Resenhas

Li 3 livros do David Levithan essa semana

O autor sensação do momento é tudo isso o que dizem dele

Fazia anos que eu estava a fim de ler os livros de David Levithan, mas por um motivo ou outro acabava deixando para depois e esse depois nunca vinha. As capas me interessavam, as sinopses me chamavam a atenção, todo mundo estava lendo… E eu ali. Parada. Eu via ele lançar um livro após outro, via esses livros virarem filme e eu cada vez mais atrasada para começar. É daqueles autores “modinha”, mas que se sustentam porque seus livros são realmente bons. Ele é muito bom. E ele vende muito bem. Eu tinha certeza disso, só precisa comprovar logo.

David Levithan, o autor

Norte-americano de 43 anos de idade, Levithan é o grande nome da literatura jovem atual. Suas obras fazem um sucesso tremendo por trazer o universo gay adolescente de maneira divertida, improvável e carregada de sentimentos sem ser piegas. Seu livro de maior sucesso (ainda não li) é Will & Will, escrito com John Green e primeiro livro jovem adulto gay a entrar para a lista do The New York Times, com mais 70 mil exemplares vendidos. Ele também é autor de Nick and Norah’s Infinite Playlist, este escrito junto com Rachel Cohn (ele adora uma parceria), que rendeu aquele filme fofuxo com o Michael Cera e a Kat Dennings. Ao todo, David já escreveu doze livros até agora e tudo indica que não vai parar tão cedo.

Pelo menos, não no que depender de mim. Assim que finalmente comecei a ler seus livros, me apaixonei de imediato e fui atrás de mais. Como você deve imaginar, achei tudo no Kindle Unlimited. Baixei sete livros dele de graça pelo serviço e gostei tanto do primeiro que escolhi para ler que acabei lendo mais dois em seguida. Os outro quatro da fila, lerei intercalando com outros autores, senão vira bagunça, né?

Essa imersão na obra de Levithan deu todo um gás ao meu instinto literário. Até comecei a escrever meu sexto livro, de tão inspirada que fiquei. Mas esse assunto é para depois, bem depois. Vamos falar agora desses livros que li essa semana.

Comecei por Todo Dia, que era o que eu mais queria ler, antes mesmo de saber quem era David Levithan. Publicado em 2013, esse é quem sabe o mais maduro dos livros do autor. Embora fale ao público jovem, seu foco aqui vai além da questão gay que é sempre presente em sua obra. Em Todo Dia, o autor expande seu território costumeiro e traz um realismo fantástico para a trama, algo que nos prende logo na primeira página.

Todo Dia conta a história de A, um adolescente de 16 anos que todo dia acorda no corpo de alguém. E fica neste corpo até que dê meia-noite, sem que ninguém saiba, nem mesmo a pessoa “possuída”. Assim, ele vive a vida dessa pessoa por apenas um dia e, quando amanhece, já está no corpo de outra. É algo que ele não tem controle e com o que tem que lidar desde o nascimento. Acompanhamos dia após dia na vida de A, cada história que ele toma posse por apenas 24 horas, até que o inesperado acontece: ele se apaixona por uma menina e precisa lutar para ficar com ela, apesar de sua condição. Será que tem como conseguir isso?

Em sua jornada de não-pertencer, de não ter passado nem futuro, A traz reflexões lindas. Em uma analogia perfeita, Levithan traz o personagem como a personificação de uma das nossas maiores angústias: a de não-pertencer a nada, a de ver tudo como efêmero e sem duração. Além disso: a solidão de não ter mais ninguém no mundo além de você que saiba exatamente como você se sente.

Esse foi um dos livros mais lindos que já li na vida. Soube que tem a continuação (a mesma história contada pelo ponto de vista da menina por quem A se apaixona), um spin-off lançado apenas como e-book contando a história que precede a que vemos no livro e também existe a possibilidade de um filme. Vamos acompanhar. Provavelmente consumirei todos esses produtos, mas ainda estou me recuperando do baque da história inicial, que é muito forte e muito bonita.

Empolgada com o autor, fui para Garoto Encontra Garoto, esse sim literatura jovem gay em toda a sua essência. Esse é o primeiro livro do David Levithan, onde ele já mostra a que veio. Traz a história de Paul, um adolescente gay totalmente assumido e resolvido que se apaixona por Noah, outro menino gay de boas. Eles namoram, mas aí algumas tretas acontecem e Paul precisa reconquistar o amor de seu amado. Até aí tudo bem, mas a escola onde Paul estuda é quase uma realidade utópica: nada convencional, lá os líderes de torcida andam de moto, a rainha do baile é uma quarterback drag-queen, e a aliança entre gays e héteros ajudou os garotos héteros a aprenderem a dançar. Todos ali tem uma sexualidade fluída e ficam entre si, independente de gênero, e nada disso parece ser um problema para ninguém. Eu gostaria muito que essa fosse a realidade entre os jovens, essa coisa toda sem preconceito. Não sei se realmente é, mas espero muito que seja ou que logo venha a ser.

O livro é bom. Os diálogos são maravilhosos e afiados e é mesmo impossível escapar de amar Paul. No fim, é um grande livro sobre amizade e eu gostei bastante. Como ele é bem curtinho (240 páginas), em dois dias eu já tinha terminado e começado outro.

Assim cheguei a Naomi & Ely e a Lista do Não-Beijo. Outra parceria com Rachel Cohn, tem uma capa absolutamente fabulosa e todo o clima de ser espertinho e fofo. Mas eu não gostei tanto.

Temos Naomi e Ely, amigos desde a infância, vizinhos de porta. Ela, a garota mais popular e linda do prédio (tudo se passa no prédio onde moram), ele, o gay mais requisitado de todos. É a dupla perfeita, os dois são lindos, desejados e são carne e unha um do outro. O problema é que Naomi é completamente apaixonada por Ely e ele nunca, nunca mesmo, ficaria com uma menina. Naomi vai levando essa situação até que Ely faz o imperdoável: fica com o namorado de Naomi. E o que ela não consegue aceitar não é a traição em si, e sim o fato de que Ely pode ficar — e vai — com qualquer pessoa, menos com ela, que é quem mais o ama no mundo.

A premissa é boa, mas foi o modo de contar a história que não me cativou. A linguagem é muito acelerada, emojis no lugar de algumas palavras, cada capítulo é um personagem falando (nem sempre um personagem relevante), enfim… Muito confuso, muita informação para uma história simples. É lógico, não sou o público alvo do livro. Sou velha. Mas ainda assim, os livros anteriores que li de Levithan eram perfeitamente aceitáveis para o meu paladar geriátrico. Só esse não colou, li até o fim em um esforço tremendo. Eu gostei da história, não da maneira como foi contada. O que consola é saber que tem filme do livro e eu assistirei essa noite, pra tirar esse ranço. Espero que seja mais legal que o livro.

Desse modo, acabou que li os livros na ordem em que mais gostei deles. Mas a verdade é que gostei de tudo, em um todo. Ainda tenho mais quatro do David aqui pra ler e mal posso esperar! É muito bom descobrir um novo autor para amar.

Você deveria tentar também. Que tal começar por esses?