crônicas

O dente doendo, continuei tentando

Photo by Polina Sirotina from Pexels

Uma parábola direto dos anos 2000, situada ao sul do Brasil

Desconfio que eu já esteja ficando velha o suficiente para começar a escrever minhas memórias. A vida passa tão rápido, não é mesmo? Cruzando a barreira que me deixa mais perto dos 40 do que dos 30, parece que recai um véu de nostalgia segura sobre as minhas lembranças.

Como se fossem todas pitorescas e curiosas, e já não doessem mais.

Grandes acontecimentos marcam a nossa vida, mas são aquelas pequenas passagens triviais que acabam por moldar quem somos. Aquelas lembranças bobas e tão suas, histórias sem começo nem moral, que volta e meia ressurgem no cérebro e atingem em cheio o coração. Disco riscado (vocês, jovens, conhecem essa expressão?), cujo som adulterado é mais confortável que a melodia original.

E assim você cria parábolas personalizadas e exclusivas, criadas a partir de momentos que são só seus.

Estava pensando nisso, pois lembrei da vez que realizaria meu grande sonho de comprar meu computador. Isso foi décadas atrás, pensem. Eu com meus vinte e poucos anos, a visão de mundo do tamanho de um punho, juntei por meses a astronômica quantia de R$500 para comprar meu primeiro computador de mesa. Adeus, usar emprestado o PC do meu irmão. Adeus, máquina lenta e estranha. Eu poderia voar sozinha!

Meu irmão, aliás, seria peça-chave nessa empreitada. Caberia a ele, com toda a sua agilidade e bom coração insuspeitos, cruzar a fronteira até o Paraguai e comprar o equipamento para mim. No Paraguai era assim (em algumas lojas, não todas, imagino que ainda é): você precisava pagar tudo à vista, no dinheiro.

Então, após algum esforço, as suadas cinco notas de cem passaram das minhas mãos para as do meu irmão. Era sábado, o dia de ir no Paraguai é sábado, meu irmão atravessaria a ponte e buscaria meu PC (modelo e especificações nem eram uma questão para mim, se você tem um irmão mais velho, você grita “eletrônicos” e ele decide por você).

Foi o meu irmão pegar o dinheiro, eu comecei a me sentir mal. Não vou mentir, eu sempre adiei minhas dores até ficar ridículo. Naquele sábado de manhã, ficou ridícula a dor de dente que eu sentia timidamente há semanas.

Ficou insuportável. Vai a minha mãe correr comigo pelo centro da cidade atrás de dentista que atendesse. Plano Dental era um luxo, claro. SUS, só em caso de morte. Sorte (sorte?) que naquele tempo fervia a moda do consultório dental a cada esquina, com nomes entusiasmados como SORRIA MAIS ou FELIZ SORRIR ou DENTE SAÚDE, coisas assim.

Batemos numa dessas portinhas, eu e minha mãe. O moço atendeu rápido e foi de uma empatia ímpar. Até hoje eu fico meio emocionada só de lembrar como ele me atendeu e entendeu: eu estava urrando de dor, remédio não adiantava, era canal e eu não tinha dois reais no bolso. Mesmo assim ele fez o que pôde. E disse que o tratamento podia resolver na hora, se eu fizesse agora mesmo.

O preço do tratamento de canal? Você já sabe, né?

Toca a minha mãe ligar para o meu irmão. Atendeu o celular, ainda não tinha passado a ponte, baita sorte (sorte?). Nem fez perguntas, voltou com a moto e foi até o dentista. Entregou o dinheiro na minha mão. Subi pro doutor de novo, deitei na cadeira. Lá se foi o meu computador novinho, meus quinhentos reais.

No Paraná a gente não fala muito, mas eu lembro do olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro. O que vou colocar nas minhas memórias é aquele olhar. Era algo entre “mano, que bosta” e algum trecho do manifesto comunista que nenhum de nós dois nunca lemos. Uma derrota tão funda e frívola, doía mais justamente por ser tão mundano.

O sentimento ultrajava porque não era “você está triste por isso??” era “caralho, eu não posso ter nem isso??“.

Que inferno, ser pobre assim. E, ao mesmo tempo, era essa a realidade. Eu não conhecia outra. A realidade era aquele olhar contrito do meu irmão. Traduzia tudo.

Arrumei os dentes, levei mais um ano até poder finalmente comprar o PC. E o que eu guardo disso tudo é essa solidão tremenda que senti no dia. Não temos dinheiro, engula seus sonhos, vocês só têm uns ao outros. O olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro, vida de merda, mas hey, que tal continuar tentando? O que mais você pode fazer?

E, além do mais, a dor de dente passou. Mesmo sem o tão sonhado PC, sem dor a vida até parecia um dia subitamente bonito, feito um raio de Sol se abrindo depois da chuva.

Continuei tentando. Algum dente sempre vai voltar a doer. Continuo tentando. E foda-se.

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Do que ficou, as manhãs e as maçãs

Photo by Annie Spratt on Unsplash

Os sábados eram os nossos dias juntos. E em um sábado você partiu para sempre.

Por muitos anos durante a nossa infância, os sábados eram o nosso dia e as manhãs de sábado eram dedicadas à uma tarefa tão aborrecida quanto inusitada: catequese das 8h às 10h na Igreja Matriz. A gente se encontrava por lá mesmo, no pátio dos fundos da igreja, e ia juntos para a sala.

Durante a aula, trocávamos olhares espantados e cúmplices, dando de ombros a cada lição alarmista da freira e professora. Folheando o livro de catecismo, a gente perguntava um para o outro com o olhar: seria Deus tão malvado assim?

Até hoje, ainda tenho minhas dúvidas.

Depois corríamos até o ponto de ônibus e juntos íamos para a casa da vó, onde você morava e eu passava o sábado. No ônibus, você o moleque esperto e eu a menina tímida, conversávamos sobre todas as suas grandes artes da semana. Você me contava da escola, do video game, da piscina do vizinho. Eu ouvia quieta, jamais seria tão descolada quanto você.

Você que tinha o computador e a piscina do vizinho, o quarto só seu e a vó só sua, todos os livros da sala que você não lia, você que mesmo assim encarava todos esses privilégios de um jeito tranquilo, humilde, sem alardear nada. E era generoso o suficiente para dividi-los comigo como um irmão mais velho.

O resto do dia revelava momentos melhores que as manhãs cheias de medo cristão. Quando a tarde de sábado caia, a vó dava um cesto de frutas para a gente vender na rua. Hoje eu vejo que ela só inventava aquilo porque queria ter um descanso da nossa bagunça em casa. A gente andava um pouco, não vendia nada, olhava um para o outro, dava de ombros e sentava no meio-fio para comer todas as maçãs da cesta. Voltávamos para casa com a cesta vazia e a barriga cheia. Nossa vó nunca pediu o dinheiro das “vendas”, porque ela sabia e a gente sabia.

Até hoje, sempre que vejo maçãs eu lembro de você e da gente, e da nossa inocência ao comer maçãs na beira da rua vendo o Sol ir embora e a tarde morrer.

Você sempre foi a síntese de alguém que sabia aproveitar a vida em cada mínimo segundo. Hoje eu penso que, de algum modo, você sabia que não seria para sempre, não para sempre como agora dolorosamente é para nós que teremos que continuar sem você. Você sempre foi o festeiro, o sorriso aberto, o deboche até o limite, o improvável irritante inaceitável adorável.

Você sempre foi a nossa alegria e agora foi tirado de nós.

Da última vez que estive em Foz, você estava bem como há tempos eu não via. A gente tinha a coincidência bizarra de dividir não só idade, família e histórias, mas também a mesma trágica doença. Mas nunca falávamos sobre isso, nunca dividimos nossas dores como pacientes de câncer porque nunca quisemos nos ver como vítimas. E porque você era legal demais para perder tempo se lamentando, você aproveitava vivendo cada chance que tinha de viver.

Naquela última vez que saímos juntos, você estava tão feliz. Lembro de olhar para você e pensar que esse seria você pela vida toda, se não fosse o destino trágico que te limitava há anos. Naquela noite, nada te impedia. E fomos de bar em bar, rindo, dançando, arranjando encrenca, dirigindo perigosamente bêbados pela cidade que dormia. Eu como sempre querendo acreditar em romance, te perguntei se você amava a menina que passou a noite toda de olho em você. Você disse que sim, mas que essas coisas não eram para você, que nunca iria namorar ou casar.

Mais uma vez, eu acho que você sabia.

No dia seguinte, nós dois na casa da minha mãe, cada um jogado em um sofá olhando o celular. A gente não precisava alardear muito a vida, a gente sabia que ela era um sopro, então ficávamos em silêncio fingindo não saber a fragilidade de tudo o que acontecia. Você me mostrava coisas no celular, a gente ria. Alguns minutos depois, se levantou e foi embora. Sem maiores despedidas, por que quem imaginaria? Foi a última vez que te vi.

Agora, nunca mais.

Fico pensando no que fizemos de tão terrível para Deus tirar você da gente tão cedo. Pensar isso enche meu coração de raiva e mágoa. E então entendo que a pergunta é outra: o que fizemos para merecer ter você na nossa vida por tanto tempo? Esse foi um presente maior do que qualquer outro, sem dúvida.

Você foi o filho tardio que a minha vó precisava ter, enchendo a vida dela de emoção, humor e vida. Foi o filho crescido que a minha mãe precisava, quando viu os seus próprios saindo de casa e seguindo a vida. Foi o irmão e o pai que a minha prima precisou. Foi o alívio cômico dessa família que ri junto e chora escondida.

Você foi um raio de alegria que cruzou a nossa vida. Nem sempre perfeito, muitas vezes irritante, mas sempre bom, sempre generoso, sempre presente.

Ontem eu vi uma série, o personagem dizia que as pessoas têm um tempo certo para nascer e para morrer e que quando elas vão embora, é porque cumpriram sua missão na Terra. Não sei muito sobre isso, acredito que você ainda tinha tanto para viver. No entanto, não posso fazer nada além de aceitar.

A injustiça de tudo isso machuca como poucas coisas no mundo, mas existe a marca que você deixou por aqui, não é? Sua lição foi a alegria, o amor, a galhofa, o inesperado. Vou levar isso comigo para sempre, assim como a lembrança do presente que você foi em nossas vidas.

E te agradeço por ser um filho para minha mãe, um irmão para o meu irmão, um neto para a minha vó. E te agradeço pelas maçãs e pelas manhãs de sábado. Foi uma boa aventura, primo. Obrigada por me deixar participar dela junto com você.

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Isso é só seu

Photo by Seth Macey on Unsplash

Apenas aceite e acelere, vá em frente

Calcei os patins e fiquei em pé. A vertigem envelopou meu medo e me fez procurar o chão novamente. Sentei. Pensei: é isso, não consigo, foda-se, vou colocar o tênis de novo e voltar para casa. Me contrariando, a avenida bonita se abria em Sol e pessoas bonitas e estilosas, que diziam que era um dia bonito demais para ser desperdiçado por medo.

Levantei novamente. Andei. Passos tímidos, remadas ansiosas, as rodas sob os meus pés trepidavam no asfalto maltratado. Olhei para mim mesma, em pé e mais alta por conta dos patins. Aceitei meu sorriso e acelerei o passo. O chão estava longe, em poucos minutos eu voava.

Fazia três anos que eu não andava de patins. Parei por conta da doença, depois ficou difícil demais voltar. Prioridades mudam. Sentia falta de voar baixo, de sentir o vento no rosto. Sentia falta e nem sabia, algumas saudades a gente soterra no meio de outras necessidades, em busca de viver sem mágoa.

Nesse domingo, eu quase alcancei o céu, pelo menos na sensação que tive. De reencontro. Insegura, andava devagar, tão atenta à tudo que parecia uma maníaca. As pessoas ao meu redor me olhavam com simpatia: um patins quad sempre chama a atenção. Eu me arriscava e me surpreendia comigo mesma.

Seu corpo lembra o que você esquece. Descobri que ainda sei ficar no derby stance, postura de jogadora de Roller Derby. Descobri que ainda consigo desviar bem e rápido das pessoas, evitando colisões. Sei ainda qual piso é melhor para as minhas rodas, intuitivamente eu seguia pelo asfalto melhor na longa Paulista.

Em trinta minutos, percorri a avenida toda uma vez e meia. Descalcei o patins, absolutamente surpresa. Eu consegui fazer isso, então? Consegui. Sozinha.

Voltei no feriado. Dessa vez andei por uma hora, fiz dez quilômetros. Chegou um ponto em que eu nem sabia mais onde estava. Só sei que estava na Paulista. Voando baixo, não como antigamente, mas melhor do que imaginava que seria, após tanto tempo. Com o patins nos pés e a mochila nas costas. De óculos escuro, abaixando até o chão para fazer graça. Parando para tomar ar, de tanto ar a boca secava.

Esse momento é só meu, eu penso sem meme nenhum.

Não tenho tido mais tanta vontade de me dividir. Redes sociais, interações sem graça só para manter a amizade. Tenho vontade de ficar quieta e ser só minha. Quero melhorar como pessoa, mas para isso preciso olhar para mim. Fazia tempo que eu não olhava, só olhava para fora.

Nesses dias, de patins, eu me reencontrei. A Paulista tão linda e boa, fervendo de gente e de sons. O calor da tarde, que aquece sem incomodar. De patins pela avenida, eu não incomodo ninguém.

Existe algo que é só seu no que você sente, não adianta tentar passar para os outros. Ninguém vai entender por completo a importância disso para mim, esse momento é só meu, eu digo sem meme nenhum, mais uma vez. A sabedoria está em entender a natureza disso e aceitar sem mágoa. Ninguém vai entender, então que bom. Isso é só seu. Aceite. E agradeça.

Fico na ponta dos pés, me aprumo e me equilibro em cima dos meus freios. Arranco em direção à avenida, rápida como um dia já fui. O mundo é meu, na mesma medida que tenho coragem de tomá-lo para mim. Ao final da tarde, uma certeza abraça meu coração: eu posso e vou, só depende de mim. Sempre dependeu só de mim. Descalço os patins, as pernas bambas de alegria e esforço físico, um sorriso gigante toma conta do meu rosto. Pensei: é isso, eu consigo, foda-se, vou colocar o tênis e voltar para casa.

Voltei para casa, ainda a mesma e completamente diferente, pois um novo mundo se abria.

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Dezoito de março, tudo sobre minha mãe

Eu e minha mãe, em sua primeira viagem à São Paulo, quando adoeci em 2014

Como tantas, uma história que precisa ser contada

Existe uma foto minha com a minha mãe que eu adoro. É do meu aniversário de sete anos, na festa feita na escolinha onde eu estudava. Minha mãe era também a professora da turma, então, mais do que justo, ela está ao meu lado na hora de cantar os parabéns.

Em 1991, felizes em meu aniversário

O meu vestido, em tricô rosa com seus detalhes em branco e sua gola em tecido fino, foi feito por ela. Me lembro das várias provas que fizemos nas semanas anteriores até que eu finalmente pudesse usá-lo naquele dia tão especial.

Minha mãe, linda e no auge da juventude, usa um look azul petróleo que até hoje nunca consegui imitar por completo, me faltando sempre esse porte ou esse bom gosto.

A coisa de usar dois relógios era moda na época, o cabelo assim em camadas e com as pontas aloiradas também. Com o sorriso mais lindo que se pode ter, no momento em que a cantoria acaba e eu faço um pedido antes de soprar as velinhas, minha mãe me beija o rosto como quem me conta um segredo, um segredo que eu sempre soube: lembro com exatidão que nesse momento ela dizia que me amava. Não “eu te amo” ou “eu amo você”. Era sempre “ti amo”, com ti bem pronunciado, como um código especial entre nós duas. É assim até hoje.

Tenho pensado muito ultimamente na necessidade de que contemos as histórias das mulheres que admiramos. Precisamos falar sobre mulheres, precisamos tomar esse espaço nas narrativas cotidianas. Precisamos falar sobre as mulheres como falamos sobre os homens, tornar essas pautas equivalentes em quantidade. Recentemente, com um grupo de amigas, a pergunta era qual pessoa era a sua maior inspiração. A minha, sem dúvida, é a minha mãe. No entanto, percebi que não sabia tantas histórias sobre ela.

Com meu pai, outro grande cara que merece ter sua história contada.

Como é óbvio de se imaginar, as histórias todas que sei da minha mãe vêm do olhar que tenho dela como filha. Não sei muito do seu tempo de garota, das suas histórias do tempo de solteira. Sempre vi a Neti, a mulher de temperamento forte e coração mole, como minha mãe apenas.

No entanto, conforme crescemos, aprendemos a nos distanciar desse olhar fraternal e a ver nossos pais mais como indivíduos comuns, passíveis de erros e acertos, assim como nós. Desde que saí de casa, oito anos atrás, passei a me ver mais como um indivíduo único, não apenas como a filha, a parte mais nova daquela família nuclear de onde vim. Ao mesmo tempo, a cada ano que passa, percebo mais e mais traços da minha mãe em minha personalidade. Nada que eu invente ou force, mas muitas vezes me vejo tendo o olhar dela para o cotidiano. Sua praticidade, a resiliência e a doçura inesperada que resolve em segundos um conflito que eu mesma criei.

Não sei muito sobre minha mãe antes do meu nascimento e isso é um erro, mas hoje, em seu aniversário, percebo que ela já passou mais tempo sendo minha mãe do que não sendo, então quem sabe meu erro não seja tão ruim assim.

Após minha primeira cirurgia, em 2014, quando do meu tratamento do câncer

O que sei da minha mãe e posso contar são essas histórias que vivemos juntas. Como quando estive doente e ela viajou de ônibus por quase um dia inteiro para então ficar por semanas dormindo em um sofá ao meu lado, em um quarto de hospital.

Como quando, incontáveis vezes, ela me mostrou que preciso ter calma diante do que não posso resolver. Acho que ainda não aprendi, mas ela segue me ensinando.

Quando eu era pequena, me magoava porque brigávamos e eu queria ficar uma semana sem falar com ela. Quando ela brigava com meu irmão, em dois segundos eles já estavam se falando de novo e eu via nisso uma prova inegável de que ela gostava mais dele do que de mim. Que besteira. Quanto mais me conheço, mais conheço minha mãe. E entendo que ela sempre foi boa, sempre foi justa, sempre foi coração e alma, corpo forte e trabalhador que nos sustentou com trabalho e amor por anos. E eu sempre fui uma menina brava, exigindo provas de amor sem conseguir enxergar que elas sempre estiveram diante dos meus olhos.

Meu marido, meu irmão, eu, minha cunhada e minha mãe. Meu pai não sai de casa por nada, gente.

Existem muitas histórias. Os almoços extremamente simples que a mim pareciam banquetes, posto que ela arrumava a mesa tão bonita. Como ela sempre estava tricotando ou costurando roupas para mim, me vendo bonita em lindos blusões de inverno e atrevidos biquínis de crochê no verão. Como ela sempre me protegia dos outros, eu com a minha timidez ridícula desde a infância, me escondendo em seu colo nas festas de família.

Esse não tem sido um ano fácil para mim. Me vi doente, de cama, mais vezes do que se pode considerar normal. Muitas vezes perdi a paciência e a fé, ligando para minha mãe em outro estado e chorando desesperada, sem pensar nela que só me ouvia à distância sem nada poder fazer além de me ouvir. Nesses momentos, seus conselhos sempre me acalmavam, mesmo eu podendo saber, a conhecendo agora como conheço a mim mesma, que nem sempre ela tinha certeza do que dizia. Mas ela tem fé e ela acredita. E ela torce por mim, então as coisas devem melhorar.

Eu sei que todas as mães são incríveis. Acredito firmemente nessa verdade que, como poucas, ainda mantém o mundo um lugar habitável. Mas preciso hoje falar da minha mãe. Seu nome é Ivonete Terezinha Lopatiuk do Amarante e ela faz 60 anos. Ela nasceu em Medianeira (PR) e se mudou pra Foz do Iguaçu ainda nova. Ela se casou com meu pai quando eles tinha vinte e poucos anos e eles tentaram morar em Curitiba por um tempo, mas não deu certo. Gosta de uma cervejinha e de um churrasquinho. Gosta de novela, mas sempre promete que essa nova que saiu agora ela não vai ver, senão vicia.

Ela já trabalhou como professora, como vendedora, já trabalhou fazendo pão pra vender e como moça da copa, em vários lugares. Hoje ela é diarista, mas está como mensalista para a família de uma amiga. Ela trabalhou como babá por muitos anos para várias famílias e até hoje vários jovens adultos a chamam com carinho de Tia Neti.

Passeando no litoral, mês passado.

Essa é a minha mãe. Ela parece brava, mas é extremamente emotiva e carinhosa. Feito eu. Quando angustiada com a vida, ela limpa a casa e trabalha para espairecer. Feito eu. Ela construiu uma vida simples e digna, baseada em seu próprio esforço e no amor que sente por todos que a rodeiam. Como eu espero estar fazendo. Considerando que me pareço a cada dia mais com a minha mãe, se um dia eu conseguir chegar à metade do ser humano que ela é, já serei uma pessoa realizada.

Quanto mais conheço a mim mesma, mais conheço minha mãe. Quanto mais conheço minha mãe, mais a amo e admiro sua força, sua história. E a sua história é bonita, como a de tantas mulheres que conhecemos. Essas histórias precisam ser contadas. E é por isso que, feito a menina de sete anos que fui, admirada por ter a mãe mais bonita da escolinha, hoje eu venho aqui, usando as únicas ferramentas que tenho, escrevendo, já que é a única coisa que sei fazer, para dizer que esse texto é para você, Neti. E também para dizer que eu ti amo. Muito. Eu ti amo pela vida inteira, mãe.