Processo Criativo

5 dicas para escrever mais

Inspirações para voltar (ou começar) a produzir mais conteúdo

Li não sei onde, escrever é bom porque une as duas maiores alegrias: falar sozinho e falar para uma multidão. Como uma pessoa que tem a escrita como profissão e como principal lazer, é com certo espanto que reajo a declarações de amigos do tipo “queria tanto escrever, não sei como você consegue”. Oras, não sei como você não consegue. É só colocar as palavras no papel, assim uma a uma, e ver o que vai dar lá na frente. Não?

Ok, concordo que não é assim tão simples, mas é tão bom! E fica mais fácil com a prática. Recentemente ministrei um workshop sobre processo criativo em escrita e vi que uma das maiores questões para as pessoas que querem produzir mais é esse medo de não estar no caminho certo. Bom, é difícil saber se o seu caminho está certo se você não começa caminho nenhum. É preciso tentar, experimentar! Por isso, resolvi trazer para cá algumas das dicas sobre as quais conversamos por lá. Não que eu possa ser uma grande professora para alguém ou esteja contando algum segredo dourado que só eu saiba sobre a arte de escrever. Pelo contrário, acho que esses conselhos são bons justamente porque são coisas que você já sabe. E, como a maioria das coisas que já sabemos, precisamos que outra pessoa nos diga para que a gente acredite.

  • Escreva tudo primeiro, sem critério

Se a inspiração veio, escreva de uma vez só. Não se preocupe em lapidar seu texto em um primeiro momento, não se preocupe sequer em fazer sentido. Apenas escreva e deixe que o bruto do que você quer dizer seja dito. Esse é o ponto inicial e o mais importante. Pode ser que sua ideia inicial tenha cinco linhas. Escreva-a e depois se preocupe em transformá-la em cinco parágrafos, cinco páginas ou capítulos — ou cinco livros, se você for a J.K. Rowling. Comece pelo fim e termine pelo começo, se assim desejar. Não importa a ordem, dando o pontapé inicial você já abriu o caminho e isso é o que vale.

  • Não se force, mas se force um pouco

Se está difícil demais, dê um tempo. Tome um café, assista a um seriado. E volte. Lembre-se que um texto que foi chato de escrever, provavelmente será chato de ler. Se não está rolando, dê um tempo até voltar a rolar. Certo? Certo. Mas aí… Você deixou aquele texto de lado para pensar um pouco e já faz seis dias. E a vontade de escrevê-lo já é uma lembrança distante. Procure não deixar isso acontecer, porque quanto mais você demora, mais a sua ideia inicial perde a força. Tente mais um pouco, não desperdice o que já começou. Tente lembrar das emoções que te motivaram a escrever aquele texto. E continue.

  • Escreva o texto que você gostaria de ler

Com as redes sociais e o vício de aprovação que se criou, é comum a gente sempre se perguntar se vale o esforço fazer algo. No caso de escrever, sempre rola um “ah, mas ninguém vai ler”. Nisso as pessoas caem em dois erros: ou simplesmente deixam de escrever porque acham que ninguém vai se interessar, ou passam a escrever coisas que não as interessa, mas que podem despertar a atenção dos outros. Bom, se a ideia é ser verdadeiro com você mesmo, acredito que o ideal seja escrever mesmo sem saber se vai render likes, dizendo o que você quer dizer e não o que acha que os outros querem ler. É claro, não existe certo ou errado e seu conteúdo pode ser bom mesmo não sendo exatamente o que você queria falar. Mas ele te deixará feliz? Fará você se sentir realizado como se sentiria ao escrever o que realmente queria passar? Eu acredito firmemente que quando você é sincero de coração no que produz, as pessoas chegam até você. Honestidade cativa, entusiasmo cativa. E isso só é possivel quando você escreve sem pensar nos outros, mas sim em você, por mais egoísta que isso possa parecer.

  • Lembre-se que seu conhecimento pode não ser único, mas a sua experiência é

Mais do que aprender 25 dicas sobre como passar 18 dias na Disney gastando pouco, as pessoas querem saber como você se sentiu lá. Como foi conhecer? Você se cansou? Esse tipo de coisa. Detalhes técnicos podem ser adquiridos em sites de viagem, a sua experiência é única. Uma resenha sobre Trainspotting 2, que você viu no cinema, pode ser legal, mas o que as pessoas querem saber é: você gostou do filme? Te fez chorar, te emocionou? Escreva sobre coisas que não se acham no Google. Isso importa.

  • Não tenha medo de parecer um pouco bobo

Por fim, acredite que a coragem para falar te dá a autoridade para falar. Eu levei cinco anos para criar coragem de escrever ficção porque, embora fosse meu sonho, morria de vergonha de escrever diálogos. Até que me dei conta: “Oras, e quem é que sabe que eu não sei o que estou fazendo?”. Quando você dá a cara a tapa, você conquista o direito de tentar. E só de estar tentando você já está muito, muito à frente de qualquer pessoa que, sem ter a coragem para nada parecido, ouse te criticar.

Acho que é isso! Se escrever é a sua paixão ou simplesmente a sua vontade, não desista disso. Encontre meios, descubra seu jeito de escrever e faça disso parte de você. Nunca desista de algo que te faz feliz, minimamente que seja.

Brain Dump*

Zen e a arte de sentir raiva

Imagem: Death For Stock

É possível conciliar inconformismo com paz de espírito?

Ainda estou aprendendo sobre até que ponto é bom se deixar afetar pelas coisas (e como). Dia desses escrevi sobre a necessidade de sentir raiva e disso fiquei pensando um pouco mais. É preciso sentir raiva, sim, mas como não deixar que isso envenene seu dia? Como não se tornar uma pessoa amarga com todo o inconformismo que você sente? E como não perder a ternura, como diz aquele jargão, ao se posicionar com determinação pelas suas lutas?

É difícil achar um meio-termo. Ontem assisti a uma palestra da Monja Coen em um evento do trabalho e ela falou sobre como é melhor para o nosso coração nos sentirmos sempre gratos por tudo e atentos para a beleza da vida, mesmo diante das adversidades e tal. Porque a vida é mesmo muito bonita, mesmo quando tudo está errado. Estamos em uma fase de mudanças que não se pensaria em algumas décadas atrás, então é preciso ter consciência de que ainda que a vida esteja difícil, ela está acontecendo. Estamos caminhando para algum lugar que ainda não sabemos como será e se manter otimista é fundamental. Eu sei, no discurso tudo isso é lindo e eu concordo, a questão é que existe um ponto entre ser grato e ser passivo — e é este ponto que me intriga.

Se ela diz, por exemplo, que é uma benção estar vivo e ter um trabalho, eu consigo ver isso. No entanto, também vejo que todas essas condições poderiam ser bem melhores para mim e isso me enraivece de certo modo. Essa raiva, eu acredito, é a minha força para mudar e conquistar o que desejo. Essa raiva me leva a algum lugar. O desafio é conseguir chegar até lá sem destruir relações e até oportunidades pelo caminho, cega como você pode estar com tudo de errado que consegue ver. Nisso, veja, a raiva pode até mais atrapalhar do que ajudar.

Como disse, ainda estou buscando esse meio-termo entre saber o lado bom das coisas sem deixar de me enraivecer com o que ainda está longe de ser o ideal para mim. Não quero ser uma pessoa que tem sempre razão, mas é irremediavelmente amarga. Quero ser uma pessoa feliz e consciente, que sabe quais são seus direitos e luta por eles sem prejudicar ninguém e nem a si mesma. Pesquisando um pouco, achei o Mova Filmes, um canal no Youtube com conteúdos da Monja Coen falando sobre questões diversas de espiritualidades trazidas para o contexto do nosso cotidiano. Esse em especial eu achei ideal para essa questão que trago aqui:

Acho que o problema, quem sabe, não seja sentir raiva. A questão é identificá-la e saber que ela diz respeito apenas a isso ou aquilo na sua vida e não deixar que se torne um monstro que te devore, engolindo junto também a sua razão e o sentido da sua insatisfação. A chave da raiva é saber como usá-la, como direcioná-la, algo que também estou aprendendo. Falando sobre isso no Twitter, uma amiga me indicou alguns vídeos legais no Youtube com outros monges falando mais ou menos sobre esse tema (na verdade, desdobrando-o em outros temas mais amplos). Vou deixá-los aqui para vocês verem também:

Dito isso, queria acrescentar uma nota adicional e esclarecer que não sou a mais espiritualizada das pessoas e nem acho que exista uma religião ou linha de pensamento definitiva que vá explicar ou sarar todas os nossos tormentos. Mas estou buscando, sim, respostas e reparando de onde elas chegam. Eu sei que existe certo cinismo e desconfiança quando falamos de religião e seus porta-vozes, o famoso “pra você é fácil” quando quem quer que seja vem querer nos dar respostas prontas para nossos questionamentos mais profundos. No entanto, acho importante abrir o coração e ouvir. Tentar. Eu quero mesmo ficar em paz comigo e, nesse intuito, toda ajuda é bem-vinda.

Abra os olhos e fique atento, como eu disse, não só para a raiva, mas para tudo que ela te traz junto. Buscar um meio-termo para a avalanche de coisas que sentimos não é fácil, mas desconfio que comece com a humildade de ouvir o outro, sendo ele religioso ou não, e pensar um pouco sobre o que se sente.

Brain Dump*

Flutuando em indecisões

Imagem: Ryan McGuire

Andando por aí, procurando um bom lugar

Não consigo mais ler livros, nem escrevê-los. Isso acontece de tempos em tempos e é normal, no entanto saber disso não me impede de ficar angustiada com o tempo que perco. Minha atenção está flutuante e não consegue se fixar em nada. Quase perco o ônibus, pensando na vida. Não escuto quando falam comigo. Na noite gelada, na volta para casa, fico imaginando quantos dias faltam para esse ser o último e algo novo começar. Esse parece ser um daqueles momentos que antecedem um acontecimento maior. Espero. Por enquanto, permaneço aqui crente de que em algum momento a grande roda vai girar e eu terei respostas. Respostas que me deixarão contente, ao menos até as próximas dúvidas.

Acordei cedo e cheguei adiantada demais, como sempre. Escolhi a roupa pensando em cada detalhe, chegando lá era como se tivesse errado tudo dos pés à cabeça muito antes, logo quando nasci. E daí então, nada mais deu certo. Respirei fundo e afastei os pensamentos ruins. Engoli meu medo. Foi simples, longos goles de chá quente no copo frágil de plástico. Tentei me encaixar o quanto pude, fica mais fácil quando as pessoas estão dispostas. Eu, mesmo quando disposta, ainda me perco.

Minha voz sempre sai baixa, como se minhas próprias cordas vocais soubessem que não confio na importância do que digo. Se ninguém me escutar, tudo bem, nem era tão legal mesmo o que eu dizia. Tentei me impor baseado no que tinha para mostrar. Tentei manter a coluna ereta, mas o olhar sempre ia para baixo, para os pés, para o chão, para o buraco que não havia — e, não havendo, eu não podia me esconder. Acabei sentada sozinha em um canto por horas. E tudo bem. Eu gosto de ficar quieta.

Está tudo bem mesmo quando acho que é o fim do mundo. O fim do mundo já foi, eu sempre tenho isso em mente.

A coragem de fazer algo te dá a autoridade para fazê-lo. Tudo que eu invento eu acabo conseguindo terminar, ainda que não saia como pensei a princípio. No fim das contas, acho até que fui bem, gaguejando e me repetindo, sorrindo quando esquecia as palavras e me perdia. Pessoas gentis me destroem mais que as malvadas, com as malvadas eu já me acostumei. Só é difícil mesmo quando gostam de você.

E depois. Sem o peso nas costas, me aventurei pelo lugar. Senti orgulho de mim, simplesmente por estar viva e dizendo coisas. Por estar no meio de tantos e ainda conseguir ser eu mesma. Não me moldo aos lugares, só me encaixo o tanto que caiba e que fique fácil de desencaixar a qualquer momento. Depois, segundos depois, eu logo quis voltar para casa, eu logo quis o conforto que mora no abraço sempre disponível para mim. As risadas que vão lá do quarto te encontrar na sala, os gatos miando, o amor.

Foi um bom dia. Saber o que não se quer conforta mais do que saber o que se quer. Eu me senti bem. Testada e aprovada. Um passo maior do que as pernas e cheguei inteira do outro lado. Incrível! Me afundei nas cobertas macias e dormi como tenho dormido nessas últimas noites, esperando a grande roda girar, quieta mesmo, tudo bem. O momento vai chegar e estou pronta.