
Um pouco do que aprendi em uma aula de youtube
Ouvindo o maravilhoso podcast #ImaginaJuntas das meninas Jeska Grecco e Carol Tchulim (e do Gus Lanzetta), fiquei sabendo que o Lucas “da Fresno” Silveira estava promovendo um curso online sobre música. Achei incrível, pois sempre fui muito fã de Fresno – considero o Lucas um dos compositores mais primorosos do Brasil, além de um excelente cantor.
Foi como cheguei à Universidade Invisível, o tal curso online. Se trata de uma plataforma virtual onde você pode aprender sobre tudo o que envolve o processo de criar música: a parte criativa, a questão de produção e até a etapa final, de se vender para o seu público.
É um curso mais voltado para músicos (e para os que querem se tornar músicos), no entanto, a parte de criatividade e inspiração, ministrada pelo Lucas, é muito interessante para escritores em geral, a meu ver.
Ao se cadastrar no site (as aulas são pagas, mas esse cadastro inicial é aberto ao público, sem taxas) você tem direto a assistir uma master class do Lucas Silveira, onde ele dá dicas ótimas sobre processo criativo. São 67 minutos de aula. Eu assisti a essa aula e dela pude depreender muitos tópicos importantes, os quais trago alguns aqui para vocês como aperitivo, baseados no meu aprendizado deles. Lembrando que para ver a aula completa (e se matricular no curso) é só acessar o site da Universidade Invisível.
O que mais me chamou atenção na aula como um todo foi a questão do bloqueio criativo e das camadas de realidade. É disso que vou falar a seguir.

Uma das coisas mais interessantes que o Lucas disse foi que a inspiração vem de uma ideia, a ideia vem de uma experiência de vida e a experiência de vida vem VIVENDO. Parece óbvio para você? Na verdade, não é tão óbvio assim quando a gente pensa em expressões famosas como “bloqueio criativo”.
É muito comum a gente sentar para escrever e não vir nada. Nada, nem uma frase sequer. Isso acontece, geralmente, não por não sermos bons, mas porque não estamos “abastecidos” o suficiente de vivências para transformar em um texto. Como alguém zerado de histórias pode produzir alguma? Como falar da vida se você não está vivendo-a?
Uma dica do Lucas é que quando o tal bloqueio pintar, você tente se perguntar se esse “branco” de ideias não é um branco na sua vida em geral. Existencialista demais? Que nada. Tente pensar aí: será que você não está trabalhando demais, preocupado demais com tudo e sem tempo de respirar e olhar a vida lá fora? Por que são essas coisas que nos trazem ideias para histórias: olhar a vida.
Mesmo um drama sci-fi que se passe em Marte e tenha como personagens extraterrestres mudos de vinte pernas pode ter sido originada de uma conversa de bar que você teve com um primo e ele te disse “nossa, parece que sou um ser bizarro de vinte pernas, ninguém me ouve!”.
Ou essa mesma inspiração pode vir de algum contato imediato de terceiro grau que você tenha vivido essa semana, é claro.
Quando a gente fala em “vivência”, não significa que você precisa todo dia escalar uma montanha, encontrar um ET ou dançar na chuva para dizer que tem uma história diferente para contar. Falando com base em minha própria experiência como escritora, as maiores inspirações que já tive vieram de acontecimentos cotidianos banais, diálogos bobos. Coisas que nem aconteceram comigo diretamente. Acredito que com você também seja assim.
É claro, têm dias que o texto não sai porque você está com a cabeça cheia de problemas ou tempo curto para desenvolver, mas, de um modo geral, um bom escritor (ou compositor ou contador de histórias, em seu sentido mais amplo) é uma pessoa que vive em constante estado mental de inspiração. Isso quer dizer que você precisa estar sempre de antenas ligadas, observando o que acontece ao seu redor e guardando esses momentos para costurar na colcha de retalhos que vai ser o seu texto.
O conceito de que um texto fictício nada mais é do que uma costura de acontecimentos reais contados de forma romanceada é algo muito frisado pelo Murakami em seu livro “Romancista Como Vocação”, aliás. Romanceando ou não, projetando ou não, escrevemos sobre o que vivemos ou observamos. Nunca se sabe de onde virá uma boa ideia para um texto que você está querendo escrever. Por isso, é tão importante estar atento e sair do seu casulo, que muitas vezes é fundamentado no medo de tentar (algo para um post futuro, sem dúvida).
Quando você é um produtor de conteúdo, precisa estar sempre ligado no que acontece ao seu redor. Um escritor se difere dos demais quando consegue ver algo que a maioria não vê, em algo que todos estão vendo. Por exemplo, e esse é um exemplo do Lucas, você pode andar na rua e se deparar com uma pessoa esperando a condução em um ponto de ônibus. E tudo bem, vida que segue. Já outra pessoa pode ver a mesma cena e se sentir inspirada por ela a escrever uma poesia, uma letra de música. E qual a razão dessa cena tão corriqueira despertar a atenção de uma pessoa e não de outra?
Tudo depende do olhar. Nada é o mesmo, cada um enxerga as coisas de um modo diferente e tira algo de diferente de cada situação. É o que podemos ver naquele famoso caso de “copo meio cheio ou meio vazio”, sabe? Tudo depende de como você encara as coisas e, nisso, você pode ver algo que ninguém viu, porque você está prestando atenção e está impulsionado pela sua inspiração e pela sua criatividade.
São as chamadas “camadas de realidade”, como o Lucas chama.
Onde alguém viu apenas uma pessoa esperando o ônibus, outro viu o argumento inicial para um livro de trezentas páginas. Onde ele viu isso? Ele despiu aquela cena de sua camada prosaica e descobriu uma outra camada mais poética. Nenhuma das duas camadas está errada. Ambas são verdadeiras e todas as duas servem — depende apenas do seu propósito para elas no momento.
Com isso eu não quero dizer que você precisa ver poesia em tudo, mas sim que você pode vê-la em algo que normalmente não veria, se estiver disposto a isso. Despida da camada de “apenas um dia comum”, pode ser que você encontre ali outra camada mais profunda, a camada que a sua poesia e a sua criatividade podem usar como tela para criar algo maior.
Quando você tem um olhar treinado, é capaz de ver essas camadas de realidade e fazer uso delas para a sua arte. Mas o olhar treinado só vem da tentativa e da prática, então não deixe de tentar.
Comece agora.
Vença o bloqueio criativo desacreditando dele e acreditando em você. Se muna de experiências, olhe lá fora, ouça as pessoas e se abra para o novo. Você já tem tudo o que você precisa para começar a escrever. Basta começar.
Os conceitos trazidos nesse artigo englobam apenas um trecho curto da master class do Lucas Silveira, que fica disponível por pouco tempo, então recomendo que você corra para assistir enquanto ainda está no ar! O curso já está em pré-venda na Universidade Invisível. Como dito, são lições focadas para produção musical, mas acredito que todos podem aprender muito sobre processo criativo, sendo músicos ou não.
Este não é um conteúdo pago pela Universidade Invisível (quem me dera!).


