Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 03: Weather

O que dizer do clima?

Da temperatura? O que é isso, uma conversa de elevador?

Eu vou te contar o que aconteceu nesse último domingo. Depois de muitos dias de frio e chuva, inesperadamente se abriu o Sol. As ruas ainda tinham poças de água da chuva e das nossas lágrimas por conta dessa economia. O Sol chegou sem ligar para isso. “Vocês que se virem”, teria dito o Sol.

Coloquei meu patins na mochila e fui para a Paulista. Eu poderia ter ido de patins de casa até lá, aliás, pois a ciclovia que corta a cidade me alcança nesse nível. No entanto, não sou assim tão destemida. Optei pelo mais seguro e só na beirada da principal avenida da cidade eu me sentei e calcei meu patins.

Eu vinha pelo caminho ouvindo a minha playlist “Conforto Emergencial”, um compilado das minhas canções favoritas da aclamada banda emo Panic! At The Disco. Nessa lista, tudo tem algum valor, nem que seja puramente emocional ou estético.

O que sei é que coloquei meus patins e comecei a andar pela avenida. É sempre um pouco estranho nesses primeiros minutos, você reconhecendo o piso e também se entendendo com o que carrega na costas, na mochila, tendo cuidado com as pessoas passando ao seu redor em todas as direções e velocidade possíveis.

Quando finalmente me senti à vontade, correndo com os cabelos ao vento, meu peso distribuído com exatidão e compensado na pressão nos meus joelhos, eu tendo a consciência de estar com meus braços e mãos perto do corpo, como é o certo, começou a tocar This Is Gospel, da Panic!.

Eu gosto muito dessa música, primeiro porque ela é linda, segundo porque ela tem um contexto muito bonito. O Brendon Urie escreveu a letra para quando um dos integrantes da banda precisou sair, para entrar em reabilitação. Por isso os versos são tão doloridos e tristes, como em:

If you love me let me go
If you love me let me go
‘Cause these words are knives that often leave scars
The fear of falling apart
And truth be told, I never was yours
The fear, the fear of falling apart

Onde Urie fala sobre a dor de não mais aguentar estar do lado do amigo e vê-lo sofrendo tanto.

Para mim, apenas uma reles mortal, o valor dessa canção se mostrou de maneira prática em muitos outros momentos diversos, mas principalmente nessa manhã de domingo, comigo patinando em um dia de Sol depois de muitos dias de chuva.

Foi, no mínimo, mágico. No máximo, loucura de um coração apaixonado. O fato é que, patinar por ali em um dia tão bonito ouvindo uma música tão perfeita foi um momento muito especial.

Então, se hoje você me pede para falar do clima, o que eu vou contar é isso. O dia lindo de Sol onde patinei pela rua indisfarçadamente cantando This is Gospel a plenos pulmões.

Brain Dump*

Elton John está bem e tudo está em seu lugar

Se querem mesmo saber o que aconteceu, eu perdi um pouco o rumo desde aquela noite, mais precisamente na cena em que o Taron Egerton abre as portas, luxuoso em seu traje alaranjado, e você fala: rapaz… E então não acontece nada do que você pensa.

Não que o ponto seja esse. Como se o inesperado fosse uma novidade — e não uma constante. Oras, nada nunca acontece como você pensa. Não é essa a questão. Mas houve algo de especial em ver aquele filme pela segunda vez em uma semana, entrando bêbados no cinema e embalados em uma alegria que não tinha motivo algum, além de todos.

E aí, como eu dizia, Taron Egerton em trajes alaranjados, depois em mais outros de muitas outras cores. As músicas e os sorrisos, o ódio da vida adulta, divagações sobre talento & oportunidade, você ergue a cabeça e continua não por perseverança e nem por teimosia, mas por… Por quê? Algo sobre o jeito com que você fala comigo quando eu me mostro frágil, algo sobre a maneira com que você me acolhe justo quando eu acredito que não exista mais saída alguma.

Estamos falando de momentos sublimes escondidos dentro de cenas cotidianas. Você do outro lado da rua, encostado no muro e fumando. Eu olho para você sem ser vista, eu na fila para comprar pipoca. Somos dois mundos diferentes, duas existências diferentes, que se conectam no instante em que você olha para mim e sorri. Você sorri. Somos um do outro novamente. Atravessa a rua e vem na minha direção. Me beija com o ar gelado da noite, eu gosto tanto do seu beijo, compramos mais cervejas.

Está tudo muito complicado, os gatos estão a cada dia mais malucos e carinhosos. Corto os tomates em quatro e depois em grossas fatias, fazemos daquele jantar às 23h de uma quarta-feira uma ocasião única de paz em que preferimos não pensar nos problemas maiores.

Eu não sou o homem que eles pensam que eu sou em casa. É claro que não. Eu não finjo nada para os outros, mas eu guardo o meu melhor para você. Ás vezes eu penso nisso, como pudemos criar um mundo tão nosso, de um amor que quase dói, tão forte que dá a volta e se torna frágil.

Noite de video game, você diz algo absurdo só para me fazer gargalhar.

Noite de séries, me enrosco nos seus pés e rimos das mesmas exatas cenas.

Deus me pune pelas coisas mais banais. Tivesse chegado tarde na festa, o cachorro não teria mordido minha mão. O sangue pinga no chão, vou embora correndo, fugindo para o seu colo. Você me recebe, eu aos prantos, coberta de razão e exagerada, emotiva e emocional, sempre, meu Deus, sempre, um tom acima da média e do necessário.

Você cuida de mim, me ouve.

Mesmo estando tudo muito complicado.

Também fiquei pensando nisso. Tudo está sempre fora do lugar, o tempo todo. Que mania de ver o mundo assim! A gente passa a vida toda encarando cada dia como um dia atípico. Será que é tão difícil perceber qual é o padrão aqui? Esses dias, acho que foi ontem, olhei para você e finalmente entendi que o normal é essa loucura mesmo: quando não é um problema é outro, sempre muda o ponto de tensão — mas no fim está tudo bem. A gente dá um jeito. A gente consegue achar alguma diversão no meio do caos. A gente consegue dar as mãos e fugir dali, mesmo sem sair do lugar.

Veja o Elton John, por exemplo. Que complicado, tudo! Mas os trajes e as músicas e o ódio da vida adulta. Ajuda um pouco, não ajuda? Enquanto gastávamos nossa energia achando que tudo estava fora do lugar, nos tornávamos mais fortes para entender a realidade do que somos.

Somos fortes, somos bons. Nos amamos.

E aí, faz até sentido: mesmo com toda essa bagunça, está tudo bem. Estamos bem. Tão felizes como uma noite de cinema, no meio da semana, para ver um filme que instantaneamente amamos, um filme que fala de nós sem jamais contar a nossa história, como nós sabemos que um dia contaremos.

Contos

Conversa com data marcada

Photo by Nicholas Gercken on Unsplash

Quis o destino que fosse assim

– … E tudo isso porque, no final das contas, ela não queria que pesassem o frango se fosse pra ter tanto gelo junto, o que é justo, mas o ponto é que…

– Escuta, eu preciso te falar uma coisa.

– Cibele, eu não tenho muita condição de ficar retomando toda história que eu te conto toda vez que você me interrompe no meio, hein. Eu acabo esquecendo o que tava falando e nisso você me prejudica. Sabe quantas histórias eu comecei e você não me deixou terminar? Eu me sinto uma revista de sala de espera de consultório pelo menos umas três vezes por dia contigo.

– Lembra que te falei que eu vinha tendo uns sonhos estranhos?

– O céu que tinha ondas do mar, a girafa que te pedia as horas, a moça de azul indicando a estrada para Marte, lembro.

– Nossa, eu não lembrava desse da girafa.

– Tá vendo? Isso porque eu presto atenção total nas suas histórias. Já você…

– Eu tive um sonho revelador na noite passada.

– Eu peço mais cerveja ou não?

– Algo envolvendo morte.

– Garçom, traz mais uma pra gente?

– Claudinei, o que eu vou te dizer é muito sério.

– Meu amor, tudo o que você diz é sério. Você é um poço de seriedade.

– Sonhei que eu chegava em casa e você me avisava que a morte tinha me visitado.

– Credo.

– É, mas como eu não estava, ela tinha deixado um bilhete pra mim debaixo da cama.

– Bom, está decidido, eu não durmo na sua casa hoje.

– Isso foi na sua casa.

– Eu não durmo na minha casa hoje. Decidi isso também.

– Mas quando eu entrava no seu quarto, era o meu quarto, na verdade.

– Certo. Vamos passar a noite em algum hotel.

– Claudinei!

– Amor, sabe o que é trabalhar o dia inteiro em pé em um açougue? Eu me sinto um boneco de pano sendo erguido pelo sovaco de lá pra cá o dia todo. Eu só quero ir pra casa dormir, não quero ficar procurando bilhete debaixo da cama.

– A gente não vai ficar procurando nada.

– Você tá chorando?

– Ainda não.

– Moço, traz mais uma pra gente? A que eu pedi não veio.

– Eu entrava no meu quarto e olhava embaixo da cama. E lá tinha um bilhete. Era o dia em que eu ia morrer.

– Olha aqui o meu braço. Arrepiado. E você viu a data?

– Vi.

– Não.

– Sim.

– Você lembra da data? Por que nesses sonhos a gente nunca lembra os números que aparecem. Se desse pra lembrar já tava todo mundo milionário nas loterias da vida. O número parece que não grava na memória da gente quando a gente acorda.

– Eu vi a data e lembro dela.

– Você vai me contar? Eu tenho medo de saber. Você ficou com medo?

– Não, só fiquei… Pensativa.

– Cibele, quanto tempo de vida o papel disse que você tem? Pode me falar, amor.

– Então, o que me deixou pensativa foi isso. A data não era no futuro. Era no passado.

– No passado?

– Dia 25 de fevereiro de 2013.

– Espera.

– É isso mesmo. Exatamente cinco anos atrás.

– Não, espera. Não é só “exatamente cinco anos atrás”. É exatamente o dia em que a gente começou a namorar. Eu achei que esse jantar fosse pra isso, aliás. Pra gente comemorar. Hoje a gente faz cinco anos de namoro, Cibele.

– Eu sei disso.

– Que coincidência bizarra!

– Não acho que seja coincidência…

– Amor, desculpa perguntar, mas você olhou o bilhete direitinho no sonho? Olha que 3 e 8 são parecidos… Vai que era 2018?

– Eu olhei. A data estava escrita por extenso.

– Que coisa bizarra! Engraçado isso.

– Não tem nada de engraçado.

– Engraçado é modo de dizer.

– Fiquei pensando nisso o dia todo.

– É porque é algo bastante bizarro.

– Quer parar de falar que é bizarro? Foi um sonho, um recado do meu subconsciente.

– Hmm.

– Claudinei, a gente precisa terminar.

– Oi?

– Foi isso o que o sonho quis me dizer. Eu morri no dia que começamos a namorar, cinco anos atrás. O único jeito de eu resolver isso é terminando contigo e retomando a minha vida.

– Nossa senhora… Você MORREU quando começou a namorar comigo?

– O que eu entendi do sonho foi isso.

– Você nem em horóscopo acredita, agora vai virar a mística do sonho.

– Morte é coisa séria.

– Cibele, você não morreu! Ou eu tô namorando uma alma penada? Se liga! Você vai terminar comigo por conta de um sonho? A gente tá juntos tem metade de uma década. Eu te ajudei quando você quis largar o pet shop e virou atendende da Vivo, sabe? Eu tava lá quando seu pai foi internado, quando você entrou na faculdade. Cibele!

– Eu sinto que só afundei nesses cinco anos.

– Você o quê? Você está infeliz comigo?

– Claudinei, procura me entender…

– Você não vai começar a chorar agora, porque toda vez que você chora você sabe que me dá um aperto no coração e eu choro também.

– Desculpa, não vou chorar.

– Você está mesmo terminando comigo?

– Eu quero retomar a minha vida, vou voltar pro pet shop, vou tentar vestibular de novo…

– Nossa, você quer voltar no tempo!

– É uma segunda chance, você não vê? Eu trilhei um caminho errado e agora tenho essa chance de reajustar a minha rota.

– E eu?

– Eu não posso mais estar com você.

– Você vai me dizer que tudo isso é brincadeira logo ou vai me deixar ficar sentimental feito o diabo te pedindo pra mudar de ideia?

– Achei que a gente pudesse chegar a um acordo de maneira adulta.

– Não tem acordo, você está apenas me informando que está terminando comigo.

– É verdade.

– Você não me ama? Meu Deus do céu, eu me sinto a tampa de um bueiro, sabe?

– As coisas mudaram… Nós mudamos tanto. Sinto que estamos tão desinteressantes um para o outro…

– Eu não vejo isso.

– Um homem nunca vê. Ele está sempre confortável com qualquer relacionamento, contanto que não dê problemas pra ele.

– Eu amo você.

– Você só está acostumado comigo. E eu estou cansada de estar apenas acostumada.

– Cinco anos. Garçom, a conta.

– Foi o destino quem quis assim.

– Não é o destino quando quem escolhe acreditar é você. Foi você quem quis assim, não foi o destino.

– Eu preciso seguir o meu sonho.

– Será que quando você “retomar sua vida” e “reajustar a sua rota” você vai perceber a cagada que fez aqui?

– Não existe erro em tentar.

– Gente, você vai jogar no lixo mesmo. Tudo o que a gente construiu.

– É melhor a gente terminar.

– Não, fica tranquila, já está terminado.

– Foi um recado simbólico. Mas eu entendi o que quis dizer. Pelo menos, acho que entendi. Vai ser melhor pra nós dois.

– Dizia isso no sonho também?

– Eu sempre vou lembrar de você com carinho.

– Ah, pelo amor…

– A gente poderia continuar, não fosse o destino…

– Bom, o garçom não vem aqui mesmo. Vou lá pagar. Adeus?

– Adeus.

crônicas

Como forma de agrado

Foto: Death to Stock

O amor tem uma receita muito simples

Vou procurar aqui uma receita de torta salgada, bem simples, vou comprar os ingredientes e fazer para você. Eu não sei cozinhar muitas coisas, no entanto sei e me disseram que cozinhar é uma demonstração de amor.

Sei que isso é verdade porque por mim você aprendeu a cozinhar. E é por mim que você faz os mais deliciosos pratos, mesmo quando está cansado, com outras coisas para fazer. Você também tem que adivinhar o que eu quero quando chego faminta e digo que quero comer alguma coisa, mas não sei o que e nem quero dar trabalho. Você abre a geladeira, descongela carnes, inventa receitas na hora e depois coloca a comida na mesa, querendo saber se eu descubro os ingredientes que foram usados. E nem isso eu sei.

Eu sei que não estamos em uma competição, mas eu sempre sinto que faço tão pouco e que você merece sempre muito mais. Uma receita de torta salgada nem é difícil de fazer, eu li a receita, não é como se eu merecesse uma medalha por ter tido essa ideia, mas sei lá. Pelo menos hoje eu vou tentar.

Tem a ração especial do gato que diz na embalagem “Sirva como forma de agrado” e eu fiquei com isso na cabeça, afinal de contas é isso mesmo. É tudo como uma forma de agrado. Uma torta salgada como forma de agrado. Tomara que fique boa.


Texto publicado originalmente em 04 de setembro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Flutuando em indecisões

Imagem: Ryan McGuire

Andando por aí, procurando um bom lugar

Não consigo mais ler livros, nem escrevê-los. Isso acontece de tempos em tempos e é normal, no entanto saber disso não me impede de ficar angustiada com o tempo que perco. Minha atenção está flutuante e não consegue se fixar em nada. Quase perco o ônibus, pensando na vida. Não escuto quando falam comigo. Na noite gelada, na volta para casa, fico imaginando quantos dias faltam para esse ser o último e algo novo começar. Esse parece ser um daqueles momentos que antecedem um acontecimento maior. Espero. Por enquanto, permaneço aqui crente de que em algum momento a grande roda vai girar e eu terei respostas. Respostas que me deixarão contente, ao menos até as próximas dúvidas.

Acordei cedo e cheguei adiantada demais, como sempre. Escolhi a roupa pensando em cada detalhe, chegando lá era como se tivesse errado tudo dos pés à cabeça muito antes, logo quando nasci. E daí então, nada mais deu certo. Respirei fundo e afastei os pensamentos ruins. Engoli meu medo. Foi simples, longos goles de chá quente no copo frágil de plástico. Tentei me encaixar o quanto pude, fica mais fácil quando as pessoas estão dispostas. Eu, mesmo quando disposta, ainda me perco.

Minha voz sempre sai baixa, como se minhas próprias cordas vocais soubessem que não confio na importância do que digo. Se ninguém me escutar, tudo bem, nem era tão legal mesmo o que eu dizia. Tentei me impor baseado no que tinha para mostrar. Tentei manter a coluna ereta, mas o olhar sempre ia para baixo, para os pés, para o chão, para o buraco que não havia — e, não havendo, eu não podia me esconder. Acabei sentada sozinha em um canto por horas. E tudo bem. Eu gosto de ficar quieta.

Está tudo bem mesmo quando acho que é o fim do mundo. O fim do mundo já foi, eu sempre tenho isso em mente.

A coragem de fazer algo te dá a autoridade para fazê-lo. Tudo que eu invento eu acabo conseguindo terminar, ainda que não saia como pensei a princípio. No fim das contas, acho até que fui bem, gaguejando e me repetindo, sorrindo quando esquecia as palavras e me perdia. Pessoas gentis me destroem mais que as malvadas, com as malvadas eu já me acostumei. Só é difícil mesmo quando gostam de você.

E depois. Sem o peso nas costas, me aventurei pelo lugar. Senti orgulho de mim, simplesmente por estar viva e dizendo coisas. Por estar no meio de tantos e ainda conseguir ser eu mesma. Não me moldo aos lugares, só me encaixo o tanto que caiba e que fique fácil de desencaixar a qualquer momento. Depois, segundos depois, eu logo quis voltar para casa, eu logo quis o conforto que mora no abraço sempre disponível para mim. As risadas que vão lá do quarto te encontrar na sala, os gatos miando, o amor.

Foi um bom dia. Saber o que não se quer conforta mais do que saber o que se quer. Eu me senti bem. Testada e aprovada. Um passo maior do que as pernas e cheguei inteira do outro lado. Incrível! Me afundei nas cobertas macias e dormi como tenho dormido nessas últimas noites, esperando a grande roda girar, quieta mesmo, tudo bem. O momento vai chegar e estou pronta.

Brain Dump*

Você não quer ter raiva

Imagem: Ryan McGuire

Mas alguma coisa você precisa sentir

Viagens, filmes no cinema, um livro de que você gosta. Futilidades que acalentam o coração. Memes imbecis. Debates inúteis e irresistíveis: arroz por baixo ou por cima do feijão? Besteiras que te ajudam a passar o dia. Enquanto isso, o país fervilha em mudanças e exige que você vá para a rua protestar ou apoiar. Você quer ficar quietinho na sua bolha sem filtro do Instagram, mas as coisas não param de acontecer e estão a cada dia piores. Não vai ter jeito, algum posicionamento você precisa ter, ainda que fique quieto e guarde apenas para si.

A vontade é de não sentir nada. Não está sendo possível. Tenho dito ultimamente que o Brasil me obriga a ingerir açúcar. São bolos e mais bolos de cenoura com calda de chocolate na doceria em frente ao trabalho para tentar me convencer de que a vida ainda pode ser doce. Sobremesas empurradas goela abaixo, a seco, enquanto as notícias não param de chegar: mudanças na lei, novos subterfúgios para político poder roubar tranquilo e a minha caixa de e-mail lotada de avisos ridículos enviados com o intuito de deixar claro, de maneira velada, que o trabalhador não tem direito a nada, muito menos ao famigerado “respeito”.

Nem todo açúcar do mundo é capaz de conter a raiva que cresce em você quando o dinheiro acaba e ainda sobra muito dia no mês. Sobra muito mês e pouco dinheiro faz muitos anos.

Eu gostaria de não sentir raiva. Ser a pessoa apaziguadora que vê a luz no fim do túnel e conduz todos nós para a salvação. Queria não sentir raiva porque ela me corrói o estômago, azeda meu dia e me faz compensar frustração com comida, com uma barra inteira de chocolate em apenas uma tarde. Pelo menos eu ainda tenho dinheiro para comprar uma barra de chocolate, você vai dizer. Ainda.

No entanto, sacolejando no ônibus lotado que demora para chegar, cobra caro e não oferece conforto algum, todos os dias, eu me pergunto se não é mesmo a raiva o único sentimento possível hoje em dia. Preciso ser boa com os outros, sim. Preciso não deixar nada atrapalhar o meu sorriso, sim. Mas, pelo amor de Deus, vamos sentir raiva. Vamos perceber o que está acontecendo lá fora, vamos fazer algo. Deixar de aceitar calado, nem que seja para morrer gritando.

Ainda quero os livros, os filmes, os memes. Ainda quero sorrir e comer meu bolo de cenoura com calda de chocolate. Só que por vontade e não por frustração. É preciso continuar sendo uma pessoa boa, mas é preciso sentir raiva, alguma coisa a gente tem que sentir. Não tem como continuar assim, alienado em uma bolha enquanto o mundo lá fora desaba. Essa bolha não vai nos sustentar por muito tempo.

O blogueiro viaja e posta milhares de fotos lindas que nos isolam da realidade. Que efeito ele usou? Onde eu compro essa camiseta? Será que parcelam a viagem? Cuidado. Não se isole. Entre uma atualização e outra no seu feed, é lógico que você precisa ser feliz de alguma forma nem que seja rolando a tela do seu Facebook, mantenha os olhos abertos.

Estão acabando com a sua vida enquanto você pisca os olhos com o brilho das distrações. Fique atento, sinta raiva.

crônicas

Cinco pessoas

Uma rápida passada de olhar por algumas amizades

Pessoa um.

Ela fala rápido, conta milhares de histórias, se interessa pelas minhas, bebe um gole do copo a cada silêncio que deixamos escapar. Estamos tímidos, mas a alegria de poder conversar anula um pouco isso e nos sentimos confortáveis para sermos um tanto idiotas. Ser idiota é engraçado e ser engraçado é idiota. E ser engraçado é o que todo mundo quer. Confessa que está apaixonada por uma determinada pessoa, pessoa essa que se encontra em outra rodinha de amigos, ali perto de nós. “Casava agora mesmo”, ela diz e não sabemos até que ponto está sendo sincera, então rimos. Escondemos as verdades que sobrevoam a sua confissão com piadas e memes de internet, disso sabemos bem. Rimos muito, gargalhamos com nada. Estamos sendo idiotas, estamos seguros.

Pessoa dois.

Chega como um furacão na mesa. Joga óculos de Sol num canto debaixo da carteira para não esquecer, pega o celular, dá check in, atende ligações, responde e-mail e Whatsapp enquanto fala com você e te conta todas as novidades que surgiram nos últimos dez minutos em que vocês ficaram sem se falar. Você chega cheia de segredinhos e medos e temores e bobagens para contar e desabafar e pedir ajuda, ela passa por cima deles como um trator e termina com um “eu vou dar na sua cara se continuar falando essas bostas”. Ela está certa, você sorri, fica feliz, imensamente feliz por tê-la na sua vida. Ela vai embora, você pensa “essa é a pessoa mais incrível que já conheci”. No elevador, ela já te manda inbox falando várias bostas e você ri.

Pessoa três.

Você ainda não sabe muito bem como é o rosto dela, só sabe que é bonita. Vocês são amigas a pouco tempo, então você ainda não se sente muito segura de falar olhando em seus olhos. Mas você sabe que ela é bonita. Só não decorou ainda todas as linhas do rosto, o que os olhos dizem ou o que sugerem as sobrancelhas dela durante uma conversa. Não sabe as dicas que uma hesitação na conversa quer dar. Não entendeu ainda que esse tom de voz é pra impor e esse outro é pra pedir. Você ainda não decorou tudo, ainda não sabe dizer. Está em terreno desconhecido.

Pessoa quatro.

Não sabemos se nos odiamos ou nos amamos. Provavelmente, os dois. Sabemos com certeza o que odiamos uma na outra e volta e meia somos surpreendidas por momentos que nos fazem sentir que na verdade, é tudo amor. Detestamos tudo sobre nós duas. Mandamos indiretas uma pra outra, sabendo que ela sabe que eu sei que ela sabe que é dela que estou falando. E vice e versa. Nos odiamos e nos adoramos na mesma intensidade e ao mesmo tempo. Não tem como se magoar assim. Pro bem ou pro mal, o sentimento é sempre recíproco.

Pessoa cinco.

Meu ombro dói intensamente por conta de um treino onde exagerei nas flexões e a pessoa cinco me pergunta se eu estou bem. No geral. “No geral estou bem”, digo. A pessoa cinco pondera antes de falar. Pensa. Olha para os lados. E, ainda assim, fala de várias coisas ao mesmo tempo e aparentemente não se abala com nenhuma. Temos vários assuntos em comum pelos quais podemos flanar sem nos comprometer em ser pessoais. Falamos, então. Não rimos muito, estamos cansadas, o dia foi duro, a vida lá fora está terrível. Eu gosto de pessoas que não ligam pro que eu digo, gosto de pessoas que falam e me deixam ficar calada. A pessoa cinco é assim, por isso é uma das minhas melhores amigas. Mas, como falo pouco, ela nem imagina isso.


Texto publicado originalmente em 08 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

crônicas

Lili

Foto: Death to Stock

Verdades e sentimentos sobre minha melhor amiga

Lili é uma pessoa um tanto quanto reclusa, que só sai quando é para apoiar seus amigos ou passear com eles. A reclusão vem do fato de que Lili é de poucos amigos. Lili não é pra qualquer um, não é para iniciantes. Os raros sortudos que têm a dádiva de sua amizade ganham a felicidade aos baldes a cada conversa com ela. De gestos largos, assuntos amplos, conversas que vão madrugada adentro, cada encontro com Lili é uma chance de voltar a gostar mais da vida.

O que é curioso, por que Lili vive querendo bancar a mal-humorada o tempo todo. Não acho que ela minta, porém fica difícil acreditar em mau-humor quando a pessoa vive só de alegrar a vida de quem a ama. Quando uma pessoa só traz felicidade, como fica essa rabugice de dizer “vocês são jovens, eu já estou às portas da morte”, se ela dá uma gargalhada logo depois de dizer uma sandice dessa?

Quando conheci Lili eu falei pouco com ela, pois achei que ela era “muito adulta” e eu muito pequena. Eu sempre penso nisso de “gente adulta”, que pra mim são pessoas que consideramos serem muito mais inteligentes e corretas que a gente — e ficamos só parados, admirando e pensando: “um dia quero ser assim”. Naquele dia, me senti pequenina do lado daquela mulher de voz forte, que contava histórias, monopolizava conversas, fazia todos gargalharem com seus causos. Então, ela ficou só conversando mais com meu marido (que também a conheceu naquele dia e é extremamente adulto) e outros adultos da mesa.

Um dia quando fomos visitá-la em casa, eu fiquei só quieta escutando-a enquanto tomava um potão de sorvete. Em outra ocasião, na mesa de jantar, Lili e Alex ficaram conversando horas entre si e eu fiquei só dando risadinhas e fazendo barulho sem querer. Acho que isso encerra minha argumentação sobre ser adulta versus ser pequena.

Não pense com isso que Lili não me dá bola. Em um desdobramento incrível da minha sorte galopante, Lili me ama. Eu não fiz nada, fiquei só o tempo todo ali quietinha ouvindo, ouvindo, ouvindo e Lili me ama. Ela se preocupa comigo, me manda e-mails gigantes tão lindos que me vem lágrimas só de lembrar aqui. Ela manda suco de cranberry quando adoeço e me ajuda a seguir meus sonhos. Ela me empresta quilos de livros que eu leio e nunca devolvo, grava filmes pra eu assistir, ela me dá seu ursinho da “Juve” pra eu abraçar durante o jogo e, claro, ela me dá incríveis potes de sorvete.

Quando você fica triste, pode pensar “eu não mereço”. Eu não penso isso da tristeza, penso isso da felicidade. E até hoje não entendo como Lili, essa pessoa tão especial, tão rara, tão para poucos, pode me escolher para ser sua amiga. Mesmo eu sendo pequena, sem nada a dizer e sendo atropelada pela timidez toda vez que tenho algo a contar. Mesmo assim ela me ama e vamos a jantares e almoços em seu restaurante favorito, com seu garçom favorito, com seus amigos favoritos. Ainda assim eu estou lá! Você vê a sorte que eu tenho?

Por isso eu digo que Lili é a minha chance de gostar mais da vida. Cada vez que a vejo ou conversamos, percebo que sou uma pessoa de sorte. Se uma pessoa incrível como ela vê qualidades em mim, então, poxa, eu devo mesmo ser boa em alguma coisa. Toda vez que Lili se faz presente na minha vida, com seu humor rabugento, suas histórias incríveis e cômicas, suas frases misteriosas no Facebook, suas imagens lindas aparecendo na timeline, eu me sinto mais feliz instantaneamente. E essa felicidade não me abandona nunca, pois Lili me ama, mesmo eu sendo pequena e ela sendo adulta.

E por todas essas coisas e muitas outras que não direi, pois sou tímida e pequena, eu a amo também.


Texto publicado originalmente em 06 de fevereiro de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

A gente devia

É tudo tão simples, a gente devia

A gente devia beber mais vezes. E sentar mais no meio-fio em noites geladas pra conversar, mesmo sem ter o que dizer. Ficar ali inventando assunto para preencher o vazio, até o vazio inevitavelmente surgir e a gente perceber que ele nem é tão ruim assim. E deixar ele ficar.

E, bêbados, repensar em tudo para então concluir que nada é tão grave assim. Rir das coisas que nos fizeram chorar de raiva até algumas horas atrás. Enrolar os dedos em nossos cabelos, arranhar a borda do copo com a unha. Perceber o quanto é outro é bonito. Agarrar a barra da camiseta. Reconhecer a sua voz de longe e se entender só com um olhar. Dizer coisas idiotas só pra rir um do outro. Prometer que amanhã vai ser melhor, agora que a gente sabe que é tudo tão simples.

É tão simples como desistir de brigar e de ter razão. Tão simples como retomar a conversa depois de discutir. Pedir desculpa não pelo o que fez, mas por ter magoado. É tão simples como voltar pra casa no começo da madrugada, se jogar na cama, jogar os gatos pro alto, puxar você pra perto e esquecer que um dia, um dia tão distante, a gente achava que tudo isso era impossível. Nada é impossível pra gente, a cada dia sabemos mais disso. Um pequeno passo de aproximação, a certeza do seu amor, beijar seu sorriso, rir de você pra te fazer rir. É tudo tão simples e a gente devia ser assim pra sempre. E a gente vai ser, eu sei.


Texto publicado originalmente em 11 de outubro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Nada mudou

Foto: Death to Stock

Um reencontro consigo mesmo podem trazer novidades antigas

Você pode encontrar seu eu do passado ao andar desavisada pela rua, tomar um susto e se arrepiar como um gato pelo o que vê e lembrou. Também pode encontrá-lo no meio da noite, na cena de algum filme. Quieta e sozinha na casa vazia, enquanto faz um café. Falando ao telefone com sua mãe e lembrando como costumava se sentir ao estar ao lado dela, do outro lado da linha. Você se reencontra e se surpreende consigo mesmo. O que mudou?

No fundo, continuamos sempre os mesmos. O susto vem daí, de ver que nada mudou. Daquele tempo de antes, mais livros, filmes, seriados, pessoas e festas vieram, mas continuamos os mesmos. A insegurança de falar olhando pra baixo, a ousadia de repetir mais alto quando não te escutam da primeira vez. Arriscar contar uma piada em público, como quem se joga na piscina com carteira e celular no bolso. E o frio na barriga que já é velho amigo.

Nada nunca muda e é confortável viver assim. A gente se abraça mentalmente e diz “sou desse jeito”, nada precisa mudar porque nada nunca muda. Nos reencontramos dentro de lembranças, de memórias e tudo não passa de uma continuação dessa história que desde o começo já foi definida como seria. Não temos escolha. Nos reencontramos com nosso “eu antigo”, sentimos ternura pela ingenuidade dele, que um dia pensou que seria diferente. O café no meio da noite, o telefone da mãe, a cena do filme. Tudo serve para lembrar: nada nunca muda e ainda estamos aqui.


Texto publicado originalmente em 04 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.