Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Resenhas, Séries

ELITE: temporada 03 – O que teve?

O Omar com a bandeja ali no canto é TUDO pra mim

Importante: esse texto não contém spoiler, Até gostaria, mas você é um mimado do caramba, então escrevi sem.

Minha filha, você me pergunta o que teve? Teve morte!! Morte!

Chegando ao terceiro ciclo (kk) da nossa novelinha hot preferida, é preciso fazer um breve recap das temporadas anteriores. Na verdade, é bem rápido:

Temporada 01: Morre a doidinha lá, todos querem saber quem matou.

Temporada 02: Linchamento social de quem matou + trama paralela absolutamente inútil com o sumiço do palhaço do Samu.

Temporada 03 (nova!): MAIS linchamento social de quem matou e MAIS uma morte.

Ah, porque você achou que ia aproveitar os episódios inéditos para desanuviar um pouco e pegar ideias de looks, né? E vamos de enredo sombrio nessa temporada nova!

Tal qual Lucrécia, tudo o que sei fazer na vida é ser bonita e chorar

Assim como o brasileiro médio fazendo yoga na sala e reutilizando como pode o arroz do almoço, o povo de Elite não sabe mais o que é ter uma alegria sincera que seja relacionada a uma esperança para o futuro. Não sabe. Tudo é incerto, sombrio e triste nesta nova temporada da série.

É tanto crime, tanta briga, tanta guerra, que você assiste de coração pesado. Parece até que está vendo aqueles dramas da HBO, sabe? Nesta terceira temporada, nossos heróis mergulham fundo em suas tragédias pessoais e na decepção compartilhada. Todo mundo briga com todo mundo, os namoros são falsos, existe o Perigo das Drogas, o sexo é horrível, uma pessoa adoece, as festas sempre acabam em conflitos armados aleatórios e não existe um motivo sequer para sorrir.

Parece ou não parece o Brasil?

E é estranho, porque Elite tem esse DNA (kk o que eu tô falando?) de ser aquela série que te diverte pelos seus perigos, e não que te entristece por conta deles. No entanto, é de se imaginar que após duas temporadas construindo esse cenário caótico, a conclusão dele se dê, sim, neste vale de lágrimas em que o telespectador é jogado sem aviso.

Se trata, sim, de um fim. Ao final dessa temporada, sabemos que vários personagens-chave estão se despedindo da trama (afinal, se formaram e não há motivos para continuarem na história, que se dá principalmente no colégio). Então, esse fechamento vem com um gosto agridoce, que permeia todas as ações e torna o drama tão real que é quase palpável. Até o Crime (O Assassinato) dessa temporada parece uma despedida do mundo de Elite como o conhecíamos. Um sepultamento daquela ilusão que vivemos.

A tragédia que vem para renovar a vida. O sacrifício a ser feito para seguir em frente.

Se é que me entendes.

O Brasil hoje.

Amiga, você lembra quando assistia Elite pra ver gente de 27 anos dizendo que tinha 15 e se pegando? Você lembra as cenas? Amiga, tudo isso acabou! Nessa temporada, todas as interações sexuais (risos) são dignas de pena, consternação ou espanto. E faz todo o sentido, pois não tem clima pra sexo se o mundo tá desabando!

Eu repito: parece ou não parece o Brasil?

Os personagens novos são “ok” apenas, não chegam a atrapalhar. Temos uma evolução incrível do personagem da Lucrécia e mesmo Rebeca tem a sua chance de brilhar. Para mim, porém, o melhor personagem desta temporada é mesmo o Polo. Confesso que ele nunca foi dos meus favoritos, mas essa season nova foi toda dele e Alvaro Rico soube carregar muito bem todo o drama dos conflitos internos de seu personagem sem parecer (muito) apenas um dramalhão latino.

A Emmy tape jogada NO LIXO, pois nem Emmy vai ter mais nessa situação que se encontra o mundo

Voltando ao ponto de que esse é um encerramento: sim, é um encerramento. A trama faz seu full circle, mata uns, injustiça outros, conserta este ou aquele relacionamento e, por fim, nos deixa ali na beira da estrada, sozinhos.

E por mais que doa encerrar ciclos e nos despedir de personagens queridos, acredito que seja necessário. Pelo bem da série e da nossa saúde mental, não dá para imaginar mais uma temporada de Elite estendendo essa sangria desatada e essa fórmula cansada de alguém morto, alguém em conflito, alguém doente, Guzman merendando todos na porrada. Chega! Basta! Lembrem-se que este é um conteúdo jovem de entretenimento, não um documentário sobre a economia mundial na Grande Depressão. Pois embora a gente saiba que Elite não é só fun & games, a gente espera, sim, alguma diversão. Foi para isso que a gente começou a assistir, para início de conversa. A trama hoje não tem mais escape nesse sentido, todos os personagens foram devastados e traumatizados de tal forma que não tem festa na boate lá favorita deles que dê jeito nisso.

Então… Honestamente, gostei dessa temporada, mas estou ansiosa pela próxima, com novos personagens e o que de interessante os roteiristas podem trazer dentro dessas possibilidades. Serei eternamente grata à todos do elenco já eliminados da trama, Deus sabe quanta alegria eles me deram, mas vamos olhar para frente, por favor?

A gente precisa, e fico feliz em saber que uma das minhas séries favoritas pode fazer isso por mim.

E chega de morte, pelo amor de Deus!

Em tempo: também falei sobre Elite (a segunda temporada) aqui.

Séries

THE CIRCLE BRASIL: o que é a realidade, afinal, não é mesmo?

Dumaresq, joga y joga

Atenção: esse texto não contém spoilers do programa nem de nada, de um modo geral.

Bom, pessoal. O que eu vou falar para vocês? O mundo nessa situação, as nossas chances de alegria se esvanecem a cada atualização nas notícias. É melhor fugir daqui para um lugar dentro da nossa cabeça, mas mesmo esse lugar parece cada vez mais difícil de ser acessado. Calorias? Eu tenho saudades de quando um dia ruim podia ser salvo com calorias.

No meio desse pandemônio, surge uma nova opção no entretenimento. Um reality show, coisa que a gente gosta bastante. Não é nada que vá salvar o mundo, mas reinventa a roda um pouquinho e atualmente só isso já é um alento.

Já tinha ouvido o povo falar bastante desse The Circle, reality gringo que já teve duas versões lá fora (americana e britânica). Sabendo que uma versão brasileira estava sendo produzida, #EscolhiEsperar sair essa edição tupiniquim para ver primeiro e conhecer o formato, me esquivando assim de toda possível previsibilidade.

Logo nos primeiros episódios de The Circle BR, já fui absolutamente hipnotizada pelo programa. A mistura de algo extremamente brega, constrangedor e, ainda assim, plasticamente confortável e positivamente histérico, torna o programa o mais perto e asséptico possível de um acidente de carro: é doloroso, mas você não consegue parar de ver.

JP, o hétero como definição

Para começar, o formato do programa traz uma semelhança inesperada com a nossa realidade hoje: no reality, os participantes estão presos sozinhos em seus apartamentos, cada um no seu, sem poder sair dali pra nada e só podem interagir uns com os outros através de uma rede social, o Circle em si. Sem outra alternativa de diversão e de olho no prêmio (300 mil reais), eles fazem exatamente o que nós aqui temos feito: passam o dia montando quebra-cabeça, colorindo aqueles livros de colorir para desestressar, pensando merda, maquinando planos imbecis e, mais importante, julgando os outros sem saber nem 10% da história alheia.

É o Brasil de quarentena em sua essência. Imagino que os produtores nem sonhavam que acertariam tanto na previsão do futuro.

No entanto, para mim, o que mais pega nesse programa, e o torna tão viciante, é que ele traz algo novo para o gênero reality show: ele é muito mais ágil, muito mais dramático e infinitamente mais cru em construir os personagens. Quando você compara com realities clássicos como Big Brother, por exemplo, pode notar como a diferença é brutal.

No Big Brother, as coisas acontecem de modo muito devagar, ainda no formato antigo de como costumávamos consumir entretenimento na TV: em capítulos, um dia para cada coisa, terça é eliminação, domingo é paredão, sábado é festa, temos vilões, mocinhas, casais românticos, amizades imbatíveis. A contagem de tempo também é muito forte como ingrediente: são 40 dias longe da família, são 90 dias sem comer feijoada. Esse tipo de coisa.

Esse formato ainda funciona, é claro. Basta ver o sucesso dessa edição vigente do BBB. Porém, a gente sabe que hoje a maneira que consumimos entretenimento é muito mais urgente. As séries chegam até nós completas em suas temporadas, e assistimos tudo em uma noite. Temos pressa em ver a evolução dos personagens e, mais do que tudo, aprendemos por vivência própria que as pessoas não são assim tão 8 ou 80. O vilão pode ser um pouco bonzinho. É esperado que a mocinha erre e tenha uma mania péssima.

The Circle vem nessa pegada, entregando um reality que ainda bebe da fonte dos clássicos, mas refresca o formato ao agilizar sua narrativa. Mesmo o modelo de eliminação é inconstante, mudando toda hora e deixando você em suspenso. Nada é seguro, tudo pode acontecer. Vence o que tiver mais likes na plataforma, o que pode ser decidido por atitudes casuais. É bloqueado e sai de cena aquele que erra em algum momento, geralmente um erro besta digno de pena, que faz os outros jogadores escolherem tirá-lo do jogo.

Além disso, ali o tempo não importa. Durante toda essa temporada de The Circle BR, que eu assisti inteira, de olhos vidrados, em nenhum momento foi mencionado com exatidão há quanto tempo eles estavam ali confinados. Não há explicação sobre quantos dias se passam entre uma eliminação e outra. Quando o primeiro participante é bloqueado e expulso do programa, você nem tem noção de quanto tempo ele conseguiu ficar ali, afinal. Um dia? Uma semana? Não sabemos.

E isso é libertador.

Marina, traída pelo próprio coração

É libertador porque quando o programa pega o reality show padrão e tira ingredientes básicos como esses, ganha mais espaço para contar uma história diferente, se desapegando do ritmo de novela e chegando mais perto do que consumimos hoje. Uma série boba que você se apega aos personagens porque eles são tão engraçados. Presos em seus apartamentos, os jogadores do The Circle não tem acesso à internet ou TV, mas podem cozinhar, fazer ofurô, pintar, desenhar, montar massinha e até fazer um bolo para tomar com o café da tarde. É enternecedor e hilário ver uma mulher feita sentada no chão da sala montando um quebra-cabeça e gritando a plenos pulmões porque chegou mensagem no chat. O descolamento da realidade aqui é algo fluído, porque os personagens se humanizam justamente por estarem longe de tudo e, ainda assim, se parecerem demais com o público do outro lado da tela.

Feito para ser consumido de uma vez só, sem tempo nem para beber um refri entre um episódio e hoje, The Circle BR é perfeito em formato e mesmo seus erros parecem passíveis de absolvimento. Estando preso em casa, o que mais você pode fazer além de assistir a um programa de TV sobre pessoas presas em casa? A arte imita a vida, já diria o filósofo.

Um filósofo que já não encontrava abrigo nas calorias, certamente.

  • The Circle BR já está disponível completa na NETFLIX, e eu não ganhei nada por esse texto, além de uma muito tênue satisfação pessoal que deve passar em questão de minutos.

Brain Dump*

Adam Driver: o enigma de John Hamm e seus desdobramentos na sociedade

Marriage Story (2019)

A questão agora era se Adam Driver é bonito ou não. Um debate que já existe desde a participação dele na franquia Star Wars (não me pergunte qual filme), uma questão capciosa e, mais do que tudo, um assunto que não importa.

Tenho a minha teoria. Conheci o ator assistindo a Girls (eu assistia a série, ele atuava nela, não confunda). Não lembro ter considerado ele exatamente bonito, mas ele tinha um impacto, pois era o cara que fazia a protagonista de gato e sapato e – posteriormente – se envolveu em outro arco amoroso que dava engulhos em qualquer telespectadora de bem.

Agora com Marriage Story, o ator voltava ao centro da polêmica. Afinal, ele é bonito ou não?

Acabei não dizendo a minha teoria. É que não formulei ela direito, mas o meu ponto é que quando você diz que é impossível um homem feio como Adam Driver ser par romântico de uma mulher linda como Scarlet Johansson, você despreza o fato de que deram uma enfeiada nela para esse filme, até onde é possível deixar uma mulher como Scarlet Johansson feia: lhe dando um corte de cabelo horrível que a desfavorece.

Você quer ser hipócrita, seja aí na sua casa. Não conte comigo para isso.

Por isso, não acho que o Adam ser bonito ou não seja uma questão nesse ponto, porque acho que os dois estão feios e bonitos na mesma medida no filme. Estão igualmente indefiníveis. São bonitos, mas meio feios. Como a gente, em um dia normal. Essa é a magia da arte que, quando se esforça, imita a vida.

Isso resolve, em partes, o enigma do filme, mas não responde a questão central do debate: Adam Driver é intrinsecamente bonito? Ele é bonito no geral?

Resolvi rever Girls para buscar essa resposta, como um arqueólogo que precisa olhar o primeiro vaso de porcelana da história para entender como foi que fizeram esse vaso de porcelana aqui.

Você está feliz, Noah Baumbach?

Girls – season 1 (2012)

Três episódios de Girls e 90 minutos de sono atrasado depois, essa arqueóloga está exausta. Estudo inconclusivo, o enigma prevalece. Tal qual o cachorrinho daquele meme, não dá para saber ainda. Minha conclusão é de que Adam Driver é um homem grande, certamente digno de atenção, mas cravar que ele é bonito é algo que requer uma certeza que não tenho. Ele é alto, isso é certo.

O que nos direciona a outra questão, como se a gente tivesse poucas. A beleza indefinida de Adam Driver se relaciona diretamente ao Enigma de John Hamm: é bom ator ou apenas alto?

Não tem como eu saber, porque não tenho conhecimento para isso e porque a ciência está preocupada com outras coisas (a cura do câncer, mais remédios para alergias) e não se dedica a esse tema em específico, que é o que nos importa agora. Tal desamparo científico torna a nossa luta empírica e mambembe, fazendo com que ela resulte em pouco menos do que frustração e brigas na rede social. Ou seja, não leva a nada.

Assumo minha limitação e digo que não sei se Adam Driver é bonito. Ninguém sabe – e se disser que sabe é por clubismo, por ser fã de Star Wars ou de BlacKkKlansman. Vamos assumir a nossa ignorância e deixar isso pra lá, gente.

BlacKkKlansman (2018)

Quem sabe quando ele fizer um filme do Batman a gente tenha uma resposta? A gente vai se falando…

Mas foi bom ter revisto Girls. Devo continuar, inclusive, porque é uma série confortável de se ver, quando você já viu inteira. Existe algo na futilidade de cada uma das personagens que aquece o coração, porque você precisa ser muito segura de si para se permitir ser fútil assim. E isso é incrível.

Decidi que vou continuar revendo Girls porque estou nessa fase de tomar decisões. Mudar o padrão estabelecido. Tal qual em 2013, quando decidi que ia parar de usar roupas jeans (peças inferiores, como calça, shorts, saia) e sustento isso até hoje. Sou assim, decido coisas importantes em um segundo. É o meu jeito.

Faz um tempo, decidi também que não uso mais nada estampado com imagens ou dizeres. Tipo camiseta de seriado ou filme, sabe? Ou então com frases aleatórias em inglês. Ai, não gosto mais. Sinto as pessoas me olhando e tentando entender a referência. Não gosto mais disso, me incomoda. Agora só uso roupas de uma cor só e sem estampa. Acho chic. Passa uma mensagem. A mensagem é: você só vai saber a minha mensagem quando eu abrir a minha boca. E é muito provável que eu não abra.

Isso vai em sintonia com a minha decisão de fazer cada vez menos. Meu projeto pessoal é me tornar uma incógnita. E é uma escalada. Primeiro as atitudes na vida prática, depois a minha postura nas redes sociais, e por fim mudanças no meu vestuário. Tudo culminando comigo sendo a pessoa mais introspectiva (e plena por dentro) possível. Por fora, quem sabe o que se passa? Ninguém. A ciência me ajudou com a cura do câncer, mas não vai te ajudar com isso.

Em breve, você vai olhar para mim e não vai saber se eu tenho algo a dizer ou não. Só vai saber se eu disser, mas eu não vou dizer.

Eu vou ser o Adam Driver da mensagem.

Fique de olho.

Resenhas

Episódio a episódio: The Crown, a 3ª temporada

Chega a ser patético o quanto The Crown me impacta, seja pela narrativa elegante, os figurinos maravilhosos ou mesmo por essa curiosidade de ver a vida alheia como uma novela. Sem falar na coisa de ser rei, de ser rainha, algo que como boa plebeia eu considero extremamente chique.

É triste ser colonizada como sou, eu fico simplesmente em surto e até choro em alguns episódios, como se esses velhacos milionários beirando a fossilização eminente fossem realmente relevantes para a minha vida prática. Não são. O que não me impede, é claro, de gastar horas vendo a série deles, chorando por eles, escrevendo posts sobre eles.

Essa temporada nova de The Crown foi muito aguardada, por trazer atrizes do calibre de Olivia Colman (até ontem ninguém, hoje em dia tudo) e Helena Bonham Carter (do nada, livre de Tim Burton). Interpretando a Rainha Elizabeth e sua irmã Margaret, respectivamente, as duas tinham a desafiadora missão de superar as atrizes que davam vida à essas personagens da vida real até a temporada passada. Deu certo?

Isso é o que você vai saber (ou não) a seguir, no meu “episódio a episódio” da temporada três de The Crown, que trago logo a seguir, como se não tivesse mais nada para fazer na vida.

⚠ Atenção! Antes que você prossiga a leitura, vale dizer que o conteúdo a seguir contém spoilers. Spoilers de coisas que aconteceram literalmente 60 anos atrás, mas ainda assim, para o leitor sensível e que não pode ser contrariado nem por um segundo: spoilers.

A terceira temporada de The Crown:

01 – Olding: A temporada nova já chega com os dois pés nos peitos com a morte do querido(!) e contraditório(?) Churchill. A Rainha tem um momento fofo com ele, dizendo que, na verdade, é lógico, o estimou muito e ele foi muito importante para ela. Temos aquele momento de adaptação de entender e nos chocar com os novos atores interpretando os personagens que já conhecemos, Olivia Colman não para de fazer beicinho e a Margaret de Helena Bonham Carter parece apenas uma Marla Singer com dinheiro, mas vamos dar um voto de confiança.

02 – Margaretology: Ah bom, agora sim. HBC tem seu momento de brilhar, em um episódio inteirinho para ela mostrar o quanto Margaret continua sendo maluquinha & deprimida, indo em uma missão de tentar agradar o então presidente dos EUA e garantir uma graninha para a Coroa. Também descobrimos que o casamento da Margaret com o arromb*do do fotógrafo continua sendo aquela coisa louca de ciúmes e descaso, o que magoa e coloca tudo em perspectiva.

03 – Aberfan: Onde somos informados que a Rainha não chora (também, pudera, não tinha animação da Disney na época). Uma puta tragédia mata mais de 100 crianças em um desabamento de uma mineiradora – e a Rainha demora meses para ir lá visitar a população em luto, sendo que nem derrama uma lágrima sequer. Puxado.

04 – Bubbikins: Chegando nesse ponto da temporada, você percebe que a narrativa está meio travada. Não existe uma ligação forte entre um episódio e outro, não está fluído. É como se fosse o Modern Love da aristocracia: cada episódio é uma história isolada. Neste em especial, temos um vislumbre ótimo da mãe do Philip, a sogra da Rainha, a Princesa Alice da Grécia. A idosa parece ser apenas maluca, no entanto ao ser forçada (por falta de dinheiro) a ir morar com a monarquia, você entende que vida sofrida ela teve. E aí, nisso, o próprio Philip, ou Bubbikins como a mamãe o chama, tem a chance de perdoar sua genitora. E se perdoar também.

05 – Coup: Aqui você larga a mão mesmo e pensa: bom, vamos reparar nos looks, porque essa coisa de política já deu. Pelo o que eu entendi, alguém foi deposto e aí estava armando um golpe para cima do primeiro-ministro – nessa temporada interpretada pelo mesmo homem que faz Austin Powers. Nisso, o pau torando nos partidos políticos e a Rainha faz o quê? Ela vai para a França ver coisa de cavalo, meu bem. Por que ela notou que os cavalos dela estavam indo mal nas competições, então ela pegou e foi pra uns países aí ver como cuidam dos cavalos, pois o método real estava defasado. Isso nos rendeu lindas cenas da Rainha comendo ao ar livre, cavalos legais de se ver correndo e… Ficou por isso? Não entendi muito bem. Ela precisou voltar às pressas para resolver a coisa do golpe (o que ela resolveu simplesmente falando duro com as pessoas) e os cavalos mesmo a gente não teve como saber se foram fazer cursinho para correr melhor ou se a ideia simplesmente ficou esquecida no churrasco.

06 – Tywysog Cymru: Depois dessa primeira metade de temporada absolutamente irregular e fraca em carisma, o episódio 6 chega nos fazendo gritar porque logo na primeira cena temos ele, o Príncipe Charles!!! Já crescido, simplesmente um homem, somos (re)apresentados ao cidadão que um dia partiria o coração da Lady Di e o nosso! E sabe o pior de tudo? Ele é um rapaz bonito, bom e totalmente adorável! É horrível isso! É isso que The Crown faz com a gente, faz a gente sentir empatia pelo Príncipe Charles! Nesse episódio, ele está lá tranquilo na facul quando a Rainha chama ele e o obriga a passar 3 meses no Paìs de Gales para aprender galês – e em galês e no País de Gales fazer sua investidura como Príncipe do País de Gales. Ou seja, manda ele nesse cursinho intensivo para ele poder ser apresentado à sociedade como príncipe e futuro rei (kk, a Rainha hoje já tem 93 anos e passa longe de cemitério). Nisso, tem todo o conflito que o Charles não queria nada daquilo, mas ele é tão cordato e extremamente educado que vai e aprende muito sobre o Pais de Gales e si mesmo, etc. Inferno. Inferno de episódio perfeito.

07 – Moondust : Dando prosseguimento à sua missão de dar enfoque às narrativas masculinas em uma série sobre uma Rainha, The Crown traz nesse episódio o impacto brutal que a primeira viagem do homem à Lua teve nos sentimentos do Príncipe Philip, aqui em crise de meia-idade e todo cheio de não-me-toques. A cena em que o marido da Rainha tenta entrevistar os astronautas, fazendo umas perguntas tão tontas de criança de 13 anos, foi uma das mais constrangedoras da temporada. Ao mesmo tempo, chega um padre novo na paróquia que abre um AAA espiritual para homens de meia-idade que estão perdidos na vida em relação a projetos & sonhos. Relutante a princípio, o Príncipe Philip acaba entrando no clube, finalmente entendendo que ir pra Lua é fácil, difícil é viver aqui na Terra. Força, homens.

08 – Dangling Man: Mais um episódio para fechar ciclos, aqui reencontramos o Duque de Windsor, lembra dele? O tio da Rainha, que abdicou da Coroa pelo amor de uma mulher e foi exilado em Paris. Pois, interpretado por Cid Moreira, o homem está nas últimas, então a Rainha vai até a França visitá-lo e se despedir. Um episódio muito bonito e emocional (depois de Aberfan, a Rainha já consegue chorar), onde também sabemos mais de Charles: o Duque revela à mãe do rapaz que eles se comunicavam por cartas e que Charles vê muito do Duque em si mesmo. Ou seja, um homem deslocado da família, incompreendido e que ainda vai acabar sendo escorraçado dali por querer ser quem é. Premonitório? Não, porque os roteiristas já escreveram sabendo o que aconteceu na história. Ainda assim, causa arrepios.

09 – Imbroglio: Tudo, absolutamente tudo o que eu sempre quis. Aqui a gente conhece sabe quem? Camilla Parker!!! Que na época era só uma jovem cabeluda e se chamava Camilla Shand, seu nome de solteira. Gente, eu nem sabia que o Charles era apaixonado por ela desde jovem! Pois bem, aqui mostra como eles gostavam um do outro e chegaram a se relacionar. Mas como a Camilla era meio da pá virada e tava saindo com o outro cara também, o Parker, a família real interviu e achou um jeito de separar o Príncipe desse que foi seu verdadeiro amor! Aí apressou o casamento da Camilla com o Parker e mandou o Charles em uma missão de 8 meses no Caribe! E o Charles ficou triste para um caralho porque ele amava a Camilla, mas ela não era “wife material”, sabe? Saco! Nossa, eu chorei demais nesse episódio. Um episódio bom, inclusive, para notar como a Rainha vai ficando cada vez mais dura e implacável com o passar dos anos. Nossa! A cena em que o Charles fala que está sendo silenciado, que ninguém deixa ele ser ele mesmo e ela responde na cara dele que ninguém quer ouvir a voz dele, puts! Imagina ouvir isso da sua mãe? Força, Charles. Kkkk, só eu mesmo, preocupada com o Príncipe Charles.

10 – Cri de Coeur: Já estava ficando um pouco angustiante ver Helena Bonham Carter como figurante de luxo, eu acho que os roteiristas pensaram isso também, então deram um episódio todinho para ela, mais um, e que episódio! Aqui Margaret finalmente entende que seu casamento é um fracasso, o safado do fotógrafo com uma amante que ele nem procura esconder. Ela surta em seu jantar de aniversário – que ele nem foi! – e a família real defende o cara, ainda por cima. Aí a Margaret despiroca mesmo, pega uma amiga e vai viajar para as praias, onde arranja um boy toy e se permite curtir a vida um pouquinho – vamos colocar dessa maneira. No entanto, nada é fácil, a imprensa descobre, vira tudo um grande escândalo e ela decide se divorciar do fotógrafo – apenas o segundo divórcio em toda a história da família real. Comoção! Cenas lindas, lindas, da HBC ao piano, linda demais de chapéu e cantando. No fim, o boy toy mete o pé também e ela acaba sozinha e tenta se matar, o que é triste demais. A cena da Margaret e a Rainha conversando sobre a relação delas é Emmy tape, você pode ter certeza. E o Emmy vem! Outra coisa, é a comemoração do jubileu da Rainha, o que quer dizer que já são 25 anos no poder. Puxa, como o tempo passa rápido quando a gente está se divertindo! A série termina nesse tom meio melancólico de retrospectiva e o peso amargo das nossas decisões, dando um ar de que o couro vai moer mesmo é na próxima season, onde o Charles vai conhecer a Diana e vai ser TUDO.

Ainda que de começo meio irregular, eu gostei bastante dessa nova temporada. Olivia Colman fez bonito assumindo o posto que antes era da perfeita Claire Foy – como sabíamos que ela faria. Interpretar a Rainha Elizabeth não é fácil, por todos os motivos, mas também porque ela fala menos a cada temporada e sobrou para Olivia, nessa, se fazer impactante tendo como recurso principal apenas olhares profundos e torcidas de boca.

Helena Bonham Carter também foi bem, apesar de ser estranho vê-la em roupas formais. Ela realmente brilhou no episódio final, espero que seja reconhecida por isso em premiações futuras.

Para mim, no entanto, e isso já deve ter sido notado, a grande surpresa (boa!) dessa season foi mesmo o Príncipe Charles. Interpretado absolutamente sem erros pelo orelhudo Josh O’Connor (quem é este homem? onde ele esteve?), ele dá um nó na gente, nos fazendo sentir empatia por um personagem que nos acostumamos a ver como vilão.

Para a próxima temporada, espero muito mais dele (provavelmente interpretado por outro ator mais velho, ô sorte) e muito mais de todas essas jóias, caras e bocas, dramas e dores de pessoas brancas, velhas e pornograficamente ricas.

Ansiosa desde já!

Processo Criativo

Escreva um livro, assista a TV, tanto faz: tudo é escapismo pop e romântico

A segunda temporada de Elite chegou com os dois pés no peito do fã. Still a better love story than Twilight, a novelinha espanhola tem em sua cafonice e dramas desmedidos o trunfo inesperado que conquista pelo coração mesmo o streamer (fiquei em dúvida sobre usar a palavra “telespectador”, um termo hoje tão raso quanto chamar uma pessoa com celular de “datilógrafo”) mais resistente.

Gosto dessa série porque ela é como se Gossip Girl fosse feita com vontade, o que sabemos que não foi. Os crimes, o sexo, a beleza inatingível de todo (eu disse todo) o elenco, os looks, e, ah, o fato de ser em espanhol. Toda vez que a Lucrécia(!) chama alguém de cariño eu desisto de ser ruim com os outros. Toda vez que o Ander beija o Omar eu penso, bom, quem sabe (eu disse quem sabe) o mundo tenha salvação.

Nessa nova temporada, os conflitos se intensificam e extrapolam de um jeito absurdo. A tensão acerca do crime misterioso da vez só não é maior do que a que ronda absolutamente todos os relacionamentos da trama. Até o sonso do Samu, o nosso Ted Mosby latino, consegue ter alguma expressividade. E quem rouba a cena, mais uma vez, é Lucrécia, que precisa provar sua esperteza incontáveis vezes, enquanto, um a um, todos que ela ama a traem pelas costas de algum jeito.

Não me peça para falar de Guzman, eu choro.

Assistindo a essa novelinha, eu me senti mais segura sobre estar no caminho certo com meu novo livro, esse que lancei essa semana. Eu estava finalizando a escrita dele quando a S2 de Elite chegou. Estava bem desmotivada de tudo, como qualquer autor independente sempre está, e os dissabores vivenciados pelos personagens da série me deram força para viver. Não tem jeito, mesmo a história mais cafona precisa ser contada. Só existe um modo de fazê-lo, que é o seu.

No entanto, eu insisto, é cansativo demais fazer todo o trabalho sozinha. Chegando ao meu livro de número onze (insira aqui o gif do JVN dizendo can you believe?), eu me vejo em um ponto onde não tenho mais para onde ir. É como uma droga na qual você é viciado há tanto tempo que não tem mais a opção de tentar parar. Dizendo isso até parece algo muito inspirador ou mesmo pedante. Me acredite, não é nenhum dos dois.

Quando lancei meu décimo livro, prometi que seria o último. Infelizmente, não consigo parar de ter ideias e não consigo parar de escrevê-las. Gostaria de não tê-las mais, e poder dedicar minha energia a outras coisas, como bordado ou artesanato em gesso, por exemplo. Tais atividades não tem uma comunidade ao seu redor que sempre é mais talentosa e bem-sucedida que você, eu acho. Escrever um livro e soltá-lo no mundo, fazendo dele o instrumento mais frágil pelo qual você luta por aceitação é de um sangue frio que eu nunca imaginei que teria. Já fiz isso dez vezes. O meu coração hoje é um pandeiro surrado.

Ainda assim, fiz isso mais uma vez.

Beijando Horrores, o meu décimo primeiro livro, lançado essa semana, é mais uma tentativa de me fazer ser ouvida. Escrever histórias é necessário. Se não para todos, é para mim. Estava quieta no meu canto quando, vítima de mais uma inspiração insuportável e pouco prática, em menos de três meses escrevi a história exata que eu estava precisando ler. Romance, pegação, humor, tudo em uma narrativa simples e rápida, feita para desanuviar a cabeça mesmo.

Não sei se o mundo precisa ler esse livro, mas eu precisava escrevê-lo. Quem sabe meu único compromisso seja esse: comigo mesma. De fato, escrevendo Beijando Horrores, você nota já pelo nome do livro, o meu único compromisso era terminar cada capítulo me sentindo feliz horrores comigo mesma.

Isso eu consegui. Foi assim que comecei e foi assim que conclui essa história. Divertimento puro em um tempo em que nada nos é mais caro do que conseguir terminar o dia sorrindo. Curar o mundo está se tornando uma tarefa progressivamente mais difícil, não conseguimos curar nem a nós mesmos. Da minha parte, fiz o que sei e o que posso: inventei uma história. Caprichei no romance. Coloquei algumas piadinhas. Acreditei, eu quis acreditar, que essa história poderia ser divertida e útil para alguém. Assim como foi para mim criá-la.

Tem uns produtos pop que a gente consome e nos impactam de maneira perene. Mesmo hoje sendo tudo tão descartável e feito para consumo imediato, algumas histórias ficam ecoando na nossa mente por dias, semanas, meses ou até anos. Eu ainda lembro do quanto Call Me By Your Name mexeu comigo. O romance de Jim e Pam, em The Office, foi meu alimento dia e noite por um bom tempo.

Às vezes, no limiar de uma crise existencial causada pela nossa vida a cada dia mais dolorosa, é uma cena boba que nos salva. Seja na TV, na música ou nos livros.

Escapismo pop e romantismo é a minha receita para salvar o mundo. E eu só posso salvar o mundo lá fora começando pelo meu aqui dentro. Cansada de tudo, escrevi mais um livro. Feito Guzman, chorando feito um imbecil por nada, os dentes grandes que mal cabem na boca, eu fiz um escândalo dentro de mim e transformei em uma história de incríveis 261 páginas. Submeti essa história em um concurso. Dormi menos e me alimentei pior, perdi o foco, não foquei em mais nada.

Agora está aí. Se você precisar dela, está aqui. Disponível na Amazon, tendo seu valor por conta do seu preço. Esperando que te atinja com os dois pés no peito, como sabemos que você precisa.

Se não a cultura pop, o que mais faria isso por você? Carboidratos?

Brain Dump*

Madonna é Madonna só porque tem dinheiro: essa falácia

I took a trip, it set me free. Forgave myself for being me

Voltando aqui para falar várias coisas, e depois, quem sabe, ir embora sem dizer nada.

Talvez você pense, “bom, Madonna com 60 anos e tá lá, se reinventando e criando coisas novas” e pense “eu também posso”. Ela tem mais dinheiro que a gente, fato. Mas nós também podemos dar os nossos pulos, voando mais leves por conta dos bolsos vazios.

Bicho, eu ando transtornada de maneira pouco saudável com esse feat. dela com o Maluma, ainda mais depois da apresentação de ontem na premiação da Billboard. Que poder é esse?

“about last night” — kkkkkk aquelas

Madonna, eu te desejo tudo de bom, saiba, caso você esteja lendo isso. Deus te conserve, embora o mundo em geral não te mereça.

E nesse ponto você começa a ver que não é sobre a Madonna, mas sobre a gente mesmo. No limiar de completar 35 anos de idade, me dou conta de que comecei esse Medium no limiar de completar os meus 32 anos de idade — e aí penso, o que estou fazendo além de deixar pegadas digitais por todos os cantos? Está na hora de assumir alguns marcos e fixar permanência em alguns lugares. Por enquanto. Até tudo mudar de novo.

Mas calma, esse não é um post sobre eu escrevendo um post.

Outra coisa que tem me deixado meio nervosa é a série Chambers. Tem na Netflix. Estou no sétimo episódio e não aguento mais ver gente cortando a própria carne assim à sangue frio com uma faquinha de pão. O clima todo é meio assim Stephen King, uma coisa meio obscura sem razão, o que também me deixa triggered, mas por motivos diferentes.

“E eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”, teriam dito os produtores de Chambers

É que eu estava falando com o meu terapeuta sobre como acabei de publicar meu décimo livro (Compre “desaparecer”, já disponível na Amazon em formato digital e um preço RIDÍCULO) e como eu nunca mais quero escrever livros. E então ele disse “Por quê?”, mas não apenas perguntando “Por quê?”, mas sim usando outras palavras mais misteriosas e murmúrios angustiantes e eu respondi, bom, é porque…

Honestamente, já estou cansada de escrever sempre a mesma história, eu vejo agora, no fundo todas as histórias são as mesmas histórias: as dos livros, as dos contos, dos blogs, das redes sociais, etc.

Da sua vida, ele disse, e eu falei que eu estava em um ponto da minha vida em que não podia chorar agora. Rimos (não), mas o ponto é que eu pensei (e disse): todas as histórias que eu escrevo são as mesmas histórias, o que aponta que ou eu sou uma péssima escritora, ou eu tenho um estilo muito forte, como o do Stephen King, que escreve sempre a mesma história há anos. Aí meu terapeuta riu mesmo e me deixou nessa incógnita, se eu sou um lixo ou o Stephen King.

Veja, se os dois extremos são esses, é quase como se eles fossem a mesma coisa e não houvesse diferença, afinal. Não que King seja ruim, pelo amor de Deus, mas o que diferencia o bom do ruim senão o nosso olhar sobre ele?

Pense nisso.

Mas isso aí também não é um problema, você vai vivendo e descobrindo coisas sobre si mesmo, aprendendo a conviver com elas e, em um último passo, maior e mais intenso, se apropriando delas e gostando delas ao entender que elas são quem você é. No limiar dos 35, olhando para todas essas pegadas que deixei em blogs, livros, redes sociais que já não são mais o que eram, vou fazendo o que posso e gostando cada vez mais de quem eu sou. E isso é ótimo.

E nisso faz todo o sentido, Madonna no palco roçando no Maluma como se não houvesse nada com o que se preocupar além de express yourself (a atitude, não a música) e você pensando: bicho, é isso. Essa mulher venceu. Eu vou vencer também. Ao meu modo, repetindo histórias, sendo eu mesma, rindo porque estou em um ponto da minha vida em que não posso chorar. Mas vou.

Avisa essa porra aqui que eu voltei.

Resenhas

June, Mrs. Maisel e o prazer de gostar de algo

Parecia simples ter uma opinião até não conseguir mais tê-la

Correndo o risco de parecer preguiçosa ou até burra, devo dizer que é cada vez mais difícil para mim apontar motivos para gostar de algo que vão além do puro e simples gostar.

Sendo bem sincera com você, existem várias séries, filmes e livros que eu consumo e gosto, me vejo tentada a falar sobre, mas parece que para falar de algo na internet você precisa fazer todo um tratado sociológico daquilo. Não tenho forças.

Não quero inserir aquela peça de entretenimento em um contexto de estudo de narrativa. Não quero criar uma defesa para um conteúdo que consegue se sustentar com as próprias pernas e não precisa disso de mim. Quero apenas dizer que gostei. Porque gostar de algo, por si só, para mim, já é difícil. Não por eu ser exigente demais, eu nem sou, é só porque as coisas, sejam elas quais forem, demoram um pouco mais do que o normal para me atingir.

Fugindo do que deveria fazer, me vejo sempre chegando atrasada em todo hype. Chego sempre com pelo menos doze meses de atraso nas conversas da semana. Eu sei que pode parecer haver certa vaidade em dizer isso, observe eu não me importar, mas verdade é que eu me importo. No entanto, não há nada que eu possa fazer. O ritmo nas grandes cidades, etc, e, acima de tudo, prioridades.

Esse atraso tem seu preço, sobretudo na experiência que envolve consumir algo cultural. Afinal, ver uma série, hoje em dia, não é apenas dar play na TV. Existe todo um cenário, uma conversa, uma análise. Mesmo sozinho em seu calabouço, tendo um celular na mão você jamais assiste a uma série sozinho. Enquanto elas estão em alta, claro. Desse modo, quando vistas um ano depois, como eu faço, longe do hype e do barulho da multidão que exige que você assista a isso ou aquilo, uma série antes tida como excelente é, na maioria da vezes, apenas mediana.

Mas existem, é claro, aquelas que se destacam.

Isso aconteceu recentemente comigo quando peguei para ver The Handmaid’s Tale. Tendo seu primeiro episódio sido lançado um ano atrás, não preciso exatamente te convencer de que é boa, você já deve ter ouvido falar dela.

Acredito que a essa altura todos saibam de que se trata a série, tão indicada e premiada por conta da sua qualidade e crítica social inquestionáveis. Uma fábula com ares de distopia onde o lugar da mulher da sociedade é o de uma mera parideira de bebês para os que tem dinheiro e poder.

Para mim, ela pegou muito mais por conta dos grandes silêncios que sentíamos através dos grandes olhos azuis da June interpretada por Elizabeth Moss. Toda aquela dor que ela transmitia apenas olhando incrédula para seu mundo desabando.

Isso me afetou demais, de um modo que, por dias, era tudo o que eu queria assistir.

Veja, com várias opções de séries por aí, é comum que a gente misture todas, escolhendo uma para quando estamos contentes, outra para quando estamos tristes, uma terceira para quando precisamos de um presente depois de um dia difícil. Isso é totalmente ok, mas para mim deixou de funcionar assim que assisti ao episódio piloto de Handmaid’s.

Eu queria ver aquela temporada até o final, apenas ela e nada mais.

E assim o fiz, então ela me acompanhou por duas semanas (até que demorei, não é mesmo?) e essa imersão fez com que o meu carinho pela série aumentasse. Em muitos dias, era tudo o que eu precisava ver. Em outros, me deixava mal por ter visto, arrependida de ter terminado um dia feliz implantando toda aquela angústia no coração.

Mas a série traz uma angústia que precisa ser sentida, como uma ferida que precisa que você tire os curativos, olhe como está e a limpe.

Eu gostei de The Handmaid’s Tale por isso.

Vindo em um extremo oposto, está The Marvelous Mrs. Maisel, que peguei para ver assim que terminei Handmaid’s.

Mrs. Maisel também foi lançada há exatos doze meses, mas acho que não foi tão comentada assim — embora tenha ganho alguns prêmios. A série conta a história de Midge Maisel, uma dona de casa comum dos anos 50 que vê sua vida mudar quando seu marido a abandona. Divorciada, com dois filhos pequenos, Midge tem que correr atrás, arrumando um emprego e uma improvável carreira como comediante stand up.

Incrível como, a seu modo, essa série também fala sobre os direitos da mulher e o seu papel na sociedade. Sem fazer fan service gratuito e forçado (oi, The Post) para nada e nem ninguém em especial, Mrs. Maisel nos mostra com doçura e muito humor como é difícil ser mulher em uma sociedade que não nos aceita como somos e sempre está moldando um novo modelo que devemos seguir.

Fazer uma série de humor que não seja frívola é algo digno de nota. Em Mrs. Maisel eu encontrei um lugar onde podia gargalhar todos os dias enquanto me comovia com a história daquela personagem. Rachel Brosnahan, a atriz que interpreta a protagonista, é tão absurdamente cativante que chega a ser sobrenatural a maneira como nos põe de joelhos por sua Mrs. Maisel já no episódio piloto. Uma série boa assim não precisa de claque. Toda noite eu via dois episódios por vez e sentia meu coração ser preenchido por amor e entusiasmo.

Eu gostei de The Marvelous Mrs. Maisel por isso.

Chegando ao fim desse texto, vejo como as duas séries têm muito em comum, além do fato de terem agradado a mim, eterna atrasada em tudo, inclusive em gostar. Duas mulheres fortes, cativantes, apaixonantes e apaixonadas buscando por conta própria uma solução para o drama que a vida lhes impôs. Em uma época como a nossa, essa reflexão e esse incentivo são sempre válidos.

Deve ser por isso que gostei tanto delas. Calada maturando tudo o que aprendi nesses dois shows, decido que vou falar mais do que eu gosto por aqui. Com tratado sociológico incluso ou não. Provavelmente, não. Mas é isso.

Eu gostei disso, então é algo que merece ser dito. Por si só, o gostar justifica que se fale de algo.


Caso tenha ficado interessado nas séries, The Handmaid’s Tale é uma produção da Hulu e atualmente está sendo exibida no Brasil pela Paramount Channel. Já The Marvelous Mrs. Maisel é um produto da Amazon Video. Nenhuma está disponível na Netflix — às vezes a gente precisa se esforçar um pouco…

Resenhas

Psicose: o livro, o filme, a série

Psicose (1960)

Se uma história é boa, será contada de todas as formas possíveis

Psicose não foi o livro de estreia de Robert Bloch. Para chegar até ele, o premiado escritor norte-americano experimentou por anos a temática sobrenatural em histórias curtas, crônicas e romances. Escritor por vocação, foi em uma máquina de escrever usada que iniciou seus rascunhos e aos 19 anos conseguiu vender seu primeiro conto para uma revista. A partir daí, não parou mais.

Anos depois daquele primeiro conto vendido, sentindo já ter esgotado o gênero do sobrenatural, Bloch resolveu investir no terror/suspense. Foi assim que nasceu Psicose. Publicado em 1959, o livro não foi um sucesso imediato, mas encontrou seu destino ao rapidamente cair nas graças de Alfred Hitchcock através da sugestão de uma assistente do diretor.

Hitchcock, o leitor

Hitchcock queria filmar Psicose, mas o estúdio para quem ele trabalhava, não. A Paramount não queria mais um filme de suspense. O diretor ofereceu um prazo rápido de gravação e filmagem em preto e branco, visando diminuir os custos e convencê-los. Nem assim o estúdio quis. A solução foi bancar o investimento do próprio bolso, cabendo à Paramount apenas a distribuição. Funcionou, mas acabou que a má vontade do estúdio azedou a relação e esse foi o último filme dessa parceria.

Azar o deles, lógico. Psicose inicialmente recebeu críticas desencontradas entre euforia e rejeição, que logo convergiram para o positivo em razão da excelente bilheteria conquistada. Essa reconsideração dos críticos rendeu ao filme quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Diretor. Hoje, ele é considerado um dos melhores de Hitchcock e tido como uma obra de arte cinematográfica por críticos e estudiosos da área.

Bloch tinha 42 anos quando escreveu o livro que o tornaria imortal.

Hitchcock tinha 60 e já era imortal desde o nascimento, como sabemos. Esperto como ele só, gravação confirmada, comprou anonimamente todos os exemplares de Psicose em circulação para garantir que ninguém soubesse o final da história até assistir ao filme.

Anthony Perkins (Norman Bates) e Janet Leigh (Marion Crane) em Psicose

Se o final ninguém podia saber, o enredo instigava a curiosidade por si só. A sinistra história de Marion Crane, que foge após roubar os 40 mil dólares que foram confiados a ela depositar num banco. Errando pela estrada com uma mala cheia de dinheiro roubado, acaba parando no Bates Motel, cujo proprietário é Norman Bates, um homem atormentado por sua mãe controladora. E aí, você sabe, as coisas começam a dar errado…

Homens atormentados psicologicamente não eram novidade no cinema ou na literatura, mas não desse jeito. De alguma forma, Bloch conseguiu trazer à tona tudo o que as pessoas morbidamente queriam ler ao basear, ainda que apenas vagamente, o personagem de Norman Bates em Ed Gein, o famoso lunático que matava, profanava túmulos e fazia abajures, máscaras e até vestes inteiras com a pele de suas vítimas. Verdade seja dita, Ed Gein seria mais propriamente retratado em seu modus operandi em O Silêncio dos Inocentes (1988 o livro, 1991 o filme). A Robert Bloch coube trabalhar o lado psicológico do criminoso. O que une Norman Bates e Ed Gein é que ambos eram assassinos solitários em locais isolados, com mães dominadoras já falecidas que isolavam os filhos do mundo lá fora e os vestiam com roupas femininas.

Pesado.

É na relação doentia de mãe e filho que a obra de Robert Bloch se foca, mais do que nos crimes. No livro, entre detalhes sutis e dolorosos dessa relação sendo entregues de forma corriqueira, somos jogados nos delírios medrosos de Norman e aos poucos levados a desconfiar do pior: a mãe não existe, a mãe está morta. Quem está fazendo tudo é o filho. Ao contrário do que se espera, o livro assusta pela profundidade do drama e não pelas passagens violentas, que são rápidas e permanecem em segundo plano. Ainda assim, em suas enxutas 175 páginas temos tempo de nos horrorizar: no livro, Marion Crane é decapitada no banho.

Do filme, o que marcou foi a icônica cena do chuveiro. Janet Leigh é Marion Crane, aterrorizada, aos berros, sendo golpeada até a morte por uma faca que nunca para e quase não se vê. O sangue cinematográfico era calda de chocolate e antes da tomada ser gravada, Hitchcock fez vários testes com a atriz para saber quão alto ela era capaz de gritar. Você vê que ela podia gritar muito alto. A gravação dessa cena durou uma semana e mudou a forma como avaliaríamos um filme de suspense para considerá-lo bom. Em Psicose a atmosfera, a trilha sonora e o clima pesam e angustiam muito mais do que qualquer violência explicitada. O que não é visto assusta mais do que o que aparece na tela.

Vontade de chorar, mas sigo firme (Psicose, 1998)

Depois do filme, foram feitas ainda quatro continuações livremente inspiradas nos livros que Bloch escreveria a seguir, uma mais duvidosa que a outra e nenhuma dirigida por Hitchcock. Como boa história que nunca se esgota, Psicose teve direito até a uma releitura extremamente vergonhosa e hedionda pelas mãos de Gus Van Sant em 1998. Nessa versão, Norman Bates foi interpretado por Vince Vaugh, um dos poucos atores que só consegue 100% de sucesso se a missão for fracassar.

E então, silêncio.

Entre tentativas ruins de continuações e releituras terríveis, Psicose veio tropeçando em erros que manchavam sua memória até 2013, quando surgiu Bates Motel. Buscando aprofundar ainda mais a questão psicológica dos personagens principais, e com a presença luxuosa de Freddie Higmore e Vera Farmiga ancorando o elenco, a série é um “prólogo contemporâneo” para o filme de 1960.

Se no livro Norman Bates era um gorducho esquisitão de 40 anos e no filme era um tipo até charmoso beirando os 30, em Bates Motel vamos ainda mais longe e conhecemos o Norman de 17 anos de idade, enfrentando todos os conflitos da adolescência e ainda tendo que lidar com o choque da morte do pai e a mudança de casa com a mãe. A série começa depois da morte do marido de Norma, quando ela compra um motel de beira de estrada para que ela e o filho possam começar uma nova vida deixando para trás os traumas e o passado recente doloroso.

Freddie Higmore e Vera Farmiga são Norman e Norma Bates em Bates Motel

É claro que trazer um personagem tão complexo como Norman Bates para uma fase tão delicada como a adolescência poderia gerar desconfianças quanto à profundidade da trama que se criaria, mas incrivelmente funciona. Você pode creditar isso ao cuidado da A&E (quem diria!), ao talento absurdo e subestimado (por vocês!) de Higmore ou ao pulso firme e inquestionável carisma de Farmiga. O caso é que funciona demais.

A série começou em 2013 e se encerrou esse ano, em 2017. Foram cinco temporadas calculadas cirurgicamente para abranger por completo a história da família Bates: do nascimento da loucura que lentamente os engolfou, passando pelo famigerado acontecimento com Marion Crane e encerrando com o que aconteceu depois. E mesmo que no livro e no filme você possa erguer seu dedo indicador direito e bradar que Norman é um sádico sem-vergonha, na série você vê que não é bem assim

Norman é um psicopata, isso não se discute, mas em Bates Motel temos pela primeira vez um olhar aprofundado sobre o que o tornou essa pessoa tão horrível. E o grande presente da série é que ela mostra esses acontecimentos e deixa para o público pensar como deve encará-los. Não há julgamentos. Não existe verdade absoluta. Existe um homem que desde a infância foi soterrado pela presença esmagadora da mãe super-protetora e transtornada. E existe a mãe que passou por uma vida extremamente difícil que moldou quem ela era e o modo como lidava com o filho. Conhecemos a fundo esse homem e essa mulher, choramos e nos angustiamos com eles. Torcemos por eles. E, acima de tudo, por mais improvável que seja, nos apaixonamos por eles.

Como bom tributo bem-feito que é, a série presta diversas homenagens ao filme em várias referências, algumas sutis, outras nem tanto. Apesar de se passar nos dias atuais, o cenário e muitos traços dos personagens carregam uma aura dos anos 60. As roupas de Norma são todas nesse estilo retrô. Norman gosta de ouvir música em discos de vinil em casa, mas também usa um iPod quando sai para a rua. O maior exemplo desse jogo entre moderno e antigo, quem sabe, foi a escolha de Rihanna como Marion Crane, em um choque de realidade que, longe de quebrar o clima, só traz mais identificação e nos aproxima ainda mais da trama.

Higmore e Rihanna em cena em Bates Motel

Só para vocês saberem, Rihanna conseguiu o papel ao se declarar fã da série em seu perfil no Twitter. Mais moderno que isso, desconheço.

Robert Bloch morreu em 1994, aos 77 anos. Em vida, teve seu talento reconhecido diversas vezes, tendo recebido um Prêmio Hugo, um Bram Stoker Award e um World Fantasy Award. Chegou a ser presidente de 1970 a 1971 da Mistery Writers of America e foi membro da Science Fiction and Fantasy Writers of America. É curioso pensar em como com uma “simples” história ele criou um universo que perdura e se reinventa até hoje. Se a história é boa, ela será contada de todas as formas possíveis. Não sei se Bloch imaginava isso ou se era esse seu sonho — eu particularmente ficaria para morrer de felicidade se Vera Farmiga interpretasse um personagem meu — , mas não duvido que tenha sido.

Eu sei, o sucesso não pode ser medido por uma série de TV (e muito menos por um filme com o Vince Vaugh), mas você me entendeu. Aos 42 anos, Robert Bloch alcançou a imortalidade e seus personagens, assustadores e demasiado humanos, permanecem entre nós até hoje para nos lembrar que para fazer surgir uma boa história é preciso apenas uma boa inspiração e alguma persistência. E uma boa dose de loucura, é claro.

Brain Dump*

Me distanciando de tudo

E ficando mais perto de mim, então.

Uma amiga disse que assistindo Mad Men todo mundo quer ser a Peggy. A princípio não, já que ela começa como uma baita perdedora, mas no decorrer da série, sim, é óbvio que toda mulher quer ser a Peggy. Conseguindo controlar seu impulso por lanches, largando os relacionamentos tóxicos (é real, estou usando este termo) e superando seu mestre — sem contar o quanto o armário dela melhorou de uma temporada para a outra.

No entanto, o que principalmente queremos quando queremos ser a Peggy é essa certeza que ela tem de que é boa e está no caminho certo. Queremos essa certeza dela de que temos algum talento, que vale a pena tentar. Que vão valorizar isso aqui, seja lá o que isso aqui for, pois é sem dúvida uma obra de arte qualquer coisa que a gente faça. Esse brilho no olhar que ela tem quando defende um projeto, essa convicção raivosa que a impulsiona para frente.

Peggy nem sempre teve essa certeza. Foi preciso alguns sacodes da vida, do Don e da Joan, o que você chamaria de bullying ali foi construção de caráter. Algumas mágoas, os grandes olhos verde-azuis arregalados de ultraje e decepção com basicamente toda e qualquer pessoa que cruzou seu caminho. No fim, deu certo. Quando ela entra marchando na agência nova, o cigarro no canto da boca manchando seu sorriso que vai de orelha a orelha, você sabe que deu certo. E você quer ser como ela. A questão é que ali era final de temporada. Ali já tinha acontecido um milhão de coisas e ela já tinha sofrido um bocado, então era de se esperar a redenção final. Já nós, pobres mortais, não sabemos em que temporada estamos.

Que baque. Falando de mim, não poderia estar mais feliz e confusa. E nem está acontecendo nada. Nada. Só que eu notei que, ultimamente na minha vida, uma a uma as coisas estão indo embora. Amizades, gostos, hobbies, vontades, rotinas antigas. Acreditasse em horóscopo, diria que é a Lua em não sei o que com o Sol em não sei que lá que está me fazendo rever tudo o que eu sou. Se bem que, pensando bem, acho que nem se acreditasse em horóscopo eu aceitaria uma explicação tão simplória, como se não tivesse nada a ver comigo pessoalmente.

Pois, tal qual Peggy pulando de episódio em episódio, eu estou galgando temporadas buscando aquela certeza. Já são 32. Inspiro e expiro, perdida nas mudanças que meu coração joga na minha cara me obrigando a agir. Corro atrás da ansiedade, inspiro e expiro, tento não surtar. Não há motivos para surtar. Hoje eu me despedi de mais um pedaço do meu passado e foi tão simples e rápido quanto uma resposta por inbox. A gente tem pressa, todo mundo tem pressa e precisa resolver tudo rápido.

Quanto mais me despeço das pessoas e das coisas, mais sobra de mim. Peggy na ponta dos pés, olhando por cima da divisória da baia, o cara que morreu. Quanto mais sobra de mim, mais me assombro com o fato de que preciso conhecer e entender essa pessoa que eu sou. Peggy pegando o pacote de cigarros sem marca e dizendo que agora ela fuma, sim. Procuro me acostumar com essa pessoa que descubro ser, procuro gostar da maneira que ela pensa. Procuro ver o que de bom essa pessoa tem e ter orgulho dela.

Quanto mais me despeço, mais me encontro. E me isolando eu me sinto bem e me sinto culpada ao mesmo tempo. Não por nada, na vida sempre sobra culpa por todos os lados mesmo. A gente sempre se sente superior por estar se distanciando e se sente inferior por estar longe de tudo.

Dizem que você só odeia nas pessoas o que não suporta em si mesmo. Eu não aguento mais odiar as pessoas. Também por isso estou me distanciando. Não é covardia se você muda de batalha ao invés de insistir na mesma. Eu escuto músicas que não conheço, não quero nada do que já saiba.

Minha amiga disse, todo mundo quer ser a Peggy e eu sou a Sally. Entendo seu ponto, porém eu não quero ser diferente, eu quero ser eu. Nisso tudo eu fiquei pensando, eu sou muito a Peggy, mas uma Peggy que ainda está sendo escrita, uma bem diferente e igual ao mesmo tempo e que, com sorte, será tão boa quanto a original.

Peggy engolindo o choro no começo do episódio e sorrindo feliz na última cena. Vai ser assim.