
No clipe de um de seus singles mais recentes, J. Balvin divide a cena com Maluma. Em uma brincadeira logo no início do vídeo, J. Balvin imita Maluma, se filmando com a câmera frontal do celular e dizendo todo galã “Mamacita… Maluma Baby”. Já Maluma se olha no espelho e, em uma caricatura de J. Balvin, entoa: “blá, blá, blá…Colômbia…. blá, blá, blá… Cultura!”.
Como qualquer um disposto a concordar comigo pode confirmar, toda brincadeira esconde um fundo de verdade. Para além de nos mostrar o duelo de titãs entre os dois maiores nomes do reggaeton atual, o clipe de Que Pena! nos aponta uma verdade inegável: enquanto Maluma só pensa em ser sensual, J. Balvin tem sempre seu discurso apontado para a cultura.

No entanto, quando começou, em 2009, com seu primeiro álbum de estúdio, Real, J. Balvin ainda estava incerto sobre sua mensagem. Nessa pérola perdida, Balvin mescla consciência territorial com lamentos de algum tipo de amor platônico e genérico por qualquer mulher que lhe dê o mínimo de atenção.
Como esperado, o impacto foi zero. Para o ouvinte mediano, era apenas mais um cantor de reggaeton vestido de roupa social para poder ser aceito pela sociedade. Era preciso ir além.
Em seus discos seguintes, além dos vários singles e mix tapes para rádios, J. Balvin foi encontrando seu tom. Você nota isso pelo primeiro verso da primeira música de J Balvin Mix Tape, álbum de 2012, quando em “Seguiré Subiendo” ele diz: Y yo quiero seguir… / Y seguiré subiendo / Yo quiero ser la voz del pueblo. Quando J. Balvin finalmente entende isso e diz isso em voz alta, as coisas começam a acontecer.
Você pode pensar que o maior dilema para um cantor latino é que tamanho deixar o cabelo, mas a verdade é que o debate é muito mais complexo. Ao tomar para si a missão de levar sua cultura para o resto do mundo, J. Balvin se aprofundou em suas raízes colombianas, dando abertura para o resgate de uma música que é tipicamente latina e tornando-a amplamente palatável para o gosto mundial.
Por outro lado, a coisa de ser bonito ou um símbolo sexual, típica dos cantores latinos, ficou em segundo plano, usado quando convém ou para quem a química bate: tanto faz, o ponto não é esse. O ponto para J. Balvin é, Maluma mesmo disse, Colômbia, cultura. Ele não quer te levar para a cama, ele quer te levar para a América Latina.
Para tornar isso uma persona, a chave foi investir em um discurso pesado de valorização da cultura colombiana, ao mesmo tempo que o fazia através de feats com talentos nacionais e também de países amigos. Outra estratégia foi trabalhar não apenas com álbuns de estúdio, mas propagar sua mensagem por meio de muitos singles e participações soltas por aí, fazendo de J. Balvin um diamante partido em mil pedaços, difícil de ser catalogado, se espalhando pelo mundo em uma obra tão vasta quanto densa.
Assim, tivemos La Familia (2013) e La Familia B Sides (2014), além de Energia (2016) e Energia Lado B (2017), álbuns onde J. Balvin reforça valores como família, tradição e cultura, tendo o amor romântico como um pano de fundo útil, mas não imprescindível.
O sucesso veio em um crescendo, em paralelo com essas obras, através dos singles extraídos delas, sendo que consagração internacional viria mesmo em 2017, quando J. Balvin lançou o single “Mi Gente” com Willy William, que posteriormente foi regravado com feat de ninguém menos que Beyoncé. Dando a tônica de seu discurso, a letra da música não fala de amor romântico, fala de amor à música – e de como esse sentimento pode fazer o mundo girar:
Toda mi gente se mueve
Mira el ritmo cómo los tiene
Hago música que entretiene
El mundo nos quiere, nos quiere, y me quiere a mí

“Mi Gente”, inclusive, aparece posteriormente em Vibras, álbum de 2018 e um dos mais coesos da história do cantor. Mais uma vez indo contra a coisa do galã latino, a capa é uma simples ilustração: J. Balvin não tem tempo para isso.
Vibras, o álbum, é o CD definitivo do cantor – pelo menos até o momento. Com um conceito que segue contando uma história faixa a faixa, tudo ali é perfeito e faz sentido dentro da mensagem maior: vamos honrar nossas raízes aqui. E, ah, você é muito bonita dançando. Dando seguimento à tradição dos feats, a obra traz parcerias com Yandel, Wisin, Anitta, e até com a expoente Rosalía (a faixa é Brillo, um feat que se repetiria posteriormente com o single Con Altura), entre outros.
Já em 2019, chega Reggaeton, o single que define, resume e condensa toda a carreira e mensagem de J. Balvin. Com um clipe que resgata figuras definitivas do reggaeton, trazendo veteranos do gênero como Daddy Yankee, Nicky Jam e Don Omar, entre outros, a estética 90′ e quase grunge, além da coisa da união de um povo são os destaques da história contada aqui. Vale assistir:
É uma afirmação do reggaeton “old school” de J. Balvin, um artista que não se curva ao pop americano, imprimindo a sua cultura pelo mundo todo.
A letra é literal e direta: Deus abençoe o reggaeton.

Ya tú sabes quienes son
Me resalto del montón
Dios bendiga el reggaetón, amén (amén)
Hasta abajo, así soy yo
Yankee pa’ esta me inspiró
Bajo fuerte como ron, ron, ronY si el pueblo pide (reggaetón, reggaetón)
No se lo voy a negar (reggaetón, reggaetón)
Si las mujeres piden (reggaetón, reggaetón)
Pues yo le’ voy a dar (reggaetón, reggaetón)
Nesse ponto, você entende que J. Balvin não está para brincadeira. É cativante e até doce ele reverter o clichê do discurso pop e, ao invés de prometer amor eterno por si só, dizer que traz o que as mulheres querem (reggaeton!) e faz isso por elas. É a malandragem do homem latino, que faz tudo por você, mostrando que te ama sem nunca dizer “eu te amo” de fato.

O que vemos ainda mais em seu novo álbum, lançado esses dias, Oasis. Abraçando de vez o feat., o trabalho é uma parceria com Bad Bunny, porto-riquenho conhecido por seu reggaeton que flerta com o trap.
O resultado é um CD altamente dançante, reggaeton sem frescura e sem bula. É como se, depois de passar décadas explicando o gênero (inclusive com uma música que literalmente se chama REGGAETON!), Balvin nos considerasse prontos para receber um álbum com canções que se explicam por si só.
Se você gostava dele até aqui, vai gostar mais. Se não gostava, já pode ir embora, porque ele é isso, é reggaeton, Colômbia e cultura e nada além disso. Gostem ou não.

O próximo passo? Difícil dizer, é um artista tão inventivo quanto imprevisível. De qualquer modo, sabemos que o caminho está pavimentado e, para J. Balvin, a trilha é tão clara quanto verdadeira: seguirá rompiendo e dando o que as mulheres querem: cultura & reggaeton.
Deus abençoe.





