Brain Dump*

Imagina, não precisa

Photo by Bruce Christianson on Unsplash

Nunca tinha sonhado com meu primo até que ele morresse, assim como nunca tinha passado um tempo tão grande presa em casa de modo que cada sonho meu, onde ando por lugares, frequento bares, vejo a rua mais de perto, parecesse uma idealização dolorosa da vida que estou deixando de viver. Também é fácil, é claro, se comprazer com a morte abrupta e injusta de uma pessoa de trinta e poucos anos de idade e fazer dessa morte um bom ponto de referência pessoal de toda a vida que deixou de ser vivida.

Quero fazer desse texto o menos triste possível, dentro do que posso. Também quero falar o menos possível dos sonhos em si, porque, você vai concordar comigo, a única pessoa que liga para os nossos sonhos é a gente mesmo. E eu digo isso em todos os sentidos, e você entende isso em todos os sentidos e pelo menos nisso, concordamos. Em conversas de escritório, papos furados em mesas de bar, falar “sonhei um negócio engraçado” é sempre a chave para fazer a mente do seu interlocutor voar, e nunca da maneira que você acha que ela está voando.

Sempre que sonho com meu primo, estamos em alguma aventura. Alguma coisa inesperada, drinks diferentes, passeios de carro. Ele me diz algo muito interessante que esqueço assim que acordo, mas fica aquele peso de que, por alguns instantes, eu soube uma boa solução para algo que, acordada, não vejo como problema. Navegando pelo duro ano de 2020, tudo parece um problema, mas eles vão se apequenando conforme olhamos o cenário completo. O problema é que olhar o cenário completo também é um problema daqueles, então só resta você em posição fetal sentindo dores e se sentindo culpado por senti-las.

Mas eu falava do sonho, ainda que tenha dito que falaria pouco dele. Estamos em um bar com um cardápio maluco, cada drink custa caro e vem muito pouco na taça, o que já entendemos como um indício do forte teor alcoólico dessas bebidas. Nos sentamos à mesa e percebo que estamos sem máscaras, o que me sinto inibida de questionar, já que meu primo já está morto mesmo. Ele não parece se preocupar, quem sabe eu devesse me preocupar, mas fica tudo um pouco invertido em nossas prioridades ao beber em um bar com um defunto.

Não lembro de uma frase sequer que trocamos, porém olhando agora o calendário, vejo que hoje faz exatos dois anos da sua morte, então era uma celebração? Foi uma celebração, nós brindamos. Isso eu lembro. Assim como lembro que, no sonho, assim que saímos desse bar, andamos de carro pela Paulista, o que nunca fizemos, e era um dia lindo de Sol.

Um dia tão lindo de Sol como esse que me recebeu hoje de manhã, assim que acordei.

Momentos felizes parecem borrados ultimamente. A indulgência faz você comer o seu sorvete favorito no intervalo do almoço, então como fazer de um momento no sofá vendo série algo especial? Estou há semanas presa nas mesmas reprises, sem forças para começar algo novo. Os projetos de quarentena são todos diluídos em momentos isolados de euforia.

Porém, como disse, não posso reclamar. Está tudo bem, dentro do possível. Mais do que bem. Revisando meu diário, notei que junho foi o mês mais feliz desse ano, para mim. Vários motivos, e olha que o cenário não é nada fácil. Então, sem lágrimas.

Mas quis contar isso. Do sonho. De como nossa mente acha jeitos de voar por aí, ainda que conscientemente a gente acene constrangido dizendo “imagina, eu estou bem, não precisa!”. Bom, quem sabe precise.

Eu sou feliz, eu estou bem. De verdade mesmo. No entanto, contudo, toda vida, foi bom voar por aí.

É bom poder voar por aí, e a gente sempre encontra os nossos próprios meios.

Brain Dump*

Elton John está bem e tudo está em seu lugar

Se querem mesmo saber o que aconteceu, eu perdi um pouco o rumo desde aquela noite, mais precisamente na cena em que o Taron Egerton abre as portas, luxuoso em seu traje alaranjado, e você fala: rapaz… E então não acontece nada do que você pensa.

Não que o ponto seja esse. Como se o inesperado fosse uma novidade — e não uma constante. Oras, nada nunca acontece como você pensa. Não é essa a questão. Mas houve algo de especial em ver aquele filme pela segunda vez em uma semana, entrando bêbados no cinema e embalados em uma alegria que não tinha motivo algum, além de todos.

E aí, como eu dizia, Taron Egerton em trajes alaranjados, depois em mais outros de muitas outras cores. As músicas e os sorrisos, o ódio da vida adulta, divagações sobre talento & oportunidade, você ergue a cabeça e continua não por perseverança e nem por teimosia, mas por… Por quê? Algo sobre o jeito com que você fala comigo quando eu me mostro frágil, algo sobre a maneira com que você me acolhe justo quando eu acredito que não exista mais saída alguma.

Estamos falando de momentos sublimes escondidos dentro de cenas cotidianas. Você do outro lado da rua, encostado no muro e fumando. Eu olho para você sem ser vista, eu na fila para comprar pipoca. Somos dois mundos diferentes, duas existências diferentes, que se conectam no instante em que você olha para mim e sorri. Você sorri. Somos um do outro novamente. Atravessa a rua e vem na minha direção. Me beija com o ar gelado da noite, eu gosto tanto do seu beijo, compramos mais cervejas.

Está tudo muito complicado, os gatos estão a cada dia mais malucos e carinhosos. Corto os tomates em quatro e depois em grossas fatias, fazemos daquele jantar às 23h de uma quarta-feira uma ocasião única de paz em que preferimos não pensar nos problemas maiores.

Eu não sou o homem que eles pensam que eu sou em casa. É claro que não. Eu não finjo nada para os outros, mas eu guardo o meu melhor para você. Ás vezes eu penso nisso, como pudemos criar um mundo tão nosso, de um amor que quase dói, tão forte que dá a volta e se torna frágil.

Noite de video game, você diz algo absurdo só para me fazer gargalhar.

Noite de séries, me enrosco nos seus pés e rimos das mesmas exatas cenas.

Deus me pune pelas coisas mais banais. Tivesse chegado tarde na festa, o cachorro não teria mordido minha mão. O sangue pinga no chão, vou embora correndo, fugindo para o seu colo. Você me recebe, eu aos prantos, coberta de razão e exagerada, emotiva e emocional, sempre, meu Deus, sempre, um tom acima da média e do necessário.

Você cuida de mim, me ouve.

Mesmo estando tudo muito complicado.

Também fiquei pensando nisso. Tudo está sempre fora do lugar, o tempo todo. Que mania de ver o mundo assim! A gente passa a vida toda encarando cada dia como um dia atípico. Será que é tão difícil perceber qual é o padrão aqui? Esses dias, acho que foi ontem, olhei para você e finalmente entendi que o normal é essa loucura mesmo: quando não é um problema é outro, sempre muda o ponto de tensão — mas no fim está tudo bem. A gente dá um jeito. A gente consegue achar alguma diversão no meio do caos. A gente consegue dar as mãos e fugir dali, mesmo sem sair do lugar.

Veja o Elton John, por exemplo. Que complicado, tudo! Mas os trajes e as músicas e o ódio da vida adulta. Ajuda um pouco, não ajuda? Enquanto gastávamos nossa energia achando que tudo estava fora do lugar, nos tornávamos mais fortes para entender a realidade do que somos.

Somos fortes, somos bons. Nos amamos.

E aí, faz até sentido: mesmo com toda essa bagunça, está tudo bem. Estamos bem. Tão felizes como uma noite de cinema, no meio da semana, para ver um filme que instantaneamente amamos, um filme que fala de nós sem jamais contar a nossa história, como nós sabemos que um dia contaremos.

Brain Dump*

Pennywise está vivo — e eu também

se bem que nem tanto — IT, 2017 (backstage)

Vamos falar um pouco sobre este palhaço e alguns outros.

Não vou dizer que desci a Rua Augusta a 120 por hora, mas eu entrei voando baixo no metrô indo para o trabalho, dia desses. Nem atrasada eu estava, mas estar atrasada ou não é apenas um mero detalhe se dentro da sua cabeça você está sempre à mil.

O rapaz se postou na minha frente, coletinho do metrô, caneta, papel numa prancheta, no intuito de falar comigo. Eu driblei ele na moral, não adianta não, Maurão, o drible ainda é mais importante que o passe no cotidiano do brasileiro médio. Mas você acha? O rapaz não se fez de rogado, foi atrás e perguntou mesmo assim em que estação eu descia, era para uma pesquisa, ele disse.

Eu falei o nome da estação e segui. Nem tinha parado, na real. Cortei a conversa antes mesmo dela começar. Senti que ele ficou me olhando como em um comercial de perfume, onde tudo acontece muito devagarinho. Eu indo embora, ele sendo deixado, atônito e tudo. O vento passando por nós, o vento é mais encanado que vocês, em algumas estações de metrô. Faz tudo voar longe.

Fui grossa? Um pouco. Foi sem querer. E aí também pensei, poxa, o cara aguenta. Se ele for morrer por isso, o problema é mais dele que meu.

Eu também já passei por tanta coisa, e tô aqui viva.

Viva igual o Pennywise.

ai, penny, só você (filme 2, backstage)

Saiu o trailer do filme 2, né meninas. O trailer de IT — A Coisa 2, eu digo. Fica um título tão esquisito, né? Parece um poema dadaísta.

It a coisa dois.

Gosto desse filme como gosto de tantos outros, porém existe uma mística em colocar tanta criança talentosa e adulto impactante em uma história duvidosa do Stephen King e ver isso virar blockbuster. Eu gosto de ver o Bill Hader trabalhar, se pudesse dava um emprego pra ele aqui em casa. Estou mesmo precisando de diarista ou alguém que me motive a fazer ginástica. Não acho que ele poderia fazer isso, mas também não acho que eu poderia pagar mesmo se ele pudesse, então fica meio que na mesma: não dá em nada, é só uma ideia.

Bill Skarsgård, James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader, Finn Wolfhard…Estou ansiosa por esse filme, pensando como podem juntar essa rapaziada toda na mesma sala e dizer ACTION!, em um grito único e poderoso que faça a magia do cinema acontecer.

Este será um filme incrível, contanto que você baixe suas expectativas e entenda que não vai ser um filme que vai trazer a satisfação que você busca em sua vida pessoal.

O filme pode ajudar um pouquinho, mas ele não vai tapar o buraco emocional que você cava no seu peito desde os sete anos de idade. Esse buraco que só aumenta, com você há décadas usando a mesma pequenina pá na intenção de tapá-lo.

O filme pode ser bom, sim, entretanto.

Esse texto está muito longo? Ainda tem mais um pouco, mas pense que você já passou da metade. Seria besteira parar agora.

ai bill, só você (filme 2, backstage)

Indo em um ritmo muito mais devagar, eu outro dia subia uma avenida ampla e bela, mas qualquer, nesse país chamado Avenidas Amplas & Belas da Região Onde Ficam a Maioria das Agências de Publicidade de São Paulo.

Foda. Era uma ladeira lascada, eu pensava na vida e meus pensamentos todos iam ficando pelo chão, escorrendo com o calor e deixando pegadas emocionais que nem Freud explicaria. Calcule. Às vezes, quando você canta uma música com toda emoção, mexendo a boca sem falar nada, brincando que a voz do cantor é a sua, é possível experimentar um tipo de liberdade que só é comparável a chegar em casa e ficar de cuecas. Naquele momento, entretanto, eu nem estava de cuecas em casa e nem cantava sem voz música nenhuma. Mesmo assim, me sentia livre feito o diabo.

E, na verdade, naquele momento não aconteceu nada digno de nota comigo. Nadinha mesmo. Eu estava apenas andando na rua, sem maiores expectativas. Só que é maluco isso. É horrível ficar triste por um motivo, é maravilhoso ficar feliz sem razão alguma.

Subindo a ladeira, eu pensava que vivos estamos todos: eu, você, o Pennywise. Não é ótimo, ainda que bastante básico? Tem filme novo vindo aí. Não vai tapar o buraco da sua alma — e nem deveria, então olha que beleza. Você não pode depender de um filme para isso, pois só depende de você.

E que bom.

E eu sei que a reação imediata para “só depende de você” é um mar de lágrimas, mas vamos lá. Você consegue ser melhor que isso. Sério. É ótimo tomar a responsabilidade emocional pela sua vida. Você constrói uma barreira onde ninguém pode te atingir, a menos que você permita. E você não permite mais.

Não se trata de ser uma pessoa malvada ou insensível, se trata de conseguir olhar a vida em um panorama amplificado e conseguir dar a devida dimensão para cada coisa. Colocadas em perspectiva, nenhuma situação no mundo pode te magoar sem o seu consentimento para isso.

Sabendo disso, é uma alegria estar vivo. Estar vivo e vivendo, planejando coisas, correndo, sempre atrasada, mil coisas na cabeça. Viva como Pennywise, trabalhando mais que o Bill Hader.

Voando baixo ou então subindo lentamente pelas muitas avenidas dessa cidade que vamos dando o nome conforme a conhecemos melhor.

crônicas

O dente doendo, continuei tentando

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Uma parábola direto dos anos 2000, situada ao sul do Brasil

Desconfio que eu já esteja ficando velha o suficiente para começar a escrever minhas memórias. A vida passa tão rápido, não é mesmo? Cruzando a barreira que me deixa mais perto dos 40 do que dos 30, parece que recai um véu de nostalgia segura sobre as minhas lembranças.

Como se fossem todas pitorescas e curiosas, e já não doessem mais.

Grandes acontecimentos marcam a nossa vida, mas são aquelas pequenas passagens triviais que acabam por moldar quem somos. Aquelas lembranças bobas e tão suas, histórias sem começo nem moral, que volta e meia ressurgem no cérebro e atingem em cheio o coração. Disco riscado (vocês, jovens, conhecem essa expressão?), cujo som adulterado é mais confortável que a melodia original.

E assim você cria parábolas personalizadas e exclusivas, criadas a partir de momentos que são só seus.

Estava pensando nisso, pois lembrei da vez que realizaria meu grande sonho de comprar meu computador. Isso foi décadas atrás, pensem. Eu com meus vinte e poucos anos, a visão de mundo do tamanho de um punho, juntei por meses a astronômica quantia de R$500 para comprar meu primeiro computador de mesa. Adeus, usar emprestado o PC do meu irmão. Adeus, máquina lenta e estranha. Eu poderia voar sozinha!

Meu irmão, aliás, seria peça-chave nessa empreitada. Caberia a ele, com toda a sua agilidade e bom coração insuspeitos, cruzar a fronteira até o Paraguai e comprar o equipamento para mim. No Paraguai era assim (em algumas lojas, não todas, imagino que ainda é): você precisava pagar tudo à vista, no dinheiro.

Então, após algum esforço, as suadas cinco notas de cem passaram das minhas mãos para as do meu irmão. Era sábado, o dia de ir no Paraguai é sábado, meu irmão atravessaria a ponte e buscaria meu PC (modelo e especificações nem eram uma questão para mim, se você tem um irmão mais velho, você grita “eletrônicos” e ele decide por você).

Foi o meu irmão pegar o dinheiro, eu comecei a me sentir mal. Não vou mentir, eu sempre adiei minhas dores até ficar ridículo. Naquele sábado de manhã, ficou ridícula a dor de dente que eu sentia timidamente há semanas.

Ficou insuportável. Vai a minha mãe correr comigo pelo centro da cidade atrás de dentista que atendesse. Plano Dental era um luxo, claro. SUS, só em caso de morte. Sorte (sorte?) que naquele tempo fervia a moda do consultório dental a cada esquina, com nomes entusiasmados como SORRIA MAIS ou FELIZ SORRIR ou DENTE SAÚDE, coisas assim.

Batemos numa dessas portinhas, eu e minha mãe. O moço atendeu rápido e foi de uma empatia ímpar. Até hoje eu fico meio emocionada só de lembrar como ele me atendeu e entendeu: eu estava urrando de dor, remédio não adiantava, era canal e eu não tinha dois reais no bolso. Mesmo assim ele fez o que pôde. E disse que o tratamento podia resolver na hora, se eu fizesse agora mesmo.

O preço do tratamento de canal? Você já sabe, né?

Toca a minha mãe ligar para o meu irmão. Atendeu o celular, ainda não tinha passado a ponte, baita sorte (sorte?). Nem fez perguntas, voltou com a moto e foi até o dentista. Entregou o dinheiro na minha mão. Subi pro doutor de novo, deitei na cadeira. Lá se foi o meu computador novinho, meus quinhentos reais.

No Paraná a gente não fala muito, mas eu lembro do olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro. O que vou colocar nas minhas memórias é aquele olhar. Era algo entre “mano, que bosta” e algum trecho do manifesto comunista que nenhum de nós dois nunca lemos. Uma derrota tão funda e frívola, doía mais justamente por ser tão mundano.

O sentimento ultrajava porque não era “você está triste por isso??” era “caralho, eu não posso ter nem isso??“.

Que inferno, ser pobre assim. E, ao mesmo tempo, era essa a realidade. Eu não conhecia outra. A realidade era aquele olhar contrito do meu irmão. Traduzia tudo.

Arrumei os dentes, levei mais um ano até poder finalmente comprar o PC. E o que eu guardo disso tudo é essa solidão tremenda que senti no dia. Não temos dinheiro, engula seus sonhos, vocês só têm uns ao outros. O olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro, vida de merda, mas hey, que tal continuar tentando? O que mais você pode fazer?

E, além do mais, a dor de dente passou. Mesmo sem o tão sonhado PC, sem dor a vida até parecia um dia subitamente bonito, feito um raio de Sol se abrindo depois da chuva.

Continuei tentando. Algum dente sempre vai voltar a doer. Continuo tentando. E foda-se.

crônicas

Do que ficou, as manhãs e as maçãs

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Os sábados eram os nossos dias juntos. E em um sábado você partiu para sempre.

Por muitos anos durante a nossa infância, os sábados eram o nosso dia e as manhãs de sábado eram dedicadas à uma tarefa tão aborrecida quanto inusitada: catequese das 8h às 10h na Igreja Matriz. A gente se encontrava por lá mesmo, no pátio dos fundos da igreja, e ia juntos para a sala.

Durante a aula, trocávamos olhares espantados e cúmplices, dando de ombros a cada lição alarmista da freira e professora. Folheando o livro de catecismo, a gente perguntava um para o outro com o olhar: seria Deus tão malvado assim?

Até hoje, ainda tenho minhas dúvidas.

Depois corríamos até o ponto de ônibus e juntos íamos para a casa da vó, onde você morava e eu passava o sábado. No ônibus, você o moleque esperto e eu a menina tímida, conversávamos sobre todas as suas grandes artes da semana. Você me contava da escola, do video game, da piscina do vizinho. Eu ouvia quieta, jamais seria tão descolada quanto você.

Você que tinha o computador e a piscina do vizinho, o quarto só seu e a vó só sua, todos os livros da sala que você não lia, você que mesmo assim encarava todos esses privilégios de um jeito tranquilo, humilde, sem alardear nada. E era generoso o suficiente para dividi-los comigo como um irmão mais velho.

O resto do dia revelava momentos melhores que as manhãs cheias de medo cristão. Quando a tarde de sábado caia, a vó dava um cesto de frutas para a gente vender na rua. Hoje eu vejo que ela só inventava aquilo porque queria ter um descanso da nossa bagunça em casa. A gente andava um pouco, não vendia nada, olhava um para o outro, dava de ombros e sentava no meio-fio para comer todas as maçãs da cesta. Voltávamos para casa com a cesta vazia e a barriga cheia. Nossa vó nunca pediu o dinheiro das “vendas”, porque ela sabia e a gente sabia.

Até hoje, sempre que vejo maçãs eu lembro de você e da gente, e da nossa inocência ao comer maçãs na beira da rua vendo o Sol ir embora e a tarde morrer.

Você sempre foi a síntese de alguém que sabia aproveitar a vida em cada mínimo segundo. Hoje eu penso que, de algum modo, você sabia que não seria para sempre, não para sempre como agora dolorosamente é para nós que teremos que continuar sem você. Você sempre foi o festeiro, o sorriso aberto, o deboche até o limite, o improvável irritante inaceitável adorável.

Você sempre foi a nossa alegria e agora foi tirado de nós.

Da última vez que estive em Foz, você estava bem como há tempos eu não via. A gente tinha a coincidência bizarra de dividir não só idade, família e histórias, mas também a mesma trágica doença. Mas nunca falávamos sobre isso, nunca dividimos nossas dores como pacientes de câncer porque nunca quisemos nos ver como vítimas. E porque você era legal demais para perder tempo se lamentando, você aproveitava vivendo cada chance que tinha de viver.

Naquela última vez que saímos juntos, você estava tão feliz. Lembro de olhar para você e pensar que esse seria você pela vida toda, se não fosse o destino trágico que te limitava há anos. Naquela noite, nada te impedia. E fomos de bar em bar, rindo, dançando, arranjando encrenca, dirigindo perigosamente bêbados pela cidade que dormia. Eu como sempre querendo acreditar em romance, te perguntei se você amava a menina que passou a noite toda de olho em você. Você disse que sim, mas que essas coisas não eram para você, que nunca iria namorar ou casar.

Mais uma vez, eu acho que você sabia.

No dia seguinte, nós dois na casa da minha mãe, cada um jogado em um sofá olhando o celular. A gente não precisava alardear muito a vida, a gente sabia que ela era um sopro, então ficávamos em silêncio fingindo não saber a fragilidade de tudo o que acontecia. Você me mostrava coisas no celular, a gente ria. Alguns minutos depois, se levantou e foi embora. Sem maiores despedidas, por que quem imaginaria? Foi a última vez que te vi.

Agora, nunca mais.

Fico pensando no que fizemos de tão terrível para Deus tirar você da gente tão cedo. Pensar isso enche meu coração de raiva e mágoa. E então entendo que a pergunta é outra: o que fizemos para merecer ter você na nossa vida por tanto tempo? Esse foi um presente maior do que qualquer outro, sem dúvida.

Você foi o filho tardio que a minha vó precisava ter, enchendo a vida dela de emoção, humor e vida. Foi o filho crescido que a minha mãe precisava, quando viu os seus próprios saindo de casa e seguindo a vida. Foi o irmão e o pai que a minha prima precisou. Foi o alívio cômico dessa família que ri junto e chora escondida.

Você foi um raio de alegria que cruzou a nossa vida. Nem sempre perfeito, muitas vezes irritante, mas sempre bom, sempre generoso, sempre presente.

Ontem eu vi uma série, o personagem dizia que as pessoas têm um tempo certo para nascer e para morrer e que quando elas vão embora, é porque cumpriram sua missão na Terra. Não sei muito sobre isso, acredito que você ainda tinha tanto para viver. No entanto, não posso fazer nada além de aceitar.

A injustiça de tudo isso machuca como poucas coisas no mundo, mas existe a marca que você deixou por aqui, não é? Sua lição foi a alegria, o amor, a galhofa, o inesperado. Vou levar isso comigo para sempre, assim como a lembrança do presente que você foi em nossas vidas.

E te agradeço por ser um filho para minha mãe, um irmão para o meu irmão, um neto para a minha vó. E te agradeço pelas maçãs e pelas manhãs de sábado. Foi uma boa aventura, primo. Obrigada por me deixar participar dela junto com você.

crônicas

Isso é só seu

Photo by Seth Macey on Unsplash

Apenas aceite e acelere, vá em frente

Calcei os patins e fiquei em pé. A vertigem envelopou meu medo e me fez procurar o chão novamente. Sentei. Pensei: é isso, não consigo, foda-se, vou colocar o tênis de novo e voltar para casa. Me contrariando, a avenida bonita se abria em Sol e pessoas bonitas e estilosas, que diziam que era um dia bonito demais para ser desperdiçado por medo.

Levantei novamente. Andei. Passos tímidos, remadas ansiosas, as rodas sob os meus pés trepidavam no asfalto maltratado. Olhei para mim mesma, em pé e mais alta por conta dos patins. Aceitei meu sorriso e acelerei o passo. O chão estava longe, em poucos minutos eu voava.

Fazia três anos que eu não andava de patins. Parei por conta da doença, depois ficou difícil demais voltar. Prioridades mudam. Sentia falta de voar baixo, de sentir o vento no rosto. Sentia falta e nem sabia, algumas saudades a gente soterra no meio de outras necessidades, em busca de viver sem mágoa.

Nesse domingo, eu quase alcancei o céu, pelo menos na sensação que tive. De reencontro. Insegura, andava devagar, tão atenta à tudo que parecia uma maníaca. As pessoas ao meu redor me olhavam com simpatia: um patins quad sempre chama a atenção. Eu me arriscava e me surpreendia comigo mesma.

Seu corpo lembra o que você esquece. Descobri que ainda sei ficar no derby stance, postura de jogadora de Roller Derby. Descobri que ainda consigo desviar bem e rápido das pessoas, evitando colisões. Sei ainda qual piso é melhor para as minhas rodas, intuitivamente eu seguia pelo asfalto melhor na longa Paulista.

Em trinta minutos, percorri a avenida toda uma vez e meia. Descalcei o patins, absolutamente surpresa. Eu consegui fazer isso, então? Consegui. Sozinha.

Voltei no feriado. Dessa vez andei por uma hora, fiz dez quilômetros. Chegou um ponto em que eu nem sabia mais onde estava. Só sei que estava na Paulista. Voando baixo, não como antigamente, mas melhor do que imaginava que seria, após tanto tempo. Com o patins nos pés e a mochila nas costas. De óculos escuro, abaixando até o chão para fazer graça. Parando para tomar ar, de tanto ar a boca secava.

Esse momento é só meu, eu penso sem meme nenhum.

Não tenho tido mais tanta vontade de me dividir. Redes sociais, interações sem graça só para manter a amizade. Tenho vontade de ficar quieta e ser só minha. Quero melhorar como pessoa, mas para isso preciso olhar para mim. Fazia tempo que eu não olhava, só olhava para fora.

Nesses dias, de patins, eu me reencontrei. A Paulista tão linda e boa, fervendo de gente e de sons. O calor da tarde, que aquece sem incomodar. De patins pela avenida, eu não incomodo ninguém.

Existe algo que é só seu no que você sente, não adianta tentar passar para os outros. Ninguém vai entender por completo a importância disso para mim, esse momento é só meu, eu digo sem meme nenhum, mais uma vez. A sabedoria está em entender a natureza disso e aceitar sem mágoa. Ninguém vai entender, então que bom. Isso é só seu. Aceite. E agradeça.

Fico na ponta dos pés, me aprumo e me equilibro em cima dos meus freios. Arranco em direção à avenida, rápida como um dia já fui. O mundo é meu, na mesma medida que tenho coragem de tomá-lo para mim. Ao final da tarde, uma certeza abraça meu coração: eu posso e vou, só depende de mim. Sempre dependeu só de mim. Descalço os patins, as pernas bambas de alegria e esforço físico, um sorriso gigante toma conta do meu rosto. Pensei: é isso, eu consigo, foda-se, vou colocar o tênis e voltar para casa.

Voltei para casa, ainda a mesma e completamente diferente, pois um novo mundo se abria.

crônicas

Dezoito de março, tudo sobre minha mãe

Eu e minha mãe, em sua primeira viagem à São Paulo, quando adoeci em 2014

Como tantas, uma história que precisa ser contada

Existe uma foto minha com a minha mãe que eu adoro. É do meu aniversário de sete anos, na festa feita na escolinha onde eu estudava. Minha mãe era também a professora da turma, então, mais do que justo, ela está ao meu lado na hora de cantar os parabéns.

Em 1991, felizes em meu aniversário

O meu vestido, em tricô rosa com seus detalhes em branco e sua gola em tecido fino, foi feito por ela. Me lembro das várias provas que fizemos nas semanas anteriores até que eu finalmente pudesse usá-lo naquele dia tão especial.

Minha mãe, linda e no auge da juventude, usa um look azul petróleo que até hoje nunca consegui imitar por completo, me faltando sempre esse porte ou esse bom gosto.

A coisa de usar dois relógios era moda na época, o cabelo assim em camadas e com as pontas aloiradas também. Com o sorriso mais lindo que se pode ter, no momento em que a cantoria acaba e eu faço um pedido antes de soprar as velinhas, minha mãe me beija o rosto como quem me conta um segredo, um segredo que eu sempre soube: lembro com exatidão que nesse momento ela dizia que me amava. Não “eu te amo” ou “eu amo você”. Era sempre “ti amo”, com ti bem pronunciado, como um código especial entre nós duas. É assim até hoje.

Tenho pensado muito ultimamente na necessidade de que contemos as histórias das mulheres que admiramos. Precisamos falar sobre mulheres, precisamos tomar esse espaço nas narrativas cotidianas. Precisamos falar sobre as mulheres como falamos sobre os homens, tornar essas pautas equivalentes em quantidade. Recentemente, com um grupo de amigas, a pergunta era qual pessoa era a sua maior inspiração. A minha, sem dúvida, é a minha mãe. No entanto, percebi que não sabia tantas histórias sobre ela.

Com meu pai, outro grande cara que merece ter sua história contada.

Como é óbvio de se imaginar, as histórias todas que sei da minha mãe vêm do olhar que tenho dela como filha. Não sei muito do seu tempo de garota, das suas histórias do tempo de solteira. Sempre vi a Neti, a mulher de temperamento forte e coração mole, como minha mãe apenas.

No entanto, conforme crescemos, aprendemos a nos distanciar desse olhar fraternal e a ver nossos pais mais como indivíduos comuns, passíveis de erros e acertos, assim como nós. Desde que saí de casa, oito anos atrás, passei a me ver mais como um indivíduo único, não apenas como a filha, a parte mais nova daquela família nuclear de onde vim. Ao mesmo tempo, a cada ano que passa, percebo mais e mais traços da minha mãe em minha personalidade. Nada que eu invente ou force, mas muitas vezes me vejo tendo o olhar dela para o cotidiano. Sua praticidade, a resiliência e a doçura inesperada que resolve em segundos um conflito que eu mesma criei.

Não sei muito sobre minha mãe antes do meu nascimento e isso é um erro, mas hoje, em seu aniversário, percebo que ela já passou mais tempo sendo minha mãe do que não sendo, então quem sabe meu erro não seja tão ruim assim.

Após minha primeira cirurgia, em 2014, quando do meu tratamento do câncer

O que sei da minha mãe e posso contar são essas histórias que vivemos juntas. Como quando estive doente e ela viajou de ônibus por quase um dia inteiro para então ficar por semanas dormindo em um sofá ao meu lado, em um quarto de hospital.

Como quando, incontáveis vezes, ela me mostrou que preciso ter calma diante do que não posso resolver. Acho que ainda não aprendi, mas ela segue me ensinando.

Quando eu era pequena, me magoava porque brigávamos e eu queria ficar uma semana sem falar com ela. Quando ela brigava com meu irmão, em dois segundos eles já estavam se falando de novo e eu via nisso uma prova inegável de que ela gostava mais dele do que de mim. Que besteira. Quanto mais me conheço, mais conheço minha mãe. E entendo que ela sempre foi boa, sempre foi justa, sempre foi coração e alma, corpo forte e trabalhador que nos sustentou com trabalho e amor por anos. E eu sempre fui uma menina brava, exigindo provas de amor sem conseguir enxergar que elas sempre estiveram diante dos meus olhos.

Meu marido, meu irmão, eu, minha cunhada e minha mãe. Meu pai não sai de casa por nada, gente.

Existem muitas histórias. Os almoços extremamente simples que a mim pareciam banquetes, posto que ela arrumava a mesa tão bonita. Como ela sempre estava tricotando ou costurando roupas para mim, me vendo bonita em lindos blusões de inverno e atrevidos biquínis de crochê no verão. Como ela sempre me protegia dos outros, eu com a minha timidez ridícula desde a infância, me escondendo em seu colo nas festas de família.

Esse não tem sido um ano fácil para mim. Me vi doente, de cama, mais vezes do que se pode considerar normal. Muitas vezes perdi a paciência e a fé, ligando para minha mãe em outro estado e chorando desesperada, sem pensar nela que só me ouvia à distância sem nada poder fazer além de me ouvir. Nesses momentos, seus conselhos sempre me acalmavam, mesmo eu podendo saber, a conhecendo agora como conheço a mim mesma, que nem sempre ela tinha certeza do que dizia. Mas ela tem fé e ela acredita. E ela torce por mim, então as coisas devem melhorar.

Eu sei que todas as mães são incríveis. Acredito firmemente nessa verdade que, como poucas, ainda mantém o mundo um lugar habitável. Mas preciso hoje falar da minha mãe. Seu nome é Ivonete Terezinha Lopatiuk do Amarante e ela faz 60 anos. Ela nasceu em Medianeira (PR) e se mudou pra Foz do Iguaçu ainda nova. Ela se casou com meu pai quando eles tinha vinte e poucos anos e eles tentaram morar em Curitiba por um tempo, mas não deu certo. Gosta de uma cervejinha e de um churrasquinho. Gosta de novela, mas sempre promete que essa nova que saiu agora ela não vai ver, senão vicia.

Ela já trabalhou como professora, como vendedora, já trabalhou fazendo pão pra vender e como moça da copa, em vários lugares. Hoje ela é diarista, mas está como mensalista para a família de uma amiga. Ela trabalhou como babá por muitos anos para várias famílias e até hoje vários jovens adultos a chamam com carinho de Tia Neti.

Passeando no litoral, mês passado.

Essa é a minha mãe. Ela parece brava, mas é extremamente emotiva e carinhosa. Feito eu. Quando angustiada com a vida, ela limpa a casa e trabalha para espairecer. Feito eu. Ela construiu uma vida simples e digna, baseada em seu próprio esforço e no amor que sente por todos que a rodeiam. Como eu espero estar fazendo. Considerando que me pareço a cada dia mais com a minha mãe, se um dia eu conseguir chegar à metade do ser humano que ela é, já serei uma pessoa realizada.

Quanto mais conheço a mim mesma, mais conheço minha mãe. Quanto mais conheço minha mãe, mais a amo e admiro sua força, sua história. E a sua história é bonita, como a de tantas mulheres que conhecemos. Essas histórias precisam ser contadas. E é por isso que, feito a menina de sete anos que fui, admirada por ter a mãe mais bonita da escolinha, hoje eu venho aqui, usando as únicas ferramentas que tenho, escrevendo, já que é a única coisa que sei fazer, para dizer que esse texto é para você, Neti. E também para dizer que eu ti amo. Muito. Eu ti amo pela vida inteira, mãe.

crônicas, Resenhas

Segunda-feira, quase cinco da tarde

Call Me By Your Name, 2017

Sem relógio no pulso, marquei encontro com a saudade

Mordemos em grandes dentadas tudo o que é jogado em nossa direção e engolimos sem mastigar direito. Sinto falta do silêncio da adolescência, uma tarde inteira que morria enquanto eu ficava sentada na beira da porta de casa lendo um livro que já tinha lido mil vezes.

Um livro que não me acrescentava nada, as palavras todas enfileiradas só me ensinavam isso: palavras.

Seis episódios de série de uma vez e eu nem lembro o que aconteceu no final do primeiro. Como vou estabelecer uma conexão assim?

Na segunda-feira, reencontrei aquela tarde perdida. Escolhi uma roupa que fingi ser bonita, me olhei no espelho e fingi gostar do que via, peguei a bolsa e fui para o cinema.

Quase cinco horas da tarde.

Incrível como tinha gente na fila, São Paulo é esse caos sem massagem. Cheguei cedo demais como sempre (espero só atrasar na morte) e fiquei por ali.

Calada, apenas olhares e expectativa. Um peão girando esperando a hora.

Tentei ler os jornais, sempre tinha alguém na frente. O inferno da timidez e da miopia, tanto não conseguia tomar a frente na vitrine quanto não enxergava as letras enormes da manchete, mesmo dali.

Comprei meio litro de água porque me falaram que ando esquecendo de tomar água.

E então, o assombro e as lágrimas.

Nada pode se comparar ao encanto de ver na tela grande o livro que você leu e amou. Mesmo que não saia exatamente como você pensava (nunca sairá, somos possessivos e arrogante demais com nossos amores), mesmo que mudem tudo e principalmente se não mudarem nada.

Os silêncios e os sons. A sensação de já ter lido aquele sorriso. Todo um universo que é só seu explode em reconhecimento e pertencimento quando, veja só você, na tela o ator fala com a voz que você pensou.

Me pego pensando se gosto tanto desse filme pelo o que ele é ou pelo o que ele me fez sentir, me levando ao passado e me lembrando quem eu costumava ser.

(Se é que existe como separar essas sensações todas e escolher com qual delas seguir.)

Quieta no cinema eu pensava que, meu deus do céu, como pode a gente sentir tudo isso.

Gostaria de reviver o tempo em que a minha atenção não se fragmentava em mil pedaços diariamente me deixando sem norte, como hoje. Gostaria de poder sentir novamente o doloroso entusiasmo solitário de ter apenas um filme para ver, em casa.

E tendo apenas a ele, ter apenas a mim.

Sinto tudo isso e sei, ao mesmo tempo, que sentir tudo isso é bobagem. Vivemos a vida que temos. Tudo está tão bom assim, é besteira dizer que os tempos de hoje são ruins só porque eles mudaram.

Ainda assim…

Sem relógio e sem aviso, em plena segunda-feira eu abri uma porta e aqueles dias antigos vieram me visitar. Quase cinco da tarde, me diga se isso é hora, depois era quase oito da noite e não importa.

Dentro de mim, aquela sensação ainda existe. Mesmo com todos esses anos.

Brain Dump*

Inundação

“The Lady of Shalott”, de John William Waterhouse (1888)

Não espere que ser feliz não tenha um preço

Sonhei que você chegava na minha casa, abria o portão e sorria. No sonho você tinha a idade que eu tenho hoje, metade da que realmente tem nesses dias. Você usava um jeans azul escuro e uma blusa de tricô de um verde militar escuro também, seu cabelo muito bonito completava o tom da elegância simples que você emanava. Na cozinha da minha casa, casa esta que você ainda nem conhece na vida real, você dava risada tentando conter uma goteira que vazava pelo teto. “Meu amor, vai inundar tudo!”, você dizia e ria, porque já passou muito por isso.

Encostados na janela da varanda da casa de um amigo, fomos surpreendidos por nós mesmos contando um ao outro segredos sobre nossos sonhos mais imediatos. Dei um gole na cerveja e confessei que ando sentindo muito medo, pois ando feliz demais. Você riu de mim (um claro sinal de que eu estava errada e isso me alivia como poucas coisas na vida) e disse que não havia motivo para ter medo. É bom ser feliz, pensei. Eu deveria aceitar essa felicidade, me cobrei, não sem julgamento.

Eu deveria, não é mesmo? Passo o dia subindo e descendo escadas tentando entender que a minha vida é esta e que não há problemas em ser feliz. Por muito tempo, fui levada a acreditar que queria demais, emprego, reconhecimento, coisas. Não preciso, na verdade. Meu trabalho paga as minhas contas e não tem problema se eu jogar video game por uma hora entre uma entrega e outra. Minha casa é bonita e eu posso ter uma casa bonita sem pensar que não a mereço. Meu casamento é feliz e tenho dois gatos lindos. Eu só preciso acreditar que valho essa felicidade toda.

Existe um senso comum de que você precisa sofrer muito para depois ser feliz. Se você é uma pessoa que acha que merece tudo de ruim que lhe acontece, é como se a hora em que ser feliz é permitido nunca chegasse. Minha mãe, no meu sonho com a minha idade, dizia que vai inundar tudo. Acho que vai mesmo. Já está inundando tudo essa felicidade: minha casa, meu casamento, meu coração. Os sonhos todos sendo revelados entre um gole de cerveja e outra, gargalhadas antes de dormir e depois sozinha na rua, lembrando.

Vai inundar tudo, mãe.

crônicas

Viagem sentimental à Paraíba

Açude de Pilões / Paraíba

Nenhum catálogo de viagens te prepara para a vida real

Foi a menor bagagem da vida: cada um com uma mochila nas costas para passar quase quinze dias fora. Levamos só o necessário e desse necessário ainda deixamos a metade em casa. Fomos.

Dizer que a Paraíba é bonita é ser óbvio demais. O que torna tudo diferente são as pessoas ali. Fomos para visitar parentes, parentes esses que não eram visitados há mais de duas décadas. Havia em cada encontro uma efusividade que transbordava carinho e surpresa incontida. Fomos abraçados em hospitalidade e atitudes, palavras e conversas que se esticavam um pouco mais para contar os causos que iam surgindo na memória.

Em poucos dias já sabíamos que aquela seria uma viagem diferente. Não eram apenas os cartões postais ou os dias na praia. Nossos corações foram imediatamente engolfados por uma atmosfera acolhedora e risonha que nos mostrava que estávamos vivendo um momento especial de reencontro, de felicidade, de ver pessoas e conversar com elas. Trocar histórias. Ouvir.

Ponho na conta da minha origem paranaense essa timidez crônica que me é tão particular. Falo pouco, encaro o chão, sempre acho que a conversa não é comigo, que não tenho nada interessante a ser dito. Nessa viagem, me vi forçada a mudar isso. Porque as pessoas queriam saber de mim. Queriam me ouvir, me entender, saber quem era essa menina que Alex trouxe com ele. E eu me deixei levar. Tentei o meu melhor, um pouco ansiosa em não errar. Atropelando frases, mexendo no cabelo, deixando o celular de lado. Tentando responder com mais de uma palavra as perguntas que me faziam.

No sertão, dias depois, nossa experiência se aprofundou em sentimentos. No meio da paisagem solitária, longas viagens de carro nos levavam a casas enormes cravadas no meio do mais absoluto nada. A vista alcançava apenas uns gados preguiçosos vivendo um dia de cada vez. Como nós mesmos fazíamos. A casa simples que nos abrigou trazia segredos e truques. Café da manhã com tapioca, queijo coalho e doce de leite feito ali mesmo. O banheiro do chuveiro bom era o dos fundos, o que não fazia muita diferença se sempre tinha pouca água. Um quarto só para o casal foi um luxo que entendemos como um presente pela visita. No fim de tarde, no alpendre, a vó balançava devagar na rede e com seus 94 anos de história e de idade, recitava quadras de cordel e cantava canções do rádio. Sorria quando via que estávamos prestando atenção.

Uma curta caminhada até o bar onde o padrinho faria uma peixada e pudemos ter uma ideia do que é viver por lá. O Sol castiga de um jeito inexplicável. Passamos pela barragem do açude, naquelas águas tantas memórias e saudades que a vista fica nublada de lágrimas diante do céu sem nuvens. Os sorrisos e os olhares cheios de entendimento que trocamos foi a prece silenciosa que fizemos ali, sentados por cinco minutos no valoroso Bar Peixada Quente antes de respirar fundo e seguir em frente.

Seguimos. Em cada casa, histórias diferentes e fortes. Mulheres que morreram tragicamente por doença ou por amor, relatos contados com sorrisos tímidos sob a vigilância dos retratos na parede. Homens que foram embora cedo demais. A morte, tão presente quanto certa, levou aqueles que mais amamos, mas estamos aqui para lembrar. Lembramos.

A história de uma família não pode ser contada por livros, mesmo que estes sejam só de índice. Não cabe, a vida real transborda. A história de uma família, e foi isso o que aprendi nos meus doze dias conhecendo uma parte dessa família que me acolheu e agora é minha também, precisa ser vivida e contada pessoalmente. Tia Randinha trazendo copos de suco em sua bandeja mais bonita, que imita prata. Tia Helena cuidando da mãe em sua casinha pequena. Vó Franscisquinha na ponta da mesa em todas as refeições, participando da conversa. Tia Marione trazendo os álbuns de fotos para a gente ver. Josier e Marinez sentados com a gente na varanda e rindo.

Doze dias depois, voltamos para casa. Já não éramos os mesmos. Ainda trazíamos só o necessário, mas o necessário agora era outro. Tem mais a ver com amor, com se importar um com o outro. Com a noção do que é fundar uma família e dar valor à ela. Tem a ver com amor, um amor forte e sólido, capaz de nos proteger de qualquer mal. Um amor como o nosso, que cresce e se enraíza nesses momentos que vivemos, nas histórias que criamos juntos e que nos prepara para tudo mais que está por vir. Nenhum catálogo de viagem te dá isso. Só o amor é capaz.