crônicas

Do que ficou, as manhãs e as maçãs

Photo by Annie Spratt on Unsplash

Os sábados eram os nossos dias juntos. E em um sábado você partiu para sempre.

Por muitos anos durante a nossa infância, os sábados eram o nosso dia e as manhãs de sábado eram dedicadas à uma tarefa tão aborrecida quanto inusitada: catequese das 8h às 10h na Igreja Matriz. A gente se encontrava por lá mesmo, no pátio dos fundos da igreja, e ia juntos para a sala.

Durante a aula, trocávamos olhares espantados e cúmplices, dando de ombros a cada lição alarmista da freira e professora. Folheando o livro de catecismo, a gente perguntava um para o outro com o olhar: seria Deus tão malvado assim?

Até hoje, ainda tenho minhas dúvidas.

Depois corríamos até o ponto de ônibus e juntos íamos para a casa da vó, onde você morava e eu passava o sábado. No ônibus, você o moleque esperto e eu a menina tímida, conversávamos sobre todas as suas grandes artes da semana. Você me contava da escola, do video game, da piscina do vizinho. Eu ouvia quieta, jamais seria tão descolada quanto você.

Você que tinha o computador e a piscina do vizinho, o quarto só seu e a vó só sua, todos os livros da sala que você não lia, você que mesmo assim encarava todos esses privilégios de um jeito tranquilo, humilde, sem alardear nada. E era generoso o suficiente para dividi-los comigo como um irmão mais velho.

O resto do dia revelava momentos melhores que as manhãs cheias de medo cristão. Quando a tarde de sábado caia, a vó dava um cesto de frutas para a gente vender na rua. Hoje eu vejo que ela só inventava aquilo porque queria ter um descanso da nossa bagunça em casa. A gente andava um pouco, não vendia nada, olhava um para o outro, dava de ombros e sentava no meio-fio para comer todas as maçãs da cesta. Voltávamos para casa com a cesta vazia e a barriga cheia. Nossa vó nunca pediu o dinheiro das “vendas”, porque ela sabia e a gente sabia.

Até hoje, sempre que vejo maçãs eu lembro de você e da gente, e da nossa inocência ao comer maçãs na beira da rua vendo o Sol ir embora e a tarde morrer.

Você sempre foi a síntese de alguém que sabia aproveitar a vida em cada mínimo segundo. Hoje eu penso que, de algum modo, você sabia que não seria para sempre, não para sempre como agora dolorosamente é para nós que teremos que continuar sem você. Você sempre foi o festeiro, o sorriso aberto, o deboche até o limite, o improvável irritante inaceitável adorável.

Você sempre foi a nossa alegria e agora foi tirado de nós.

Da última vez que estive em Foz, você estava bem como há tempos eu não via. A gente tinha a coincidência bizarra de dividir não só idade, família e histórias, mas também a mesma trágica doença. Mas nunca falávamos sobre isso, nunca dividimos nossas dores como pacientes de câncer porque nunca quisemos nos ver como vítimas. E porque você era legal demais para perder tempo se lamentando, você aproveitava vivendo cada chance que tinha de viver.

Naquela última vez que saímos juntos, você estava tão feliz. Lembro de olhar para você e pensar que esse seria você pela vida toda, se não fosse o destino trágico que te limitava há anos. Naquela noite, nada te impedia. E fomos de bar em bar, rindo, dançando, arranjando encrenca, dirigindo perigosamente bêbados pela cidade que dormia. Eu como sempre querendo acreditar em romance, te perguntei se você amava a menina que passou a noite toda de olho em você. Você disse que sim, mas que essas coisas não eram para você, que nunca iria namorar ou casar.

Mais uma vez, eu acho que você sabia.

No dia seguinte, nós dois na casa da minha mãe, cada um jogado em um sofá olhando o celular. A gente não precisava alardear muito a vida, a gente sabia que ela era um sopro, então ficávamos em silêncio fingindo não saber a fragilidade de tudo o que acontecia. Você me mostrava coisas no celular, a gente ria. Alguns minutos depois, se levantou e foi embora. Sem maiores despedidas, por que quem imaginaria? Foi a última vez que te vi.

Agora, nunca mais.

Fico pensando no que fizemos de tão terrível para Deus tirar você da gente tão cedo. Pensar isso enche meu coração de raiva e mágoa. E então entendo que a pergunta é outra: o que fizemos para merecer ter você na nossa vida por tanto tempo? Esse foi um presente maior do que qualquer outro, sem dúvida.

Você foi o filho tardio que a minha vó precisava ter, enchendo a vida dela de emoção, humor e vida. Foi o filho crescido que a minha mãe precisava, quando viu os seus próprios saindo de casa e seguindo a vida. Foi o irmão e o pai que a minha prima precisou. Foi o alívio cômico dessa família que ri junto e chora escondida.

Você foi um raio de alegria que cruzou a nossa vida. Nem sempre perfeito, muitas vezes irritante, mas sempre bom, sempre generoso, sempre presente.

Ontem eu vi uma série, o personagem dizia que as pessoas têm um tempo certo para nascer e para morrer e que quando elas vão embora, é porque cumpriram sua missão na Terra. Não sei muito sobre isso, acredito que você ainda tinha tanto para viver. No entanto, não posso fazer nada além de aceitar.

A injustiça de tudo isso machuca como poucas coisas no mundo, mas existe a marca que você deixou por aqui, não é? Sua lição foi a alegria, o amor, a galhofa, o inesperado. Vou levar isso comigo para sempre, assim como a lembrança do presente que você foi em nossas vidas.

E te agradeço por ser um filho para minha mãe, um irmão para o meu irmão, um neto para a minha vó. E te agradeço pelas maçãs e pelas manhãs de sábado. Foi uma boa aventura, primo. Obrigada por me deixar participar dela junto com você.

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Os heróis que são nossos

Palmeiras x Chapecoense, 27 de novembro, pelo Brasileirão de 2016 — Créditos: Pedro Martins (MoWa Press)

Mais nossos do que qualquer razão pode explicar

Corri pro carro do meu pai e chorei escondida no banco de trás. Estacionado na frente da casa dos amigos que visitávamos naquela manhã de domingo, ninguém podia me ver dentro do Fusca bege enquanto eu tentava entender o que sentia. Era 1994 e Senna tinha morrido.

Por semanas, dormi abraçada com a fita K7 que recém tinha ganho da minha mãe. Era a minha banda favorita e eu sabia de cor todas as músicas. No dia em que aconteceu eu achei tão poético que até parecia certo, embora doesse demais. Era 1996, eu tinha 12 anos e a Mamonas Assassinas inteira tinha morrido em um acidente de avião.

A tragédia é da família e dos que ficam. Algo tão íntimo e fundo, ninguém é capaz de mensurar a dor de quem perde um amigo, um pai, um irmão ou um filho em uma catástrofe assim. Para nós que observamos de fora, os olhos vidrados na TV, fica o vínculo que criamos com aqueles ídolos. O quanto eles eram nossos por conta das alegrias que nos deram, dos feitos heroicos, da trajetória de anos ou meteórica, das fotos, das histórias. O quanto eles eram nossos por parecerem tão divinos a cada vitória e tão humanos a cada derrota, mais nossos ainda a cada declaração polêmica e até nos deslizes mais prosaicos.

No domingo, vi meu time ser campeão. Em um país que ama e odeia o futebol na mesma medida, é quase aos socos metafóricos a argumentação de você que quer impor algum respeito por amar um time com o mais irracional dos corações. Na festa antes do jogo, barreiras policiais nos impediam de chegar até o estádio. Perto do estádio, calor e multidão, uma multidão de iguais, nos atrasava para entrar em campo junto com nossos jogadores. Na hora do jogo, toda essa angústia, as horas, os dias, meses e anos de espera foram esquecidos.

É difícil amar o futebol, mas é lindo. Os jogadores que você conhece de longe, os vê pequenos sendo gigantes lá no gramado — do Gol Norte fileira HH é bem distante e ainda assim vemos tudo. Personagens que você ama com todo o ódio do mundo. As contratações que especula, a tática que não é bonita ainda que funcione, a raiva dos desmandos do presidente, a ansiedade que transborda em unhas roídas, vozes alteradas, braços arrepiados quando o atacante chuta e… Quase é gol. As vezes é.

No domingo, vi meu time ser campeão. Amei cada um dos seus jogadores, ri de suas falhas com o carinho de quem ama sem ter outra saída senão amar. Pude ver o quanto o futebol é grande, enorme, maior que qualquer outra emoção que eu já possa ter inventado para mim. Soube do mais lindo que se pode chegar, a alegria febril de voltar a pé do estádio até em casa, sete quilômetros debaixo de chuva e rindo feito imbecis.

Hoje um time inteiro morreu. São nove da manhã e eu choro no meio da rua, segurando sacolas, esperando o táxi, me sentindo pequena demais para caber sequer no meu bolso. Tão pequena quanto em 1994, menor ainda do que em 1996. Enxugo as lágrimas e penso que não posso chorar aqui, não posso chorar em lugar nenhum a não ser na minha casa e até eu voltar para ela ainda demora. Do time, dos setenta e um mortos nessa tragédia, não sabia muito além do fato de terem sido eles nossos adversários naquele jogo de domingo em que fomos campeões. Sendo assim, e era muito e era o suficiente, eles eram mais nossos do que quaisquer outros virão a ser.

A minha medida não serve para todos, mas pode ser comum a vários. Não muda o que aconteceu, só torna claro o fato de que é uma tragédia que os familiares vão sentir na carne, enquanto sentimos naquela fina linha de idolatria que nos faz amá-los tanto a ponto de achar que eram parte nossa. E por pertencerem tanto a cada um de nós, cada um a seu modo, os ídolos são de todos e transcendem a morte. Mito na raiz da palavra, antes de virar expressão gasta de internet.

Naquele domingo do título, onde sorri por vinte e quatro horas seguidas, me senti tão enorme que era invencível. Hoje o choro tomou conta de tudo em uma nuvem pesada que me botou de volta no meu lugar.

Nos colocou de volta em nosso lugar. O sorriso virou reverência, o grito de felicidade virou silêncio respeitoso. Você para pra pensar e não acredita. Se eram tão nossos e tão heroicos, tão invencíveis e incríveis, como pode acabar assim? Então você lembra dos dias no estádio, na paixão de cada dia pelos onze em campo e mais os que ficaram no banco. E entende que não acaba aqui. Como não acabou naquela curva em 1994, como não acabou na Serra da Cantareira em 1996. Porque tudo o que nos ensinaram e nos fizeram sentir nunca vai se perder, como a taça que se ergue e os inúmeros lances improváveis que viram conversa no dia seguinte. Todos os pequenos detalhes que faziam da história deles um pouco a da gente e tornavam a nossa vida mais emocionante por conta do que eles viviam.

É assim no futebol e em qualquer paixão que se sinta. Só que no futebol parece que é mais. Pode ser impressão minha, não sei. Uma coisa é certa, nossos ídolos são nossos e, sendo nossos, não serão esquecidos jamais.