Resenhas

Lendo “A verdade sobre o caso Harry Quebert” eu voltei a amar os livros

Fosse o livro um lugar bucólico, onde você pudesse descansar suas angustias

De onde surge a inspiração para escrever um livro? Deve vir de lá também a nossa inspiração para lê-los…

Faz quase dois anos que, de uma hora para outra, cansei de ler livros. Eu que sempre li uns dois ou três livros por semana, era resenhista convidada em blog famoso sobre isso, aquela a quem os amigos recorriam quando queriam uma dica literária para presentear, eu que tinha uma lista enorme de livros para reler e um Kindle lotado de novas possibilidades.

Do nada, cansei. Bom, não deve ter sido do nada. Surgiram outras coisas. Mudei um pouco, criei para mim outras urgências e interesses. Quis andar por aí absorvendo histórias de outra forma. Fui embora.

E passado um tempo, voltei. Ou quis voltar. Nos últimos meses, decidi que queria voltar a ler livros. Quem sabe não no mesmo ritmo alucinado de antes, quem sabe sem a mesma paciência (eu sempre terminava o livro mesmo não tendo gostado nem um pouco), mas voltando de alguma forma. Tirei o Kindle do fundo da gaveta, sempre me sentindo culpada por achar que nunca aproveitava por completo aquele presente tão querido. Comprei alguns livros de papel, afinal o modo antigo ainda é muito cativante. Descobri até que o Kindle tem aplicativo para celular e baixei no meu iPhone. Não tinha mais desculpa, fui à luta em busca daquela paixão adormecida.

Minhas escolhas eram sinceras, mas minhas tentativas pareciam forçadas. Li alguns livros ainda me sentindo perdendo tempo, fora do compasso. Ainda pensando “ai, meu Deus, eu aqui e minhas séries atrasando”. Pensando “O que será que estão falando no Facebook? No Twitter? No Instagram? E se alguém me mandou um e-mail? Vou parar a leitura e checar…” e realmente o fazia e lá se ia o meu foco.

Eu lia pensando que livros eram bons e eu lembrava que eles me faziam sonhar tanto, como é que agora nenhum me tirava o ar?

Deixei pelo menos quatro livros pela metade e terminei de fato uns cinco, até que encontrei o livro que me fez sentir como me sentia no tempo em que livros era o meu mundo todo. Finalmente aconteceu, como fatalmente aconteceria um dia. Era preciso apenas esperar o livro certo chegar (sim, eu acredito que os livros escolhem a gente em momentos certeiros de nossa vida — e não o contrário).

Ano passado mesmo, tinha visto a capa dele. Algo me dizia que eu deveria lê-lo, no entanto eu estava naquela fase, né? Me convenci de que estava caro e não comprei.

Dia desses, passeando pela Amazon, vi o tal livro com desconto e não pensei duas vezes. Comprei o e-book e sincronizei com o app no celular. Algumas semanas depois, comecei a ler no iPhone mesmo. Mal sabia eu… Minha cabeça se desgraçou por completo, meu coração pulou do peito, eu deixei tudo de lado por ele. Eu lia em pé, dentro do ônibus. Lia andando pela rua e em oportunidades mínimas que tinha, como por exemplo, entre ligar meu notebook no trabalho e esperar aparecer a tela de login. Eu não conseguia parar de ler. Estava maravilhada.

Um dos melhores sentimentos do mundo. Mas afinal, que livro é esse?

A verdade sobre o caso Harry Quebert é o segundo livro de Joël Dicker, um romancista suíço de apenas 31 anos de idade. O primeiro livro dele foi um sucesso, mas foi esse que realmente o alçou à fama internacional. Narrado em primeira pessoa, ele conta a história de Marcus Goldman, um escritor que após estrondoso sucesso com seu livro de estreia, se vê sem inspiração para escrever a tão cobrada segunda obra e manter a fama conquistada. Em busca da tal inspiração, ele busca a amizade e ensinamentos de seu grande amigo e igualmente célebre escritor Harry Quebert. Porém, ao se envolver com Quebert, acaba se vendo no meio de uma polêmica enorme e sua vida muda por completo.

Dito isso, saiba: é um romance policial. Sabendo isso, te digo: é um livro dentro de um livro. Sabe o tipo? Marcus escreve sobre o fato de não conseguir escrever. Harry Quebert, seu mestre, traz uma experiência similar sobre bloqueio criativo, o que faz com que a história dos dois se confunda. Esse é o segundo livro de Marcus e, perceba, também é o segundo de Joël Dicker. Tudo isso somado, a trama gira em uma espiral, volta ao início, escapa pelas beiradas, morde o próprio rabo e te deixa zonza. E é bom.

Joël Dicker, o autor

Eu fiquei completamente pasma com a qualidade da história. Os muitos detalhes, as nuances, as charadas que você só descobre mais lá na frente e tudo o que está na sua cara e você não vê. Dicker conquistou inúmeros prêmios com esse romance, foram mais de dois milhões de exemplares vendidos em toda a Europa. E é justo. Não digo que é um tema ou gênero novo, mas a forma e a força com que Dicker os traz com certeza tem algo de único. Não chega a ser uma metalinguagem, se assemelha mais a uma matrioska literária, se podemos chamar assim. De todo modo, é algo impecável como nunca vi autor nenhum chegar perto.

Além disso, existe o aspecto humano dos personagens. Tem a coisa do Marcus ser um cara completamente angustiado com prazos e metas, a questão de estar se esforçando até a alma em algo e não conseguir achar que seu trabalho está minimamente bom. Quem nunca se viu assim? Marcus se desespera buscando uma inspiração que não vem. Insiste, se arrisca e então recebe a recompensa. E perde tudo. Ganha de novo depois. Perde novamente. São inúmeras reviravoltas e pistas falsas. Marcus vai se descobrindo através da tentativa e erro e das lições que recebe de Harry. E vamos aprendendo junto.

Apesar do imenso sucesso do livro, Dicker recebeu críticas severas que diziam que ele era um embuste, que o livro era mais do mesmo. Eu li alguns artigos e, juro por Deus, não sabia se estavam falando dele, do Harry ou do Marcus, personagens do livro. As história se misturam. Tudo se embola, é um labirinto de referências e coincidências.

Um labirinto de onde só sai hoje, depois de terminar de ler “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Terminei e vim correndo escrever sobre. Precisava escrever sobre. Depois das críticas negativas que li, por um instante questionei a minha perplexidade diante do livro. Será que é tudo isso mesmo que achei?

Pensei um pouco e acho que é sim. Não por achar que minha opinião é melhor que a dos outros, mas porque sei o que esse livro foi para mim. Me encantou, me tirou do lugar comum onde eu estava e me mostrou algo que eu buscava e tinha perdido. Enquanto o nosso herói Marcus buscava inspiração para escrever, eu aqui redescobria a inspiração para ler nas palavras dele (ou seja, de Dicker). Se é tudo sobre inspiração, me conforta saber que ela ainda existe. E que, você querendo, ela volta.

Sempre volta.