
Com relato tocante sobre uma infância incomum, lançamento da Editora Valentina encanta e faz pensar
Josse precisa atravessar todos os dias um quintal enorme cheio de loucos até conseguir chegar ao portão e ir para a rua, para o colégio. De alguns desses loucos, Josse tem medo. De outros, ele consegue tirar algum tipo de empatia e fazer deles amigos. Gosta de ouvir dormindo seus gritos, quando eles gritam é porque está tudo normal. Josse é só uma criança e já sabe, desde muito cedo, que loucura é um conceito relativo em um mundo confuso como o nosso.
Livros que trazem relatos de infância são o que há de mais puro na literatura. É difícil não se reconhecer nas emoções cegas que histórias como essas trazem. No caso de Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, (Editora Valentina / 2016 / 350 páginas), de Joachim Meyerhoff, mesmo sendo uma trama tão improvável, a identificação é imediata e desnorteia. Falando de um menino que mora nas dependências de um hospital psiquiátrico — o pai é diretor da instituição — Joachim acaba por falar um pouco de cada um de nós.
É um livro de memórias. Josse vai contando capítulo a capítulo os “causos” de sua infância povoada por doente mentais, cachorros que eram sua vida, uma vontade enorme de viver mergulhado nos livros e uma família atípica. Pelo pai ele nutre uma admiração desmedida, própria de criança inocente, que o blinda de ver os seus muitos defeitos. Pela mãe, uma mulher doce e com recorrentes crises nervosas, sente um medo respeitoso. E ainda têm os dois irmãos mais velhos, que tratam de acrescentar adrenalina à sua vida, com provocações e brigas.
Para além da história extraordinária, é preciso falar do projeto gráfico desenvolvido pela Editora Valentina para esse livro. Cuidadoso e atento aos detalhes, se vê que foi feito com muito carinho desde a capa (com figura central em relevo) e suas partes internas, que contam com ilustrações mencionadas na história, em uma beleza que se estende até as páginas internas do livro, com o título meio torto no topo, entregando que ali nada é como se espera.
Esse livro é daqueles raros, que você nem imagina o estrondo que vai causar no seu coração ao lê-lo pela primeira vez. Falando com melancolia e saudosismo dessas improváveis histórias de menino, Meyerhoff traz um livro incrível, de tirar o fôlego, mostrando de um jeito doce e triste como a infância é o nosso primeiro e último refúgio de ingenuidade. E que, mesmo em um mundo corrompido, nosso amor pela família e pelo o que ela representa acaba por tornar tudo grandioso e definitivo nessa fase da vida.

