Brain Dump*

Imagina, não precisa

Photo by Bruce Christianson on Unsplash

Nunca tinha sonhado com meu primo até que ele morresse, assim como nunca tinha passado um tempo tão grande presa em casa de modo que cada sonho meu, onde ando por lugares, frequento bares, vejo a rua mais de perto, parecesse uma idealização dolorosa da vida que estou deixando de viver. Também é fácil, é claro, se comprazer com a morte abrupta e injusta de uma pessoa de trinta e poucos anos de idade e fazer dessa morte um bom ponto de referência pessoal de toda a vida que deixou de ser vivida.

Quero fazer desse texto o menos triste possível, dentro do que posso. Também quero falar o menos possível dos sonhos em si, porque, você vai concordar comigo, a única pessoa que liga para os nossos sonhos é a gente mesmo. E eu digo isso em todos os sentidos, e você entende isso em todos os sentidos e pelo menos nisso, concordamos. Em conversas de escritório, papos furados em mesas de bar, falar “sonhei um negócio engraçado” é sempre a chave para fazer a mente do seu interlocutor voar, e nunca da maneira que você acha que ela está voando.

Sempre que sonho com meu primo, estamos em alguma aventura. Alguma coisa inesperada, drinks diferentes, passeios de carro. Ele me diz algo muito interessante que esqueço assim que acordo, mas fica aquele peso de que, por alguns instantes, eu soube uma boa solução para algo que, acordada, não vejo como problema. Navegando pelo duro ano de 2020, tudo parece um problema, mas eles vão se apequenando conforme olhamos o cenário completo. O problema é que olhar o cenário completo também é um problema daqueles, então só resta você em posição fetal sentindo dores e se sentindo culpado por senti-las.

Mas eu falava do sonho, ainda que tenha dito que falaria pouco dele. Estamos em um bar com um cardápio maluco, cada drink custa caro e vem muito pouco na taça, o que já entendemos como um indício do forte teor alcoólico dessas bebidas. Nos sentamos à mesa e percebo que estamos sem máscaras, o que me sinto inibida de questionar, já que meu primo já está morto mesmo. Ele não parece se preocupar, quem sabe eu devesse me preocupar, mas fica tudo um pouco invertido em nossas prioridades ao beber em um bar com um defunto.

Não lembro de uma frase sequer que trocamos, porém olhando agora o calendário, vejo que hoje faz exatos dois anos da sua morte, então era uma celebração? Foi uma celebração, nós brindamos. Isso eu lembro. Assim como lembro que, no sonho, assim que saímos desse bar, andamos de carro pela Paulista, o que nunca fizemos, e era um dia lindo de Sol.

Um dia tão lindo de Sol como esse que me recebeu hoje de manhã, assim que acordei.

Momentos felizes parecem borrados ultimamente. A indulgência faz você comer o seu sorvete favorito no intervalo do almoço, então como fazer de um momento no sofá vendo série algo especial? Estou há semanas presa nas mesmas reprises, sem forças para começar algo novo. Os projetos de quarentena são todos diluídos em momentos isolados de euforia.

Porém, como disse, não posso reclamar. Está tudo bem, dentro do possível. Mais do que bem. Revisando meu diário, notei que junho foi o mês mais feliz desse ano, para mim. Vários motivos, e olha que o cenário não é nada fácil. Então, sem lágrimas.

Mas quis contar isso. Do sonho. De como nossa mente acha jeitos de voar por aí, ainda que conscientemente a gente acene constrangido dizendo “imagina, eu estou bem, não precisa!”. Bom, quem sabe precise.

Eu sou feliz, eu estou bem. De verdade mesmo. No entanto, contudo, toda vida, foi bom voar por aí.

É bom poder voar por aí, e a gente sempre encontra os nossos próprios meios.

Brain Dump*, Resenhas

Letra & Música: o amor como meio e não como fim

Letra & Música – Dir. Mark Lawrence (2007)
  • Atenção: este texto contém spoilers de Letra & Música, um filme de mais de dez anos atrás.

Uma pérola da comédia romântica, esse gênero cinematográfico em vias de ser criminalizado e banido de todas as salas de cinema do mundo, Letra & Música entrou para o catálogo da Netflix essa semana – o que me deu a chance de rever esse que já foi um dos meus filmes favoritos até eu assistir a outros duzentos títulos e esquecer dele por completo.

De 2007, incríveis treze anos atrás, o filme conta a história de Alex Fletcher (Hugh Grant), um músico de sucesso nos anos 80, mas hoje em suave ostracismo vivendo de shows menores para balzaquianas saudosas. Sua vida pacata muda quando ele conhece Sophie Fisher (Drew Barrymore), uma moça maluquinha e atrapalhada (claro), que surge na sua casa para regar suas plantas(!), mas acaba colaborando para uma composição por encomenda que Alex precisa fazer para gravar com a nova sensação pop do momento, Cora (Haley Bennet), e assim, quem sabe, voltar aos holofotes.

Na primeira vez que vi esse filme, com vinte anos de idade, o que mais me encantou foi a dinâmica entre Alex e Sophie, a maneira como eles combinam. A química entre os dois é inegável (embora Hugh Grant tenha revelado posteriormente que eles detestaram trabalhar juntos e que fez Drew chorar várias vezes, do que se arrepende). Porém, à época, acho que não compreendi o filme por completo.

É interessante como Letra & Música se vende como um filme de amor clássico, garota encontra garoto, mas se você assistir sem tanta idealização romântica compulsória consegue perceber que ele é muito mais do que isso. Ele fala de amor de uma maneira muito mais madura do que estamos acostumados a ver nesse tipo de produção.

É sobre amar o seu quadril e cuidar dele na terceira idade. Brincadeira.

Para começo de conversa, Letra & Música é das poucas romcoms onde o foco está no homem. Essa quebra de padrão na escolha da ótica pela qual a história será contada já nos dá uma pista de que essa é uma trama diferente. Comédias românticas, por definição, nos contam a história de mulheres descobrindo o amor em lugares improváveis e lutando, com muito humor e estoicismo, para fazer esse relacionamento dar certo. Aqui, no entanto, o protagonista é o mocinho, Alex Fletcher, um cara chegando à meia-idade e no meio de uma cruzada pessoal entre aceitar o esquecimento ou tentar mais uma vez conquistar um lugar ao Sol, profissionalmente falando. É nesse ponto que somos apresentados à ele e é nesse ponto também que Sophie o conhece.

Sophie, a seu modo, também está em um ponto de estagnação quando Fletcher cruza seu caminho. Vinda de uma relação traumática, onde foi exposta por seu ex abusivo, ela se encontra meio perdida, em um sub-emprego no comércio da irmã e com um bloqueio criativo, fruto desse relacionamento anterior, que a impede de dar prosseguimento em sua carreira de escritora e poetisa.

Apesar dessas questões de ambos, o amor entre Sophie e Alex surge. E esse amor, curiosamente, não é mostrado como um desafio ou drama. Trajetórias diferentes, traumas, dinheiro ou idade, tudo isso poderia ser um conflito na história de amor de Letra & Música, mas não é. O amor entre eles não é mais um problema a ser resolvido, por que não é disso que se trata o filme. O que só fui entender agora.

Quando você sabe, você sabe…

Colocar o amor de Alex e Sophie como um problema seria uma abordagem fácil e previsível para uma comédia romântica, mas Letra & Música faz mais do que isso. Visando mostrar os verdadeiros conflitos dos personagens, a trama evita o caminho mais fácil e faz do amor dos protagonistas um amor tranquilo, que nasce espontaneamente e os ajuda a encontrar um novo caminho, um caminho melhor, para viver. E é esse todo o mote do filme, em contraponto às romcoms padrão: o amor dos dois é um meio e não um fim.

Como par, eles usam o amor que sentem um pelo outro como uma estrada e não como uma residência fixa: é o que os ajuda a seguir em frente. Quando, apaixonados, colaboram na escrita de uma canção, vão muito além de simplesmente compor uma música juntos: como casal, mostram um ao outro que existem outras possibilidades além de simplesmente aceitar a vida como ela está.

Quando Fletcher encontra Sophie, descobre nela uma nova inspiração para escrever, algo no que ele notoriamente não é muito bom. Mas Sophie tem a doçura e a leveza capaz de inspirá-lo, e mais, de motivá-lo a compor algo que possa mudar sua situação.

E da mesma forma que Sophie ajuda Alex ao compor com ele e o tira da escuridão, a vida de Sophie também é transformada por esse amor tranquilo que eles constroem. Sob a influência de Alex, com seu humor ferino e senso prático, Sophie encontra a motivação para voltar a escrever e até descobre forças para confrontar o ex (com o apoio gracioso de Alex, em uma cena memorável do filme).

I’ve been watching but the stars refuse to shine
I’ve been searching but I just don’t see the signs

Assim, a não ser por uma eventual briga para dar a tensão necessária para o desfecho do longa, inexiste conflito entre Sophie e Alex. Ao contrário da maioria dos filmes de amor, os protagonistas aqui não se envolvem em mentiras ou dilemas morais maiores que os impeçam de ficar juntos. Nada impede Sophie e Alex de ficar juntos, e eles ficam. E o filme é sobre isso: sobre duas pessoas que se encontram em um estado de estagnação conformada, e juntos acham um motivo novo para tentar, através de um relacionamento saudável e tranquilo.

Por isso, Letra & Música é sutilmente diferente de outros títulos do gênero: é uma história de amor sobre um amor que não se encerra em si, mas que é o ponto de partida para outros arcos possíveis para os personagens. Diferente do padrão, não é um filme que diz: “ok, a gente se ama, como vamos lidar com esse sentimento?”, mas sim um filme que diz: “ok, a gente se ama, então vamos juntos conquistar nossos sonhos”. É uma outra visão para o amor, uma visão mais madura e sólida.

Desse modo, assistindo hoje ao filme, na aurora dos meus 30+, consigo ver nele muito mais valor e profundidade do que encontrei na primeira vez que o assisti, quase uma década e meia atrás. Envolto em múltiplas camadas adoráveis de humor, música pop, diálogos afiados e questionáveis escolhas fashion da protagonista, Letra & Música fala ao coração daqueles que já estão no jogo a tempo suficiente para entender que o amor não é sobre relacionamentos apenas. O amor é sobre tudo, sobre absolutamente tudo do que a sua vida é composta. E se você é capaz de encontrar alguém disposto a trilhar esse caminho ao seu lado lhe ajudando a crescer e evoluindo junto com você, não pode perder isso por nada. Nada tem mais valor do que isso.

Revendo agora, Letra & Música retoma seu posto como um dos meus filmes favoritos, justamente por sua capacidade de dizer tantas coisas em uma história aparentemente superficial. Treze anos depois, foi preciso que eu amadurecesse para poder entender do que o amor é capaz, vivendo isso em minha própria vida. O que torna tão especial encontrar nesse filme simples muito do que acredito como pessoa.

E ainda querem criminalizar a romcom, imagine.

Brain Dump*

Assisti a 30 filmes indicados ao Oscar 2020 e veja o que aconteceu

1917 – Dir. Sam Mendes (2019)
  • Esse texto não tem spoiler de nada. Caralho, deve ser exaustivo ser você!

Sentimentos! O que mais senti nessa maratona do Oscar foi, não vou mentir, sentimentos. O que não chega a ser novidade para ninguém. O ponto interessante aqui, a meu ver, é que hoje, manhã pós-Oscar, a cidade de São Paulo submersa em chuva e ódio lento, acordei e ainda me sinto eufórica, um pouco boba e, por que não?, com a sensação de que eu de alguma forma faço parte de algo grandioso.

Por que eu vi 30 filmes dos 53 indicados e eu fiz uma festa em casa para ver a premiação.

Sendo o cinema uma ilusão que nos embala e nos ajuda no que é essencial, ainda mais hoje: escapismo.

Eu sempre gostei de filmes. Como qualquer pessoa. Sempre acompanhei os lançamentos da sétima arte, até aí nada demais. Alguns anos atrás, tive a oportunidade de trabalhar na cobertura das premiações do entretenimento e aí as engrenagens começaram a girar de fato para mim. Por que até então parecia um processo aleatório e incompreensível. No entanto, quando você começa a acompanhar de perto os prêmios, você percebe como tudo segue um raciocínio lógico (ou pelo menos deveria seguir) e como cada prêmio da temporada vai construindo o que vai acontecer (ou deve acontecer) no Oscar, que é a premiação máxima.

Brad Pitt customizando com miçangas seu Oscar 2020 por Melhor Ator Coadjuvante

E na verdade, é aí que começa a ficar divertido. Há pelo menos três anos eu desenvolvi um sentimento muito forte de gameficação com o Oscar, onde tento ao máximo ver todos os filmes indicados. O que é invariavelmente impossível, mas devo dizer que tenho me aprimorado a cada ano.

O que nos leva a hoje, 2020, quando eu consegui ver 30 filmes dos 53 indicados, como falei. Nunca tinha ido tão longe. Uma das vantagens desse feito é, como já devem ter notado, ficar repetindo-o sem parar. Mas a principal vantagem, e é sobre ela que se debruça esse meu texto, é o quão gratificante e confortável é você sentir que tem embasamento sobre um assunto sobre o qual todos estão falando. E mais, o quanto você aprende e amplia sua visão de mundo quando se propõe a assistir, basicamente, todos os filmes que importam daquele ano.

Life Overtakes Me – Dir. Kristine Samuelson, John Haptas (2019)

Por exemplo, esse documentário Life Overtakes Me, tem na Netflix, sobre crianças que simplesmente “apagam” em situações de muito stress. Elas podem ficar assim por anos, do nada, como se estivessem em coma. Tem acontecido principalmente com crianças refugiadas na Suécia. A medicina ainda não entende como funciona, e o documentário tenta mostrar o quanto essa situação vem crescendo e como ela é pesada para as famílias dessas crianças. Eu nem sabia de nada disso até ver o doc.

Além disso, maratonar os indicados ao Oscar me faz ver filmes que eu normalmente não assistiria. O que me faz descobrir favoritos em lugares improváveis e aumenta a quantidade de gêneros cinematográficos para os quais eu tenho algum respeito. Nesse sentido, esse ano a grande surpresa para mim foi 1917, que eu jamais assistiria por ser filme de guerra, normalmente um gênero chatinho, mas que me cativou absurdamente tanto pela narrativa quanto pelo poder de sua fotografia.

Bastidores de gravação de 1917

Maratonar o Oscar é, de fato, bastante simples. Você só precisa abrir mão da sua vida pessoal ter um pouco de organização e disposição. Claro, a lista de indicados sai apenas um mês antes da cerimônia, mas antes disso você já pode estar atento e procurando assistir aos filmes que estão sendo mais comentados. Para me ajudar na organização, levei para o meu bullet journal a lista oficial e ia anotando quais já tinha visto, tendo uma visão melhor dos que eu ainda precisava ver e me programando a partir disso.

A parte de gameficação fica ainda mais divertida quando você faz essa maratona junto com outra pessoa. Assim como nos anos anteriores, para 2020 eu e minha melhor amiga, a Carol, combinamos de ver os filmes da lista, o máximo que conseguíssemos. Nem sempre juntas, claro, mas sempre que possível sim. Então, isso também rendeu um grande aprimoramento da nossa amizade, pois tivemos mais motivos para nos encontrar e também mais assunto para conversar no dia a dia.

No fim das contas, a Carol viu poucos filmes a menos do que eu. Mas ela venceu no bolão e acertou mais vencedores (emplacou 15, eu só acertei 12). Outro momento divertido que o Oscar nos rendeu, quando ontem nos reunimos para fazer as nossas apostas, tomar Mimosas, comer salgadinhos de padaria e assistir à premiação na minha casa.

Para além de toda essa festa do escapismo, o Oscar esse ano foi muito impactante pelos inesperados, mas extremamente merecidos, prêmios para o filme Parasita, inclusive o prêmio mais importante da noite, de Melhor Filme. É claro que em celebrações como essas a gente tende a ceder facilmente à frivolidade dos looks e dos rostinhos bonitos. Mas é importante lembrar o peso que tem uma premiação dessas e o quanto ela define os rumos da nossa cultura. Por isso, é um sopro de esperança quando acontece algo como o que aconteceu ontem: um filme em língua não inglesa vence.

Isso significa que estamos, ainda que muito devagar e muitas vezes sem vontade, rompendo a bolha do nosso mundinho colorido de ver apenas produções americanas sendo celebradas nas premiações. E isso é algo de que se orgulhar, eu acredito.

Elenco e realizadores de Parasita comemorando os Oscars recebidinhos

Tudo isso, veja, todo esse universo de informações, descobertas e oportunidades de pensar de outra forma nos é dado em eventos culturais como o Oscar. Dessa maneira, maratonar os filmes é uma oportunidade incrível de mergulhar nesse universo, que se renova e se expande a cada ano. Por isso é tão divertido. Por isso é tão bom fazer parte.

Sentimentos! Fiquei muito feliz em acompanhar os indicados tão de perto esse ano. Parece besteira e é um privilégio inegável, mas no fim do dia é tão bom. Se sentir parte de algo, aprender algo novo. Comer salgadinhos e beber Mimosas usando roupas chiques e chinelos.

Mal posso esperar para a próxima maratona. 🙂

Brain Dump*

Adam Driver: o enigma de John Hamm e seus desdobramentos na sociedade

Marriage Story (2019)

A questão agora era se Adam Driver é bonito ou não. Um debate que já existe desde a participação dele na franquia Star Wars (não me pergunte qual filme), uma questão capciosa e, mais do que tudo, um assunto que não importa.

Tenho a minha teoria. Conheci o ator assistindo a Girls (eu assistia a série, ele atuava nela, não confunda). Não lembro ter considerado ele exatamente bonito, mas ele tinha um impacto, pois era o cara que fazia a protagonista de gato e sapato e – posteriormente – se envolveu em outro arco amoroso que dava engulhos em qualquer telespectadora de bem.

Agora com Marriage Story, o ator voltava ao centro da polêmica. Afinal, ele é bonito ou não?

Acabei não dizendo a minha teoria. É que não formulei ela direito, mas o meu ponto é que quando você diz que é impossível um homem feio como Adam Driver ser par romântico de uma mulher linda como Scarlet Johansson, você despreza o fato de que deram uma enfeiada nela para esse filme, até onde é possível deixar uma mulher como Scarlet Johansson feia: lhe dando um corte de cabelo horrível que a desfavorece.

Você quer ser hipócrita, seja aí na sua casa. Não conte comigo para isso.

Por isso, não acho que o Adam ser bonito ou não seja uma questão nesse ponto, porque acho que os dois estão feios e bonitos na mesma medida no filme. Estão igualmente indefiníveis. São bonitos, mas meio feios. Como a gente, em um dia normal. Essa é a magia da arte que, quando se esforça, imita a vida.

Isso resolve, em partes, o enigma do filme, mas não responde a questão central do debate: Adam Driver é intrinsecamente bonito? Ele é bonito no geral?

Resolvi rever Girls para buscar essa resposta, como um arqueólogo que precisa olhar o primeiro vaso de porcelana da história para entender como foi que fizeram esse vaso de porcelana aqui.

Você está feliz, Noah Baumbach?

Girls – season 1 (2012)

Três episódios de Girls e 90 minutos de sono atrasado depois, essa arqueóloga está exausta. Estudo inconclusivo, o enigma prevalece. Tal qual o cachorrinho daquele meme, não dá para saber ainda. Minha conclusão é de que Adam Driver é um homem grande, certamente digno de atenção, mas cravar que ele é bonito é algo que requer uma certeza que não tenho. Ele é alto, isso é certo.

O que nos direciona a outra questão, como se a gente tivesse poucas. A beleza indefinida de Adam Driver se relaciona diretamente ao Enigma de John Hamm: é bom ator ou apenas alto?

Não tem como eu saber, porque não tenho conhecimento para isso e porque a ciência está preocupada com outras coisas (a cura do câncer, mais remédios para alergias) e não se dedica a esse tema em específico, que é o que nos importa agora. Tal desamparo científico torna a nossa luta empírica e mambembe, fazendo com que ela resulte em pouco menos do que frustração e brigas na rede social. Ou seja, não leva a nada.

Assumo minha limitação e digo que não sei se Adam Driver é bonito. Ninguém sabe – e se disser que sabe é por clubismo, por ser fã de Star Wars ou de BlacKkKlansman. Vamos assumir a nossa ignorância e deixar isso pra lá, gente.

BlacKkKlansman (2018)

Quem sabe quando ele fizer um filme do Batman a gente tenha uma resposta? A gente vai se falando…

Mas foi bom ter revisto Girls. Devo continuar, inclusive, porque é uma série confortável de se ver, quando você já viu inteira. Existe algo na futilidade de cada uma das personagens que aquece o coração, porque você precisa ser muito segura de si para se permitir ser fútil assim. E isso é incrível.

Decidi que vou continuar revendo Girls porque estou nessa fase de tomar decisões. Mudar o padrão estabelecido. Tal qual em 2013, quando decidi que ia parar de usar roupas jeans (peças inferiores, como calça, shorts, saia) e sustento isso até hoje. Sou assim, decido coisas importantes em um segundo. É o meu jeito.

Faz um tempo, decidi também que não uso mais nada estampado com imagens ou dizeres. Tipo camiseta de seriado ou filme, sabe? Ou então com frases aleatórias em inglês. Ai, não gosto mais. Sinto as pessoas me olhando e tentando entender a referência. Não gosto mais disso, me incomoda. Agora só uso roupas de uma cor só e sem estampa. Acho chic. Passa uma mensagem. A mensagem é: você só vai saber a minha mensagem quando eu abrir a minha boca. E é muito provável que eu não abra.

Isso vai em sintonia com a minha decisão de fazer cada vez menos. Meu projeto pessoal é me tornar uma incógnita. E é uma escalada. Primeiro as atitudes na vida prática, depois a minha postura nas redes sociais, e por fim mudanças no meu vestuário. Tudo culminando comigo sendo a pessoa mais introspectiva (e plena por dentro) possível. Por fora, quem sabe o que se passa? Ninguém. A ciência me ajudou com a cura do câncer, mas não vai te ajudar com isso.

Em breve, você vai olhar para mim e não vai saber se eu tenho algo a dizer ou não. Só vai saber se eu disser, mas eu não vou dizer.

Eu vou ser o Adam Driver da mensagem.

Fique de olho.

Brain Dump*

Ano que vem eu quero fazer menos

The Crown ( 2016 – )

Eu estava para dizer um milhão de coisas, e no fim pareceu que nada tinha importância, ainda mais quando colocado em perspectiva. A vida de quem busca validação em tudo é excruciante e tem dias longos. Às vezes, eu gostaria de garantir apenas um grande “ok” geral que me permitisse seguir no automático, sem ficar a cada 30 segundos checando mentalmente se está tudo bem.

De uma maneira magnética e inesperada, esse CD novo do Cigarettes After Sex, de cômico título “Cry”, me cativou como nada nunca antes.

São músicas extremamente melancólicas, o que em geral detesto, mas deve ter ali algum ASMR que me prende sem que eu precise me preocupar com a coerência do meu gosto musical.

Digo “inesperada” porque eu nunca tinha ouvido essa banda. E, no entanto, hoje, esse CD é só o que consigo ouvir quando quero focar ou me desconectar da vida para poder focar.

E enquanto me preparo para aceitar o peso enorme de ter meus desejos realizados, assisto a filmes e séries, me alimentando dessas narrativas paralelas. Existem momentos que são especiais para degustar a indústria da cultura, onde inesperadamente algum tipo de vibração boa emana da vida e faz com que esses produtos pop pareçam ser mais do que realmente são.

O que chamo de “momento de rara beleza”.

Tive um momento de rara beleza em alguma madrugada desse feriadão, quando decidi que não era muito tarde da noite para ver “O Operário”, aquele do Christian Bale em que ele está magro horrores.

“The Machinist”, Diretor: Brad Anderson (2004)

Tem dias que você fica horas rodando pelos catálogos de streaming e não escolhe nada. Tem dias que você bate o olho em um título e pensa “é esse”. Honestamente, eu nem sabia do que se tratava o filme – o que hoje é meu método padrão para consumir algo cultural: nem saber do que se trata.

Me vi hipnotizada pela magreza doentia do Bale e mais a trama tão paranoica e absolutamente triste. Depois fui ler sobre o filme e fiquei magoada em níveis brutais com o fato de não ter rendido sequer uma indicação ao Oscar para o ator.

Coisas que só comprovam que emagrecer para caralho, muitas vezes, não leva nada e está longe de ser a solução para tudo.

De qualquer modo, foi alguma coisa ficar vendo esse filme de madrugada e no escuro, tendo que aceitar o fato de que ele me estava me causando medo. E aí, me questionar “medo de quê, minha filha?”.

Sem dúvida, medo do que a nossa cabeça pode fazer a gente se tornar. E aí, sei lá como, o que vivenciei assistindo aquele filme, somado à atmosfera perfeita que me rodeava enquanto eu o assistia, fez com que ele se tornasse melhor do que provavelmente é, sendo alçado à categoria de filme inesquecível para mim. Assim, do nada.

Também tive o mesmo medo – e momentos felizes – em curtir (uso “curtir” de maneira totalmente livre, como se tivesse idade para isso) a nova temporada de The End of the F***ing World. Aliás, me espanta o quanto essa série é subestimada.

The End of the F***ing World (2017 – )

Nessa nova jornada, o que mais me emocionou foi como a série manteve o padrão e, ao mesmo tempo, mudou tudo ao fazer os personagens romperem com o que conhecíamos deles. Mais maduros, saindo da adolescência, Alissa e James são menos o esteriótipo do adolescente problemático “sociopata” e mais jovens adultos lidando com todas as merdas que tornaram eles as pessoas que são hoje.

Em uma palavra? Tudo.

Nesses momentos de rara beleza, seja assistindo a um filme ou série, caminhando sem rumo em um parque no sábado de manhã, deixando que a vida me convença que eu posso ser feliz na maneira com que quem eu amo me sorri, eu digo isso sem medo de ser piegas, eu decidi que quero fazer cada vez menos.

Estou exausta de correr na vida como um hamster dentro de uma roda, sempre vivendo tudo à milhão e sem viver de fato. Me espalhando em opiniões, posts e fotos que não me trazem retorno algum além da ansiedade de receber esse retorno. Por isso, decidi que quero menos, para poder aproveitar de fato o que tenho, e assim ter mais. Quero ler menos, consumir menos, ser mais sobre mim do que sobre a narrativa fictícia do outro. Quero estar em menos lugares ao mesmo tempo e estar por completo onde estiver.

Não quer dizer que eu vou virar uma ermitã. Não com esse celular que eu tenho, com tantos apps legais. E não se engane, eu ainda amo o escapismo que o entretenimento me traz, não vou abandoná-lo. De fato, é por amar tanto que eu quero menos, para poder sentir de verdade.

Se ainda é cedo para fazer planos de ano novo, eu não sei. De todo modo, me sinto feliz em fazê-los, em ver a minha vida como algo ordenado e claro, para o qual eu posso tecer planos. Algo que só foi possível após muita tempestade. Logo, nada mais justo do que aproveitar da melhor maneira possível.

Ou seja, assistindo a nova temporada de “The Crown”, que inclusive está incrível.

Brincadeira. 😉

Ano que vem eu quero fazer menos, e viver momentos de rara beleza cada vez mais.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI: Dia nada – Pra mim já deu

Não sou de encerrar projetos pela metade, mas sinceramente pra mim já deu. Não gostei dos temas e, embora acredite firmemente que é possível sim escrever sobre qualquer coisa, não vou ficar aqui gastando tutano em conteúdo que não acrescenta em nada.

Eu tenho o maior respeito pelo meu tempo e pelo meu esforço. Por extensão, também tenho respeito por vocês, três pessoas que formam minha audiência nesse blog.

Então, encerramos por aqui. E vamos focar no que interessa, escrever sobre o que realmente se tem vontade. E aprender com essa lição.

Grata.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 15: Achievements

Aos meus ouvidos caipiras, “achievements” parece nome de comida, mas na verdade é uma palavra inglesa para “realização”.

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que me preocupa um pouco a quantidade de prompts desse desafio que remetem a conquistas, objetivos e realizações, como já vimos anteriormente em temas como ambition, goals e mesmo em productivity. Eu se sou uma pessoa com alguma baixa estima por não me sentir realizando coisas, ficaria ainda mais desanimada com esses temas, afinal parece até uma cobrança para que você mostre que está “dando certo” na vida. Caramba, pessoal, em quinze dias ter que escrever pelo menos três vezes sobre seus feitos é algo no mínimo estranho. Ninguém tem tanto sucesso na vida assim – e, caso tenha, não vai ser uma pessoa com um blog.

Os blogueiros são, por definição, pessoas que escrevem sobre suas frustrações, não para contar vantagem.

Tendo dito isso, eu me recuso a escrever mais um post sobre o que já fiz ou realizei esse ano ou na vida, estou simplesmente cansada dessa ostentação que só cria ansiedade e rivalidade. Desse modo, prefiro transformar esse post em um metapost, um exercício de metalinguagem onde eu fico só falando do meu texto e não desenvolvo o texto em si de fato.

Parece uma boa ideia, certo? No entanto, pensando melhor, não. É uma péssima ideia. Eu detesto metalinguagem e me sinto incomodada em produzir um conteúdo nessa vertente.

Diante dessa sinuca de bico que eu mesma me coloquei por conta dos meus ideais, encerro por aqui, de maneira inconclusiva e pouco lógica, esse texto.

Mas encerro com dignidade, provando o meu ponto.

Eu acho.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 14: Productivity

Produtividade, eis um assunto no qual me espalho.

Sou obcecada por ser produtiva. Alguma má função nos meus genes, provavelmente, vai saber, o caso é que tenho fixação por extrair cada segundo do dia em alguma atividade útil. Por conta disso, sou uma pessoa extremamente chata, que não relaxa por um minuto sequer.

O lado bom, eu nunca vou me atrasar em um compromisso com você e provavelmente vou fazer tudo por você no seu lugar, para garantir que está sendo feito.

O lado ruim, como já foi dito, eu sou um porre de pessoa.

Não vou ficar dando dica de app aqui, isso não é o Tecnoblog, mas gostaria de apontar quais são os aplicativos que hoje validam e incentivam a pessoa produtiva moderna que sou. Com a ajuda dessa tecnologia, hoje todos podem ser ansiosos digitais, como eu, ou em uma leitura mais otimista, uma pessoa produtiva e com apps. Que sou eu.

Por exemplo, eu uso o Steps, que traça uma meta diária de passos. Com isso, nenhum passo meu é em vão, tudo é produtividade. Esses dias, fui almoçar com uma amiga e nós só sabíamos muito por cima o lugar onde o restaurante ficava. Ficamos caminhando por quase horas até achar, e eu apenas sorria: isso ajudava na minha meta diária de caminhada. Um pessoa que precisa caminhar 12 mil passos por dia jamais está perdida, ela sempre está em uma missão.

Para listar todos os filmes e séries que assisto, fazendo com que mesmo um momento de lazer se transforme em uma tarefa realizada com sucesso, tenho o IMDB e o TV Time, respectivamente. Graças a esses aplicativos eu posso te dizer que hoje, no dia da graça de 15 de outubro de 2019 (escrevo atrasada, sim, mesmo uma vida controlada desanda), eu já assisti a 91 filmes no ano. Além disso, o app de séries conta que já vi mais de 4.500 episódios de série durante toda a minha vida (sim, eu cataloguei), sendo que no último mês eu assisti a 47 episódios.

Dados como esses me validam como pessoa e me acalmam. É por isso que uso também o GoodReads, onde marco todas as minhas leituras. Até o presente momento, li 47 livros em 2019, sendo que a minha meta é 52 títulos.

Para além disso, esse ano publiquei dois livros.

Por fim, gostaria de dizer que essa é a minha vida e eu não acho ela ruim. De verdade, me sinto feliz e realizada por acordar às 5am em um sábado porque preciso caminhar por 10km e ainda faxinar a casa. Ao fim de tudo, me sinto bem em ser produtiva e realizar coisas.

Nesse dia mesmo, no sábado, depois de todas as tarefas concluídas, me joguei no sofá e assisti ao delicioso filme de terror psicológico em um crescendo retumbante Clímax, do cineasta argentino (que ainda não trabalhou com o Ricardo Darín, olha que diferente?) Gaspar Noé. Foi ótimo ver um monte de gente sofrendo na tela por conta do abismo da droga, mais uma validação para mim, a pessoa certinha e careta, ansiosa digital que jamais vai se atrasar em um compromisso com você.

O que deve valer de alguma coisa.

Desnecessário dizer, mesmo assim estou dizendo, contabilizei o filme de sábado no meu aplicativo de filmes.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 13: Helping

Viver não tem sido fácil. Essa é uma lista de 10 coisas que estão ajudando:

  • A oitava temporada de The Office
  • Fazer algum tipo de exercício todo dia para bater a minha meta no app Steps
  • Acordar cedo e acreditar que estou sendo útil por isso
  • Almoçar em um restaurante vegano que é R$29 incluindo suco e sobremesa
  • Estar adiantada na minha meta de leitura do ano
  • A possibilidade de estar empregada ano que vem
  • A descoberta do pão na chapa com requeijão (não na saída) da Padaria Segredo dos Pães
  • Projetos pessoais como esse, que me dão um motivo
  • A estreia da nova temporada de The End of The F***ing World em novembro
  • A ideia que eu tive para o meu livro número 12
Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 11: Fear

Rapaz, se tem uma coisa que eu tenho é medo. Não na vibe Regina Duarte, é mais no sentido verdadeiro da palavra.

Desse modo, o medo é tanto que, indecisa sobre qual deles abordar aqui, resolvi fazer uma lista rápida de tudo que me causa arrepios:

  • Fantasmas
  • Móveis que estalam de noite
  • Pessoas que puxam conversa comigo por conta da minha tatuagem do Palmeiras
  • Sair de casa sem a carteira
  • Perder minha carteira
  • Me atrasar para qualquer evento ou acontecimento banal
  • Assar um bolo e ficar ruim
  • Pegar uma caneta e ela estar seca
  • Entrar em um restaurante e ser a única cliente
  • Filmes de medo
  • Séries de medo
  • Livros de medo
  • Ter um tuíte com mais de 10k RT e com isso atrair atenção indesejada
  • Precisar explicar em voz alta o teor das minhas fanfics do Messi
  • Tomar decisões
  • Olhar o meu saldo bancário
  • Cachorro
  • Andar sozinha na rua quando anoitece
  • Quando meus gatos ficam com o olhar parado e começam a miar para o nada
  • Que meus dentes caiam
  • Dormir de preto e ter pesadelos
  • Comidas apimentadas
  • Pegar uma fila enorme e ser a fila errada
  • Abrir um pacote de bolacha e ter formigas.

Eu poderia continuar eternamente, mas agora fiquei mexida por tocar em todos esses tópicos. Me retiro. Até o próximo post.