Resenhas

A gente precisa sim de remakes de filmes clássicos que amamos

Caça-Fantasmas, 2016

Se o filme refeito ficará à altura do original é outra história. Mas existem motivos para apostar nas regravações

Hoje à tarde eu fui ao cinema ver Caça-Fantasmas. Não era 1984, era 2016. O cinema estava cheio de pessoas ansiosas por se divertir, com seus baldes de pipoca temáticos, gritinhos e risadas.

Foi incrível.

Mas antes de falar do filme de hoje, preciso voltar um pouquinho para falar de outro remake que me abriu os olhos e me fez encarar sem preconceitos esse aqui em especial.

Grease é o meu filme favorito da vida. Para mim, nunca houve e nem existirá um filme que me faça sentir como ele. Seja pela trama que me cativou, seja pelas lembranças afetivas que dela carrego, como quando eu virava a madrugada com meu pai, os dois na sala absolutamente hipnotizados assistindo John Travolta e Olivia Newton-John dançando no Corujão. Isso é algo que ninguém tira de mim e foi Grease que me deu.

Quando soube que fariam um remake de Grease, lá no finalzinho do ano passado, eu urrei de alegria. Obviamente, sabia que nada chegaria aos pés do original de 1978, mas adorei a ideia dos tempos da brilhantina voltarem a ser assunto. Quanto mais gente soubesse do meu filme favorito, melhor era. No meu mundo ideal, Grease seria assunto e notícia todos os dias. Todos os dias.

Grease: 1978 versus 2016

Grease Live foi lançado em janeiro desse ano e só se falava disso. A adaptação para TV, transmitida ao vivo pela FOX no último dia daquele mês, trouxe um novo frescor para o meu filme favorito. Comparações foram feitas, as músicas voltaram a ser cantadas. Eu via meus sites preferidos trazerem artigos sobre o tema e, nossa, como eu ficava feliz! Quem não gostou, podia dizer “você precisa ver o original” e tudo bem. As pessoas assistiam ao original novamente ou pela primeira vez, gostando ou não do remake.

Para quem não se importava com a versão de 78, tudo bem, também. Novas lembranças e sentimentos foram criados a partir daquele novo filme — e isso era o mais importante, pois essa era a missão final dele.

No fim, não importava tanto se Grease Live era bom (e ele era!). O que importava é que o filme estava tocando as pessoas de alguma forma, como o Grease original tocou um dia. Toda essa comoção valia mais do que qualquer senso de proteção egoísta que nós fãs mega apaixonados pudéssemos ter em relação à franquia.

O que Grease Live fez por Grease, fã doente nenhum conseguiria fazer sozinho.

E nisso, voltamos ao dia de hoje, quando uma sessão surpreendentemente cheia para às 14h de um sábado chuvoso me fez lembrar que o cinema é, quem sabe, a única arte capaz de se apropriar com gosto de seu passado e fazê-lo renascer trazendo mais paixão ainda.

Caça-Fantasmas: 2016 versus 1984

Confesso que não lembro muito do Caça-Fantasmas original. Afinal, ele foi lançado no ano em que nasci, então só tenho vagas lembranças de vê-lo na Sessão da Tarde quando criança. Dos filmes que a TV podia passar naquele horário, sem dúvida era um dos melhores. E se tornou icônico.

O lançamento dessa versão nova foi cercado de polêmica e expectativa. Tinha a questão do elenco feminino, do risco de “estragar” as lembranças que as pessoas tinham do filme de 84 — e questionava-se a necessidade de fazê-lo. Imagino que tudo isso deve ser levado em conta, mas a partir do momento em que você está no cinema gargalhando e tendo bons momentos com o filme na tela, tanto faz se a ideia principal era propagar o espírito do filme original ou apenas ganhar dinheiro com ele.

Afinal, o que se leva de lição do que nos é oferecido é algo que só depende da gente. Em um caso como esse, você pode achar que foi usado e que se aproveitaram das suas lembranças. Ou pode se aproveitar desse novo produto e criar novas boas memórias a partir dele.

Assistindo a Caça-Fantasmas no cinema hoje, fiquei imensamente feliz. Do meu lado, um menino de uns sete anos nem piscava, o corpo todo projetado para frente na poltrona, firmemente disposto a ser tragado pela telona já que seu coração mesmo já o havia feito. Fiquei pensando que eu, na idade dele, não tive a chance de ver Caça-Fantasmas no cinema. Quem sabe se isso tivesse acontecido, eu pudesse ter amado mais esse filme de 84. Mas ali estávamos nós dois, nos divertindo no mesmo grau, independente da idade.

Assim, é incrível que as crianças de hoje possam ter essa oportunidade. Falo dele e de mim! E não importa se não é exatamente o mesmo filme, por isso remakes são tão importantes. Veja, não temos como mudar isso; se passassem agora a versão de 1984 hoje no cinema, seria apenas um tributo pouco impactante. O filme de 2016 não vem sozinho para o público — traz merchandising, discussões atuais (como a de gênero), a versão anterior como norte e uma publicidade gigante. É todo o pacote que se espera e que uma história como a de Caça-Fantasmas merece. Nada menos que isso.

Como disse, antes de Grease Live eu costumava ficar brava com remake. “Esse filme ainda existe, qual é o motivo de regravá-lo?”. Mudei meu pensamento no começo do ano e, vendo Caça-Fantasmas hoje, confirmei que é importante, de tempos em tempos, repaginar essas histórias tão queridas por nós. É importante para trazê-las de novo à baila, para torná-las vivas mais uma vez, para que possamos conversar sobre novamente, como fizemos no primeiro lançamento e gostaríamos de poder fazer todos os dias.

Caça-Fantasmas, a versão de 2016, é maravilhosa do início ao fim e não fica devendo nada à original. A Tati de seis ou sete anos teria amado assisti-la no cinema, assim como teria amado a versão de 1984. De todo modo, eu tive uma chance hoje e sou grata por ela. Ri, me emocionei e acrescentei mais um filme à lista dos queridinhos meus. Entendi como o Caça-Fantasmas original foi importante à sua época. E como é ainda mais relevante hoje, com essa regravação em nova roupagem.

É preciso ter em mente que o lugar que a história original tem em nosso coração nunca vai se perder. Se você não gostar da regravação, sempre terá a antiga (e se gostar também, os filmes não se sobrescrevem!). Puritanismo só serve para nos ancorar no passado — é preciso abrir espaço para o novo, é preciso estar de coração aberto para ver essas mudanças chegarem.

Acima de tudo, é preciso deixar o egoísmo de lado. As histórias não são nossas e elas precisam chegar à todos. Vez ou outra não vai dar certo, mas as tentativas importam.

No caso da nova versão de Caça-Fantasmas, que Deus nos ajude, valeu à pena demais.