crônicas

Longe de casa

Imagem: Gratisography

Mas é que“casa” é o conceito mais amplo de todos

O supermercado continua no mesmo lugar, só o que acontece é que aumenta de tamanho a cada ano, as lojas ficam sutilmente mais modernas. Um universo que se expande e respira, volta a existir quando ponho os pés aqui. São as conversas e os sotaques, a generosidade emocionada da visita recebida fora de época, os causos que se acotovelam em fila querendo ser contados. Eu fui embora e esse mundo ficou.

Esse mundo ainda existe. Eu sei disso porque já li em muitos livros, sei mais ainda porque vivi: eu não era triste, eu só morava na cidade errada. Fosse possível contratar um serviço de mudança e levar essas pessoas em uma cápsula até São Paulo, eu levaria e seria mais feliz ainda. Mas não dá, tudo teve que ficar para trás na mudança. Os sotaques, os causos, o bebê que ri todo banguela, a música que conforta por ser sempre a mesma.

Vão construir um condomínio ali onde era a tua creche.

É triste não saber seu lugar no mundo, mas tem vezes que dói ainda mais quando você já sabe. Eu deixei a minha vida em pausa por uns dias e fui brincar de passado. Passeios e atrações turísticas me cegavam sob o Sol, no silêncio da noite falta alguma coisa. A conversa de final de dia, indecisões sobre o jantar, até os pequenos estranhamentos dão saudade, os gatos correndo e soltando pelo, derrubando coisas. Teu coração vai tropeçando de verdade em verdade ao perceber que você pode ter mil casas, só uma é o seu lar de fato. Você não perdeu os outros, mas tem aquele que é, apenas é, em uma certeza sólida e pontiaguda que pesando torna seu coração mais leve.

Preciso vir sempre, nunca para ficar muito. Minha casa, meu lar, me espera. Preciso voltar logo, não posso mais ficar tanto tempo longe sempre.

Construí um lar ali onde era o meu medo de tentar.

O supermercado esse ano está com a máquina de café quebrada na padaria. Peguei um no balcão de atendimento. “Nunca é como o de casa”, disse a moça que me atendeu. Café adoçado e fraco, feito para agradar a qualquer custo, como eu não provava fazia tempo. “Nunca é como o de casa, mas a gente não pode ter tudo”, ela sorriu.

crônicas

A história de amor que não acabou

Treino da Ladies of HellTown, julho de 2013 — Foto: Lucas Red

Glória aos que ficam, saudade e amor aos que vão embora

Falar das Ladies of HellTown é fácil. Desde o primeiro momento sempre foi. A primeira liga de Roller Derby do Brasil, o que a torna por direito e mérito a maior e mais antiga do país. Liga membro pleno da WFTDA, campeãs do Brasileirão desse ano. Sulamericano elas participam todo ano, descem e sobem serra pra jogar, vão pro Rio de Janeiro fazer festa, ensinam quem quiser aprender, abraçam o mundo e o carregam nos ombros a cada jam.

Falar da minha história com as Ladies é difícil. Me dói, tinge minha vista de lágrimas. Um grupo de meninas que conheci em 2012 e engoliu a minha vida me devolvendo outra totalmente nova, vibrante, cheia de significados e desafios. Que virou tatuagem, roxos nas coxas e algumas dores eternas no joelho direito se forço muito. Um esporte que me tirou da minha condição de “sedentária com orgulho” e me colocou no centro do domínio do meu corpo (vê até onde vai esse músculo? e ele é seu. vê até onde vai a exaustão? você aguenta mais um pouco), uma imersão em tipos, uma variedade de personalidades que me fez repensar a minha. Uma obsessão que durou por anos até que precisei me ausentar.

É por isso que dói falar da minha história com as Ladies. Por que eu me ausentei. Eu sai. Por conta do câncer — e depois não coube mais na minha vida. A Ladies não é para quem pode se doar só um pouco. Ela te quer sempre por inteiro e eu mudei demais, ainda que nunca tenha deixado de amá-la. Nossa história de amor foi interrompida desse jeito estranho, algo com o que ainda não me acostumei. Vendo ela prosperar sem mim, me vejo enciumada. Leva pouco e percebo que ficar brava com ela é perda de tempo. Feito a ex bonita que só melhora a cada dia, ela não liga para a opinião alheia e só floresce. Só me resta aceitar que não estamos mais juntos e torcer para que seja feliz sem mim.

A Ladies é muito grande. É gigante. E sempre foi, embora no começo fossemos apenas nove meninas para formar dois times de dez (sim, não dava — jogávamos mesmo assim). A Ladies é enorme, transborda. A cada volta completada na track, avança um pouco mais. Campeonatos, jogadoras chegando a cada mês, times novos dentro da liga e agora, uma quadra só delas.

Dá pra acreditar nisso? Em um esporte só de mulheres, totalmente “faça você mesmo”, sem apoio nenhum da iniciativa pública, as minas vão lá e conseguem uma fucking quadra? A Ladies é gigante demais, meu irmãozinho.

Lembro de mim no meu primeiro treino, o chão era de taco e a quadra era tipo apartamento de solteiro: pra entrar dois, tinha que sair três. O primeiro jogo nosso, o primeiro do Brasil, no chão batido do Memorial da América Latina. Todas essas histórias as novatas de hoje devem saber, mas a gente nunca vai deixar de contar.

Outras lembranças são mais minhas. A Shyrlei brava quando a gente dava abraço (aí que a gente abraçava mais). A Manu pedindo pelo amor de Deus pra gente ficar quieta pra ela passar o treino. A Daph me fazendo gargalhar até cuspir o protetor bucal. A Tati C. acalmando o time inteiro com um simples “não, relaxa”. Sakura voando até o teto e caindo em pé (cinco pontos). A Bá dando show na track e a Paulinha dançando até o chão antes do jogo começar. A Folco prestando atenção em tudo e me explicando depois. A Luka sendo tão nerd que era humanamente impossível. A Beki trazendo marmitinha pra comer no intervalo. A Biazinha sempre uma dama. A Biazona dona da porra toda. Nina minha primeira derby crush. Micha e a risadinha que sempre me fazia me sentir menos só. De cada menina que eu conheci nas Ladies, quis ser igual em alguma coisa. Não era falta de personalidade minha, era muita personalidade delas.

Hoje a Ladies é ainda maior do que éramos no começo. Das alegrias de ter uniforme novo (é esse logo mesmo?), passando pela euforia com um jogo improvisado (vai ter nome nos times?), o jeito mambembe que experimentamos vai sendo deixado de lado enquanto a liga caminha para um profissionalismo sem precedentes no Brasil. Um caminho que a coloca em seu lugar de direito por toda a luta desses anos.

Lembrando de todas essas coisas, dessas meninas e do que vivemos, revejo meus medos. Um grupo tão maravilhoso não deixaria raízes fracas. De onde eu pude tirar que a Ladies é minha ex? Nunca terminamos. Não seria possível nem se eu quisesse. Feito a tatuagem que tenho delas, a liga está gravada em mim. E percebo que é recíproco, ainda que o grupo de hoje seja outro quase que por completo. Mudou muita coisa, menos o amor que emana da Ladies e que é parte do DNA dela. Tão grande quanto sua história é seu coração, percebo que não vai ser como se tivesse esquecido de nós que ficamos pelo caminho. Vejo hoje, com essa notícia da quadra, que nem eu deixei de gostar dela e nem ela deixou de pensar em mim. Descubro, radiante, que essa história de amor não acabou.

Um jogo inaugural acontecerá e eu estarei lá. Nos reencontraremos após meses (anos?) afastadas. O que será que eu vou sentir? Será que vou chorar muito ou “apenas” muito mesmo?

Não sei. Só sei que estarei na arquibancada para vê-la brilhar, para vê-la ser a Ladies linda e forte pela qual me apaixonei à primeira vista já se vão uns bons anos. Estarei lá para saber que o amor nunca terminou e não preciso ter ciúmes. Ela ainda é minha, mesmo hoje sendo mais do mundo do que dos limites pequenos das quadras diminutas pelas quais passamos.

O sentimento continua o mesmo, ainda que nossos caminhos hoje sejam diferentes.

Não é o que dizem do amor verdadeiro? Pois assim este amor é.

Brain Dump*

Fui comprar café e chorei

Foto: Death to Stock

Essa cidade pode te deixar sentimental feito o diabo

Tenho pensado nisso ultimamente: até que idade você pode ser sentimental? Com 32 anos me parece que não se pode mais ser emotiva, ter dúvidas e aflições e escrever sobre elas. Parece que é exclusividade dos adolescentes escrever longos desabafos, abrir o coração e pedir ajuda. Dos adultos, se espera que você seja mais calado e tranquilo. Bom, ainda que eu seja tranquila, é impossível ficar imune ao sentimentos que me assombram vez ou outra.

Hoje fui comprar café, sai para a rua e dei de cara com uma banda tocando ao vivo na Paulista. Um trio metal de meninos novinhos e estilosos, eles tocavam uns Bruno Mars de raiz, uns hits do pop que tanto me cativam, e aquilo me atingiu feito um soco. Lembrei do meu pai, guitarrista e luthier fã de “boa música”, pensei no quanto ele ficaria encantando em andar pela Paulista junto comigo e ver essas bandinhas dando show a cada cem metros.

É claro, eu fiz uma escolha. Se não estou agora ao lado do meu pai e do restante da minha família é porque eu quis. E eu sou feliz com essa escolha, mas ainda assim existem esses momentos. Esses em que nada acontece e você chora. Você sempre vai encontrar pequenos vestígios do que deixou, essas lembranças doídas, essas possibilidades que são feridas abertas que não fecham nem com o passar dos anos.

Gravei alguns segundos da apresentação dos caras, mandei pra minha mãe falando pra ela mostrar pro meu pai. Guardei o celular no bolso e chorei. Ridículas e cafonas, lágrimas escorriam por baixo do meu óculos de grau. Pelo amor de Deus, como você se constrange e me constrange, eu disse para mim mesma em silêncio.

Depois passou.

Eu imagino as pessoas me vendo na rua chorando, as pessoas vendo meus textos na timeline e pensando “Jesus Cristo, você já é adulta, cresça”. A verdade é que eu sou meio assim mesmo e não tem muito o que fazer. Provavelmente ainda vou escrever sobre meus sentimentos até o final da vida, ainda vou constranger e afastar conhecidos e desconhecidos sempre que tiver a chance.

Ainda vou ver um cara tocando guitarra na rua e lembrar do meu pai. Ler um livro e pensar “caralho, como eu queria poder abraçar o protagonista”. Ainda vou me magoar quando notar pela enésima vez que ninguém liga para o que escrevo.

Mas é isso. A gente seca as lágrimas e continua. Aos 15, aos 32, o resto da vida e a vida toda.