Processo Criativo

Bloqueio criativo e camadas de realidade: dicas na hora de criar histórias

Photo by Danielle MacInnes on Unsplash

Um pouco do que aprendi em uma aula de youtube

Ouvindo o maravilhoso podcast #ImaginaJuntas das meninas Jeska Grecco e Carol Tchulim (e do Gus Lanzetta), fiquei sabendo que o Lucas “da Fresno” Silveira estava promovendo um curso online sobre música. Achei incrível, pois sempre fui muito fã de Fresno – considero o Lucas um dos compositores mais primorosos do Brasil, além de um excelente cantor.

Foi como cheguei à Universidade Invisível, o tal curso online. Se trata de uma plataforma virtual onde você pode aprender sobre tudo o que envolve o processo de criar música: a parte criativa, a questão de produção e até a etapa final, de se vender para o seu público.

É um curso mais voltado para músicos (e para os que querem se tornar músicos), no entanto, a parte de criatividade e inspiração, ministrada pelo Lucas, é muito interessante para escritores em geral, a meu ver.

Ao se cadastrar no site (as aulas são pagas, mas esse cadastro inicial é aberto ao público, sem taxas) você tem direto a assistir uma master class do Lucas Silveira, onde ele dá dicas ótimas sobre processo criativo. São 67 minutos de aula. Eu assisti a essa aula e dela pude depreender muitos tópicos importantes, os quais trago alguns aqui para vocês como aperitivo, baseados no meu aprendizado deles. Lembrando que para ver a aula completa (e se matricular no curso) é só acessar o site da Universidade Invisível.

O que mais me chamou atenção na aula como um todo foi a questão do bloqueio criativo e das camadas de realidade. É disso que vou falar a seguir.

Photo by Maaria Lohiya on Unsplash

Uma das coisas mais interessantes que o Lucas disse foi que a inspiração vem de uma ideia, a ideia vem de uma experiência de vida e a experiência de vida vem VIVENDO. Parece óbvio para você? Na verdade, não é tão óbvio assim quando a gente pensa em expressões famosas como “bloqueio criativo”.

É muito comum a gente sentar para escrever e não vir nada. Nada, nem uma frase sequer. Isso acontece, geralmente, não por não sermos bons, mas porque não estamos “abastecidos” o suficiente de vivências para transformar em um texto. Como alguém zerado de histórias pode produzir alguma? Como falar da vida se você não está vivendo-a?

Uma dica do Lucas é que quando o tal bloqueio pintar, você tente se perguntar se esse “branco” de ideias não é um branco na sua vida em geral. Existencialista demais? Que nada. Tente pensar aí: será que você não está trabalhando demais, preocupado demais com tudo e sem tempo de respirar e olhar a vida lá fora? Por que são essas coisas que nos trazem ideias para histórias: olhar a vida.

Mesmo um drama sci-fi que se passe em Marte e tenha como personagens extraterrestres mudos de vinte pernas pode ter sido originada de uma conversa de bar que você teve com um primo e ele te disse “nossa, parece que sou um ser bizarro de vinte pernas, ninguém me ouve!”.

Ou essa mesma inspiração pode vir de algum contato imediato de terceiro grau que você tenha vivido essa semana, é claro.

Quando a gente fala em “vivência”, não significa que você precisa todo dia escalar uma montanha, encontrar um ET ou dançar na chuva para dizer que tem uma história diferente para contar. Falando com base em minha própria experiência como escritora, as maiores inspirações que já tive vieram de acontecimentos cotidianos banais, diálogos bobos. Coisas que nem aconteceram comigo diretamente. Acredito que com você também seja assim.

É claro, têm dias que o texto não sai porque você está com a cabeça cheia de problemas ou tempo curto para desenvolver, mas, de um modo geral, um bom escritor (ou compositor ou contador de histórias, em seu sentido mais amplo) é uma pessoa que vive em constante estado mental de inspiração. Isso quer dizer que você precisa estar sempre de antenas ligadas, observando o que acontece ao seu redor e guardando esses momentos para costurar na colcha de retalhos que vai ser o seu texto.

O conceito de que um texto fictício nada mais é do que uma costura de acontecimentos reais contados de forma romanceada é algo muito frisado pelo Murakami em seu livro “Romancista Como Vocação”, aliás. Romanceando ou não, projetando ou não, escrevemos sobre o que vivemos ou observamos. Nunca se sabe de onde virá uma boa ideia para um texto que você está querendo escrever. Por isso, é tão importante estar atento e sair do seu casulo, que muitas vezes é fundamentado no medo de tentar (algo para um post futuro, sem dúvida).

Quando você é um produtor de conteúdo, precisa estar sempre ligado no que acontece ao seu redor. Um escritor se difere dos demais quando consegue ver algo que a maioria não vê, em algo que todos estão vendo. Por exemplo, e esse é um exemplo do Lucas, você pode andar na rua e se deparar com uma pessoa esperando a condução em um ponto de ônibus. E tudo bem, vida que segue. Já outra pessoa pode ver a mesma cena e se sentir inspirada por ela a escrever uma poesia, uma letra de música. E qual a razão dessa cena tão corriqueira despertar a atenção de uma pessoa e não de outra?

Tudo depende do olhar. Nada é o mesmo, cada um enxerga as coisas de um modo diferente e tira algo de diferente de cada situação. É o que podemos ver naquele famoso caso de “copo meio cheio ou meio vazio”, sabe? Tudo depende de como você encara as coisas e, nisso, você pode ver algo que ninguém viu, porque você está prestando atenção e está impulsionado pela sua inspiração e pela sua criatividade.

São as chamadas “camadas de realidade”, como o Lucas chama.

Onde alguém viu apenas uma pessoa esperando o ônibus, outro viu o argumento inicial para um livro de trezentas páginas. Onde ele viu isso? Ele despiu aquela cena de sua camada prosaica e descobriu uma outra camada mais poética. Nenhuma das duas camadas está errada. Ambas são verdadeiras e todas as duas servem — depende apenas do seu propósito para elas no momento.

Com isso eu não quero dizer que você precisa ver poesia em tudo, mas sim que você pode vê-la em algo que normalmente não veria, se estiver disposto a isso. Despida da camada de “apenas um dia comum”, pode ser que você encontre ali outra camada mais profunda, a camada que a sua poesia e a sua criatividade podem usar como tela para criar algo maior.

Quando você tem um olhar treinado, é capaz de ver essas camadas de realidade e fazer uso delas para a sua arte. Mas o olhar treinado só vem da tentativa e da prática, então não deixe de tentar.

Comece agora.

Vença o bloqueio criativo desacreditando dele e acreditando em você. Se muna de experiências, olhe lá fora, ouça as pessoas e se abra para o novo. Você já tem tudo o que você precisa para começar a escrever. Basta começar.


Os conceitos trazidos nesse artigo englobam apenas um trecho curto da master class do Lucas Silveira, que fica disponível por pouco tempo, então recomendo que você corra para assistir enquanto ainda está no ar! O curso já está em pré-venda na Universidade Invisível. Como dito, são lições focadas para produção musical, mas acredito que todos podem aprender muito sobre processo criativo, sendo músicos ou não.

Este não é um conteúdo pago pela Universidade Invisível (quem me dera!).


Processo Criativo

5 dicas para escrever mais

Inspirações para voltar (ou começar) a produzir mais conteúdo

Li não sei onde, escrever é bom porque une as duas maiores alegrias: falar sozinho e falar para uma multidão. Como uma pessoa que tem a escrita como profissão e como principal lazer, é com certo espanto que reajo a declarações de amigos do tipo “queria tanto escrever, não sei como você consegue”. Oras, não sei como você não consegue. É só colocar as palavras no papel, assim uma a uma, e ver o que vai dar lá na frente. Não?

Ok, concordo que não é assim tão simples, mas é tão bom! E fica mais fácil com a prática. Recentemente ministrei um workshop sobre processo criativo em escrita e vi que uma das maiores questões para as pessoas que querem produzir mais é esse medo de não estar no caminho certo. Bom, é difícil saber se o seu caminho está certo se você não começa caminho nenhum. É preciso tentar, experimentar! Por isso, resolvi trazer para cá algumas das dicas sobre as quais conversamos por lá. Não que eu possa ser uma grande professora para alguém ou esteja contando algum segredo dourado que só eu saiba sobre a arte de escrever. Pelo contrário, acho que esses conselhos são bons justamente porque são coisas que você já sabe. E, como a maioria das coisas que já sabemos, precisamos que outra pessoa nos diga para que a gente acredite.

  • Escreva tudo primeiro, sem critério

Se a inspiração veio, escreva de uma vez só. Não se preocupe em lapidar seu texto em um primeiro momento, não se preocupe sequer em fazer sentido. Apenas escreva e deixe que o bruto do que você quer dizer seja dito. Esse é o ponto inicial e o mais importante. Pode ser que sua ideia inicial tenha cinco linhas. Escreva-a e depois se preocupe em transformá-la em cinco parágrafos, cinco páginas ou capítulos — ou cinco livros, se você for a J.K. Rowling. Comece pelo fim e termine pelo começo, se assim desejar. Não importa a ordem, dando o pontapé inicial você já abriu o caminho e isso é o que vale.

  • Não se force, mas se force um pouco

Se está difícil demais, dê um tempo. Tome um café, assista a um seriado. E volte. Lembre-se que um texto que foi chato de escrever, provavelmente será chato de ler. Se não está rolando, dê um tempo até voltar a rolar. Certo? Certo. Mas aí… Você deixou aquele texto de lado para pensar um pouco e já faz seis dias. E a vontade de escrevê-lo já é uma lembrança distante. Procure não deixar isso acontecer, porque quanto mais você demora, mais a sua ideia inicial perde a força. Tente mais um pouco, não desperdice o que já começou. Tente lembrar das emoções que te motivaram a escrever aquele texto. E continue.

  • Escreva o texto que você gostaria de ler

Com as redes sociais e o vício de aprovação que se criou, é comum a gente sempre se perguntar se vale o esforço fazer algo. No caso de escrever, sempre rola um “ah, mas ninguém vai ler”. Nisso as pessoas caem em dois erros: ou simplesmente deixam de escrever porque acham que ninguém vai se interessar, ou passam a escrever coisas que não as interessa, mas que podem despertar a atenção dos outros. Bom, se a ideia é ser verdadeiro com você mesmo, acredito que o ideal seja escrever mesmo sem saber se vai render likes, dizendo o que você quer dizer e não o que acha que os outros querem ler. É claro, não existe certo ou errado e seu conteúdo pode ser bom mesmo não sendo exatamente o que você queria falar. Mas ele te deixará feliz? Fará você se sentir realizado como se sentiria ao escrever o que realmente queria passar? Eu acredito firmemente que quando você é sincero de coração no que produz, as pessoas chegam até você. Honestidade cativa, entusiasmo cativa. E isso só é possivel quando você escreve sem pensar nos outros, mas sim em você, por mais egoísta que isso possa parecer.

  • Lembre-se que seu conhecimento pode não ser único, mas a sua experiência é

Mais do que aprender 25 dicas sobre como passar 18 dias na Disney gastando pouco, as pessoas querem saber como você se sentiu lá. Como foi conhecer? Você se cansou? Esse tipo de coisa. Detalhes técnicos podem ser adquiridos em sites de viagem, a sua experiência é única. Uma resenha sobre Trainspotting 2, que você viu no cinema, pode ser legal, mas o que as pessoas querem saber é: você gostou do filme? Te fez chorar, te emocionou? Escreva sobre coisas que não se acham no Google. Isso importa.

  • Não tenha medo de parecer um pouco bobo

Por fim, acredite que a coragem para falar te dá a autoridade para falar. Eu levei cinco anos para criar coragem de escrever ficção porque, embora fosse meu sonho, morria de vergonha de escrever diálogos. Até que me dei conta: “Oras, e quem é que sabe que eu não sei o que estou fazendo?”. Quando você dá a cara a tapa, você conquista o direito de tentar. E só de estar tentando você já está muito, muito à frente de qualquer pessoa que, sem ter a coragem para nada parecido, ouse te criticar.

Acho que é isso! Se escrever é a sua paixão ou simplesmente a sua vontade, não desista disso. Encontre meios, descubra seu jeito de escrever e faça disso parte de você. Nunca desista de algo que te faz feliz, minimamente que seja.