Filmes, Resenhas

Assisti a trilogia “50 tons” e olha só o que aconteceu

aiaiai kk só eu mesmo

Atenção: esse texto contém spoilers dos três filmes que compõem a saga “50 Tons”, o que não deve ser um problema, já que você mesmo falou que nunca vai assistir a esses filmes, porque você é culto demais pra isso.

Você sabe o que é ligar a TV e não ter um mísero jogo de futebol ao vivo passando na tela? Será que você sabe o que é ter todos os campeonatos do mundo cancelados? Você entra nos sites esportivos e só tem notícia de doença afetando os profissionais do mundo da bola, você liga a TV e estão fazendo call ao vivo, cada jornalista na sua casa. É sempre uma estante com canecas, livros e miniaturas. Você começa a lembrar, com ódio, da vez que ligou a TV e estava passando Barcelona x Real Madrid ao vivo e você mudou pra ver uma série horrível na Netflix. Você se questiona sobre o tempo perdido. Você perde muito tempo, não tem nada de futebol na TV. Um joguinho de Amigos do Cafu x Amigos do Vinny Mexe a Cadeira sequer. Nada. O mundo parou no VT. Não existe mais nada além de medo, tédio e imagens de péssima qualidade de um jogo de futebol de 1994.

Resolvi assistir toda a trilogia de 50 Tons, de uma vez só.

Não existe situação ruim que eu não possa piorar!

Verdade seja dita, ainda que eu não seja a mais versada nessa trama, ela sempre me despertou simpatia, pois sou especialmente cativada por produtos de entretenimento que sejam mais bregas do que bons. Como vocês já sabem. Nesse caso em específico, o ponto em que me encontrava antes de começar essa maratona era: já tinha lido o primeiro livro e assistido ao primeiro filme, anos atrás. Sou grande fã do Jamie Dornan, por conta de The Fall. E nada além disso.

Acho que cabe também dizer que a saga de 50 Tons me parecia simpática porque ela foi concebida inicialmente como uma fanfic de Crepúsculo. Sim, é verdade! A autora dos livros, E. L. James, até tinha dado os nomes de Bella e Edward para Anastasia e Christian Grey, em um primeiro momento. Mas aí a fama veio e ela mudou os nomes para publicar. E não é como se eu fosse uma grande fã de Crepúsculo (preciso assistir primeiro), mas gosto dessa trilogia porque ela é uma fanfic também, esta de um livro que eu realmente amo: O Morro dos Ventos Uivantes.

Ou seja, Crepúsculo é uma fanfic de O Morro dos Ventos Uivantes e 50 Tons, por sua vez, é uma fanfic de Crepúsculo. Parece loucura, mas essas três histórias têm mesmo muito em comum. O que veremos a seguir, entre outras coisas, na minha análise aprofundada que só foi possível após assistir mais de 6 horas de Dakota Johnson e Jamie Dornan nhanhando. Vamos lá?

50 Tons de Cinza (2015)

A educação sexual de Anastasia

No primeiro filme da saga, conhecemos Anastasia e Christian Grey. O caminho deles se cruza quando a best da Ana(stasia) adoece (o filme previu o COVID-19, veja) e Ana vai no lugar dela entrevistar o misterioso bilionário bonito demais Christian Grey, Sr. Grey pra você.

A atração entre Ana e Grey é imediata e explosiva (kk), então eles ficam meio de joguinho até o Grey literalmente colocá-la contra a parede e beijá-la no elevador (puxa vida). A partir daí, Grey vai aos poucos se revelando para Ana, o que lhe causa um pouco de medo, pois ela é uma virgem reprimidézima e ele é um sádico que só curte coisa pesadona no sexo. kk.

Nas mãos da diretora Sam Taylor-Johnson, que tentou como pôde suavizar a bomba machista e equivocada que é o livro, o filme se passa por uma chick flic um tanto noir, se vamos colocar assim. É tudo muito errado em tudo o que Grey faz desde o começo: ele é ciumento, controlador, impulsivo e extremamente enxerido. No entanto, tudo é perdoado, porque a figura dele, em si, não é ameaçadora, e ele é podre de rico, além de bonito de um jeito suave. Aliás, em declarações à época, Jamie Dornan disse que tinha mesmo trabalhado nessa caracterização de um homem muito magro, quase frágil, sem barba, como forma de suavizar a impressão que Grey passaria para o público, mostrando que seu personagem, apesar de meio esquisito, não é um monstro. Apenas humano, é isto que Grey é. Um humano meio frango e com uma personalidade extremamente complicada.

Dakota Johnson, por sua vez, tem como principais trunfos interpretativos a franja cobrindo a testa e o hábito irritante de morder os lábios o tempo todo. A química entre ela e Dornan é óbvia, e os dois funcionam muito bem juntos, vamos colocar assim, hehe. E ainda que seja problemática, a relação de Ana e Grey não parece tão errada, já que ambos estão se divertindo: ele gosta de mandar, ela gosta de fingir que não gosta de obedecer.

Nessa toada, o grande conflito da trama é que Ana, muitas palmadas no bumbum depois, começa a ficar bolada com essa coisa que Grey tem de punir quem ama. Ao invés de recomendar terapia, ela chora feito uma condenada, termina com ele e assim acaba também o filme: de maneira muito abrupta e sem sentido, com os dois separados e um vale de lágrimas entre eles.

Não dá para dizer que o filme é ruim. Ruim é uma palavra muito forte. Vamos dizer assim que ele é hilário, porque constrange em muitos momentos, mas de alguma forma é cativante. Os atores são muito bonitos, as cenas de nudez são pura obra de arte, e existe algum humor (a cena deles negociando o contrato do relacionamento é tudo). Além disso, a trilha sonora é maravilhosa, com músicas de Ellie Goulding, The Weekend e Beyoncé feitas exclusivamente para o longa.

Ou seja, dá para assistir sim, você que é chato.

50 Tons Mais Escuros (2017)

O desnudar da alma de Sr. Grey

Dois anos e muito barulho depois, chega aos cinemas o segundo filme da trilogia, 50 Tons Mais Escuros. Algumas mudanças são sentidas, muitas delas baseadas no retorno do público. A direção agora é assumida por James Foley, um homem!, porque a autora E. L. James tretava tanto com a diretora do primeiro filme que ela desistiu do projeto. Ana agora usa batom, pois é uma mulher mais confiante. E Grey surge mais musculoso e de barba, um pedido do fandom, que sempre imaginou ele assim. Vai dando confiança pra fandom, vai…

Em cinco minutos de filme o cliffhanger do longa anterior é resolvido: é o Grey “fazer assim” que a Ana volta pra ele. E aí é aquele show de probleminha Notre-Dame, com ele cobrindo ela de presentes caros (24 mil dólares do nada, notebook, celular, carros, viagem de jatinho, vestido chique, quitação da casa dela na COHAB) e ela toda “ai nossa, não ligo pra dinheiro!!”.

Minha filha, fale por você.

Sexualmente falando (eu não consigo parar de rir), Ana ainda se comporta como uma pombinha assustada, na medida em que Grey aumenta a pressão (kk ai deus). No entanto, a trama aqui é sutilmente desviada da coisa do BDSM para outras trivialidades da vida das pessoas muito ricas: Ana é assediada por seu chefe, Grey compra a empresa onde ela trabalha e dá um jeito de demitir o cara. Nisso, o arrombado (estou falando do chefe assediador) começa a tramar um plano de vingança e fica tudo ainda mais perigoso no reino encantado do Quarto Vermelho da Dor.

Além disso, nesse filme temos Ana buscando entender melhor os motivos de Grey ser assim tão taciturno e emocionalmente um trapo. Investigando a infância do homem, ela descobre seus traumas, a vida pesada que ele teve até ser adotado por essa família de bilionários e a razão final para ele gostar de chicotear mulheres na cama: muito ódio pela mãe reprimido, né meu filho?

No mais, é tudo muito chique e bonito, Dakota e Jamie estão ainda mais lindos nesse filme, se é que isso é possível. A trilha sonora mais uma vez dá um pau em qualquer filme indie que você gosta, com canções icônicas feitas para o filme, como Bom Bidi Bom (Nick Jonas & Nicki Minaj) e I Don’t Wanna Live Forever (Zayn & Taylor Swift), além de Sia e uma não-creditada do Jeff Buckley.

O filme termina com o casal aparentemente no caminho para uma relação saudável. O contrato que ela devia assinar lá no primeiro filme é prontamente esquecido, Grey só quer ela do jeitinho que ela é, no strings attached. Em uma dialética complicada, por sua vez, Ana quer demais mudar esse homem, o que qualquer mulher com mais de 15 anos de idade sabe que é uma furada em qualquer relacionamento. Quem sabe o que pode acontecer? Às vezes a jornada vale mais do que o destino final. Grey pede Ana em casamento, ela aceita e lá vamos nós para o terceiro, e último, filme.

50 Tons de Liberdade (2018)

Grey e Ana descobrem a cura através do amor

Ainda sob direção de James Foley, o capítulo final da saga 50 Tons começa já com o casamento. E aí é tudo festa. Grey e Ana viajam o mundo juntos, tudo azul, Ana está infinitamente mais poderosa e atrevida, ninguém se mete mais na sua vida. Até terno ela usa, e dá invertida no mulherio que tenta se jogar pra cima do Grey.

Quer dizer, os humilhados finalmente sendo exaltados. Mas ainda que Grey queira manter Ana nesta redoma de sexo gostoso e muito dinheiro, surgem problemas no paraíso. O ex-chefe arrombado lá do filme anterior volta com tudo para fazer mal à nossa heroína. Além disso, Ana se descobre grávida, e Grey não reage nada bem à isso (tem ciúme do bebê, o nível é esse).

Nisso, temos um filme que é menos sobre a coisa do sexo selvagem (embora ainda tenha muito sexo selvagem) e mais sobre um casal bilionário e seus problemas. Coisa que eu particularmente amo, pois se quisesse pensar em problema de pobre eu pensava nos meus.

Esse filme se destaca por marcar a emancipação de Ana. Agora ela é uma mulher muito mais madura e livre, respondendo à altura os gestos de Grey, inclusive mandando nele. Quando é colocada em perigo, ela resolve a bronca sozinha, chegando a pegar em armas se necessário (foi necessário). Por essas e outras, o filme é considerado um bom encerramento para a trama, pois tira a protagonista do lugar de dama indefesa e a coloca como real dona da história.

Naquelas, né.

Grey se mostra um homem curado: ainda gosta de BDSM, mas já é capaz de demonstrar sentimentos e até chora. Tudo por conta do trabalho incansável de Ana, reafirmando a perigosa narrativa de que uma mulher pode curar um homem, como se mulher fosse ONG de homem, etc. Mas é aquela coisa, o cara é tão bonito que tudo é perdoável. E a Ana faz porque gosta dele, etc.

Assim, a “emancipação” de Ana é ainda naquele modelo antigo que vemos nos romances: curando seu homem, ela curou à si mesma.

Ana desiste de mudar Grey, porque no que precisava ele já mudou. Eles ficam juntos, felizes e podres de ricos, ainda se divertindo no quartinho e agora com dois bebês para criar. Final feliz!!!!

Entre os delírios da trama, ficará para sempre em minha memória Jamie Dornan, como Christian Grey, ao piano cantando e tocando Maybe I’m Amazed (a minha música favorita do Paul McCartney) em Aspen. E para mim, isso já valeu a trilogia inteira.

A trilha sonora aqui é ok.

O que eu achei, afinal?

Minha filha, o que eu vou te dizer? Eu achei tudo lindo e chique, ri bastante, suei de nervoso… Acho que não dá para esperar mais do que isso de uma obra de entretenimento, não é? Quer dizer, não é um Barcelona x Real Madrid ao vivo às 15h de um sábado logo depois que você faxinou a casa toda, tomou o banho e acabou de sentar a bunda no sofá. Mas olhando em perspectiva, hoje em dia mais nada é!

A trama em si não traz nada novo: a mulher ingênua e virginal sendo seduzida e tendo sua vida virada do avesso pelo homem controlador e autoritário. A cura através do amor. A emancipação feminina pelo amor de um homem. Tudo isso existe desde que o mundo é mundo e se repete mudando só uma coisa ou outra.

Você encontra esse modelo de romance em inúmeras obras, porque durante muito tempo foi assim. Aqui, a função da fanfic foi modernizar esse modelo, mas mantendo sua essência. Por isso o sentido de unidade tão reconfortante quando você pega O Morro dos Ventos Uivantes, um livro de 1847, e encontra isso. E em Crepúsculo, você encontra isso. Em 50 Tons, lá está Grey olhando Ana dormir, feito um vampiro, e controlando tudo o que ela faz porque apesar de muito bravo ele é extremamente inseguro. Homens inseguros querendo dominar mulheres que na verdade não são nada frágeis tem sido o motor da narrativa romântica há séculos, e não há sinais de que isso vá mudar tão cedo.

Quem gosta, ama. Quem não gosta, paciência.

Eu gosto e acho que é possível se divertir com obras assim, sabendo separar a romantização da realidade.

Quem sabe, em 40 dias volte a passar futebol na TV, e aí teremos mais possibilidades. Por enquanto, pode descer o chicote nesse povo sofrido, Sr. Grey!