crônicas

Viagem sentimental à Paraíba

Açude de Pilões / Paraíba

Nenhum catálogo de viagens te prepara para a vida real

Foi a menor bagagem da vida: cada um com uma mochila nas costas para passar quase quinze dias fora. Levamos só o necessário e desse necessário ainda deixamos a metade em casa. Fomos.

Dizer que a Paraíba é bonita é ser óbvio demais. O que torna tudo diferente são as pessoas ali. Fomos para visitar parentes, parentes esses que não eram visitados há mais de duas décadas. Havia em cada encontro uma efusividade que transbordava carinho e surpresa incontida. Fomos abraçados em hospitalidade e atitudes, palavras e conversas que se esticavam um pouco mais para contar os causos que iam surgindo na memória.

Em poucos dias já sabíamos que aquela seria uma viagem diferente. Não eram apenas os cartões postais ou os dias na praia. Nossos corações foram imediatamente engolfados por uma atmosfera acolhedora e risonha que nos mostrava que estávamos vivendo um momento especial de reencontro, de felicidade, de ver pessoas e conversar com elas. Trocar histórias. Ouvir.

Ponho na conta da minha origem paranaense essa timidez crônica que me é tão particular. Falo pouco, encaro o chão, sempre acho que a conversa não é comigo, que não tenho nada interessante a ser dito. Nessa viagem, me vi forçada a mudar isso. Porque as pessoas queriam saber de mim. Queriam me ouvir, me entender, saber quem era essa menina que Alex trouxe com ele. E eu me deixei levar. Tentei o meu melhor, um pouco ansiosa em não errar. Atropelando frases, mexendo no cabelo, deixando o celular de lado. Tentando responder com mais de uma palavra as perguntas que me faziam.

No sertão, dias depois, nossa experiência se aprofundou em sentimentos. No meio da paisagem solitária, longas viagens de carro nos levavam a casas enormes cravadas no meio do mais absoluto nada. A vista alcançava apenas uns gados preguiçosos vivendo um dia de cada vez. Como nós mesmos fazíamos. A casa simples que nos abrigou trazia segredos e truques. Café da manhã com tapioca, queijo coalho e doce de leite feito ali mesmo. O banheiro do chuveiro bom era o dos fundos, o que não fazia muita diferença se sempre tinha pouca água. Um quarto só para o casal foi um luxo que entendemos como um presente pela visita. No fim de tarde, no alpendre, a vó balançava devagar na rede e com seus 94 anos de história e de idade, recitava quadras de cordel e cantava canções do rádio. Sorria quando via que estávamos prestando atenção.

Uma curta caminhada até o bar onde o padrinho faria uma peixada e pudemos ter uma ideia do que é viver por lá. O Sol castiga de um jeito inexplicável. Passamos pela barragem do açude, naquelas águas tantas memórias e saudades que a vista fica nublada de lágrimas diante do céu sem nuvens. Os sorrisos e os olhares cheios de entendimento que trocamos foi a prece silenciosa que fizemos ali, sentados por cinco minutos no valoroso Bar Peixada Quente antes de respirar fundo e seguir em frente.

Seguimos. Em cada casa, histórias diferentes e fortes. Mulheres que morreram tragicamente por doença ou por amor, relatos contados com sorrisos tímidos sob a vigilância dos retratos na parede. Homens que foram embora cedo demais. A morte, tão presente quanto certa, levou aqueles que mais amamos, mas estamos aqui para lembrar. Lembramos.

A história de uma família não pode ser contada por livros, mesmo que estes sejam só de índice. Não cabe, a vida real transborda. A história de uma família, e foi isso o que aprendi nos meus doze dias conhecendo uma parte dessa família que me acolheu e agora é minha também, precisa ser vivida e contada pessoalmente. Tia Randinha trazendo copos de suco em sua bandeja mais bonita, que imita prata. Tia Helena cuidando da mãe em sua casinha pequena. Vó Franscisquinha na ponta da mesa em todas as refeições, participando da conversa. Tia Marione trazendo os álbuns de fotos para a gente ver. Josier e Marinez sentados com a gente na varanda e rindo.

Doze dias depois, voltamos para casa. Já não éramos os mesmos. Ainda trazíamos só o necessário, mas o necessário agora era outro. Tem mais a ver com amor, com se importar um com o outro. Com a noção do que é fundar uma família e dar valor à ela. Tem a ver com amor, um amor forte e sólido, capaz de nos proteger de qualquer mal. Um amor como o nosso, que cresce e se enraíza nesses momentos que vivemos, nas histórias que criamos juntos e que nos prepara para tudo mais que está por vir. Nenhum catálogo de viagem te dá isso. Só o amor é capaz.