crônicas

O dente doendo, continuei tentando

Photo by Polina Sirotina from Pexels

Uma parábola direto dos anos 2000, situada ao sul do Brasil

Desconfio que eu já esteja ficando velha o suficiente para começar a escrever minhas memórias. A vida passa tão rápido, não é mesmo? Cruzando a barreira que me deixa mais perto dos 40 do que dos 30, parece que recai um véu de nostalgia segura sobre as minhas lembranças.

Como se fossem todas pitorescas e curiosas, e já não doessem mais.

Grandes acontecimentos marcam a nossa vida, mas são aquelas pequenas passagens triviais que acabam por moldar quem somos. Aquelas lembranças bobas e tão suas, histórias sem começo nem moral, que volta e meia ressurgem no cérebro e atingem em cheio o coração. Disco riscado (vocês, jovens, conhecem essa expressão?), cujo som adulterado é mais confortável que a melodia original.

E assim você cria parábolas personalizadas e exclusivas, criadas a partir de momentos que são só seus.

Estava pensando nisso, pois lembrei da vez que realizaria meu grande sonho de comprar meu computador. Isso foi décadas atrás, pensem. Eu com meus vinte e poucos anos, a visão de mundo do tamanho de um punho, juntei por meses a astronômica quantia de R$500 para comprar meu primeiro computador de mesa. Adeus, usar emprestado o PC do meu irmão. Adeus, máquina lenta e estranha. Eu poderia voar sozinha!

Meu irmão, aliás, seria peça-chave nessa empreitada. Caberia a ele, com toda a sua agilidade e bom coração insuspeitos, cruzar a fronteira até o Paraguai e comprar o equipamento para mim. No Paraguai era assim (em algumas lojas, não todas, imagino que ainda é): você precisava pagar tudo à vista, no dinheiro.

Então, após algum esforço, as suadas cinco notas de cem passaram das minhas mãos para as do meu irmão. Era sábado, o dia de ir no Paraguai é sábado, meu irmão atravessaria a ponte e buscaria meu PC (modelo e especificações nem eram uma questão para mim, se você tem um irmão mais velho, você grita “eletrônicos” e ele decide por você).

Foi o meu irmão pegar o dinheiro, eu comecei a me sentir mal. Não vou mentir, eu sempre adiei minhas dores até ficar ridículo. Naquele sábado de manhã, ficou ridícula a dor de dente que eu sentia timidamente há semanas.

Ficou insuportável. Vai a minha mãe correr comigo pelo centro da cidade atrás de dentista que atendesse. Plano Dental era um luxo, claro. SUS, só em caso de morte. Sorte (sorte?) que naquele tempo fervia a moda do consultório dental a cada esquina, com nomes entusiasmados como SORRIA MAIS ou FELIZ SORRIR ou DENTE SAÚDE, coisas assim.

Batemos numa dessas portinhas, eu e minha mãe. O moço atendeu rápido e foi de uma empatia ímpar. Até hoje eu fico meio emocionada só de lembrar como ele me atendeu e entendeu: eu estava urrando de dor, remédio não adiantava, era canal e eu não tinha dois reais no bolso. Mesmo assim ele fez o que pôde. E disse que o tratamento podia resolver na hora, se eu fizesse agora mesmo.

O preço do tratamento de canal? Você já sabe, né?

Toca a minha mãe ligar para o meu irmão. Atendeu o celular, ainda não tinha passado a ponte, baita sorte (sorte?). Nem fez perguntas, voltou com a moto e foi até o dentista. Entregou o dinheiro na minha mão. Subi pro doutor de novo, deitei na cadeira. Lá se foi o meu computador novinho, meus quinhentos reais.

No Paraná a gente não fala muito, mas eu lembro do olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro. O que vou colocar nas minhas memórias é aquele olhar. Era algo entre “mano, que bosta” e algum trecho do manifesto comunista que nenhum de nós dois nunca lemos. Uma derrota tão funda e frívola, doía mais justamente por ser tão mundano.

O sentimento ultrajava porque não era “você está triste por isso??” era “caralho, eu não posso ter nem isso??“.

Que inferno, ser pobre assim. E, ao mesmo tempo, era essa a realidade. Eu não conhecia outra. A realidade era aquele olhar contrito do meu irmão. Traduzia tudo.

Arrumei os dentes, levei mais um ano até poder finalmente comprar o PC. E o que eu guardo disso tudo é essa solidão tremenda que senti no dia. Não temos dinheiro, engula seus sonhos, vocês só têm uns ao outros. O olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro, vida de merda, mas hey, que tal continuar tentando? O que mais você pode fazer?

E, além do mais, a dor de dente passou. Mesmo sem o tão sonhado PC, sem dor a vida até parecia um dia subitamente bonito, feito um raio de Sol se abrindo depois da chuva.

Continuei tentando. Algum dente sempre vai voltar a doer. Continuo tentando. E foda-se.

crônicas

Do que ficou, as manhãs e as maçãs

Photo by Annie Spratt on Unsplash

Os sábados eram os nossos dias juntos. E em um sábado você partiu para sempre.

Por muitos anos durante a nossa infância, os sábados eram o nosso dia e as manhãs de sábado eram dedicadas à uma tarefa tão aborrecida quanto inusitada: catequese das 8h às 10h na Igreja Matriz. A gente se encontrava por lá mesmo, no pátio dos fundos da igreja, e ia juntos para a sala.

Durante a aula, trocávamos olhares espantados e cúmplices, dando de ombros a cada lição alarmista da freira e professora. Folheando o livro de catecismo, a gente perguntava um para o outro com o olhar: seria Deus tão malvado assim?

Até hoje, ainda tenho minhas dúvidas.

Depois corríamos até o ponto de ônibus e juntos íamos para a casa da vó, onde você morava e eu passava o sábado. No ônibus, você o moleque esperto e eu a menina tímida, conversávamos sobre todas as suas grandes artes da semana. Você me contava da escola, do video game, da piscina do vizinho. Eu ouvia quieta, jamais seria tão descolada quanto você.

Você que tinha o computador e a piscina do vizinho, o quarto só seu e a vó só sua, todos os livros da sala que você não lia, você que mesmo assim encarava todos esses privilégios de um jeito tranquilo, humilde, sem alardear nada. E era generoso o suficiente para dividi-los comigo como um irmão mais velho.

O resto do dia revelava momentos melhores que as manhãs cheias de medo cristão. Quando a tarde de sábado caia, a vó dava um cesto de frutas para a gente vender na rua. Hoje eu vejo que ela só inventava aquilo porque queria ter um descanso da nossa bagunça em casa. A gente andava um pouco, não vendia nada, olhava um para o outro, dava de ombros e sentava no meio-fio para comer todas as maçãs da cesta. Voltávamos para casa com a cesta vazia e a barriga cheia. Nossa vó nunca pediu o dinheiro das “vendas”, porque ela sabia e a gente sabia.

Até hoje, sempre que vejo maçãs eu lembro de você e da gente, e da nossa inocência ao comer maçãs na beira da rua vendo o Sol ir embora e a tarde morrer.

Você sempre foi a síntese de alguém que sabia aproveitar a vida em cada mínimo segundo. Hoje eu penso que, de algum modo, você sabia que não seria para sempre, não para sempre como agora dolorosamente é para nós que teremos que continuar sem você. Você sempre foi o festeiro, o sorriso aberto, o deboche até o limite, o improvável irritante inaceitável adorável.

Você sempre foi a nossa alegria e agora foi tirado de nós.

Da última vez que estive em Foz, você estava bem como há tempos eu não via. A gente tinha a coincidência bizarra de dividir não só idade, família e histórias, mas também a mesma trágica doença. Mas nunca falávamos sobre isso, nunca dividimos nossas dores como pacientes de câncer porque nunca quisemos nos ver como vítimas. E porque você era legal demais para perder tempo se lamentando, você aproveitava vivendo cada chance que tinha de viver.

Naquela última vez que saímos juntos, você estava tão feliz. Lembro de olhar para você e pensar que esse seria você pela vida toda, se não fosse o destino trágico que te limitava há anos. Naquela noite, nada te impedia. E fomos de bar em bar, rindo, dançando, arranjando encrenca, dirigindo perigosamente bêbados pela cidade que dormia. Eu como sempre querendo acreditar em romance, te perguntei se você amava a menina que passou a noite toda de olho em você. Você disse que sim, mas que essas coisas não eram para você, que nunca iria namorar ou casar.

Mais uma vez, eu acho que você sabia.

No dia seguinte, nós dois na casa da minha mãe, cada um jogado em um sofá olhando o celular. A gente não precisava alardear muito a vida, a gente sabia que ela era um sopro, então ficávamos em silêncio fingindo não saber a fragilidade de tudo o que acontecia. Você me mostrava coisas no celular, a gente ria. Alguns minutos depois, se levantou e foi embora. Sem maiores despedidas, por que quem imaginaria? Foi a última vez que te vi.

Agora, nunca mais.

Fico pensando no que fizemos de tão terrível para Deus tirar você da gente tão cedo. Pensar isso enche meu coração de raiva e mágoa. E então entendo que a pergunta é outra: o que fizemos para merecer ter você na nossa vida por tanto tempo? Esse foi um presente maior do que qualquer outro, sem dúvida.

Você foi o filho tardio que a minha vó precisava ter, enchendo a vida dela de emoção, humor e vida. Foi o filho crescido que a minha mãe precisava, quando viu os seus próprios saindo de casa e seguindo a vida. Foi o irmão e o pai que a minha prima precisou. Foi o alívio cômico dessa família que ri junto e chora escondida.

Você foi um raio de alegria que cruzou a nossa vida. Nem sempre perfeito, muitas vezes irritante, mas sempre bom, sempre generoso, sempre presente.

Ontem eu vi uma série, o personagem dizia que as pessoas têm um tempo certo para nascer e para morrer e que quando elas vão embora, é porque cumpriram sua missão na Terra. Não sei muito sobre isso, acredito que você ainda tinha tanto para viver. No entanto, não posso fazer nada além de aceitar.

A injustiça de tudo isso machuca como poucas coisas no mundo, mas existe a marca que você deixou por aqui, não é? Sua lição foi a alegria, o amor, a galhofa, o inesperado. Vou levar isso comigo para sempre, assim como a lembrança do presente que você foi em nossas vidas.

E te agradeço por ser um filho para minha mãe, um irmão para o meu irmão, um neto para a minha vó. E te agradeço pelas maçãs e pelas manhãs de sábado. Foi uma boa aventura, primo. Obrigada por me deixar participar dela junto com você.

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Isso é só seu

Photo by Seth Macey on Unsplash

Apenas aceite e acelere, vá em frente

Calcei os patins e fiquei em pé. A vertigem envelopou meu medo e me fez procurar o chão novamente. Sentei. Pensei: é isso, não consigo, foda-se, vou colocar o tênis de novo e voltar para casa. Me contrariando, a avenida bonita se abria em Sol e pessoas bonitas e estilosas, que diziam que era um dia bonito demais para ser desperdiçado por medo.

Levantei novamente. Andei. Passos tímidos, remadas ansiosas, as rodas sob os meus pés trepidavam no asfalto maltratado. Olhei para mim mesma, em pé e mais alta por conta dos patins. Aceitei meu sorriso e acelerei o passo. O chão estava longe, em poucos minutos eu voava.

Fazia três anos que eu não andava de patins. Parei por conta da doença, depois ficou difícil demais voltar. Prioridades mudam. Sentia falta de voar baixo, de sentir o vento no rosto. Sentia falta e nem sabia, algumas saudades a gente soterra no meio de outras necessidades, em busca de viver sem mágoa.

Nesse domingo, eu quase alcancei o céu, pelo menos na sensação que tive. De reencontro. Insegura, andava devagar, tão atenta à tudo que parecia uma maníaca. As pessoas ao meu redor me olhavam com simpatia: um patins quad sempre chama a atenção. Eu me arriscava e me surpreendia comigo mesma.

Seu corpo lembra o que você esquece. Descobri que ainda sei ficar no derby stance, postura de jogadora de Roller Derby. Descobri que ainda consigo desviar bem e rápido das pessoas, evitando colisões. Sei ainda qual piso é melhor para as minhas rodas, intuitivamente eu seguia pelo asfalto melhor na longa Paulista.

Em trinta minutos, percorri a avenida toda uma vez e meia. Descalcei o patins, absolutamente surpresa. Eu consegui fazer isso, então? Consegui. Sozinha.

Voltei no feriado. Dessa vez andei por uma hora, fiz dez quilômetros. Chegou um ponto em que eu nem sabia mais onde estava. Só sei que estava na Paulista. Voando baixo, não como antigamente, mas melhor do que imaginava que seria, após tanto tempo. Com o patins nos pés e a mochila nas costas. De óculos escuro, abaixando até o chão para fazer graça. Parando para tomar ar, de tanto ar a boca secava.

Esse momento é só meu, eu penso sem meme nenhum.

Não tenho tido mais tanta vontade de me dividir. Redes sociais, interações sem graça só para manter a amizade. Tenho vontade de ficar quieta e ser só minha. Quero melhorar como pessoa, mas para isso preciso olhar para mim. Fazia tempo que eu não olhava, só olhava para fora.

Nesses dias, de patins, eu me reencontrei. A Paulista tão linda e boa, fervendo de gente e de sons. O calor da tarde, que aquece sem incomodar. De patins pela avenida, eu não incomodo ninguém.

Existe algo que é só seu no que você sente, não adianta tentar passar para os outros. Ninguém vai entender por completo a importância disso para mim, esse momento é só meu, eu digo sem meme nenhum, mais uma vez. A sabedoria está em entender a natureza disso e aceitar sem mágoa. Ninguém vai entender, então que bom. Isso é só seu. Aceite. E agradeça.

Fico na ponta dos pés, me aprumo e me equilibro em cima dos meus freios. Arranco em direção à avenida, rápida como um dia já fui. O mundo é meu, na mesma medida que tenho coragem de tomá-lo para mim. Ao final da tarde, uma certeza abraça meu coração: eu posso e vou, só depende de mim. Sempre dependeu só de mim. Descalço os patins, as pernas bambas de alegria e esforço físico, um sorriso gigante toma conta do meu rosto. Pensei: é isso, eu consigo, foda-se, vou colocar o tênis e voltar para casa.

Voltei para casa, ainda a mesma e completamente diferente, pois um novo mundo se abria.

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Dezoito de março, tudo sobre minha mãe

Eu e minha mãe, em sua primeira viagem à São Paulo, quando adoeci em 2014

Como tantas, uma história que precisa ser contada

Existe uma foto minha com a minha mãe que eu adoro. É do meu aniversário de sete anos, na festa feita na escolinha onde eu estudava. Minha mãe era também a professora da turma, então, mais do que justo, ela está ao meu lado na hora de cantar os parabéns.

Em 1991, felizes em meu aniversário

O meu vestido, em tricô rosa com seus detalhes em branco e sua gola em tecido fino, foi feito por ela. Me lembro das várias provas que fizemos nas semanas anteriores até que eu finalmente pudesse usá-lo naquele dia tão especial.

Minha mãe, linda e no auge da juventude, usa um look azul petróleo que até hoje nunca consegui imitar por completo, me faltando sempre esse porte ou esse bom gosto.

A coisa de usar dois relógios era moda na época, o cabelo assim em camadas e com as pontas aloiradas também. Com o sorriso mais lindo que se pode ter, no momento em que a cantoria acaba e eu faço um pedido antes de soprar as velinhas, minha mãe me beija o rosto como quem me conta um segredo, um segredo que eu sempre soube: lembro com exatidão que nesse momento ela dizia que me amava. Não “eu te amo” ou “eu amo você”. Era sempre “ti amo”, com ti bem pronunciado, como um código especial entre nós duas. É assim até hoje.

Tenho pensado muito ultimamente na necessidade de que contemos as histórias das mulheres que admiramos. Precisamos falar sobre mulheres, precisamos tomar esse espaço nas narrativas cotidianas. Precisamos falar sobre as mulheres como falamos sobre os homens, tornar essas pautas equivalentes em quantidade. Recentemente, com um grupo de amigas, a pergunta era qual pessoa era a sua maior inspiração. A minha, sem dúvida, é a minha mãe. No entanto, percebi que não sabia tantas histórias sobre ela.

Com meu pai, outro grande cara que merece ter sua história contada.

Como é óbvio de se imaginar, as histórias todas que sei da minha mãe vêm do olhar que tenho dela como filha. Não sei muito do seu tempo de garota, das suas histórias do tempo de solteira. Sempre vi a Neti, a mulher de temperamento forte e coração mole, como minha mãe apenas.

No entanto, conforme crescemos, aprendemos a nos distanciar desse olhar fraternal e a ver nossos pais mais como indivíduos comuns, passíveis de erros e acertos, assim como nós. Desde que saí de casa, oito anos atrás, passei a me ver mais como um indivíduo único, não apenas como a filha, a parte mais nova daquela família nuclear de onde vim. Ao mesmo tempo, a cada ano que passa, percebo mais e mais traços da minha mãe em minha personalidade. Nada que eu invente ou force, mas muitas vezes me vejo tendo o olhar dela para o cotidiano. Sua praticidade, a resiliência e a doçura inesperada que resolve em segundos um conflito que eu mesma criei.

Não sei muito sobre minha mãe antes do meu nascimento e isso é um erro, mas hoje, em seu aniversário, percebo que ela já passou mais tempo sendo minha mãe do que não sendo, então quem sabe meu erro não seja tão ruim assim.

Após minha primeira cirurgia, em 2014, quando do meu tratamento do câncer

O que sei da minha mãe e posso contar são essas histórias que vivemos juntas. Como quando estive doente e ela viajou de ônibus por quase um dia inteiro para então ficar por semanas dormindo em um sofá ao meu lado, em um quarto de hospital.

Como quando, incontáveis vezes, ela me mostrou que preciso ter calma diante do que não posso resolver. Acho que ainda não aprendi, mas ela segue me ensinando.

Quando eu era pequena, me magoava porque brigávamos e eu queria ficar uma semana sem falar com ela. Quando ela brigava com meu irmão, em dois segundos eles já estavam se falando de novo e eu via nisso uma prova inegável de que ela gostava mais dele do que de mim. Que besteira. Quanto mais me conheço, mais conheço minha mãe. E entendo que ela sempre foi boa, sempre foi justa, sempre foi coração e alma, corpo forte e trabalhador que nos sustentou com trabalho e amor por anos. E eu sempre fui uma menina brava, exigindo provas de amor sem conseguir enxergar que elas sempre estiveram diante dos meus olhos.

Meu marido, meu irmão, eu, minha cunhada e minha mãe. Meu pai não sai de casa por nada, gente.

Existem muitas histórias. Os almoços extremamente simples que a mim pareciam banquetes, posto que ela arrumava a mesa tão bonita. Como ela sempre estava tricotando ou costurando roupas para mim, me vendo bonita em lindos blusões de inverno e atrevidos biquínis de crochê no verão. Como ela sempre me protegia dos outros, eu com a minha timidez ridícula desde a infância, me escondendo em seu colo nas festas de família.

Esse não tem sido um ano fácil para mim. Me vi doente, de cama, mais vezes do que se pode considerar normal. Muitas vezes perdi a paciência e a fé, ligando para minha mãe em outro estado e chorando desesperada, sem pensar nela que só me ouvia à distância sem nada poder fazer além de me ouvir. Nesses momentos, seus conselhos sempre me acalmavam, mesmo eu podendo saber, a conhecendo agora como conheço a mim mesma, que nem sempre ela tinha certeza do que dizia. Mas ela tem fé e ela acredita. E ela torce por mim, então as coisas devem melhorar.

Eu sei que todas as mães são incríveis. Acredito firmemente nessa verdade que, como poucas, ainda mantém o mundo um lugar habitável. Mas preciso hoje falar da minha mãe. Seu nome é Ivonete Terezinha Lopatiuk do Amarante e ela faz 60 anos. Ela nasceu em Medianeira (PR) e se mudou pra Foz do Iguaçu ainda nova. Ela se casou com meu pai quando eles tinha vinte e poucos anos e eles tentaram morar em Curitiba por um tempo, mas não deu certo. Gosta de uma cervejinha e de um churrasquinho. Gosta de novela, mas sempre promete que essa nova que saiu agora ela não vai ver, senão vicia.

Ela já trabalhou como professora, como vendedora, já trabalhou fazendo pão pra vender e como moça da copa, em vários lugares. Hoje ela é diarista, mas está como mensalista para a família de uma amiga. Ela trabalhou como babá por muitos anos para várias famílias e até hoje vários jovens adultos a chamam com carinho de Tia Neti.

Passeando no litoral, mês passado.

Essa é a minha mãe. Ela parece brava, mas é extremamente emotiva e carinhosa. Feito eu. Quando angustiada com a vida, ela limpa a casa e trabalha para espairecer. Feito eu. Ela construiu uma vida simples e digna, baseada em seu próprio esforço e no amor que sente por todos que a rodeiam. Como eu espero estar fazendo. Considerando que me pareço a cada dia mais com a minha mãe, se um dia eu conseguir chegar à metade do ser humano que ela é, já serei uma pessoa realizada.

Quanto mais conheço a mim mesma, mais conheço minha mãe. Quanto mais conheço minha mãe, mais a amo e admiro sua força, sua história. E a sua história é bonita, como a de tantas mulheres que conhecemos. Essas histórias precisam ser contadas. E é por isso que, feito a menina de sete anos que fui, admirada por ter a mãe mais bonita da escolinha, hoje eu venho aqui, usando as únicas ferramentas que tenho, escrevendo, já que é a única coisa que sei fazer, para dizer que esse texto é para você, Neti. E também para dizer que eu ti amo. Muito. Eu ti amo pela vida inteira, mãe.

crônicas

Como forma de agrado

Foto: Death to Stock

O amor tem uma receita muito simples

Vou procurar aqui uma receita de torta salgada, bem simples, vou comprar os ingredientes e fazer para você. Eu não sei cozinhar muitas coisas, no entanto sei e me disseram que cozinhar é uma demonstração de amor.

Sei que isso é verdade porque por mim você aprendeu a cozinhar. E é por mim que você faz os mais deliciosos pratos, mesmo quando está cansado, com outras coisas para fazer. Você também tem que adivinhar o que eu quero quando chego faminta e digo que quero comer alguma coisa, mas não sei o que e nem quero dar trabalho. Você abre a geladeira, descongela carnes, inventa receitas na hora e depois coloca a comida na mesa, querendo saber se eu descubro os ingredientes que foram usados. E nem isso eu sei.

Eu sei que não estamos em uma competição, mas eu sempre sinto que faço tão pouco e que você merece sempre muito mais. Uma receita de torta salgada nem é difícil de fazer, eu li a receita, não é como se eu merecesse uma medalha por ter tido essa ideia, mas sei lá. Pelo menos hoje eu vou tentar.

Tem a ração especial do gato que diz na embalagem “Sirva como forma de agrado” e eu fiquei com isso na cabeça, afinal de contas é isso mesmo. É tudo como uma forma de agrado. Uma torta salgada como forma de agrado. Tomara que fique boa.


Texto publicado originalmente em 04 de setembro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

crônicas, Resenhas

Segunda-feira, quase cinco da tarde

Call Me By Your Name, 2017

Sem relógio no pulso, marquei encontro com a saudade

Mordemos em grandes dentadas tudo o que é jogado em nossa direção e engolimos sem mastigar direito. Sinto falta do silêncio da adolescência, uma tarde inteira que morria enquanto eu ficava sentada na beira da porta de casa lendo um livro que já tinha lido mil vezes.

Um livro que não me acrescentava nada, as palavras todas enfileiradas só me ensinavam isso: palavras.

Seis episódios de série de uma vez e eu nem lembro o que aconteceu no final do primeiro. Como vou estabelecer uma conexão assim?

Na segunda-feira, reencontrei aquela tarde perdida. Escolhi uma roupa que fingi ser bonita, me olhei no espelho e fingi gostar do que via, peguei a bolsa e fui para o cinema.

Quase cinco horas da tarde.

Incrível como tinha gente na fila, São Paulo é esse caos sem massagem. Cheguei cedo demais como sempre (espero só atrasar na morte) e fiquei por ali.

Calada, apenas olhares e expectativa. Um peão girando esperando a hora.

Tentei ler os jornais, sempre tinha alguém na frente. O inferno da timidez e da miopia, tanto não conseguia tomar a frente na vitrine quanto não enxergava as letras enormes da manchete, mesmo dali.

Comprei meio litro de água porque me falaram que ando esquecendo de tomar água.

E então, o assombro e as lágrimas.

Nada pode se comparar ao encanto de ver na tela grande o livro que você leu e amou. Mesmo que não saia exatamente como você pensava (nunca sairá, somos possessivos e arrogante demais com nossos amores), mesmo que mudem tudo e principalmente se não mudarem nada.

Os silêncios e os sons. A sensação de já ter lido aquele sorriso. Todo um universo que é só seu explode em reconhecimento e pertencimento quando, veja só você, na tela o ator fala com a voz que você pensou.

Me pego pensando se gosto tanto desse filme pelo o que ele é ou pelo o que ele me fez sentir, me levando ao passado e me lembrando quem eu costumava ser.

(Se é que existe como separar essas sensações todas e escolher com qual delas seguir.)

Quieta no cinema eu pensava que, meu deus do céu, como pode a gente sentir tudo isso.

Gostaria de reviver o tempo em que a minha atenção não se fragmentava em mil pedaços diariamente me deixando sem norte, como hoje. Gostaria de poder sentir novamente o doloroso entusiasmo solitário de ter apenas um filme para ver, em casa.

E tendo apenas a ele, ter apenas a mim.

Sinto tudo isso e sei, ao mesmo tempo, que sentir tudo isso é bobagem. Vivemos a vida que temos. Tudo está tão bom assim, é besteira dizer que os tempos de hoje são ruins só porque eles mudaram.

Ainda assim…

Sem relógio e sem aviso, em plena segunda-feira eu abri uma porta e aqueles dias antigos vieram me visitar. Quase cinco da tarde, me diga se isso é hora, depois era quase oito da noite e não importa.

Dentro de mim, aquela sensação ainda existe. Mesmo com todos esses anos.

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Viagem sentimental à Paraíba

Açude de Pilões / Paraíba

Nenhum catálogo de viagens te prepara para a vida real

Foi a menor bagagem da vida: cada um com uma mochila nas costas para passar quase quinze dias fora. Levamos só o necessário e desse necessário ainda deixamos a metade em casa. Fomos.

Dizer que a Paraíba é bonita é ser óbvio demais. O que torna tudo diferente são as pessoas ali. Fomos para visitar parentes, parentes esses que não eram visitados há mais de duas décadas. Havia em cada encontro uma efusividade que transbordava carinho e surpresa incontida. Fomos abraçados em hospitalidade e atitudes, palavras e conversas que se esticavam um pouco mais para contar os causos que iam surgindo na memória.

Em poucos dias já sabíamos que aquela seria uma viagem diferente. Não eram apenas os cartões postais ou os dias na praia. Nossos corações foram imediatamente engolfados por uma atmosfera acolhedora e risonha que nos mostrava que estávamos vivendo um momento especial de reencontro, de felicidade, de ver pessoas e conversar com elas. Trocar histórias. Ouvir.

Ponho na conta da minha origem paranaense essa timidez crônica que me é tão particular. Falo pouco, encaro o chão, sempre acho que a conversa não é comigo, que não tenho nada interessante a ser dito. Nessa viagem, me vi forçada a mudar isso. Porque as pessoas queriam saber de mim. Queriam me ouvir, me entender, saber quem era essa menina que Alex trouxe com ele. E eu me deixei levar. Tentei o meu melhor, um pouco ansiosa em não errar. Atropelando frases, mexendo no cabelo, deixando o celular de lado. Tentando responder com mais de uma palavra as perguntas que me faziam.

No sertão, dias depois, nossa experiência se aprofundou em sentimentos. No meio da paisagem solitária, longas viagens de carro nos levavam a casas enormes cravadas no meio do mais absoluto nada. A vista alcançava apenas uns gados preguiçosos vivendo um dia de cada vez. Como nós mesmos fazíamos. A casa simples que nos abrigou trazia segredos e truques. Café da manhã com tapioca, queijo coalho e doce de leite feito ali mesmo. O banheiro do chuveiro bom era o dos fundos, o que não fazia muita diferença se sempre tinha pouca água. Um quarto só para o casal foi um luxo que entendemos como um presente pela visita. No fim de tarde, no alpendre, a vó balançava devagar na rede e com seus 94 anos de história e de idade, recitava quadras de cordel e cantava canções do rádio. Sorria quando via que estávamos prestando atenção.

Uma curta caminhada até o bar onde o padrinho faria uma peixada e pudemos ter uma ideia do que é viver por lá. O Sol castiga de um jeito inexplicável. Passamos pela barragem do açude, naquelas águas tantas memórias e saudades que a vista fica nublada de lágrimas diante do céu sem nuvens. Os sorrisos e os olhares cheios de entendimento que trocamos foi a prece silenciosa que fizemos ali, sentados por cinco minutos no valoroso Bar Peixada Quente antes de respirar fundo e seguir em frente.

Seguimos. Em cada casa, histórias diferentes e fortes. Mulheres que morreram tragicamente por doença ou por amor, relatos contados com sorrisos tímidos sob a vigilância dos retratos na parede. Homens que foram embora cedo demais. A morte, tão presente quanto certa, levou aqueles que mais amamos, mas estamos aqui para lembrar. Lembramos.

A história de uma família não pode ser contada por livros, mesmo que estes sejam só de índice. Não cabe, a vida real transborda. A história de uma família, e foi isso o que aprendi nos meus doze dias conhecendo uma parte dessa família que me acolheu e agora é minha também, precisa ser vivida e contada pessoalmente. Tia Randinha trazendo copos de suco em sua bandeja mais bonita, que imita prata. Tia Helena cuidando da mãe em sua casinha pequena. Vó Franscisquinha na ponta da mesa em todas as refeições, participando da conversa. Tia Marione trazendo os álbuns de fotos para a gente ver. Josier e Marinez sentados com a gente na varanda e rindo.

Doze dias depois, voltamos para casa. Já não éramos os mesmos. Ainda trazíamos só o necessário, mas o necessário agora era outro. Tem mais a ver com amor, com se importar um com o outro. Com a noção do que é fundar uma família e dar valor à ela. Tem a ver com amor, um amor forte e sólido, capaz de nos proteger de qualquer mal. Um amor como o nosso, que cresce e se enraíza nesses momentos que vivemos, nas histórias que criamos juntos e que nos prepara para tudo mais que está por vir. Nenhum catálogo de viagem te dá isso. Só o amor é capaz.

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Confissões Amorosas: o primeiro amor

Ilustração: Hilary Knight em “Eloise: A Book for Precocious Grown Ups Hardcover”

Não digo que foi fácil, mas digo que não me esforcei também

O primeiro menino por quem me apaixonei se chamava Fábio Ricco. Estudávamos na mesma sala, na 5ª C, no ano de 1995 da era cristã. Fábio Ricco não era muito diferente dos outros meninos do colégio: falastrão, não levava muito à sério questões de higiene, medianamente bonito, jogava bola na quadra da escola todo dia com seu calção do Grêmio e nunca faltava às aulas. Acho que o que me chamou a atenção nele é que ele sempre tinha uma mecha sebosa de cabelo caindo pela testa, o que aos meus olhos pueris era algo muito charmoso.

Lembro que eu não sabia ao certo o que era estar apaixonada (e como saberia, aos onze anos de idade?), mas me esforçava para gostar de Fábio Ricco dada a minha urgente necessidade de aparentar ser uma moça crescida. De alguma forma, o amor que eu sentia (acreditava sentir) era algo muito mais parecido com idolatria. Era assim naquele tempo, não sei se algo mudou hoje em dia. Nós meninas escolhíamos um menino para amar e perseguir por todo o ensino médio, endeusando suas raras qualidades e sublimando seus muitos defeitos. Acredito que os meninos fizessem o mesmo por nós, mas como o diálogo sobre o assunto não era o forte entre os dois lados, a roda da baixa-estima continuava a girar livre de impedimentos, assim nos moldando de maneira perene até a vida adulta.

Pois mesmo tendo esse pequeno vislumbre do que poderia ser o amor, nunca fui além disso. Não havia a necessidade. Ficar espionando Fábio Ricco pelos corredores me era suficiente. Feito uma detetive em versão de bolso, com meus cadernos de capa monocromática cedidos pelo governo e minha firme disposição em ser desprezada, eu estava sempre por perto, seguindo seus passos, mas Fábio Ricco nunca notou minha presença. O mais perto que cheguei dele foi quando escreveu no meu Caderno de Recordações:

 “Quando precisar de um amigo nem precisa me chamar. Me chame sem pensar”.

 O que era terrivelmente mentira, pois jamais conversamos e jamais tivemos tal intimidade. Além disso, rapidamente descobri que ele escreveu a mesma coisa no caderno de mais três meninas da minha sala e de mais duas da 5ªA. Ainda assim, tudo poderia ser perdoado, nós meninas perdoávamos tudo, não fosse a nova aresta que seria acrescentada à esse quadrado seco que era a nossa inexistente relação.

Pois por meio de muita investigação e alguma fofoca, vim a descobrir que Fábio Ricco gostava da menina mais bonita e rica do colégio, a famosa Tatiane Moreira Salles. Cruel como ele só, o karma já ali se fez presente: ela mesma não dava muita bola para ele, o que fazia com que nós representássemos o mais apático triângulo amoroso já visto, sem paixão ou grandes acontecimentos, calado e indiferente.

Tatiane Moreira Salles era tudo o que eu queria ser: linda, popular, divertida, rica. E ainda por cima, o Fábio Ricco gostava dela. Uau. O ápice desse titubeante sentimento que nutríamos os três em segredo e sem vontade foi quando Fábio Ricco deu um cartão do dia dos namorados para a Tatiane Moreira Salles, pedindo-a em namoro. Eu era amiguinha da Tatiane Moreira Salles e ela me segredou que não ia aceitar namorar com Fábio Ricco porque estava gostando de Jonathan Pierre Saldanha, da 7ª B. Isso me deixou totalmente em choque e, consequência dessa bomba, meio que me desencantou desse amor como um todo. De repente, gostar do Fábio Ricco era out. O quente do verão era gostar dos meninos da sétima série.

Foi aí que comecei a gostar de Gustavo Falcão.

PS:

  • Em uma época em que “sororidade” era um conceito tão vago quanto cevada em cerveja ruim, nada me causou maior alegria do que descobrir, anos depois, que Tatiane Moreira Salles estava fazendo supletivo à noite, o que me fez concluir, em uma mórbida e apressada constatação, que a vida dela não era tão perfeita quanto eu pensava.
  • Muitos anos depois, vi Fábio Ricco na rua. Continuava igual, só que com as pernas mais compridas.
  • Gustavo Falcão, titubeante herói do time de vôlei da 7ª A, tinha a língua presa e também não gostava de mim.
crônicas

Longe de casa

Imagem: Gratisography

Mas é que“casa” é o conceito mais amplo de todos

O supermercado continua no mesmo lugar, só o que acontece é que aumenta de tamanho a cada ano, as lojas ficam sutilmente mais modernas. Um universo que se expande e respira, volta a existir quando ponho os pés aqui. São as conversas e os sotaques, a generosidade emocionada da visita recebida fora de época, os causos que se acotovelam em fila querendo ser contados. Eu fui embora e esse mundo ficou.

Esse mundo ainda existe. Eu sei disso porque já li em muitos livros, sei mais ainda porque vivi: eu não era triste, eu só morava na cidade errada. Fosse possível contratar um serviço de mudança e levar essas pessoas em uma cápsula até São Paulo, eu levaria e seria mais feliz ainda. Mas não dá, tudo teve que ficar para trás na mudança. Os sotaques, os causos, o bebê que ri todo banguela, a música que conforta por ser sempre a mesma.

Vão construir um condomínio ali onde era a tua creche.

É triste não saber seu lugar no mundo, mas tem vezes que dói ainda mais quando você já sabe. Eu deixei a minha vida em pausa por uns dias e fui brincar de passado. Passeios e atrações turísticas me cegavam sob o Sol, no silêncio da noite falta alguma coisa. A conversa de final de dia, indecisões sobre o jantar, até os pequenos estranhamentos dão saudade, os gatos correndo e soltando pelo, derrubando coisas. Teu coração vai tropeçando de verdade em verdade ao perceber que você pode ter mil casas, só uma é o seu lar de fato. Você não perdeu os outros, mas tem aquele que é, apenas é, em uma certeza sólida e pontiaguda que pesando torna seu coração mais leve.

Preciso vir sempre, nunca para ficar muito. Minha casa, meu lar, me espera. Preciso voltar logo, não posso mais ficar tanto tempo longe sempre.

Construí um lar ali onde era o meu medo de tentar.

O supermercado esse ano está com a máquina de café quebrada na padaria. Peguei um no balcão de atendimento. “Nunca é como o de casa”, disse a moça que me atendeu. Café adoçado e fraco, feito para agradar a qualquer custo, como eu não provava fazia tempo. “Nunca é como o de casa, mas a gente não pode ter tudo”, ela sorriu.

crônicas

Cinco pessoas

Uma rápida passada de olhar por algumas amizades

Pessoa um.

Ela fala rápido, conta milhares de histórias, se interessa pelas minhas, bebe um gole do copo a cada silêncio que deixamos escapar. Estamos tímidos, mas a alegria de poder conversar anula um pouco isso e nos sentimos confortáveis para sermos um tanto idiotas. Ser idiota é engraçado e ser engraçado é idiota. E ser engraçado é o que todo mundo quer. Confessa que está apaixonada por uma determinada pessoa, pessoa essa que se encontra em outra rodinha de amigos, ali perto de nós. “Casava agora mesmo”, ela diz e não sabemos até que ponto está sendo sincera, então rimos. Escondemos as verdades que sobrevoam a sua confissão com piadas e memes de internet, disso sabemos bem. Rimos muito, gargalhamos com nada. Estamos sendo idiotas, estamos seguros.

Pessoa dois.

Chega como um furacão na mesa. Joga óculos de Sol num canto debaixo da carteira para não esquecer, pega o celular, dá check in, atende ligações, responde e-mail e Whatsapp enquanto fala com você e te conta todas as novidades que surgiram nos últimos dez minutos em que vocês ficaram sem se falar. Você chega cheia de segredinhos e medos e temores e bobagens para contar e desabafar e pedir ajuda, ela passa por cima deles como um trator e termina com um “eu vou dar na sua cara se continuar falando essas bostas”. Ela está certa, você sorri, fica feliz, imensamente feliz por tê-la na sua vida. Ela vai embora, você pensa “essa é a pessoa mais incrível que já conheci”. No elevador, ela já te manda inbox falando várias bostas e você ri.

Pessoa três.

Você ainda não sabe muito bem como é o rosto dela, só sabe que é bonita. Vocês são amigas a pouco tempo, então você ainda não se sente muito segura de falar olhando em seus olhos. Mas você sabe que ela é bonita. Só não decorou ainda todas as linhas do rosto, o que os olhos dizem ou o que sugerem as sobrancelhas dela durante uma conversa. Não sabe as dicas que uma hesitação na conversa quer dar. Não entendeu ainda que esse tom de voz é pra impor e esse outro é pra pedir. Você ainda não decorou tudo, ainda não sabe dizer. Está em terreno desconhecido.

Pessoa quatro.

Não sabemos se nos odiamos ou nos amamos. Provavelmente, os dois. Sabemos com certeza o que odiamos uma na outra e volta e meia somos surpreendidas por momentos que nos fazem sentir que na verdade, é tudo amor. Detestamos tudo sobre nós duas. Mandamos indiretas uma pra outra, sabendo que ela sabe que eu sei que ela sabe que é dela que estou falando. E vice e versa. Nos odiamos e nos adoramos na mesma intensidade e ao mesmo tempo. Não tem como se magoar assim. Pro bem ou pro mal, o sentimento é sempre recíproco.

Pessoa cinco.

Meu ombro dói intensamente por conta de um treino onde exagerei nas flexões e a pessoa cinco me pergunta se eu estou bem. No geral. “No geral estou bem”, digo. A pessoa cinco pondera antes de falar. Pensa. Olha para os lados. E, ainda assim, fala de várias coisas ao mesmo tempo e aparentemente não se abala com nenhuma. Temos vários assuntos em comum pelos quais podemos flanar sem nos comprometer em ser pessoais. Falamos, então. Não rimos muito, estamos cansadas, o dia foi duro, a vida lá fora está terrível. Eu gosto de pessoas que não ligam pro que eu digo, gosto de pessoas que falam e me deixam ficar calada. A pessoa cinco é assim, por isso é uma das minhas melhores amigas. Mas, como falo pouco, ela nem imagina isso.


Texto publicado originalmente em 08 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.