crônicas

Longe de casa

Imagem: Gratisography

Mas é que“casa” é o conceito mais amplo de todos

O supermercado continua no mesmo lugar, só o que acontece é que aumenta de tamanho a cada ano, as lojas ficam sutilmente mais modernas. Um universo que se expande e respira, volta a existir quando ponho os pés aqui. São as conversas e os sotaques, a generosidade emocionada da visita recebida fora de época, os causos que se acotovelam em fila querendo ser contados. Eu fui embora e esse mundo ficou.

Esse mundo ainda existe. Eu sei disso porque já li em muitos livros, sei mais ainda porque vivi: eu não era triste, eu só morava na cidade errada. Fosse possível contratar um serviço de mudança e levar essas pessoas em uma cápsula até São Paulo, eu levaria e seria mais feliz ainda. Mas não dá, tudo teve que ficar para trás na mudança. Os sotaques, os causos, o bebê que ri todo banguela, a música que conforta por ser sempre a mesma.

Vão construir um condomínio ali onde era a tua creche.

É triste não saber seu lugar no mundo, mas tem vezes que dói ainda mais quando você já sabe. Eu deixei a minha vida em pausa por uns dias e fui brincar de passado. Passeios e atrações turísticas me cegavam sob o Sol, no silêncio da noite falta alguma coisa. A conversa de final de dia, indecisões sobre o jantar, até os pequenos estranhamentos dão saudade, os gatos correndo e soltando pelo, derrubando coisas. Teu coração vai tropeçando de verdade em verdade ao perceber que você pode ter mil casas, só uma é o seu lar de fato. Você não perdeu os outros, mas tem aquele que é, apenas é, em uma certeza sólida e pontiaguda que pesando torna seu coração mais leve.

Preciso vir sempre, nunca para ficar muito. Minha casa, meu lar, me espera. Preciso voltar logo, não posso mais ficar tanto tempo longe sempre.

Construí um lar ali onde era o meu medo de tentar.

O supermercado esse ano está com a máquina de café quebrada na padaria. Peguei um no balcão de atendimento. “Nunca é como o de casa”, disse a moça que me atendeu. Café adoçado e fraco, feito para agradar a qualquer custo, como eu não provava fazia tempo. “Nunca é como o de casa, mas a gente não pode ter tudo”, ela sorriu.