Esse é um livro que você vai comprar pela capa e depois dizer “Não é que é legal mesmo?”
Teve um dia em que eu estava especialmente entediada com toda a minha fila de livros para ler e fiz o que qualquer pessoa entediada faria: dei de ombros para o que já tinha em mãos e comprei outros livros, que coloquei na frente dessa fila.
Um desses livros foi Cadê Você, Bernadette?, que eu escolhi basicamente pela capa ser bem colorida e ele parecer ser uma comédia muito leve.
Eu realmente não acho que você precise ter mais do que um único motivo para escolher determinado livro para ler. No caso desse, eu já tinha mais do que três, então comecei a ler tão logo o Kindle sincronizou a compra feita pela Amazon. Ou seja, em instantes.
Aliás, é tão fácil comprar um livro que não é de se espantar que as pessoas tenham mais de trezentos para ler e nunca terminem nenhum.
Cadê Você, Bernadette? é bonito para além da capa e é engraçado como eu precisava, mas não como eu pensei. Ele conta a história de uma menina de 15 anos que tem uma mãe meio excêntrica (a Bernadette do título). Pois bem, um dia essa mãe some sem deixar vestígios e a menina (Bee) trata de investigar o caso por conta própria.
Por esse enredo, você imagina que pode ser um livro triste. Como por exemplo se pensasse no seguinte enredo: o avô da família, um empresário até que bem sucedido, é preso por fraude e cabe à família se virar sozinha e manter os negócios funcionando. Meio triste, né? Mas também pode ser divertido.
O que esses dois enredos tem em comum? O primeiro é de Cadê Você, Bernadette? e o segundo é de Arrested Development. Os dois tem o dedo de Maria Semple, autora de Cadê Você… e também roteirista ocasional de Arrested.
Sabendo isso, você também já sabe que o que vai encontrar no livro é mais ou menos o que viu na série: situações tristes transformadas em momentos tocantes e até meio absurdos por conta da dose certa de humor.
Ou seja, é muito legal. Não é um humor escrachado, é divertido e meio bobo em alguns momentos. Eu li no avião indo pra casa dos meus pais e dei algumas boas gargalhadas lá para o final. Quase chorei também. Como eu disse, é uma situação triste, no fim das contas. Mas Maria consegue deixar tudo redondinho, divertido e bonito.
Assim como uma boa canção, o amor não é fácil de se assimilar logo de cara, ele precisa amadurecer junto com você
O ano é 1976 e Elvis Costello toca guitarra baixinho na cozinha enquanto no quarto, sua esposa e filho dormem. É madrugada e ele dedica esse horário que deveria ser de descanso para finalizar seu primeiro álbum. De dia, trabalha como profissional de TI atendendo empresas que precisem configurar seus computadores. Na década de 70, você pode imaginar, esse não era o serviço mais solicitado do mundo. Por isso, Costello – que naquela época ainda atendia por seu nome de batismo, Declan McManus – trabalhava sério em um projeto que poderia lhe dar, senão um futuro melhor, uma vida mais feliz. Ele queria ser um músico de sucesso.
Em 1977 Costello finalmente terminou seu primeiro álbum, My Aim Is True, o nome sendo um verso emprestado de Alison, canção que abre o disco. Com toda a audácia de um jovem em seus 23 anos de idade, o músico passou um dia inteiro na frente do prédio de uma rádio até que alguém ouvisse sua fita e se comprometesse a produzi-la. Deu certo. E foi um sucesso tremendo.
My Aim Is True — 1977
Na capa do disco, um Elvis Costello franzino e quase cômico em uma imitação imperfeita de Buddy Holly aparece de pernas tortas, trazendo no rosto a expressão de raiva disfarçada pela vontade de ser bom moço e vender. My Aim Is True era meio punk, mas também tinha aquele tom de rock comercial que conquista imediatamente. Elvis era um moço bonitinho, branco e inofensivo. Como não amar? Um homem desse, assim desarmado e sincero, só pode estar falando de amor.
E estava, mas não exatamente da maneira mais correta. Já de início, Alison conta a história de uma moça que está se casando, mas ainda é amada pelo ex. “Alison, eu sei que esse mundo está matando você. Alison, o meu objetivo é verdadeiro”, ele canta com persuasiva decisão, querendo que a moça mude de ideia enquanto corta o bolo da festa do próprio casamento. Traiçoeiro, você diz. Bom, era só o começo.
You’re upstairs with the boyfriend while I’m left here to listen. I hear you calling his name, I hear the stutter of ignition. I could hear you whispering as I crept by your door. So you found some other joker who could please you more.
Isso é de outra música do mesmo disco. O amor parecia ser algo que Costello deveria roubar dos outros ou conquistar aos gritos, naqueles anos. Quando comecei a me interessar pela obra dele, isso há uns bons dez anos, me espantou o fato de não ter nada muito quotável em suas letras. Eu explico. Não é que ele não seja bom letrista, não é que ele fale frivolidades. A questão é que quando Elvis fala sobre amor no começo de sua carreira, há tanta raiva em seus versos que fica um pouco difícil achar algo utilizável quando se pensa em passar esse sentimento adiante.
Bebe Buell e Costello — um caso cheio de idas e vindas
Com o sucesso meteórico, Costello também se separou da esposa tão rápido quanto pôde. Se o primeiro casamento tinha sido precoce por conta de uma gravidez inesperada, agora ele era um rockstar e não tinha tempo a perder. Os anos de silêncio contido na cozinha da casa diminuta nos subúrbios tinham chegado ao fim. Maravilhado com a fama e seus encantos, menos de um ano depois do lançamento de My Aim Is True, Elvis já estava envolvido e perdidamente apaixonado por Bebe Buell, a groupie das groupies, mãe de Liv Tyler e ex de Steven Tyler, Iggy Pop, David Bowie, Mick Jagger e Rod Stewart, só para citar alguns.
Você pode dizer que é leviano analisar a obra de um artista tendo como base a sua vida amorosa. Mas isso não é coisa de revista de fofoca quando o que o artista em questão produz é reflexo direto dos seus relacionamentos. Algo fácil de se provar quando analisamos, por exemplo, This Year’s Model segundo álbum de Costello, lançado no ano seguinte, 1978. “Don’t wanna be a goody-goody / I don’t want just anybody / No, I don’t want anybody / Saying “You belong to me, you belong to me”” ele diz em uma canção do disco, todo “contentinho” com sua pretensa solteirice, para então bradar na canção seguinte:
I don’t like those other guys looking at your curves I don’t like you walking ‘round with physical jerks Everything they say and do is getting on my nerves Soon they will be lucky to be picking up the perks ’Cause when they pull the shutters down and throw up in the dark They’ll find that all the dogs outside bite much worse than they bark
Ou seja, ele não é de ninguém, mas você tem dono, moça. Péssimo. A despeito de suas inúmeras composições de amor, esse parecia ser o sentimento que Costello menos entendia. E mais:
No, don’t ask me to apologise. I won’t ask you to forgive me. If I’m gonna go down, you’re gonna come with me
Costello e Buell em um flagra de papparazzi
O nome da música é Hand in Hand, para registro. Uma música em que Elvis sugere que ele e seu par afundem juntos, já que não conseguem resolver seus problemas. É… Bem longe do ideal.
Em um esforço para construir sua persona como compositor e celebridade em si, Costello deixava à mostra toda a sua insegurança por meio de suas canções. Criticas ao governo e lembranças magoadas do tempo de trabalhador assalariado se mesclavam a composições onde o amor é uma luta e não um porto seguro. Em peso, suas letras falam da raiva de amar alguém que o deixa à deriva, que o provoca e não lhe ama na mesma medida. Alguém que o faz de bobo e nunca está ali por ele, enquanto ele… Ele largou tudo por ela. Amar Buell era assim, pois Costello também era assim.
There’s so many fish in the sea That only rise up in the sweat and smoke like mercury But they keep you hanging on They say you’re so young Your mind is made up but your mouth is undone
Certamente alguma coisa estava acontecendo ali. O relacionamento com Bebe não era dos mais calmos, posto que Elvis mesmo não era uma figurinha fácil. No auge da fama, por essa época, Costello se afundou em drogas e álcool e manteve um comportamento irascível que o fez ser banido por décadas da TV americana — suas apresentações eram furiosas demais e ele nunca seguia o combinado.
Tanta raiva havia de ser extravasada em algo e o namoro, que nunca fora um alicerce, começou a ruir de todo. A grande ficha começa a cair por volta de 1986, quando cansados de tanta tensão, Costello e Buell rompem em definitivo.
He thought he was the King of America Where they pour Coca Cola just like vintage wine Now I try hard not to become hysterical But I’m not sure if I am laughing or crying I wish that I could push a button And talk in the past and not the present tense And watch this hurtin’ feeling disappear Like it was common sense It was a fine idea at the time Now it’s a brilliant mistake
Essa letra é de Brilliant Mistake, de 1986. O último capítulo desse relacionamento viria na forma do álbum Blood & Chocolate, décimo primeiro de Costello, inteira e abertamente dedicado à Bebe Buell. O título era uma referência ao hábito de Buell de comer chocolate desesperadamente quando estava menstruada. Foi nesse disco que Elvis gravou I Want You, uma das canções de amor mais lindas e doloridas de todos os tempos.
Oh my baby baby, I love you more than I can tell I don’t think I can live without you And I know that I never will Oh my baby baby, I want you so it scares me to death I can’t say anymore than “I love you” Everything else is a waste of breath
Mas, é claro, a raiva e o ciúme ainda estavam ali, como podemos ver na faixa I Hope You Are Happy Now. Tão rápido quanto deixou Costello, Buell arranjou outro. Certa ela.
He’s a fine figure of a man and handsome too With his eyes upon the secret places he’d like to undo Still he knows who knows who and where and how And I hope you’re happy now
Depois de anos chorando de raiva, Costello decide rir
Foi o fim de uma era. Após Blood & Chocolate, Costello ficou três anos sem gravar — ele costumava entregar até dois álbuns por ano. Seu retorno aconteceu com Spike, lançado em 1989 e tido como a sua grande obra-prima até hoje, a maior de todas. Em uma reinvenção de si próprio que beirava o ridículo, Elvis surge se auto-intitulando “the beloved entertainer” e entrega um álbum mais maduro e sério, a despeito das brincadeiras da capa. Homenagens sentimentais a parentes, reflexões sobre a vida em geral e um pouquinho de cinismo indisfarçável permeiam o disco que recolocou Costello nos trilhos.
O tom das letras se suavizou com o passar dos anos, então. Flertando sem medo com o jazz e o erudito, temos um álbum mais “sério” que o outro e nisso o amor é visto pelo cantor como algo a ser descoberto com calma e cuidado. Finalmente, em 2003, Costello se casa com Diana Krall, cantora e pianista canadense que viria a lhe dar dois filhos e fazer do músico um homem “de família”. No mesmo ano, lançou “North”. Esse norte sendo, por óbvio, o amor de Diana.
Costello e Diana
Com Costello, Diana se sentiu motivada a se lançar também como compositora. Com Diana, Costello largou a raiva e o ciúme irracional das composições anteriores e mergulhou em letras mais elaboradas e sóbrias sobre família, amor e temas clássicos. Foi o momento das grandes parcerias, como por exemplo com a Orquestra Sinfônica de Londres, Marian McPartland e tantas outras. Em 2008 ele retornaria do jazz para os braços do rock com Momofuku, álbum recheado de riffs ácidos e ligeiros em faixas com menos de 3 minutos de duração — o mesmo tempo de preparo do macarrão instantâneo criado por Momofuku Ando. Uma piada, é claro. Costello se permitia sorrir novamente e dessa vez sem passar por cima de ninguém — nem dele mesmo. Uma das canções do disco, My Three Sons, deixa essa mudança na cara de todos já no título e também quando diz:
I love you more than I can say What I give to one The other cannot take away I bless the day you came to be With everything that is left to me
Seguro de si, Costello fez de tudo. Mais parcerias de jazz, dois discos de country, mais rock, tango (!), e o mais recente, um disco todo moderninho com “a banda do Jimmy Fallon”, a The Roots. Hoje, as canções de Costello são mais quotáveis, sim. No decorrer de sua odisseia amorosa, ele experimentou a raiva, o ciúme, a solidão e todos esses sentimentos estão transparentes em suas canções. Não há fingimento, está tudo lá. Após tantos anos, é possível amá-lo por isso e se reconhecer nele. Para além disso, é possível ver que o amor pode salvar, ainda que não seja fácil de começo. Nunca é, verdade seja dita. Mas vale o esforço.
Zé Ovo no baixo, Bacalhau na bateria e Gabriel nos vocais e guitarra — SESC Santo Amaro 04/06/16
Existem bandas que acabam e existem sentimentos que nunca vão acabar
Formada por Gabriel Thomaz, Bacalhau e Zé Ovo, a Little Quail & The Mad Birds é uma banda brasileira que existiu oficialmente entre 1988 e 1996 e gravou dois álbuns. Embora tenha sido o embrião de várias bandas notáveis que surgiram depois, a LQATMB nunca foi um sucesso de mídia. Ainda assim, é uma banda muito querida por quem gosta de rock honesto e sem firulas — e com um pouco de gaiatice. Desde o anunciado fim, a banda se reúne esporadicamente para algumas apresentações isoladas, sendo que a última até então tinha sido em maio de 2012. O show de ontem, no Sesc Santo Amaro em São Paulo, foi o primeiro após esse hiato e surgiu como gancho para o lançamento do livro do Gabriel, Magnéticos 90, que conta um pouco dessa história também.
Gabriel empunha a carteira de músico do Zé Ovo em uma das piadas do show
Do trio, Gabriel foi quem fez mais sucesso comercial depois do Little Quail: desde 1997 ele comanda a Autoramas — uma das bandas mais maravilhosas do rock brasileiro e ponto — além de projetos paralelos como Lafayette & os Tremendões, onde revisita clássicos do Iê-iê-iê. Bacalhau foi do Rumbora e Ultraje e atualmente toca no programa do Danilo Gentili no SBT. Já o Zé Ovo largou essa história de banda e trabalha mais do outro lado da força, como técnico de som e roadie inclusiveno próprio SESC.
O show também teve participação do Alf (Rumbora, Supergalo) que hoje em dia está com projeto solo. Era para ele tocar só uma música ou duas, mas a partir do momento em que subiu ao palco já virou tudo uma grande zoeira e acabou ficando até o final.
Com sua pontualidade britânica, o moço do SESC anunciou por detrás das cortinas o início do show às 20h de um sábado chuvoso e frio. É muito curioso assistir a um show de rock no SESC. O lugar é ótimo, as instalações são excelentes, os preços são convidativos, é tudo tão perfeito que destoa dos perrengues que estamos acostumados nas casas de show. Você chega lá às 19h45, entrega seu ingresso, o show começa e termina na hora certa e você vai embora depois, não tem mais nada pra ver ou fazer. Objetivo e direto, nada pode ser mais “vida adulta” do que isso.
No palco, uma boa dose disso também. Com oitenta minutos de show aproximadamente, todos os hits da Little Quail foram tocados, além de alguns covers inusitados como Samba do Arnesto. Isso não quer dizer que foi um show burocrático, como dizem. Foi uma apresentação completa e coesa, isso sim. A Little Quail entregou uma performance enérgica e divertida, com a medida certa de saudosismo — na plateia as pessoas olhavam tão admiradas que até esqueciam um pouco de dançar. Também, pudera. É incrível ver pela primeira vez ao vivo (no meu caso) canções que embalaram a nossa adolescência. É uma emoção muito grande ver ao vivo uma banda que você nem achava que teria mais a chance de ver.
Cientes do peso disso, Gabriel e Zé Ovo conduziam o show com humor e leveza, fazendo inúmeras piadas e comparando suas vidas entre a época do Little Quail e agora. Bacalhau fazia o papel do adulto responsável que todos nós deveríamos ser à essa altura, avisando que tinha música pra tocar, que estavam se atrasando e também puxando a bateria pra anunciar a próxima música enquanto o resto da banda e a platéia se perdiam em piadas e provocações. Ansioso e profissional, Bacalhau é meu animal spirit, eu percebi, quando resmungava “a gente já podia ter tocado oito músicas!” e dava de ombros se debochavam da pressa dele.
Little Quail & The Mad Birds no Sesc Santo Amaro
Disso, é claro, você percebe que a idade chegou para todos. Não como algo ruim, posto que é inevitável. Little Quail foi maravilhosa e pelo nossos sonhos adolescentes deveria ter durado para sempre, mas nada como ter o “para sempre” por alguns instantes para perceber que o certo é deixar a vida seguir. Diante de um público mais perto dos quarenta anos do que dos trinta, a banda se mostrou como um revival sentimental daquele tempo, porém sem pretensões de trazer o passado de volta. Como se dissessem “Olha, houve isso aqui um dia, foi legal e ainda é legal, mas hoje em dia temos outras coisas, temos outros interesses”. E que bom que é assim, pois para os fãs a vida andou também. Todo mundo ama reviver o passado, no entanto isso não quer dizer que queiramos passar mais de uma noite por lá. Nossa vida tem outras urgências agora.
Depois do show, fomos à um bar ali perto com amigos. Bebemos, falamos de futebol (na TV, o Corinthians jogava pelo Brasileirão), rimos e comparamos nossas vidas e trabalhos. Antes das onze da noite todos já estavam em suas casas, debaixo das cobertas. Feito uma rápida excursão à um passado distante, o show da Little Quail veio para nos mostrar que bandas acabam, a vida passa e nos muda um tanto. E, mesmo assim, ainda é possível reviver por alguns instantes o que nos marcou: alguns sentimentos estarão aqui com a gente para sempre.