Brain Dump*

Nada mudou

Foto: Death to Stock

Um reencontro consigo mesmo podem trazer novidades antigas

Você pode encontrar seu eu do passado ao andar desavisada pela rua, tomar um susto e se arrepiar como um gato pelo o que vê e lembrou. Também pode encontrá-lo no meio da noite, na cena de algum filme. Quieta e sozinha na casa vazia, enquanto faz um café. Falando ao telefone com sua mãe e lembrando como costumava se sentir ao estar ao lado dela, do outro lado da linha. Você se reencontra e se surpreende consigo mesmo. O que mudou?

No fundo, continuamos sempre os mesmos. O susto vem daí, de ver que nada mudou. Daquele tempo de antes, mais livros, filmes, seriados, pessoas e festas vieram, mas continuamos os mesmos. A insegurança de falar olhando pra baixo, a ousadia de repetir mais alto quando não te escutam da primeira vez. Arriscar contar uma piada em público, como quem se joga na piscina com carteira e celular no bolso. E o frio na barriga que já é velho amigo.

Nada nunca muda e é confortável viver assim. A gente se abraça mentalmente e diz “sou desse jeito”, nada precisa mudar porque nada nunca muda. Nos reencontramos dentro de lembranças, de memórias e tudo não passa de uma continuação dessa história que desde o começo já foi definida como seria. Não temos escolha. Nos reencontramos com nosso “eu antigo”, sentimos ternura pela ingenuidade dele, que um dia pensou que seria diferente. O café no meio da noite, o telefone da mãe, a cena do filme. Tudo serve para lembrar: nada nunca muda e ainda estamos aqui.


Texto publicado originalmente em 04 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.