
É difícil aceitar isso, mas deixar que te ajudem pode ser libertador
Veja só que coisa, uma amiga minha não gostou de Stranger Things. Falando sobre a série do momento em post no Facebook, disse temer estar sendo amarga ao não gostar como os outros de algo que todo mundo gostou. Me senti assim quando comecei “A Arte de Pedir”, livro da Amanda Palmer que peguei pra ler essa semana.
Todo mundo ama a Amanda Palmer. Eu só queria entender quem ela era, então comprei o tal livro na Amazon e fui ler no Kindle.
Artista independente fora do comum, no livro ela narra toda sua trajetória musical e mostra como o ato pedir ajuda alheia fez com que se tornasse não só famosa e bem-sucedida, mas principalmente plenamente feliz e realizada. Páginas e mais páginas (acho que são quinhentas!) sobre como ela se encontrou no decorrer dos anos tendo o apoio da comunidade que criou em torno de si baseada em sua personalidade expansiva e agregadora.

Até aí tudo bem, mas lá pelos 35% do livro eu já estava um tanto quanto puta.
Comecei a reclamar mentalmente durante a leitura: “Rapaz do céu, tudo o que ela faz é perfeito! Não importa como você veja a vida, Amanda sim é que tem o caminho certo, o jeito correto de ser feliz. É a dona da verdade, ela!”.
Aí eu parei um pouco… Respirei. Deixei o livro de lado e voltei dois dias depois. Tentei entender o motivo de ficar tão brava com o que estava ali e retomei a leitura tentando ser um pouco mais gentil com Amanda e mais cabeça aberta comigo ou algo do tipo.
Percebi que tenho tanta dificuldade de pedir ajuda quanto de aceitar que alguém possa fazê-lo de modo tão desprendido como Amanda faz. Não é só que eu não sei pedir ajuda, eu não aceito que alguém se sinta bem pedindo! Tão patético que chega a ser cômico. É muito, muito difícil para mim me sentir bem se dependo de alguém para algo. Durante o câncer eu até cedi um pouco, mas passado o pior dele, vejo que voltei com tudo ao meu modo “durão”. E é difícil admitir que se está errada quando a gente se fecha nessa redoma de auto-suficiência. Ainda bem que não desisti da leitura, pois ela me salvou demais.
Ao dar uma segunda chance ao livro, pude entender a história toda e ver que Amanda não é essa boneca de perfeição toda dona da verdade como sua trajetória de sucesso e a minha má vontade inicial poderiam sugerir. E pude perceber como eu mesmo estava sendo dura demais comigo. Amarga demais com tudo que se relacionasse a pedir ajuda.
Deixar que os outros te ajudem é mesmo uma luta. Quem pede ajuda é visto como fracassado, fraco, alguém digno de piedade. O que Amanda nos mostra é que não é bem assim. Pedir ajuda é agregar, é formar uma conexão com as pessoas e é, por fim, um jeito de se doar aos outros também.
A vida de Amanda é repleta de altos e baixos, os quais ela não esconde em nenhum momento. O livro é um relato nu e cru do seu cotidiano, do relacionamento com o marido famoso (Neil Gailman, pra quem não sabe), das suas tentativas e erros. Ela fala sobre a polêmica do Kickstarter (arrecadou um milhão de dólares e por lá e o povo caiu matando), sobre a doença do seu melhor amigo e o relacionamento extremamente próximo que tem com os fãs. E muito mais. Todo um novo mundo se abriu para mim com essa leitura, tanto que ainda estou digerindo tudo até agora. Só sei que, ao final do livro, eu estava completamente apaixonada por Amanda.
Isso sem falar na música, nas poesias… Tudo. Amanda é muito humana, divertida e fala direto ao coração. De início é mesmo difícil aceitar as ideias que ela propõe, é uma quebra de paradigma muito grande ao nosso modo de pensar. É um exercício e tanto.
Mas é necessário. E é bom. Foi complicado aceitar o que eu li ali, principalmente porque no fundo eu sabia que era verdade. É verdade que é bom pedir ajuda, é verdade que isso faz bem para nós e aquece o coração de quem pode ajudar. Cria correntes, histórias, aproxima a gente. Incrível, era tudo o que eu precisava ler, mas por que resisti tanto no começo?
Fiquei pensando nisso também. No fim, percebi que o que fiz com essa leitura foi deixar a Amanda me ajudar.
E ela me ajudou demais. Muito, muito mesmo.
Em tempo: o livro foi escrito com base em uma palestra de Amanda para o TED. Não precisa esperar terminar de ler para assistir, o livro funciona como uma palestra estendida, então a palestra em si não é nenhum “spoiler” .

