crônicas

A história de amor que não acabou

Treino da Ladies of HellTown, julho de 2013 — Foto: Lucas Red

Glória aos que ficam, saudade e amor aos que vão embora

Falar das Ladies of HellTown é fácil. Desde o primeiro momento sempre foi. A primeira liga de Roller Derby do Brasil, o que a torna por direito e mérito a maior e mais antiga do país. Liga membro pleno da WFTDA, campeãs do Brasileirão desse ano. Sulamericano elas participam todo ano, descem e sobem serra pra jogar, vão pro Rio de Janeiro fazer festa, ensinam quem quiser aprender, abraçam o mundo e o carregam nos ombros a cada jam.

Falar da minha história com as Ladies é difícil. Me dói, tinge minha vista de lágrimas. Um grupo de meninas que conheci em 2012 e engoliu a minha vida me devolvendo outra totalmente nova, vibrante, cheia de significados e desafios. Que virou tatuagem, roxos nas coxas e algumas dores eternas no joelho direito se forço muito. Um esporte que me tirou da minha condição de “sedentária com orgulho” e me colocou no centro do domínio do meu corpo (vê até onde vai esse músculo? e ele é seu. vê até onde vai a exaustão? você aguenta mais um pouco), uma imersão em tipos, uma variedade de personalidades que me fez repensar a minha. Uma obsessão que durou por anos até que precisei me ausentar.

É por isso que dói falar da minha história com as Ladies. Por que eu me ausentei. Eu sai. Por conta do câncer — e depois não coube mais na minha vida. A Ladies não é para quem pode se doar só um pouco. Ela te quer sempre por inteiro e eu mudei demais, ainda que nunca tenha deixado de amá-la. Nossa história de amor foi interrompida desse jeito estranho, algo com o que ainda não me acostumei. Vendo ela prosperar sem mim, me vejo enciumada. Leva pouco e percebo que ficar brava com ela é perda de tempo. Feito a ex bonita que só melhora a cada dia, ela não liga para a opinião alheia e só floresce. Só me resta aceitar que não estamos mais juntos e torcer para que seja feliz sem mim.

A Ladies é muito grande. É gigante. E sempre foi, embora no começo fossemos apenas nove meninas para formar dois times de dez (sim, não dava — jogávamos mesmo assim). A Ladies é enorme, transborda. A cada volta completada na track, avança um pouco mais. Campeonatos, jogadoras chegando a cada mês, times novos dentro da liga e agora, uma quadra só delas.

Dá pra acreditar nisso? Em um esporte só de mulheres, totalmente “faça você mesmo”, sem apoio nenhum da iniciativa pública, as minas vão lá e conseguem uma fucking quadra? A Ladies é gigante demais, meu irmãozinho.

Lembro de mim no meu primeiro treino, o chão era de taco e a quadra era tipo apartamento de solteiro: pra entrar dois, tinha que sair três. O primeiro jogo nosso, o primeiro do Brasil, no chão batido do Memorial da América Latina. Todas essas histórias as novatas de hoje devem saber, mas a gente nunca vai deixar de contar.

Outras lembranças são mais minhas. A Shyrlei brava quando a gente dava abraço (aí que a gente abraçava mais). A Manu pedindo pelo amor de Deus pra gente ficar quieta pra ela passar o treino. A Daph me fazendo gargalhar até cuspir o protetor bucal. A Tati C. acalmando o time inteiro com um simples “não, relaxa”. Sakura voando até o teto e caindo em pé (cinco pontos). A Bá dando show na track e a Paulinha dançando até o chão antes do jogo começar. A Folco prestando atenção em tudo e me explicando depois. A Luka sendo tão nerd que era humanamente impossível. A Beki trazendo marmitinha pra comer no intervalo. A Biazinha sempre uma dama. A Biazona dona da porra toda. Nina minha primeira derby crush. Micha e a risadinha que sempre me fazia me sentir menos só. De cada menina que eu conheci nas Ladies, quis ser igual em alguma coisa. Não era falta de personalidade minha, era muita personalidade delas.

Hoje a Ladies é ainda maior do que éramos no começo. Das alegrias de ter uniforme novo (é esse logo mesmo?), passando pela euforia com um jogo improvisado (vai ter nome nos times?), o jeito mambembe que experimentamos vai sendo deixado de lado enquanto a liga caminha para um profissionalismo sem precedentes no Brasil. Um caminho que a coloca em seu lugar de direito por toda a luta desses anos.

Lembrando de todas essas coisas, dessas meninas e do que vivemos, revejo meus medos. Um grupo tão maravilhoso não deixaria raízes fracas. De onde eu pude tirar que a Ladies é minha ex? Nunca terminamos. Não seria possível nem se eu quisesse. Feito a tatuagem que tenho delas, a liga está gravada em mim. E percebo que é recíproco, ainda que o grupo de hoje seja outro quase que por completo. Mudou muita coisa, menos o amor que emana da Ladies e que é parte do DNA dela. Tão grande quanto sua história é seu coração, percebo que não vai ser como se tivesse esquecido de nós que ficamos pelo caminho. Vejo hoje, com essa notícia da quadra, que nem eu deixei de gostar dela e nem ela deixou de pensar em mim. Descubro, radiante, que essa história de amor não acabou.

Um jogo inaugural acontecerá e eu estarei lá. Nos reencontraremos após meses (anos?) afastadas. O que será que eu vou sentir? Será que vou chorar muito ou “apenas” muito mesmo?

Não sei. Só sei que estarei na arquibancada para vê-la brilhar, para vê-la ser a Ladies linda e forte pela qual me apaixonei à primeira vista já se vão uns bons anos. Estarei lá para saber que o amor nunca terminou e não preciso ter ciúmes. Ela ainda é minha, mesmo hoje sendo mais do mundo do que dos limites pequenos das quadras diminutas pelas quais passamos.

O sentimento continua o mesmo, ainda que nossos caminhos hoje sejam diferentes.

Não é o que dizem do amor verdadeiro? Pois assim este amor é.