Processo Criativo

A jornada solitária de escrever um livro

Foto: Death to Stock

Aprendendo com o exercício de estar só

Comecei a escrever em agosto do ano passado o meu sexto livro. Tive a ideia para a história em uma noite de segunda-feira em que cheguei em casa especialmente cansada do trabalho. Deitada na cama com a cara afundada no travesseiro, o primeiro capítulo apareceu inteiro na minha cabeça e não tive outra alternativa senão levantar da cama, ligar o notebook e começar a escrever. Agora, faltando três capítulos para o fim, o que pensei a princípio para a história que quero contar já mudou inúmeras vezes.

Essas mudanças, longe de me desesperar, me motivam. Significam que finalmente estou me apropriando do argumento frágil que foi o sopro inicial deste livro. Peguei aquela ideia, a moldei como sabia e a transformei em algo. Doze capítulos prontos, o livro já tem um rosto e me convence que é bonito. Eu aprendi com ele, também. Principalmente sobre mim.

Uma coisa sobre escrever um livro, você nunca deixa por completo de pensar nele. Longe do ideal romântico do escritor atormentado, madrugadas em claro escrevendo embalado por doses de uísque e música blues, eu penso no meu livro enquanto estou me exercitando na academia. No banho ou ao lavar a louça. Se a reunião de trabalho atrasa. Enquanto estou descendo a rua à caminho do trabalho. Eu escrevo meu livro dentro do ônibus, uma mão digita no celular, a outra assume a responsabilidade de me manter firme no sacolejar daqueles cinquenta minutos que ao final me levarão para casa e me deixarão mais perto de ter um livro pronto quando finalmente for hora de descer.

Eu escrevo enquanto meu marido joga video game e também quando acordo mais cedo aos sábados e não consigo voltar a dormir. E penso o tempo todo na história que estou criando. Músicas me fazem lembrar, conversas ouvidas me inspiram, pessoas e seus trejeitos me trazem exemplos de como meus personagens podem ser.

Tudo isso dentro da minha cabeça. Meus outros livros eu publicava capítulo a capítulo, como um romancista do século passado com seus fascículos no jornal. Recebia feedback imediato dos leitores, o que acabava por interferir no meu modo de seguir com a história. Este não. Este é só meu. É o livro mais meu que já escrevi.

Existe o medo de, ao publicar, ninguém gostar. Só vou saber depois. Será que vão rir daquela piadinha que coloquei no começo do capítulo dois? Entenderão a referência do final deste mesmo capítulo? Será que terão dó de mim ao perceber que ousei tentar este ou aquele estilo no diálogo da página noventa? Fico um pouco angustiada. Sendo só meu, ele está protegido inclusive do fracasso. E se ninguém ler?

Todas essas questões e inseguranças não são nada além do reflexo das minhas próprias questões e inseguranças que já tenho normalmente em se tratando de qualquer assunto ou empreitada que invente de me meter. A diferença de encará-las através da produção de um livro é que elas tomam forma de uma maneira diferente dentro de você. É o mais introspectivo dos processos, por mais que tente dividi-lo com alguém que se importe em te ouvir, o mundo que você criou para sua história é absolutamente seu. Só depende de você. Só presta contas à você.

Um autor conhecido uma vez disse que o ruim de parar de fumar é que ele sentia que tinha perdido um amigo. Quando fumava, parava um pouco pra pensar na vida e nele mesmo. Escrever um livro é o cigarro mais longo que você fuma. Encostada no muro esperando a chuva passar, meu livro é a minha companhia e penso nele em longas tragadas.

Mudo cenas, invento motivações, coloco muito do meu coração ali. Não durmo sem reler pelo menos um capítulo e acabar mudando isso ou aquilo. Ao olhar a capa, já pronta, uma alegria inunda meu peito. Foi bom ter tido aquela ideia inicial, eu gosto mais de mim agora que tenho esse desafio. A história que criei é tão linda, eu adoro quando a protagonista sorri. Eu estou escrevendo o livro que gostaria de ler. Quando adolescente, queria ser escritora daqueles livros de banca de jornal tipo Julia, Bianca, Sabrina. Escrevendo eu realizo esse sonho como posso.

No exercício de escrever, calada e sozinha, me redescubro como alguém de quem eu gosto e sinto orgulho, pois estou fazendo algo que um dia só ousei sonhar. Perto do fim, se torna óbvio que vou sentir saudade quando terminar. Eu aprendi tanto com esse livro. A ideia de que mudei com ele se esclarece na minha mente. Acho que não mudei, não. Só me descobri um pouco mais com essa solidão que ele me trouxe. E, além do mais, acabei de conferir aqui: o primeiro capitulo é o único que permanece intacto desde aquele rascunho inicial que me fez levantar da cama e criar essa história.

Depois dali, tudo mudou.

Brain Dump*

Nada mudou

Foto: Death to Stock

Um reencontro consigo mesmo podem trazer novidades antigas

Você pode encontrar seu eu do passado ao andar desavisada pela rua, tomar um susto e se arrepiar como um gato pelo o que vê e lembrou. Também pode encontrá-lo no meio da noite, na cena de algum filme. Quieta e sozinha na casa vazia, enquanto faz um café. Falando ao telefone com sua mãe e lembrando como costumava se sentir ao estar ao lado dela, do outro lado da linha. Você se reencontra e se surpreende consigo mesmo. O que mudou?

No fundo, continuamos sempre os mesmos. O susto vem daí, de ver que nada mudou. Daquele tempo de antes, mais livros, filmes, seriados, pessoas e festas vieram, mas continuamos os mesmos. A insegurança de falar olhando pra baixo, a ousadia de repetir mais alto quando não te escutam da primeira vez. Arriscar contar uma piada em público, como quem se joga na piscina com carteira e celular no bolso. E o frio na barriga que já é velho amigo.

Nada nunca muda e é confortável viver assim. A gente se abraça mentalmente e diz “sou desse jeito”, nada precisa mudar porque nada nunca muda. Nos reencontramos dentro de lembranças, de memórias e tudo não passa de uma continuação dessa história que desde o começo já foi definida como seria. Não temos escolha. Nos reencontramos com nosso “eu antigo”, sentimos ternura pela ingenuidade dele, que um dia pensou que seria diferente. O café no meio da noite, o telefone da mãe, a cena do filme. Tudo serve para lembrar: nada nunca muda e ainda estamos aqui.


Texto publicado originalmente em 04 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.