crônicas

Dezoito de março, tudo sobre minha mãe

Eu e minha mãe, em sua primeira viagem à São Paulo, quando adoeci em 2014

Como tantas, uma história que precisa ser contada

Existe uma foto minha com a minha mãe que eu adoro. É do meu aniversário de sete anos, na festa feita na escolinha onde eu estudava. Minha mãe era também a professora da turma, então, mais do que justo, ela está ao meu lado na hora de cantar os parabéns.

Em 1991, felizes em meu aniversário

O meu vestido, em tricô rosa com seus detalhes em branco e sua gola em tecido fino, foi feito por ela. Me lembro das várias provas que fizemos nas semanas anteriores até que eu finalmente pudesse usá-lo naquele dia tão especial.

Minha mãe, linda e no auge da juventude, usa um look azul petróleo que até hoje nunca consegui imitar por completo, me faltando sempre esse porte ou esse bom gosto.

A coisa de usar dois relógios era moda na época, o cabelo assim em camadas e com as pontas aloiradas também. Com o sorriso mais lindo que se pode ter, no momento em que a cantoria acaba e eu faço um pedido antes de soprar as velinhas, minha mãe me beija o rosto como quem me conta um segredo, um segredo que eu sempre soube: lembro com exatidão que nesse momento ela dizia que me amava. Não “eu te amo” ou “eu amo você”. Era sempre “ti amo”, com ti bem pronunciado, como um código especial entre nós duas. É assim até hoje.

Tenho pensado muito ultimamente na necessidade de que contemos as histórias das mulheres que admiramos. Precisamos falar sobre mulheres, precisamos tomar esse espaço nas narrativas cotidianas. Precisamos falar sobre as mulheres como falamos sobre os homens, tornar essas pautas equivalentes em quantidade. Recentemente, com um grupo de amigas, a pergunta era qual pessoa era a sua maior inspiração. A minha, sem dúvida, é a minha mãe. No entanto, percebi que não sabia tantas histórias sobre ela.

Com meu pai, outro grande cara que merece ter sua história contada.

Como é óbvio de se imaginar, as histórias todas que sei da minha mãe vêm do olhar que tenho dela como filha. Não sei muito do seu tempo de garota, das suas histórias do tempo de solteira. Sempre vi a Neti, a mulher de temperamento forte e coração mole, como minha mãe apenas.

No entanto, conforme crescemos, aprendemos a nos distanciar desse olhar fraternal e a ver nossos pais mais como indivíduos comuns, passíveis de erros e acertos, assim como nós. Desde que saí de casa, oito anos atrás, passei a me ver mais como um indivíduo único, não apenas como a filha, a parte mais nova daquela família nuclear de onde vim. Ao mesmo tempo, a cada ano que passa, percebo mais e mais traços da minha mãe em minha personalidade. Nada que eu invente ou force, mas muitas vezes me vejo tendo o olhar dela para o cotidiano. Sua praticidade, a resiliência e a doçura inesperada que resolve em segundos um conflito que eu mesma criei.

Não sei muito sobre minha mãe antes do meu nascimento e isso é um erro, mas hoje, em seu aniversário, percebo que ela já passou mais tempo sendo minha mãe do que não sendo, então quem sabe meu erro não seja tão ruim assim.

Após minha primeira cirurgia, em 2014, quando do meu tratamento do câncer

O que sei da minha mãe e posso contar são essas histórias que vivemos juntas. Como quando estive doente e ela viajou de ônibus por quase um dia inteiro para então ficar por semanas dormindo em um sofá ao meu lado, em um quarto de hospital.

Como quando, incontáveis vezes, ela me mostrou que preciso ter calma diante do que não posso resolver. Acho que ainda não aprendi, mas ela segue me ensinando.

Quando eu era pequena, me magoava porque brigávamos e eu queria ficar uma semana sem falar com ela. Quando ela brigava com meu irmão, em dois segundos eles já estavam se falando de novo e eu via nisso uma prova inegável de que ela gostava mais dele do que de mim. Que besteira. Quanto mais me conheço, mais conheço minha mãe. E entendo que ela sempre foi boa, sempre foi justa, sempre foi coração e alma, corpo forte e trabalhador que nos sustentou com trabalho e amor por anos. E eu sempre fui uma menina brava, exigindo provas de amor sem conseguir enxergar que elas sempre estiveram diante dos meus olhos.

Meu marido, meu irmão, eu, minha cunhada e minha mãe. Meu pai não sai de casa por nada, gente.

Existem muitas histórias. Os almoços extremamente simples que a mim pareciam banquetes, posto que ela arrumava a mesa tão bonita. Como ela sempre estava tricotando ou costurando roupas para mim, me vendo bonita em lindos blusões de inverno e atrevidos biquínis de crochê no verão. Como ela sempre me protegia dos outros, eu com a minha timidez ridícula desde a infância, me escondendo em seu colo nas festas de família.

Esse não tem sido um ano fácil para mim. Me vi doente, de cama, mais vezes do que se pode considerar normal. Muitas vezes perdi a paciência e a fé, ligando para minha mãe em outro estado e chorando desesperada, sem pensar nela que só me ouvia à distância sem nada poder fazer além de me ouvir. Nesses momentos, seus conselhos sempre me acalmavam, mesmo eu podendo saber, a conhecendo agora como conheço a mim mesma, que nem sempre ela tinha certeza do que dizia. Mas ela tem fé e ela acredita. E ela torce por mim, então as coisas devem melhorar.

Eu sei que todas as mães são incríveis. Acredito firmemente nessa verdade que, como poucas, ainda mantém o mundo um lugar habitável. Mas preciso hoje falar da minha mãe. Seu nome é Ivonete Terezinha Lopatiuk do Amarante e ela faz 60 anos. Ela nasceu em Medianeira (PR) e se mudou pra Foz do Iguaçu ainda nova. Ela se casou com meu pai quando eles tinha vinte e poucos anos e eles tentaram morar em Curitiba por um tempo, mas não deu certo. Gosta de uma cervejinha e de um churrasquinho. Gosta de novela, mas sempre promete que essa nova que saiu agora ela não vai ver, senão vicia.

Ela já trabalhou como professora, como vendedora, já trabalhou fazendo pão pra vender e como moça da copa, em vários lugares. Hoje ela é diarista, mas está como mensalista para a família de uma amiga. Ela trabalhou como babá por muitos anos para várias famílias e até hoje vários jovens adultos a chamam com carinho de Tia Neti.

Passeando no litoral, mês passado.

Essa é a minha mãe. Ela parece brava, mas é extremamente emotiva e carinhosa. Feito eu. Quando angustiada com a vida, ela limpa a casa e trabalha para espairecer. Feito eu. Ela construiu uma vida simples e digna, baseada em seu próprio esforço e no amor que sente por todos que a rodeiam. Como eu espero estar fazendo. Considerando que me pareço a cada dia mais com a minha mãe, se um dia eu conseguir chegar à metade do ser humano que ela é, já serei uma pessoa realizada.

Quanto mais conheço a mim mesma, mais conheço minha mãe. Quanto mais conheço minha mãe, mais a amo e admiro sua força, sua história. E a sua história é bonita, como a de tantas mulheres que conhecemos. Essas histórias precisam ser contadas. E é por isso que, feito a menina de sete anos que fui, admirada por ter a mãe mais bonita da escolinha, hoje eu venho aqui, usando as únicas ferramentas que tenho, escrevendo, já que é a única coisa que sei fazer, para dizer que esse texto é para você, Neti. E também para dizer que eu ti amo. Muito. Eu ti amo pela vida inteira, mãe.