
Uma parábola direto dos anos 2000, situada ao sul do Brasil
Desconfio que eu já esteja ficando velha o suficiente para começar a escrever minhas memórias. A vida passa tão rápido, não é mesmo? Cruzando a barreira que me deixa mais perto dos 40 do que dos 30, parece que recai um véu de nostalgia segura sobre as minhas lembranças.
Como se fossem todas pitorescas e curiosas, e já não doessem mais.
Grandes acontecimentos marcam a nossa vida, mas são aquelas pequenas passagens triviais que acabam por moldar quem somos. Aquelas lembranças bobas e tão suas, histórias sem começo nem moral, que volta e meia ressurgem no cérebro e atingem em cheio o coração. Disco riscado (vocês, jovens, conhecem essa expressão?), cujo som adulterado é mais confortável que a melodia original.
E assim você cria parábolas personalizadas e exclusivas, criadas a partir de momentos que são só seus.
Estava pensando nisso, pois lembrei da vez que realizaria meu grande sonho de comprar meu computador. Isso foi décadas atrás, pensem. Eu com meus vinte e poucos anos, a visão de mundo do tamanho de um punho, juntei por meses a astronômica quantia de R$500 para comprar meu primeiro computador de mesa. Adeus, usar emprestado o PC do meu irmão. Adeus, máquina lenta e estranha. Eu poderia voar sozinha!
Meu irmão, aliás, seria peça-chave nessa empreitada. Caberia a ele, com toda a sua agilidade e bom coração insuspeitos, cruzar a fronteira até o Paraguai e comprar o equipamento para mim. No Paraguai era assim (em algumas lojas, não todas, imagino que ainda é): você precisava pagar tudo à vista, no dinheiro.
Então, após algum esforço, as suadas cinco notas de cem passaram das minhas mãos para as do meu irmão. Era sábado, o dia de ir no Paraguai é sábado, meu irmão atravessaria a ponte e buscaria meu PC (modelo e especificações nem eram uma questão para mim, se você tem um irmão mais velho, você grita “eletrônicos” e ele decide por você).
Foi o meu irmão pegar o dinheiro, eu comecei a me sentir mal. Não vou mentir, eu sempre adiei minhas dores até ficar ridículo. Naquele sábado de manhã, ficou ridícula a dor de dente que eu sentia timidamente há semanas.
Ficou insuportável. Vai a minha mãe correr comigo pelo centro da cidade atrás de dentista que atendesse. Plano Dental era um luxo, claro. SUS, só em caso de morte. Sorte (sorte?) que naquele tempo fervia a moda do consultório dental a cada esquina, com nomes entusiasmados como SORRIA MAIS ou FELIZ SORRIR ou DENTE SAÚDE, coisas assim.
Batemos numa dessas portinhas, eu e minha mãe. O moço atendeu rápido e foi de uma empatia ímpar. Até hoje eu fico meio emocionada só de lembrar como ele me atendeu e entendeu: eu estava urrando de dor, remédio não adiantava, era canal e eu não tinha dois reais no bolso. Mesmo assim ele fez o que pôde. E disse que o tratamento podia resolver na hora, se eu fizesse agora mesmo.
O preço do tratamento de canal? Você já sabe, né?
Toca a minha mãe ligar para o meu irmão. Atendeu o celular, ainda não tinha passado a ponte, baita sorte (sorte?). Nem fez perguntas, voltou com a moto e foi até o dentista. Entregou o dinheiro na minha mão. Subi pro doutor de novo, deitei na cadeira. Lá se foi o meu computador novinho, meus quinhentos reais.
No Paraná a gente não fala muito, mas eu lembro do olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro. O que vou colocar nas minhas memórias é aquele olhar. Era algo entre “mano, que bosta” e algum trecho do manifesto comunista que nenhum de nós dois nunca lemos. Uma derrota tão funda e frívola, doía mais justamente por ser tão mundano.
O sentimento ultrajava porque não era “você está triste por isso??” era “caralho, eu não posso ter nem isso??“.
Que inferno, ser pobre assim. E, ao mesmo tempo, era essa a realidade. Eu não conhecia outra. A realidade era aquele olhar contrito do meu irmão. Traduzia tudo.
Arrumei os dentes, levei mais um ano até poder finalmente comprar o PC. E o que eu guardo disso tudo é essa solidão tremenda que senti no dia. Não temos dinheiro, engula seus sonhos, vocês só têm uns ao outros. O olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro, vida de merda, mas hey, que tal continuar tentando? O que mais você pode fazer?
E, além do mais, a dor de dente passou. Mesmo sem o tão sonhado PC, sem dor a vida até parecia um dia subitamente bonito, feito um raio de Sol se abrindo depois da chuva.
Continuei tentando. Algum dente sempre vai voltar a doer. Continuo tentando. E foda-se.















