Brain Dump*

Inundação

“The Lady of Shalott”, de John William Waterhouse (1888)

Não espere que ser feliz não tenha um preço

Sonhei que você chegava na minha casa, abria o portão e sorria. No sonho você tinha a idade que eu tenho hoje, metade da que realmente tem nesses dias. Você usava um jeans azul escuro e uma blusa de tricô de um verde militar escuro também, seu cabelo muito bonito completava o tom da elegância simples que você emanava. Na cozinha da minha casa, casa esta que você ainda nem conhece na vida real, você dava risada tentando conter uma goteira que vazava pelo teto. “Meu amor, vai inundar tudo!”, você dizia e ria, porque já passou muito por isso.

Encostados na janela da varanda da casa de um amigo, fomos surpreendidos por nós mesmos contando um ao outro segredos sobre nossos sonhos mais imediatos. Dei um gole na cerveja e confessei que ando sentindo muito medo, pois ando feliz demais. Você riu de mim (um claro sinal de que eu estava errada e isso me alivia como poucas coisas na vida) e disse que não havia motivo para ter medo. É bom ser feliz, pensei. Eu deveria aceitar essa felicidade, me cobrei, não sem julgamento.

Eu deveria, não é mesmo? Passo o dia subindo e descendo escadas tentando entender que a minha vida é esta e que não há problemas em ser feliz. Por muito tempo, fui levada a acreditar que queria demais, emprego, reconhecimento, coisas. Não preciso, na verdade. Meu trabalho paga as minhas contas e não tem problema se eu jogar video game por uma hora entre uma entrega e outra. Minha casa é bonita e eu posso ter uma casa bonita sem pensar que não a mereço. Meu casamento é feliz e tenho dois gatos lindos. Eu só preciso acreditar que valho essa felicidade toda.

Existe um senso comum de que você precisa sofrer muito para depois ser feliz. Se você é uma pessoa que acha que merece tudo de ruim que lhe acontece, é como se a hora em que ser feliz é permitido nunca chegasse. Minha mãe, no meu sonho com a minha idade, dizia que vai inundar tudo. Acho que vai mesmo. Já está inundando tudo essa felicidade: minha casa, meu casamento, meu coração. Os sonhos todos sendo revelados entre um gole de cerveja e outra, gargalhadas antes de dormir e depois sozinha na rua, lembrando.

Vai inundar tudo, mãe.