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O sonho possível, enfim

Era absolutamente tudo. Quando “Com Amor, Vincent” chegou aos cinemas, imaginei que era tão incrível quanto natural. Como não fizeram um filme assim antes? Para fazer faltava tecnologia e a sensibilidade, no mínimo, mas o momento enfim tinha chegado.

O filme é lindo, um trabalho tão profundo quanto emotivo. A história de vida de Van Gogh é delicada e triste, envolve mexer em assuntos que são dolorosos e presentes até hoje, ainda mais hoje, além de todo aquele mistério sobre sua morte.

Existe também, é claro, a atualidade de sua obra, que faz com que seus quadros sejam hoje itens da cultura pop, desdobrados em produtos de consumo dos mais variados. Virar moda, aqui, é um privilégio todo nosso. É ótimo ver suas pinturas espalhadas por todos os lugares, nos mais variados formatos. É uma delícia, na verdade.

Mas o filme, como fizeram esse filme?

Para responder essa pergunta, e outras, estreia dia 30 de janeiro nos cinemas brasileiros o documentário “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível”. A missão é exatamente levar para o telespectador um pouquinho do que foi a produção da animação de 2017. Com distribuição da Elite Filmes, o doc explora os dez anos de luta para levar o filme às telas.

Sim, dez anos.

Tudo sobre “Com Amor, Vincent” impressiona, como sabemos vendo o filme, como confirmamos com esse documentário. Com entrevistas dos envolvidos e cenas inéditas de bastidores, em “Com Amor, Vincent: O Sonho Impossível” vamos descobrindo mais sobre essa obra que nasceu pelas mãos e coração de Dorota Kobiela, uma jovem cineasta polonesa. Novata no cinema, por quase uma década Dorota capitaneou essa empreitada, lidando com a falta de incentivo e de dinheiro, em um esforço monumental que teve a participação de 115 pintores e se transformou em animação com os 65 mil quadros que estes produziram.

Sessenta e cinco mil quadros. Quando finalmente foi lançado, o filme recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de 2018, a aclamação definitiva de todos os anos de dedicação.

Em entrevista ao documentário, Dorota se emociona ao dizer que gostaria que Van Gogh um dia soubesse o quanto sua obra influenciou e motivou tantas pessoas ao redor do mundo, por todos esses anos.

Como fã do artista, gosto de pensar que é isso que estamos fazendo quando continuamos revivendo sua vida e obra, desdobrando sua arte em coisas nossas que carregamos conosco por todos os lados. Estamos deixando ele saber, de algum modo.

O sonho impossível se materializa assim, nesses momentos e nessas homenagens, como a de Dorota, que traz um pouco daquele universo que nos encanta há décadas e jamais deixará de encantar, posto que é eterno.

* O blog assistiu ao documentário “Com Amor, Van Gogh: O Sonho Impossível” a convite da Elite Filmes.

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ENCONTROS: Uma romcom dos nossos tempos

Mélanie vive com a cara no celular, nervosa com uma palestra que precisa apresentar no trabalho, só faz trabalhar e dormir. Rémy tem passado por maus bocados quando toda a sua equipe no trabalho é demitida e só ele fica, pelo stress disso não consegue descansar de jeito nenhum. Os dois moram um do lado do outro, e nunca se viram.

Assim começa ENCONTROS (Deux Moi), novo longa do diretor Cédric Klapischi. Um conto moderno sobre amor, o filme mostra os caminhos que vão fazer Mélanie e Rémy descobrirem mais sobre si mesmos antes de conseguir olhar para fora e enxergar o outro.

Falando sobre questões atuais como amor líquido, depressão e a solidão dos tempos modernos, ENCONTROS traz uma história possível e que se relaciona muito com o que vivemos cotidianamente. Mélanie e Rémy, cada um a seu modo, tem suas próprias questões que travam suas interações sociais. Reclusos e solitários, são adultos funcionais, aparentemente felizes, mas quebrados por dentro de alguma forma.

Separadamente, buscam por terapia e nessas conversas perseguem o entendimento das suas reais motivações, descobrindo quais são os gatilhos que destravam esses medos que os impedem de ter uma vida feliz.

A terapia

Por motivos diferentes, os dois protagonistas buscam auxílio médico (ou “ver alguém”, como dizem) para tratar das angústias que estão impedindo que suas vidas corram normalmente. Rémy é o que mais demonstra resistência ao assunto, se questionando sobre a real necessidade disso. Mélanie, por sua vez, encontra nas sessões um canal imediato para desabafar sobre traumas recentes.

O olhar do filme sobre a questão da terapia é muito positivo e esclarecedor. Uma das bases do longa, é interessante notar como os profissionais que atendem os protagonistas têm abordagens diferentes e tratam de auxiliar os personagens a encontrar seu caminho, enquanto desmistificam o preconceito que paira sobre a necessidade que temos de cuidar da nossa saúde mental.

As coincidências, a graça de tudo isso

Mas se fosse só para falar de dores e traumas, essa não seria uma comédia romântica. O grande trunfo de ENCONTROS é trazer essa conversa sobre saúde mental de uma maneira leve, o que está longe de dizer que é de uma maneira rasa, trabalhando paralelamente com alguns alívios cômicos que nos colocam em uma posição confortável.

De fato, são nesses momentos engraçados do filme que vemos como ele se relaciona com a vida real. Mesmo em um quadro de stress, nem tudo são lágrimas. A jornada dos protagonistas é suavizada com alguns encontros divertidos e com uma linguagem amigável, que nos torna íntimos deles, nos fazendo torcer para que consigam ter sucesso em suas aspirações.

O jogo de gato e rato que nos leva a acreditar que Mélanie e Rémy vão se encontrar em algum momento cria escapes cômicos, que dão todo o charme da trama. A gente torce muito por eles, mesmo sabendo, no decorrer do longa, que não é o fato de eles ficarem juntos, se ficarem, que vai solucionar todos os seus problemas.

Solidão em um mundo que não para

Mais do que falar sobre saúde mental ou criar um trama de coincidências que pavimente o encontro dos protagonistas, que nunca sabemos se acontecerá de fato ou não, ENCONTROS tem o mérito de mostrar suas jornadas para além da busca pelo amor pura e simples.

Ao falar de depressão, solidão e da busca pelo autoconhecimento, o filme encanta ao mostrar que cada indivíduo é único — e que o amor, nesse contexto, vem para complementar, não para suprir uma falta.

Com humor, delicadeza e um poderoso discurso sobre a necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental, ENCONTROS surpreende pela doçura com que aborda o amor em nossos tempos modernos. É uma comédia romântica dos nossos tempos, mais do que tudo, onde amor romântico e cuidado próprio andam lado a lado, somando e nunca tomando o lugar um do outro.

Imperdível.


〰️ ENCONTROS estreia nos cinemas brasileiros em 03 de outubro. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite do Adoro Cinema.

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ANNA: obrigada, Deus, um filme bom

ANNA (2019)

Mais uma vez me vejo enveredando pelo viés da resenha lúdica. A verdade é que o mundo está insuportável e um dos poucos escapes que a população tem encontrado é por meio do consumo do que antigamente chamávamos de “arte” e hoje em dia é apenas algo como “ai cara…”.

Essa semana mesmo fomos vitimados com a notícia de mais um filme de Matrix e mais um filme de James Bond. Isso somado à notícia de que a Marvel pode largar o Homem-Aranha e todas as novidades sobre o live action de A Dama & O Vagabundo(???). Quer dizer, dá até desânimo ao pensar que nada de realmente novo surge no entretenimento, e mesmo as franquias vão por um caminho tortuoso (Por que choras, Spiderfan?).

Diante desse cenário desalentador, é até um susto ir ao cinema e ver um filme bom. Olha que raridade, um filme bom! Um filme que não é a vigésima quinta perna de uma franquia, nem reboot, nem live action com bichos feitos no computador. Caramba, que diferente! Um filme bom, enfim!

Porradaria, armas, talheres, toco afiado de mesa

Ontem fui ao cinema conferir a pré-estreia de ANNA, o novo do Luc Besson. O Luc Besson, ou apenas Luc dos Leleques se você é íntima como eu, tem vários trabalhos como diretor nesse gênero cinematográfico “mulher bonita dando coronhada em homem”. Para quem não sabe, o francês (é assim que você fica sabendo que ele é francês), já dirigiu filmes como O Profissional, O Quinto Elemento, Lucy ( kkkk até hoje eu rio), e também Valerian & a Cidade dos Mil Planetas. Então, indo ao cinema ver um filme dele o que você espera é ver um longa nesse mesmo estilinho, mas um pouco pior, já que hoje em dia só sai filme ruim desse bueiro chamado Hollywood!!!!!

Porém, a surpresa.

uhhh cheia de charme / uhhh desejo enorme! / de se aventurar!

ANNA segue o roteiro padrão da história de espiã, que já vimos em outros carnavais e amamos: a linda garota de alguma nacionalidade “exótica” (aqui é russa), com uma história de vida que a tornou uma gelada arma de extermínio em massa. No novo do Besson, a nossa garota é uma modelo internacional que pula de lá pra cá trocando de peruca e matando geral com tudo o que encontrar pela frente: revólver sem munição, toco de mesa, garfo de refeição normal, veneno na seringa.

E aí você vai dizer: Ah, Tati, então é só mais um filme como tantos que já vimos por aí!

E eu te digo que não, eu te digo que você está enganado. E eu te digo isso com imensa alegria, porque o tempo todo me dizem que eu estou enganada, então é uma satisfação quando quem se engana é o outro.

(esse emoji)

O que torna ANNA tão diferente são as muitas reviravoltas que o filme toma, te fazendo questionar o tempo todo em quem confiar, te deixando cabreiro até mesmo com a cronologia dessa história. Verdade seja dita, durante quase todo o filme se você olhar para as pessoas ao seu lado no cinema elas estarão com a cara daquele emoji desconfiado.

E isso é um grande diferencial, se você for pensar que hoje o telespectador tudo sabe, tudo conhece, tudo tem uma teoria, tudo ele sabe mais do que a própria pessoa que fez o filme. Hoje o telespectador é uma pessoa que leva uma vida tão lascada, vivendo em um contexto político tão vil, que ele coloca toda a expectativa de felicidade dele numa porra de um filme, então filme nenhum nunca vai ser bom pra ele, porque o diretor lá no set de filmagem dele não tá pensando “vou gravar essa cena aqui do jeito que o Silvio quer, porque tá foda o presidente do país dele”. Não, meus caros.

O que eu dizia? Sim, ANNA consegue romper esse status quo de desânimo e expectativas irreais do telespectador quando traz uma trama coesa e intrincada, somado a cenas embasbacantes de porradaria e um elenco que faz miséria da arte da dramaturgia inventada por Shakespeare (conceito, por sua vez, inventado por mim).

Pessoas muito bonitas e extremamente talentosas

Muitas vezes, quando você vê a Helen Mirren no elenco de algum filme, a primeira coisa que pensa é: “coitada, fez esse pelos boletos”, porque é difícil um filme que chegue à altura do seu talento. Não raro, em seus filmes ela dá só 10% do seu potencial, tal qual nosso cérebro, que dá só 5% do seu esforço em um dia normal como hoje.

Em ANNA, no entanto, Helen tem a chance de se esparramar na sétima arte. Interpretando a vilã russa (estou simplificando, a personagem tem camadas) que deveria ajudar a bela espiã Anna, mas tem uma certa mágoa que a impede de ser parceira de verdade, a atriz britânica (é assim que você fica sabendo que ela é britânica) dá um verdadeiro show de interpretação, nos brindando com momentos sublimes e até algum alívio cômico.

perfeita

Além disso, temos ainda as interpretações on point de Cillian Murphy e Luke “Gaston” Evans, antagonistas de si mesmos, e mostrando que quem tem amigo não morre pagão: a sorte que o Luc Besson tem de ter esse pessoal no seu casting!

Outra boa surpresa, e na verdade, a melhor delas, é a moça que faz a protagonista. Anna é interpretada por Sasha Luss, uma atriz ainda relativamente novata (ela já vez Valerian, do Besson também), mas com total domínio do seu belo corpo, da sua bela carinha e das suas valiosas emoções.

de peruca em peruca, Sasha Luss vai mostrando quem é na fila da dramaturgia

Dito tudo isso, espero que tenha ficado clara a mensagem que eu queria passar já no título do texto: ANNA é um filme muito bom. Mesmo. Desde a trama àgil, passando pelas incríveis cenas de ação e a fotografia impecável (repare na primeira cena em que Luke Evans interage com Sasha Luss, as cores e os planos daquela cena!), passando pela interpretação primorosa desse elenco chiquérrimo, você vê que o Luc Besson fez mais uma pra Deus.

Fez mais uma para Deus e quem aproveita é a gente, pobres mortais que agonizam e choram por 120 minutos que seja de escapismo, pessoas bonitas e alguma luta envolvendo piruetas e facas. Com ANNA, temos. Primorosamente, temos.


〰️ ANNA: O PERIGO TEM NOME estreia nos cinemas brasileiros em 29 de agosto. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite da Paris Filmes e Arroba Nerd.

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Leia mulheres: Loredana Frescura e Lindsey Kelk

Photo by Montse Monmo on Unsplash

Com títulos diversificados, Editora Fundamento traz o amor sob a perspectiva de mulheres em diferentes fases da vida.

O amor é tema constante na literatura feminina. E ele aparece nela de várias formas.

Seja com o idealismo romântico comum da adolescência ou sob o viés comedido de alguém já mais maduro, temos sempre na literatura feita por mulheres um bom lugar para encontrar as mais variadas histórias de amor.

Um exemplo desse olhar feminino para o mais nobre dos sentimentos é o romance da italiana Loredana Frescura, “Vejo o Mundo Nos Seus Olhos”.

Lançado no Brasil pela Editora Fundamento, o romance conta a história de uma adolescente descobrindo o amor. Com forte pegada romântica, temos a trajetória de Constância, uma menina apaixonada e sentimental, que vê em seu interesse amoroso algum tipo de perfeição. Algo que logo é derrubado pela realidade, como não poderia deixar de ser.

O primeiro amor é sempre algo impactante, que deixa marcas e define em maior ou menor grau como lidaremos com as relações amorosas no decorrer de nossas vidas. Com seu romance curto e poético, Loredana nos mostra como vemos o amor com muito mais pureza e idealismo no começo de nossas vidas.

Uma característica interessante do livro é que ele é escrito em quatro mãos, junto com o professor italiano Marco Tomatis. Em uma dinâmica muito interessante, Loredana é responsável pelos capítulos narrados pela personagem feminina, e Marco escreve os trechos que trazem o viés do protagonista masculino da história.

Se trata de uma abordagem poética sobre o primeiro amor, em um livro curtinho e delicioso de ler.

Em contraponto aos devaneios adolescentes do primeiro namoro está “Eu Amo Paris”, de Lindsey Kelk.

Terceiro livro da série “Eu Amo” (você pode ver a resenha do livro um aqui e do livro dois aqui), nesse volume nossa heroína Angela desbrava o solo parisiense, enquanto precisa aprender a lidar com um namoro subitamente em crise.

O olhar de Angela para o amor é diferente do de Constância, a protagonista de “Vejo o Mundo Nos Seus Olhos”, é claro. No auge dos seus vinte e poucos anos, depois de passar alguns apuros em seus casos, Angela também amadureceu como personagem.

Em comparação com os livros anteriores da série, as trapalhadas e imprevistos estão ali ainda, sim, mas é possível notar que a personagem de Lindsey Klerk vem em uma crescente de amadurecimento. Desse modo, o que temos nesse Livro 3 é uma trama muito mais coesa e centrada, sem deixar de lado o humor e o improvável que lhe é característico.

Um ponto notável de “Eu Amo Paris”, e da literatura de Lindsey Klerk em geral, é como a trama consegue ser leve e ao mesmo tempo abordar sem frivolidade os questionamentos da personagem. Como uma jovem mulher independente, Angela precisa lidar com questões como ciúmes, rivalidade entre mulheres e os dilemas de morar ou não junto com o namorado. Tudo isso sem perder o bom humor e procurando surtar o mínimo possível — algo que a gente conhece bem.

Assim, seja para relembrar os encantos da descoberta do amor ou para aprender junto a lidar com ele na vida adulta, sempre haverá um livro incrível escrito por uma mulher disposto a te ajudar. ❤


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Vejo o Mundo Nos Seus Olhos e Eu Amo Paris através do site da editora.

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Leia mulheres: Lindsey Kelk e Kate Atkinson

Photo by Thought Catalog on Unsplash

Títulos da Fundamento trazem autoras falando sobre amor e suspense em livros sequenciais, sempre com muito humor e delicadeza.

Estava lendo aqui os livros que a Fundamento me enviou em cortesia, dois títulos escritos por mulheres, e que integram séries literárias, e parei para pensar: quantas autoras que escrevem séries de livros a gente conhece?

Claro, assim de cabeça o primeiro nome que nos vem é J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter. Um caso de sucesso entre, possivelmente, milhões de tentativas. Escrever livros sequenciais é um desafio enorme. Se já é difícil manter uma história que apresente qualidade e “interessância” constante por 300 páginas, imagine repetir essa fórmula por mais dois ou três livros? Sem dúvida, é um dom que vem para poucos. No caso das escritoras sobre as quais falaremos hoje, esse dom veio com muita propriedade.

Títulos da Fundamento trazem aos holofotes as autoras de livros sequenciais.

Para começar, vamos falar de “Eu ❤ Hollywood”, título de Lindsey Kelk e segunda obra da série “Eu ❤”. Já falamos de Kelk aqui e do quanto a sua trajetória é inspiradora: de ghost writter a talento contratado pela HarperCollins, gigante da literatura feminina.

Em “Eu ❤ Hollywood”, a britânica Kelk novamente brinca com a fantasia feminina de mudar de cidade e mudar completamente de vida. Aqui, nossa heroína Angela Clark se vê tendo que ir para a cidade dos famosos em busca de uma entrevista com um grande galã de cinema.

Deslumbramento, paqueras, uma boa dose de inconsequência e temos todos os ingredientes para uma chick lit perfeita. Para a série “Eu ❤”, Kelk criou a fórmula de sempre levar sua protagonista para uma cidade diferente a cada livro, criando novas aventuras e novos interesses amorosos. Neste segundo livro da saga, a fórmula ainda está fresca e viva em sua ousadia. O livro dois não repete esquemas do um e temos uma aventura realmente diferente para a jornalista Clark. Com muito humor e leveza, como aprendemos ser característica da autora. É uma excelente continuação e não deixa nada a dever para o livro que inicia a série, outra pérola da Fundamento.

Já a inglesa Kate Atkinson empresta outro tipo de verniz aos seus livros seriados. Com forte pegada de suspense e mistério em sua escrita, seus livros são tão populares que o personagem Jackson Brodie, um ex-policial que se tornou investigador particular, acabou virando protagonista de uma série televisiva da BBC de Londres. A escritora já recebeu vários prêmios literários por sua obra e, em 2011, foi agraciada pela rainha Elizabeth II com o título de Membro da Ordem do Império Britânico por serviços prestados à literatura.

Em “Saí Cedo, Levei Meu Cachorro”, único título da autora traduzido para o Brasil, temos Jackson Brodie em mais uma aventura. O romance é o quarto livro da autora a trazer seu consagrado personagem e o faz em uma trama que mistura passado e presente para contar contar uma história que está longe de ter apenas um lado. O livro conta história de três personagens em paralelo: Jackson Brodie, o ex-policial que atualmente trabalha como detetive particular; Hope MacMaster, uma mulher que procura Brodie para descobrir quem são seus pais biológicos; e Carol Braithwaite, uma garota de programa que fora assassinada há mais de 25 anos e teve o caso arquivado por “força maior”. Em uma narrativa onde a brutalidade é vencida pela ternura, a história desses três personagens se conecta para contar essa trama cheia de mistério e, inesperadamente, humor.

Se temos muitas autoras que escrevem livros em série? Acredito que sim e estas são um bom exemplo de como essa arte é preciosa. Lindsey Klerk e Kate Atkinson, cada uma a seu modo, acrescentam doçura e força à literatura mundial, um livro de cada vez.


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Eu ❤ Hollywood e Saí Cedo, Levei Meu Cachorro através do site da editora.

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Leia mulheres: Lindsey Kelk e Sarah Rayner

Imagem: Lindsey Kelk / Sarah Rayner (divulgação)

Apostando na delicadeza, escritoras da Fundamento trazem novo ar para a literatura mundial

Quando se fala em literatura feminina, é comum ainda o pensamento de que tal gênero verse apenas sobre o que se considera o “universo feminino”, como relacionamentos amorosos, algumas futilidades e questões sentimentais diversas. Limitada assim, por muito tempo, a literatura feita por mulheres, como um todo, foi vista com certo demérito, como se falar sobre sentimentos ou futilidades fosse algo menor ou até mesmo simples.

No entanto, quanto mais o mercado se abre para as escritoras, mais elas provam que podem produzir obras incríveis de todo o tipo, quebrando inclusive o estigma de que “literatura feminina” é algo fútil e raso. Afinal de contas, não existe gênero quando um livro é bem feito. E, quando a narrativa é boa, ela se impõe independente do tema sobre o qual verse.

É o que podemos observar nas obras de Lindsey Kelk e de Sarah Rayner, duas autoras com vertentes diferentes dentro da literatura e, ainda assim, com muitos valores e qualidades em comum. Falando sobre o universo feminino, os dois nomes da Editora Fundamento nos apresentam narrativas incríveis e poderosas sobre mulheres comuns e maravilhosas, como todas as mulheres são.

É sobre o que falaremos a seguir.

Vamos começar por “Eu Amo New York”, da britânica Lindsey Kelk.

A trajetória de Kelk como escritora é inspiradora, para dizer o mínimo. Jornalista de formação e trabalhando como editora de livros infantis, ela teve a ideia para seu primeiro romance ao voltar à Londres após passar um feriado em Nova York.

Foi assim que escreveu “Eu Amo Nova York”, precisamente a história de Angela Clark, uma londrina editora de livros infantis que, após uma grande decepção amorosa, decide de supetão ir para Nova York para fugir de seus problemas.

Coincidências à parte, Kelk usou sua paixão pela cidade de Nova York para construir uma chick lit adorável, onde narra as agruras da mocinha em conflito com seu futuro e presente ao ter seu passado destruído — tudo isso enquanto afoga as mágoas em compras, chocolates e romances de uma noite apenas.

O sonho de toda garota, dirão alguns.

Mas a narrativa de “Eu Amo Nova York” é boa, a protagonista cativa e o livro mostra uma coesão incrível, sem apelar para saídas fáceis e indo para caminhos imprevistos. Existe algum tipo de força em romances assim, escritos com o coração e sem pretensões. E foi com esse romance inaugural que Kelk, então com vinte e poucos anos, bateu de porta em porta nas editoras. Como não poderia deixar de ser, ela teve seu livro negado e seu talento questionado inúmeras vezes: sugeriram que ela fosse ghost writter e até que mudasse de nome — um agente chegou a dizer que Lindsey Kelk parecia “o som de um gato ficando doente”.

Sem jamais desistir, ela acabou conseguindo um contrato de três livros com a HarperCollins, gigante da literatura feminina. Foi o início de sua carreira como romancista.

Hoje, até o momento, Lindsey Klerk já escreveu 13 livros. “Eu Amo Nova York” acabou virando uma série de livros com sete títulos contando as aventuras da nossa heroína Angela Clark nos mais diversos pontos de planeta. Para uma garota com uma escrita “de mulherzinha”, você pode perceber que ela conseguiu ir bem longe — e, certamente, conseguirá ainda muito mais.

Vindo de uma formação e uma vivência diferente, mas com a mesma sensibilidade para tratar de narrativas sobre mulheres, está Sarah Rayner e seu sensível “Um Momento, Uma Manhã”.

Antes de se tornar escritora, Rayner trabalhava como redatora de publicidade. O contrato com uma editora veio em 2001, dois títulos foram lançados, mas foi só em 2010, com seu terceiro livro, “Um Momento, Uma Manhã” que ela alcançou o posto de bestseller.

Também, pudera. O livro vendeu 300 mil cópias apenas no Reino Unido e muitas mais pelo mundo contando uma história delicada e emocionante sobre três mulheres que tem seu destino interligado por uma fatalidade que acontece no trem que elas pegam todas as manhãs.

Abruptamente no trem das 7h44, a caminho do trabalho, um homem morre de um ataque cardíaco fatal. Karen (a esposa), Ana (melhor amiga de Karen), e Lou (uma desconhecida que presencia tudo), são as vítimas indiretas dessa tragédia, sendo afetadas em diferentes níveis. A forma com que vão lidar com isso também difere entre elas, mostrando que não existe jeito certo ou errado de lidar com um sentimento.

Romance pegado nas relações humanas, a narrativa alterna os pontos de vista dessas três protagonistas, dividindo a história em dias, minutos e horas. Sem cair no dramalhão e com uma maestria que impressiona, Rayner parece mesmo ter atingido seu ápice criativo em “Um Momento, Uma Manhã”. Deve ser mesmo verdade aquela crença de que para ser bom, você precisa praticar. Em seu terceiro livro, a autora finalmente se encontra e nos entrega o seu melhor. Se trata de tratado tocante sobre perda, amizade e superação, uma história delicada contada por Sarah de forma empática e inteligente.

Comparado com “Eu Amo New York”, o título de Sarah Rayner é um tanto mais profundo e maduro. Mas, de algum modo, a literatura das duas se completa. Nem tanto ao norte, nem tanto ao sul, é ótimo ter esse panorama amplo para que possamos escolher com propriedade para onde queremos navegar. Se nas ondas doces da descoberta pessoal ou nas águas profundas do redescobrimento interno.

Seja como for, uma mulher sempre poderá lhe contar essas histórias.


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Eu Amo New York e Um Momento, Uma Manhã através do site da editora.

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Quando finalmente voltará a ser como nunca foi

Com relato tocante sobre uma infância incomum, lançamento da Editora Valentina encanta e faz pensar

Josse precisa atravessar todos os dias um quintal enorme cheio de loucos até conseguir chegar ao portão e ir para a rua, para o colégio. De alguns desses loucos, Josse tem medo. De outros, ele consegue tirar algum tipo de empatia e fazer deles amigos. Gosta de ouvir dormindo seus gritos, quando eles gritam é porque está tudo normal. Josse é só uma criança e já sabe, desde muito cedo, que loucura é um conceito relativo em um mundo confuso como o nosso.

Livros que trazem relatos de infância são o que há de mais puro na literatura. É difícil não se reconhecer nas emoções cegas que histórias como essas trazem. No caso de Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, (Editora Valentina / 2016 / 350 páginas), de Joachim Meyerhoff, mesmo sendo uma trama tão improvável, a identificação é imediata e desnorteia. Falando de um menino que mora nas dependências de um hospital psiquiátrico — o pai é diretor da instituição — Joachim acaba por falar um pouco de cada um de nós.

É um livro de memórias. Josse vai contando capítulo a capítulo os “causos” de sua infância povoada por doente mentais, cachorros que eram sua vida, uma vontade enorme de viver mergulhado nos livros e uma família atípica. Pelo pai ele nutre uma admiração desmedida, própria de criança inocente, que o blinda de ver os seus muitos defeitos. Pela mãe, uma mulher doce e com recorrentes crises nervosas, sente um medo respeitoso. E ainda têm os dois irmãos mais velhos, que tratam de acrescentar adrenalina à sua vida, com provocações e brigas.

Para além da história extraordinária, é preciso falar do projeto gráfico desenvolvido pela Editora Valentina para esse livro. Cuidadoso e atento aos detalhes, se vê que foi feito com muito carinho desde a capa (com figura central em relevo) e suas partes internas, que contam com ilustrações mencionadas na história, em uma beleza que se estende até as páginas internas do livro, com o título meio torto no topo, entregando que ali nada é como se espera.

Esse livro é daqueles raros, que você nem imagina o estrondo que vai causar no seu coração ao lê-lo pela primeira vez. Falando com melancolia e saudosismo dessas improváveis histórias de menino, Meyerhoff traz um livro incrível, de tirar o fôlego, mostrando de um jeito doce e triste como a infância é o nosso primeiro e último refúgio de ingenuidade. E que, mesmo em um mundo corrompido, nosso amor pela família e pelo o que ela representa acaba por tornar tudo grandioso e definitivo nessa fase da vida.

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A literatura de Anne Holt

Anne Holt — Foto: Ole Gunnar Ønsøien/NTB scanpix

Uma questionadora que é fenômeno de vendas, suas obras chegam ao Brasil pela Fundamento

Uma das escritoras escandinavas de mistério mais bem-sucedidas do mundo, com mais de 6 milhões de livros vendidos, Anne Holt acredita que a realidade é dura e merece ser contada com essa mesma dureza. Sucesso com seus romances policiais onde uma mesma personagem se desdobra para resolver casos de assassinato e violência, seus livros estão aí para provar que ela segue à risca o que diz.

Lançamentos recentes da Editora Fundamento, “Demônio ou Anjo” e “Números de Azar” trazem a detetive Hanne Wilhelmsen tendo que lidar com diferentes crimes em uma corrida contra o tempo e também contra condições nem sempre favoráveis. Tendo lido os dois livros de uma vez só, posso dizer que ambos entregam o que prometem: muita ação, violência e suspense. No entanto, eles vão além e entregam um pouco mais, algo difícil de se encontrar na literatura detetivesca (e na literatura como um todo): um toque de conscientização sobre temas delicados como maternidade e violência sexual contra mulheres.

Em Demônio ou Anjo, temos o caso de uma mulher que é brutalmente assassinada dentro do local de trabalho, um orfanato. Desde o primeiro momento, temos em paralelo a voz da mãe de uma dessas crianças nos contando como seu filho foi parar nessa instituição. Como o caminho dessa mãe e do assassino vão se cruzar, é o que veremos mais adiante nessa leitura de final surpreendente. Aqui, Holt usa o crime como pano de fundo para uma narrativa maior, que é falar do destino das crianças largadas à próprias sorte em casas de apoio — e da luta das mães que, sem apoio externo algum, são forçadas a deixarem seus filhos para que outras pessoas cuidem e ainda são condenadas por isso pela sociedade.

Números de Azar é a terceira aventura da detetive Hanne Wilhelmsen e dessa vez as coisas são ainda mais violentas. Em meio ao verão de Oslo, um serial killer escolhe sempre o dia de sábado para atacar, deixando um rastro de sangue e números misteriosos marcados nas paredes das casas onde ataca. Cabe à Hanne se antecipar ao criminoso e descobrir sua identidade antes que o próximo final de semana chegue. Aqui temos cenas fortes de violência sexual e é preciso ter estômago forte para prosseguir com a leitura, muitas vezes sendo impossível evitar as lágrimas.

Segundo Anne Holt, esse incômodo é proposital e necessário.

A intenção não é escrever desta maneira tão dura para comover, o que acontece é que a realidade é difícil e você tem que contá-la assim. Fico feliz em saber que o sentimento do leitor ao ler seja este, porque este é o caso. O que acontece é assim tão difícil.

— Anne Holt em entrevista ao El Diario.

Hanne Wilhelmsen, a detetive de Anne Holt, é uma mulher forte e determinada, mas também com muitos questionamentos internos. Se não mede esforços para cumprir seu trabalho e levar até o fim suas investigações, por outro lado, deixa escapar o fio da meada da sua vida pessoal, negligenciando relacionamentos e a si mesma. Outro ponto interessante dessas histórias, Wilhelmsen é lésbica e tem dificuldade em assumir publicamente seu relacionamento de anos com a namorada, com quem divide o lar. Mais um ponto incomum nesse nicho de literatura, sobretudo por ser tratado com respeito e sem apelação (algo que, vamos falar a verdade, poderia acontecer se não fosse uma mulher a escritora).

Se trata, sem dúvida, de uma autora incomum e é uma alegria saber que vende tanto. Embaladas em histórias empolgantes e escritas com esmero, temos questões importantes para serem debatidas. Isso só comprova que entretenimento não precisa ser algo “vazio” de significado, mesmo quando à primeira vista parece ser. Apenas um livro, alguns dirão. Mas a conscientização começa por aí e é incrível ver uma mulher tendo a voz que Anne Holt tem para levar esse debate à diante.


Você pode adquirir os livros de Anne Holt clicando aqui e aqui.