
Apenas aceite e acelere, vá em frente
Calcei os patins e fiquei em pé. A vertigem envelopou meu medo e me fez procurar o chão novamente. Sentei. Pensei: é isso, não consigo, foda-se, vou colocar o tênis de novo e voltar para casa. Me contrariando, a avenida bonita se abria em Sol e pessoas bonitas e estilosas, que diziam que era um dia bonito demais para ser desperdiçado por medo.
Levantei novamente. Andei. Passos tímidos, remadas ansiosas, as rodas sob os meus pés trepidavam no asfalto maltratado. Olhei para mim mesma, em pé e mais alta por conta dos patins. Aceitei meu sorriso e acelerei o passo. O chão estava longe, em poucos minutos eu voava.
Fazia três anos que eu não andava de patins. Parei por conta da doença, depois ficou difícil demais voltar. Prioridades mudam. Sentia falta de voar baixo, de sentir o vento no rosto. Sentia falta e nem sabia, algumas saudades a gente soterra no meio de outras necessidades, em busca de viver sem mágoa.
Nesse domingo, eu quase alcancei o céu, pelo menos na sensação que tive. De reencontro. Insegura, andava devagar, tão atenta à tudo que parecia uma maníaca. As pessoas ao meu redor me olhavam com simpatia: um patins quad sempre chama a atenção. Eu me arriscava e me surpreendia comigo mesma.
Seu corpo lembra o que você esquece. Descobri que ainda sei ficar no derby stance, postura de jogadora de Roller Derby. Descobri que ainda consigo desviar bem e rápido das pessoas, evitando colisões. Sei ainda qual piso é melhor para as minhas rodas, intuitivamente eu seguia pelo asfalto melhor na longa Paulista.
Em trinta minutos, percorri a avenida toda uma vez e meia. Descalcei o patins, absolutamente surpresa. Eu consegui fazer isso, então? Consegui. Sozinha.
Voltei no feriado. Dessa vez andei por uma hora, fiz dez quilômetros. Chegou um ponto em que eu nem sabia mais onde estava. Só sei que estava na Paulista. Voando baixo, não como antigamente, mas melhor do que imaginava que seria, após tanto tempo. Com o patins nos pés e a mochila nas costas. De óculos escuro, abaixando até o chão para fazer graça. Parando para tomar ar, de tanto ar a boca secava.
Esse momento é só meu, eu penso sem meme nenhum.
Não tenho tido mais tanta vontade de me dividir. Redes sociais, interações sem graça só para manter a amizade. Tenho vontade de ficar quieta e ser só minha. Quero melhorar como pessoa, mas para isso preciso olhar para mim. Fazia tempo que eu não olhava, só olhava para fora.
Nesses dias, de patins, eu me reencontrei. A Paulista tão linda e boa, fervendo de gente e de sons. O calor da tarde, que aquece sem incomodar. De patins pela avenida, eu não incomodo ninguém.
Existe algo que é só seu no que você sente, não adianta tentar passar para os outros. Ninguém vai entender por completo a importância disso para mim, esse momento é só meu, eu digo sem meme nenhum, mais uma vez. A sabedoria está em entender a natureza disso e aceitar sem mágoa. Ninguém vai entender, então que bom. Isso é só seu. Aceite. E agradeça.
Fico na ponta dos pés, me aprumo e me equilibro em cima dos meus freios. Arranco em direção à avenida, rápida como um dia já fui. O mundo é meu, na mesma medida que tenho coragem de tomá-lo para mim. Ao final da tarde, uma certeza abraça meu coração: eu posso e vou, só depende de mim. Sempre dependeu só de mim. Descalço os patins, as pernas bambas de alegria e esforço físico, um sorriso gigante toma conta do meu rosto. Pensei: é isso, eu consigo, foda-se, vou colocar o tênis e voltar para casa.
Voltei para casa, ainda a mesma e completamente diferente, pois um novo mundo se abria.

