
Mais uma vez me vejo enveredando pelo viés da resenha lúdica. A verdade é que o mundo está insuportável e um dos poucos escapes que a população tem encontrado é por meio do consumo do que antigamente chamávamos de “arte” e hoje em dia é apenas algo como “ai cara…”.
Essa semana mesmo fomos vitimados com a notícia de mais um filme de Matrix e mais um filme de James Bond. Isso somado à notícia de que a Marvel pode largar o Homem-Aranha e todas as novidades sobre o live action de A Dama & O Vagabundo(???). Quer dizer, dá até desânimo ao pensar que nada de realmente novo surge no entretenimento, e mesmo as franquias vão por um caminho tortuoso (Por que choras, Spiderfan?).
Diante desse cenário desalentador, é até um susto ir ao cinema e ver um filme bom. Olha que raridade, um filme bom! Um filme que não é a vigésima quinta perna de uma franquia, nem reboot, nem live action com bichos feitos no computador. Caramba, que diferente! Um filme bom, enfim!
Porradaria, armas, talheres, toco afiado de mesa
Ontem fui ao cinema conferir a pré-estreia de ANNA, o novo do Luc Besson. O Luc Besson, ou apenas Luc dos Leleques se você é íntima como eu, tem vários trabalhos como diretor nesse gênero cinematográfico “mulher bonita dando coronhada em homem”. Para quem não sabe, o francês (é assim que você fica sabendo que ele é francês), já dirigiu filmes como O Profissional, O Quinto Elemento, Lucy ( kkkk até hoje eu rio), e também Valerian & a Cidade dos Mil Planetas. Então, indo ao cinema ver um filme dele o que você espera é ver um longa nesse mesmo estilinho, mas um pouco pior, já que hoje em dia só sai filme ruim desse bueiro chamado Hollywood!!!!!
Porém, a surpresa.

ANNA segue o roteiro padrão da história de espiã, que já vimos em outros carnavais e amamos: a linda garota de alguma nacionalidade “exótica” (aqui é russa), com uma história de vida que a tornou uma gelada arma de extermínio em massa. No novo do Besson, a nossa garota é uma modelo internacional que pula de lá pra cá trocando de peruca e matando geral com tudo o que encontrar pela frente: revólver sem munição, toco de mesa, garfo de refeição normal, veneno na seringa.
E aí você vai dizer: Ah, Tati, então é só mais um filme como tantos que já vimos por aí!
E eu te digo que não, eu te digo que você está enganado. E eu te digo isso com imensa alegria, porque o tempo todo me dizem que eu estou enganada, então é uma satisfação quando quem se engana é o outro.

O que torna ANNA tão diferente são as muitas reviravoltas que o filme toma, te fazendo questionar o tempo todo em quem confiar, te deixando cabreiro até mesmo com a cronologia dessa história. Verdade seja dita, durante quase todo o filme se você olhar para as pessoas ao seu lado no cinema elas estarão com a cara daquele emoji desconfiado.
E isso é um grande diferencial, se você for pensar que hoje o telespectador tudo sabe, tudo conhece, tudo tem uma teoria, tudo ele sabe mais do que a própria pessoa que fez o filme. Hoje o telespectador é uma pessoa que leva uma vida tão lascada, vivendo em um contexto político tão vil, que ele coloca toda a expectativa de felicidade dele numa porra de um filme, então filme nenhum nunca vai ser bom pra ele, porque o diretor lá no set de filmagem dele não tá pensando “vou gravar essa cena aqui do jeito que o Silvio quer, porque tá foda o presidente do país dele”. Não, meus caros.
O que eu dizia? Sim, ANNA consegue romper esse status quo de desânimo e expectativas irreais do telespectador quando traz uma trama coesa e intrincada, somado a cenas embasbacantes de porradaria e um elenco que faz miséria da arte da dramaturgia inventada por Shakespeare (conceito, por sua vez, inventado por mim).
Pessoas muito bonitas e extremamente talentosas
Muitas vezes, quando você vê a Helen Mirren no elenco de algum filme, a primeira coisa que pensa é: “coitada, fez esse pelos boletos”, porque é difícil um filme que chegue à altura do seu talento. Não raro, em seus filmes ela dá só 10% do seu potencial, tal qual nosso cérebro, que dá só 5% do seu esforço em um dia normal como hoje.
Em ANNA, no entanto, Helen tem a chance de se esparramar na sétima arte. Interpretando a vilã russa (estou simplificando, a personagem tem camadas) que deveria ajudar a bela espiã Anna, mas tem uma certa mágoa que a impede de ser parceira de verdade, a atriz britânica (é assim que você fica sabendo que ela é britânica) dá um verdadeiro show de interpretação, nos brindando com momentos sublimes e até algum alívio cômico.

Além disso, temos ainda as interpretações on point de Cillian Murphy e Luke “Gaston” Evans, antagonistas de si mesmos, e mostrando que quem tem amigo não morre pagão: a sorte que o Luc Besson tem de ter esse pessoal no seu casting!
Outra boa surpresa, e na verdade, a melhor delas, é a moça que faz a protagonista. Anna é interpretada por Sasha Luss, uma atriz ainda relativamente novata (ela já vez Valerian, do Besson também), mas com total domínio do seu belo corpo, da sua bela carinha e das suas valiosas emoções.

Dito tudo isso, espero que tenha ficado clara a mensagem que eu queria passar já no título do texto: ANNA é um filme muito bom. Mesmo. Desde a trama àgil, passando pelas incríveis cenas de ação e a fotografia impecável (repare na primeira cena em que Luke Evans interage com Sasha Luss, as cores e os planos daquela cena!), passando pela interpretação primorosa desse elenco chiquérrimo, você vê que o Luc Besson fez mais uma pra Deus.
Fez mais uma para Deus e quem aproveita é a gente, pobres mortais que agonizam e choram por 120 minutos que seja de escapismo, pessoas bonitas e alguma luta envolvendo piruetas e facas. Com ANNA, temos. Primorosamente, temos.
〰️ ANNA: O PERIGO TEM NOME estreia nos cinemas brasileiros em 29 de agosto. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite da Paris Filmes e Arroba Nerd.











