas recentes.

O olhar do filme sobre a questão da terapia é muito positivo e esclarecedor. Uma das bases do longa, é interessante notar como os profissionais que atendem os protagonistas têm abordagens diferentes e tratam de auxiliar os personagens a encontrar seu caminho, enquanto desmistificam o preconceito que paira sobre a necessidade que temos de cuidar da nossa saúde mental.

As coincidências, a graça de tudo isso

Mas se fosse só para falar de dores e traumas, essa não seria uma comédia romântica. O grande trunfo de ENCONTROS é trazer essa conversa sobre saúde mental de uma maneira leve, o que está longe de dizer que é de uma maneira rasa, trabalhando paralelamente com alguns alívios cômicos que nos colocam em uma posição confortável.

De fato, são nesses momentos engraçados do filme que vemos como ele se relaciona com a vida real. Mesmo em um quadro de stress, nem tudo são lágrimas. A jornada dos protagonistas é suavizada com alguns encontros divertidos e com uma linguagem amigável, que nos torna íntimos deles, nos fazendo torcer para que consigam ter sucesso em suas aspirações.

O jogo de gato e rato que nos leva a acreditar que Mélanie e Rémy vão se encontrar em algum momento cria escapes cômicos, que dão todo o charme da trama. A gente torce muito por eles, mesmo sabendo, no decorrer do longa, que não é o fato de eles ficarem juntos, se ficarem, que vai solucionar todos os seus problemas.

Solidão em um mundo que não para

Mais do que falar sobre saúde mental ou criar um trama de coincidências que pavimente o encontro dos protagonistas, que nunca sabemos se acontecerá de fato ou não, ENCONTROS tem o mérito de mostrar suas jornadas para além da busca pelo amor pura e simples.

Ao falar de depressão, solidão e da busca pelo autoconhecimento, o filme encanta ao mostrar que cada indivíduo é único — e que o amor, nesse contexto, vem para complementar, não para suprir uma falta.

Com humor, delicadeza e um poderoso discurso sobre a necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental, ENCONTROS surpreende pela doçura com que aborda o amor em nossos tempos modernos. É uma comédia romântica dos nossos tempos, mais do que tudo, onde amor romântico e cuidado próprio andam lado a lado, somando e nunca tomando o lugar um do outro.

Imperdível.


〰️ ENCONTROS estreia nos cinemas brasileiros em 03 de outubro. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite do Adoro Cinema.

Resenhas

ANNA: obrigada, Deus, um filme bom

ANNA (2019)

Mais uma vez me vejo enveredando pelo viés da resenha lúdica. A verdade é que o mundo está insuportável e um dos poucos escapes que a população tem encontrado é por meio do consumo do que antigamente chamávamos de “arte” e hoje em dia é apenas algo como “ai cara…”.

Essa semana mesmo fomos vitimados com a notícia de mais um filme de Matrix e mais um filme de James Bond. Isso somado à notícia de que a Marvel pode largar o Homem-Aranha e todas as novidades sobre o live action de A Dama & O Vagabundo(???). Quer dizer, dá até desânimo ao pensar que nada de realmente novo surge no entretenimento, e mesmo as franquias vão por um caminho tortuoso (Por que choras, Spiderfan?).

Diante desse cenário desalentador, é até um susto ir ao cinema e ver um filme bom. Olha que raridade, um filme bom! Um filme que não é a vigésima quinta perna de uma franquia, nem reboot, nem live action com bichos feitos no computador. Caramba, que diferente! Um filme bom, enfim!

Porradaria, armas, talheres, toco afiado de mesa

Ontem fui ao cinema conferir a pré-estreia de ANNA, o novo do Luc Besson. O Luc Besson, ou apenas Luc dos Leleques se você é íntima como eu, tem vários trabalhos como diretor nesse gênero cinematográfico “mulher bonita dando coronhada em homem”. Para quem não sabe, o francês (é assim que você fica sabendo que ele é francês), já dirigiu filmes como O Profissional, O Quinto Elemento, Lucy ( kkkk até hoje eu rio), e também Valerian & a Cidade dos Mil Planetas. Então, indo ao cinema ver um filme dele o que você espera é ver um longa nesse mesmo estilinho, mas um pouco pior, já que hoje em dia só sai filme ruim desse bueiro chamado Hollywood!!!!!

Porém, a surpresa.

uhhh cheia de charme / uhhh desejo enorme! / de se aventurar!

ANNA segue o roteiro padrão da história de espiã, que já vimos em outros carnavais e amamos: a linda garota de alguma nacionalidade “exótica” (aqui é russa), com uma história de vida que a tornou uma gelada arma de extermínio em massa. No novo do Besson, a nossa garota é uma modelo internacional que pula de lá pra cá trocando de peruca e matando geral com tudo o que encontrar pela frente: revólver sem munição, toco de mesa, garfo de refeição normal, veneno na seringa.

E aí você vai dizer: Ah, Tati, então é só mais um filme como tantos que já vimos por aí!

E eu te digo que não, eu te digo que você está enganado. E eu te digo isso com imensa alegria, porque o tempo todo me dizem que eu estou enganada, então é uma satisfação quando quem se engana é o outro.

(esse emoji)

O que torna ANNA tão diferente são as muitas reviravoltas que o filme toma, te fazendo questionar o tempo todo em quem confiar, te deixando cabreiro até mesmo com a cronologia dessa história. Verdade seja dita, durante quase todo o filme se você olhar para as pessoas ao seu lado no cinema elas estarão com a cara daquele emoji desconfiado.

E isso é um grande diferencial, se você for pensar que hoje o telespectador tudo sabe, tudo conhece, tudo tem uma teoria, tudo ele sabe mais do que a própria pessoa que fez o filme. Hoje o telespectador é uma pessoa que leva uma vida tão lascada, vivendo em um contexto político tão vil, que ele coloca toda a expectativa de felicidade dele numa porra de um filme, então filme nenhum nunca vai ser bom pra ele, porque o diretor lá no set de filmagem dele não tá pensando “vou gravar essa cena aqui do jeito que o Silvio quer, porque tá foda o presidente do país dele”. Não, meus caros.

O que eu dizia? Sim, ANNA consegue romper esse status quo de desânimo e expectativas irreais do telespectador quando traz uma trama coesa e intrincada, somado a cenas embasbacantes de porradaria e um elenco que faz miséria da arte da dramaturgia inventada por Shakespeare (conceito, por sua vez, inventado por mim).

Pessoas muito bonitas e extremamente talentosas

Muitas vezes, quando você vê a Helen Mirren no elenco de algum filme, a primeira coisa que pensa é: “coitada, fez esse pelos boletos”, porque é difícil um filme que chegue à altura do seu talento. Não raro, em seus filmes ela dá só 10% do seu potencial, tal qual nosso cérebro, que dá só 5% do seu esforço em um dia normal como hoje.

Em ANNA, no entanto, Helen tem a chance de se esparramar na sétima arte. Interpretando a vilã russa (estou simplificando, a personagem tem camadas) que deveria ajudar a bela espiã Anna, mas tem uma certa mágoa que a impede de ser parceira de verdade, a atriz britânica (é assim que você fica sabendo que ela é britânica) dá um verdadeiro show de interpretação, nos brindando com momentos sublimes e até algum alívio cômico.

perfeita

Além disso, temos ainda as interpretações on point de Cillian Murphy e Luke “Gaston” Evans, antagonistas de si mesmos, e mostrando que quem tem amigo não morre pagão: a sorte que o Luc Besson tem de ter esse pessoal no seu casting!

Outra boa surpresa, e na verdade, a melhor delas, é a moça que faz a protagonista. Anna é interpretada por Sasha Luss, uma atriz ainda relativamente novata (ela já vez Valerian, do Besson também), mas com total domínio do seu belo corpo, da sua bela carinha e das suas valiosas emoções.

de peruca em peruca, Sasha Luss vai mostrando quem é na fila da dramaturgia

Dito tudo isso, espero que tenha ficado clara a mensagem que eu queria passar já no título do texto: ANNA é um filme muito bom. Mesmo. Desde a trama àgil, passando pelas incríveis cenas de ação e a fotografia impecável (repare na primeira cena em que Luke Evans interage com Sasha Luss, as cores e os planos daquela cena!), passando pela interpretação primorosa desse elenco chiquérrimo, você vê que o Luc Besson fez mais uma pra Deus.

Fez mais uma para Deus e quem aproveita é a gente, pobres mortais que agonizam e choram por 120 minutos que seja de escapismo, pessoas bonitas e alguma luta envolvendo piruetas e facas. Com ANNA, temos. Primorosamente, temos.


〰️ ANNA: O PERIGO TEM NOME estreia nos cinemas brasileiros em 29 de agosto. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite da Paris Filmes e Arroba Nerd.

Resenhas

Resenha: “Favores Vulgares”

Darren Criss como Andrew Cunanan em “American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace” (2018)

O livro sobre a história real do homem que matou Gianni Versace

A jornalista Maureen Orth trabalhava em um perfil sobre Andrew Cunanan, que já havia matado quatro pessoas em um intervalo de doze dias, para a Vanity Fair quando Versace foi assassinado e Cunanan apontado como principal suspeito. Nesse ponto, ela era a pessoa que mais sabia sobre Cunanan, a única que estava realmente atenta a ele, enquanto a polícia de três estados se debatia entre quem era o responsável pela investigação e se “valia a pena” elucidar crimes cometidos por um gay contra outros gays.

Pois é.

Antes de ser publicada, a matéria de Orth foi editada às pressas para incluir o homicídio de Versace, o quinto crime da conta de Cunanan. Até que ele fosse encontrado, morto por suicídio oito dias depois de assassinar o estilista italiano, a jornalista já tinha a base do que se tornaria “Favores Vulgares”. Acrescentada extensa pesquisa sobre a vida de Cunanan e inúmeras entrevistas com conhecidos, familiares e amigos, mais do que um perfil de um serial killer, o livro é um estudo profundo sobre a cena gay nos EUA dos anos 90.

São 400 páginas que retratam como a imprensa, a sociedade e a polícia viam a explosão da AIDS e da cultura gay naqueles dias. Cunanan levou muito tempo para começar a ser caçado principalmente por verem seus crimes como simples “brigas entre gays”, algo como o nosso famoso “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Havia ainda o medo das famílias em ver seus parentes serem “desonrados” após a morte, tendo sua imagem vinculada a um gay, como ele. E nisso, Cunanan seguiu cruzando fronteiras e matando. Assim, matou dois homens com quem se envolveu (sendo um deles o “amor da sua vida”), matou um homem para roubar seu carro, matou um bilionário que até hoje não se sabe se era seu amante ou pai de seu amante e, por fim, matou Versace — seu grande ídolo, que ele achava que não merecia todo sucesso e dinheiro que tinha, pois tinha vindo “do nada” e era muito menos talentoso que ele, Cunanan.

Produto de sua época, o livro é de 1997, “Favores Vulgares” hoje soa datado e preconceituoso em algumas passagens. Ao buscar entender as motivações de Cunanan, Orth por vezes mergulha em achismos e pré-conceitos baseado apenas no fato do criminoso ser gay ou praticante de BDSM. Seguindo uma linha cronológica, ela tece teorias para o que Cunanan sentia desde a sua infância. No entanto, quando os crimes começam a acontecer, ela deixa de lado os “quem sabe?” e se atém os fatos. Afinal, não tem como saber. O que levou Cunanan a assassinar brutalmente cinco pessoas?

Não temos respostas exatas em “Favores Vulgares”, mas as entrevistas e depoimentos inéditos trazidos por Orth são valiosos para a construção da narrativa (que ficou ainda mais clara na série ACS: Versace, baseada no livro) do que foi a vida de Andrew Cunanan. Uma pessoa que foi levada a acreditar desde cedo que o mundo lhe devia muito, e cuja frustração ao perceber que não era bem assim foi sublimada com drogas, álcool e sexo. E, fatalmente, teve por isso sua vida engolida por um espiral de vício e desamor, deixando crescer dentro de si uma bomba de ódio e rejeição que culminou em uma série de assassinatos, deixando cinco vítimas.

Seis, se formos contar o próprio Cunanan.

Para quem viu a série da FOX, chega a ser assustador descobrir que algumas cenas, diálogos e acontecimentos retratados nas telas realmente aconteceram. A emblemática cena de Cunanan dançando na boate e respondendo que é um serial killer quando um flerte lhe pergunta a profissão. Ele pedindo que um de seus namorados (que posteriormente seria sua primeira vítima) lhe dê presentes que ele mesmo comprou, só para impressionar outro homem em quem Cunanan estava interessado. A delicada e doentia relação com a mãe, os atos desmedidos de proteção do pai. O que vemos na versão televisiva do livro de Orth é bem pouco romantizado e muito próximo do que ela averiguou em sua pesquisa. Em que pese que na TV a linha do tempo da história é mexida para dar mais emoção à narrativa, basicamente tudo o que é mostrado aconteceu mesmo. As mentiras de Cunanan, seus relacionamentos confusos, os delírios de grandeza, a sua degradação gradual. Tudo.

Por esses motivos, ainda que o tema seja pesado, “Favores Vulgares” é uma leitura incrível. A despeito das escorregadas no tom, Orth consegue conduzir muito bem a narrativa, sem entediar e nem se prender demais em detalhes técnicos. Além disso, é um trabalho colossal de pesquisa que merece respeito.

Por fim, e talvez mais importante que tudo isso, se trata de um livro importante no debate da saúde mental. E para entendermos, de uma vez por todas, a cuidarmos do modo como vemos o mundo e o que esperamos dele.


Você pode encontrar o livro “Favores Vulgares“na Amazon, em sua edição em português, por esse link.

Resenhas

Leia mulheres: Loredana Frescura e Lindsey Kelk

Photo by Montse Monmo on Unsplash

Com títulos diversificados, Editora Fundamento traz o amor sob a perspectiva de mulheres em diferentes fases da vida.

O amor é tema constante na literatura feminina. E ele aparece nela de várias formas.

Seja com o idealismo romântico comum da adolescência ou sob o viés comedido de alguém já mais maduro, temos sempre na literatura feita por mulheres um bom lugar para encontrar as mais variadas histórias de amor.

Um exemplo desse olhar feminino para o mais nobre dos sentimentos é o romance da italiana Loredana Frescura, “Vejo o Mundo Nos Seus Olhos”.

Lançado no Brasil pela Editora Fundamento, o romance conta a história de uma adolescente descobrindo o amor. Com forte pegada romântica, temos a trajetória de Constância, uma menina apaixonada e sentimental, que vê em seu interesse amoroso algum tipo de perfeição. Algo que logo é derrubado pela realidade, como não poderia deixar de ser.

O primeiro amor é sempre algo impactante, que deixa marcas e define em maior ou menor grau como lidaremos com as relações amorosas no decorrer de nossas vidas. Com seu romance curto e poético, Loredana nos mostra como vemos o amor com muito mais pureza e idealismo no começo de nossas vidas.

Uma característica interessante do livro é que ele é escrito em quatro mãos, junto com o professor italiano Marco Tomatis. Em uma dinâmica muito interessante, Loredana é responsável pelos capítulos narrados pela personagem feminina, e Marco escreve os trechos que trazem o viés do protagonista masculino da história.

Se trata de uma abordagem poética sobre o primeiro amor, em um livro curtinho e delicioso de ler.

Em contraponto aos devaneios adolescentes do primeiro namoro está “Eu Amo Paris”, de Lindsey Kelk.

Terceiro livro da série “Eu Amo” (você pode ver a resenha do livro um aqui e do livro dois aqui), nesse volume nossa heroína Angela desbrava o solo parisiense, enquanto precisa aprender a lidar com um namoro subitamente em crise.

O olhar de Angela para o amor é diferente do de Constância, a protagonista de “Vejo o Mundo Nos Seus Olhos”, é claro. No auge dos seus vinte e poucos anos, depois de passar alguns apuros em seus casos, Angela também amadureceu como personagem.

Em comparação com os livros anteriores da série, as trapalhadas e imprevistos estão ali ainda, sim, mas é possível notar que a personagem de Lindsey Klerk vem em uma crescente de amadurecimento. Desse modo, o que temos nesse Livro 3 é uma trama muito mais coesa e centrada, sem deixar de lado o humor e o improvável que lhe é característico.

Um ponto notável de “Eu Amo Paris”, e da literatura de Lindsey Klerk em geral, é como a trama consegue ser leve e ao mesmo tempo abordar sem frivolidade os questionamentos da personagem. Como uma jovem mulher independente, Angela precisa lidar com questões como ciúmes, rivalidade entre mulheres e os dilemas de morar ou não junto com o namorado. Tudo isso sem perder o bom humor e procurando surtar o mínimo possível — algo que a gente conhece bem.

Assim, seja para relembrar os encantos da descoberta do amor ou para aprender junto a lidar com ele na vida adulta, sempre haverá um livro incrível escrito por uma mulher disposto a te ajudar. ❤


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Vejo o Mundo Nos Seus Olhos e Eu Amo Paris através do site da editora.

Resenhas

Leia mulheres: Lindsey Kelk e Kate Atkinson

Photo by Thought Catalog on Unsplash

Títulos da Fundamento trazem autoras falando sobre amor e suspense em livros sequenciais, sempre com muito humor e delicadeza.

Estava lendo aqui os livros que a Fundamento me enviou em cortesia, dois títulos escritos por mulheres, e que integram séries literárias, e parei para pensar: quantas autoras que escrevem séries de livros a gente conhece?

Claro, assim de cabeça o primeiro nome que nos vem é J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter. Um caso de sucesso entre, possivelmente, milhões de tentativas. Escrever livros sequenciais é um desafio enorme. Se já é difícil manter uma história que apresente qualidade e “interessância” constante por 300 páginas, imagine repetir essa fórmula por mais dois ou três livros? Sem dúvida, é um dom que vem para poucos. No caso das escritoras sobre as quais falaremos hoje, esse dom veio com muita propriedade.

Títulos da Fundamento trazem aos holofotes as autoras de livros sequenciais.

Para começar, vamos falar de “Eu ❤ Hollywood”, título de Lindsey Kelk e segunda obra da série “Eu ❤”. Já falamos de Kelk aqui e do quanto a sua trajetória é inspiradora: de ghost writter a talento contratado pela HarperCollins, gigante da literatura feminina.

Em “Eu ❤ Hollywood”, a britânica Kelk novamente brinca com a fantasia feminina de mudar de cidade e mudar completamente de vida. Aqui, nossa heroína Angela Clark se vê tendo que ir para a cidade dos famosos em busca de uma entrevista com um grande galã de cinema.

Deslumbramento, paqueras, uma boa dose de inconsequência e temos todos os ingredientes para uma chick lit perfeita. Para a série “Eu ❤”, Kelk criou a fórmula de sempre levar sua protagonista para uma cidade diferente a cada livro, criando novas aventuras e novos interesses amorosos. Neste segundo livro da saga, a fórmula ainda está fresca e viva em sua ousadia. O livro dois não repete esquemas do um e temos uma aventura realmente diferente para a jornalista Clark. Com muito humor e leveza, como aprendemos ser característica da autora. É uma excelente continuação e não deixa nada a dever para o livro que inicia a série, outra pérola da Fundamento.

Já a inglesa Kate Atkinson empresta outro tipo de verniz aos seus livros seriados. Com forte pegada de suspense e mistério em sua escrita, seus livros são tão populares que o personagem Jackson Brodie, um ex-policial que se tornou investigador particular, acabou virando protagonista de uma série televisiva da BBC de Londres. A escritora já recebeu vários prêmios literários por sua obra e, em 2011, foi agraciada pela rainha Elizabeth II com o título de Membro da Ordem do Império Britânico por serviços prestados à literatura.

Em “Saí Cedo, Levei Meu Cachorro”, único título da autora traduzido para o Brasil, temos Jackson Brodie em mais uma aventura. O romance é o quarto livro da autora a trazer seu consagrado personagem e o faz em uma trama que mistura passado e presente para contar contar uma história que está longe de ter apenas um lado. O livro conta história de três personagens em paralelo: Jackson Brodie, o ex-policial que atualmente trabalha como detetive particular; Hope MacMaster, uma mulher que procura Brodie para descobrir quem são seus pais biológicos; e Carol Braithwaite, uma garota de programa que fora assassinada há mais de 25 anos e teve o caso arquivado por “força maior”. Em uma narrativa onde a brutalidade é vencida pela ternura, a história desses três personagens se conecta para contar essa trama cheia de mistério e, inesperadamente, humor.

Se temos muitas autoras que escrevem livros em série? Acredito que sim e estas são um bom exemplo de como essa arte é preciosa. Lindsey Klerk e Kate Atkinson, cada uma a seu modo, acrescentam doçura e força à literatura mundial, um livro de cada vez.


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Eu ❤ Hollywood e Saí Cedo, Levei Meu Cachorro através do site da editora.