
Para sempre e mais um dia
Cheguei em casa e me joguei na cama. Coloquei “Forever And a Day”, da The Dissociatives para tocar no último volume. Era o começo da tarde e o dia estava lindo, raios de Sol entrando pela janela. A voz melancólica e doce de Daniel Johns encheu o quarto, meu coração e meu peito.
Tinha tempo que não ouvia essa música. Anos. Fugia dela como o Diabo foge da cruz. Versos rebuscados em um ar de tragédia confortável e aguardada, foi a canção que mais escutei enquanto fazia quimioterapia. Ela embalou os meus momentos mais difíceis e solitários, eu dormia ouvindo e sonhava com nada. Acordava e escrevia aquele que seria o meu primeiro livro.
Waiting for this jury into unwind / ‘Coz it’s been so hard wearing my heart up my sleeve
Meu gato subiu na cama e cheirou minha respiração, seu nariz gelado no meu nariz morno, checando se eu ainda estava viva. Ele sempre tem essa dúvida, eu já não tenho mais. Foram três anos em suspenso, mas agora eu sei. Eu estou viva.
A última cirurgia aconteceu no final do mês passado. O que foi feito é que retiraram o cateter de quimioterapia que eu tinha implantado no peito. Após o diagnóstico do câncer, a cirurgia para a retirada do tumor, a cirurgia para colocar o cateter da quimio, a quimio em si e o processo de remissão, esse foi a última fase do meu tratamento. Foram três anos, como eu disse. Esse cateter só poderia ser retirado após dois anos da quimioterapia, contanto que nesse período não tivesse havido nenhum tipo de suspeita da volta do câncer.
Não houve.
I’m feeling lonely and stable / And it’s believed that soon I’ll be…
E então, novamente eu voltei naquele hospital, naquele quarto, naquela sala de espera e esperei por horas. Nua, soterrada em cobertas no ar condicionado gelado da sala de cirurgia, eu revisitei aquela solidão inominável que só a doença traz. Mas dessa vez eu não estava doente. Eu estava curada.
Time has never been a friend of mine / But it has owed me a favour / Since everything was fine / And I’m desperate change as familiar as a moon
A cirurgia foi rápida e a recuperação, intensamente dolorosa. Engraçado como eu não lembrava de ter sentido tanta dor quando da implantação do cateter, quase três anos atrás. Verdade, naquele tempo eu tinha preocupações e dores emocionais infinitamente maiores e uma bolotinha cirurgicamente implantada sob a minha pele parecia até perfumaria. Hoje, curada, com mil planos e ansiedades, louca para jogar meu corpo no mundo e dançar até cair exausta, me pareceu um contratempo irritante demais parar minha rotina e ficar internada por um dia em um hospital carregado de lembranças que eu não queria revisitar.
Fiquei com pontos por uma semana. Revi também a rotina de limpá-los, trocar curativos, ver minha pele cortada tentando se recuperar, como eu tentava também. Não achava jeito de dormir, me revirava na cama como uma criança mimada. Me desacostumei de estar doente. Não queria mais estar.
E então, os pontos foram retirados. Parecia até que pesavam quilos, saindo do consultório do médico eu nunca me senti mais leve. Na volta para casa, e eu estava sozinha, Forever And a Day voltou a tocar na minha cabeça após anos de forçada ausência, o fim de tudo era o recomeço também. Um recomeço melhor.
Deitada na cama, sem pontos e sem câncer, ouço a música e choro dando risada, desacreditada da minha sorte. Guilherme, o gato, me olha muito sério e simplesmente desiste, saindo do quarto.
Words won’t say the sounds that I can hear / A thousand sunshines on rainclouds / The truth is I’d believe and be
Pedi demissão do lugar onde trabalhei no últimos quatro anos, cortando este último laço sem dor alguma, já que laços nasceram para serem cortados. Decidi que vou aprender a coreografia das músicas pop que eu amo, tenho treinado todos os dias com o jogo de video game que meu amor me deu. De repente, minha vida toda se abriu em possibilidades brilhantes, pois eu estava livre. Livre como nunca estive.
Fiz as pazes com o meu passado recente e suas lembranças. Já podia ouvir novamente a minha música favorita, sem medo. Peguei os livros que escrevi enquanto estava doente e comecei a revisá-los para lançar na Amazon junto com todos os outros que escrevi após o final do tratamento. Também eles eu evitava reler, sequer conseguia falar sobre. Uma carga emocional tão pesada, eu podia lembrar exatamente de cada dia de tratamento que estava por trás daquelas páginas. Mas agora eu não tinha mais medo dos sentimentos que estavam ali, pois eram passado.
E o passado pode ser revisitado infinitas vezes, contanto que você não tenha mais medo dele. E eu vou viver para sempre e mais um dia, como diz a minha música favorita, porque o que o meu medo acabou.
Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

