crônicas

Lili

Foto: Death to Stock

Verdades e sentimentos sobre minha melhor amiga

Lili é uma pessoa um tanto quanto reclusa, que só sai quando é para apoiar seus amigos ou passear com eles. A reclusão vem do fato de que Lili é de poucos amigos. Lili não é pra qualquer um, não é para iniciantes. Os raros sortudos que têm a dádiva de sua amizade ganham a felicidade aos baldes a cada conversa com ela. De gestos largos, assuntos amplos, conversas que vão madrugada adentro, cada encontro com Lili é uma chance de voltar a gostar mais da vida.

O que é curioso, por que Lili vive querendo bancar a mal-humorada o tempo todo. Não acho que ela minta, porém fica difícil acreditar em mau-humor quando a pessoa vive só de alegrar a vida de quem a ama. Quando uma pessoa só traz felicidade, como fica essa rabugice de dizer “vocês são jovens, eu já estou às portas da morte”, se ela dá uma gargalhada logo depois de dizer uma sandice dessa?

Quando conheci Lili eu falei pouco com ela, pois achei que ela era “muito adulta” e eu muito pequena. Eu sempre penso nisso de “gente adulta”, que pra mim são pessoas que consideramos serem muito mais inteligentes e corretas que a gente — e ficamos só parados, admirando e pensando: “um dia quero ser assim”. Naquele dia, me senti pequenina do lado daquela mulher de voz forte, que contava histórias, monopolizava conversas, fazia todos gargalharem com seus causos. Então, ela ficou só conversando mais com meu marido (que também a conheceu naquele dia e é extremamente adulto) e outros adultos da mesa.

Um dia quando fomos visitá-la em casa, eu fiquei só quieta escutando-a enquanto tomava um potão de sorvete. Em outra ocasião, na mesa de jantar, Lili e Alex ficaram conversando horas entre si e eu fiquei só dando risadinhas e fazendo barulho sem querer. Acho que isso encerra minha argumentação sobre ser adulta versus ser pequena.

Não pense com isso que Lili não me dá bola. Em um desdobramento incrível da minha sorte galopante, Lili me ama. Eu não fiz nada, fiquei só o tempo todo ali quietinha ouvindo, ouvindo, ouvindo e Lili me ama. Ela se preocupa comigo, me manda e-mails gigantes tão lindos que me vem lágrimas só de lembrar aqui. Ela manda suco de cranberry quando adoeço e me ajuda a seguir meus sonhos. Ela me empresta quilos de livros que eu leio e nunca devolvo, grava filmes pra eu assistir, ela me dá seu ursinho da “Juve” pra eu abraçar durante o jogo e, claro, ela me dá incríveis potes de sorvete.

Quando você fica triste, pode pensar “eu não mereço”. Eu não penso isso da tristeza, penso isso da felicidade. E até hoje não entendo como Lili, essa pessoa tão especial, tão rara, tão para poucos, pode me escolher para ser sua amiga. Mesmo eu sendo pequena, sem nada a dizer e sendo atropelada pela timidez toda vez que tenho algo a contar. Mesmo assim ela me ama e vamos a jantares e almoços em seu restaurante favorito, com seu garçom favorito, com seus amigos favoritos. Ainda assim eu estou lá! Você vê a sorte que eu tenho?

Por isso eu digo que Lili é a minha chance de gostar mais da vida. Cada vez que a vejo ou conversamos, percebo que sou uma pessoa de sorte. Se uma pessoa incrível como ela vê qualidades em mim, então, poxa, eu devo mesmo ser boa em alguma coisa. Toda vez que Lili se faz presente na minha vida, com seu humor rabugento, suas histórias incríveis e cômicas, suas frases misteriosas no Facebook, suas imagens lindas aparecendo na timeline, eu me sinto mais feliz instantaneamente. E essa felicidade não me abandona nunca, pois Lili me ama, mesmo eu sendo pequena e ela sendo adulta.

E por todas essas coisas e muitas outras que não direi, pois sou tímida e pequena, eu a amo também.


Texto publicado originalmente em 06 de fevereiro de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.