Resenhas

Armações do Amor: um diamante da romcom

Armações do Amor (Failure to Launch) – 2006

Garotas de 30+ que tiveram sua educação sentimental baseada em comédias românticas (ou romcom, do inglês) dos anos 90 e 2000 hoje se encontram perdidas como o John Travolta naquele meme, sem ver mais esse tipo de obra no cinema.

É claro que o mundo mudou e é bom que ele mude. No entanto, não deixa de ser um pouco triste saber que nunca mais será produzido um filminho onde a mocinha é um pouco atrapalhadinha e vê seu mundo girar em torno de um cara um pouco canalha, mas com um sorriso lindo. Nos tempos atuais, a mulher não precisa de um homem para nada, nem mesmo para fazer um filme romântico.

Como típica mulher nascida nos anos 80, está no meu código genético acreditar no amor romântico (sentimento que foi descontinuado de 2010 para cá) e querer ver relacionamentos assim nos produtos de entretenimento que consumo. Não é o caso de idealização – eu tenho um cérebro -, mas sim do desejo humano de poder descansar a cabeça dos problemas lá fora nem que seja por 101 minutos ou menos.

eu sinceramente acho o amor TUDO

Ontem eu assisti a “Armações do Amor”, um diamante desse gênero. Inédito para mim por motivos que desconheço, foi uma alegria encontrar um filme assim que eu ainda não tinha visto. De 2006, o filme traz todos os elementos básicos imprescindíveis a uma romcom, a saber:

  • Protagonista masculino com um maxilar incrível e uma personalidade duvidosa – disfarça imaturidade com charme e tem um sorriso arrebatador que anula qualquer porcaria que saia daquela boca;
  • Protagonista feminina atrapalhada e fofa, beleza padrão e estonteante ao mesmo tempo;
  • Melhor amiga da protagonista feminina como personagem que serve apenas de eco da mente da mocinha principal, alguém que está ali para que a mocinha se entenda ao ouvir a sua própria voz falando com a amiga;
  • Bando masculino, trupe carismática e bem-intencionada composta pelos melhores amigos do mocinho;
  • Viés de comédia de erro, onde um mal-entendido é o centro da trama e o grande momento do filme é quando a verdade é revelada;
  • Cenas gratuitas do mocinho sem camisa;
  • Redenção de conflitos com um belo e longo diálogo entre o casal, com declarações de amor (discutir relacionamento era chic, back then), lágrimas e risos.

Além disso, o filme compõe a trilogia de obras de Matthew McConaughey onde ele aparece dando as costas para o seu par romântico no pôster, veja:

Falando em Matthew McConaughey, ele está perfeito fazendo o seu personagem típico até enveredar pelo drama e alçar vôo no Oscar: em “Armações do Amor” ele é Tripp, um solteirão conviccto que ainda mora com os pais e não vê problema nenhum em levar uma vida inconsequente e cheia de casinhos, já que não encontra a “garota ideal”.

A questão é que ele acaba se deparando com essa garota ideal na forma de Paula (Sarah Jessica Parker, impecável em looks e makes), uma moça que ele conhece por acaso – sem saber que ela foi contratada pelos pais dele para viver um relacionamento falso e convencê-lo a sair de casa(!!!).

Note que “Armações do Amor”, como boa romcom clássica, traz um enredo problemático e até ofensivo, o que só torna a trama mais saborosa. Quer dizer, a personagem Paula é quase uma prostituta de luxo, que topa um relacionamento por dinheiro e tem uma vasta clientela, no entanto tudo é perdoado porque ela tem um carisma absurdo e se apaixona pelo mocinho, afinal. Tripp usa e descarta as mulheres com quem se relaciona, mas não vai fazer isso com Paula porque ela é diferente.

aiaiaiaiaiai que inferno

O engano dos dois vai fazer com que eles sofram e precisem se conhecer melhor como pessoa, individualmente, para só então poder olhar para o outro com empatia. Os amigos e familiares vão se envolver até certo ponto para ajudar na resolução desse conflito, já que é público e notório que eles formam o casal perfeito e precisam ficar juntos. Algum alívio cômico vai surgir na forma de um personagem menor, que pode ser uma criança ou um cachorro. O filme vai terminar com a sugestão de felizes para sempre, de algum modo.

É o puro suco da comédia romântica, em uma produção sem erros, feita sob medida para você descansar a cabeça no travesseiro e pensar “naquele tempo é que era bom”, como de fato fiz e estou fazendo agora.

O filme ainda conta com um elenco estrelado, com Zooey Deschanel, Bradley Cooper, Kathy Bates e Patton Oswalt. Eu assisti na Netflix e recomendo que você assista também, caso seja uma das orfãs da romcom que os tempos modernos criaram.

Naquele tempo é que era bom.