É assim que eu faço? Assim que eu deveria fazer? Na dúvida, vou fazendo. Vou adiantando aqui enquanto a resposta não chega. Pode ser assim? Já sei que vou morrer, então tenho pressa. Quatro livros escritos em 18 meses. Parei de ler livro, livro demora. Acumulo séries que só me angustiam: não dou conta de ver todas, de saber de todas. De me deixar impactar por todas. Não absorvo nada. Passo os olhos por cima e digo que vi.
Ansiedade. Existe muito a ser feito, começo a fazer tudo e largo na metade. Vou fazer outras coisas, que são igualmente abandonadas incompletas. Os jogos tem objetivos exaustivos, desisto deles. Eu só queria descansar. Ter paz.
Deixe essa paz para quando for a hora. Agora eu tenho pressa. Faço um milhão de coisas, nunca termino nada. Quem sabe o meu grande legado seja esse. Essas serão as minhas obras incompletas.
Ah, essa é boa. Desde novembro de 2015 eu parei oficialmente de usar calça jeans.
Só uso saia ou vestido e — se muito necessário — legging. Isso tem um motivo e um fundamento. Eu vou explicar.
Circa 2014 eu decidi corrigir uma falha moral e assistir Gossip Girl desde o começo até o fim. Certinho, sabe? Já tinha visto uns episódios soltos e lido os livros — dois deles — e me encantava a coisa toda do conto de fadas economicamente inviável para nós mortais que a série prometia. Tendo tudo disponível na Netflix e não devendo nada à ninguém, dei início à minha jornada.
Existe algo em Gossip Girl que série nenhuma conseguiu fazer igual até hoje, um tipo de feitiço irresistível que só ela tem. GG não é uma série completamente boa, é importante que se diga. Pelo contrário, ela é forçada e dolorosamente boba em muitos momentos. Ainda assim, eles realmente conseguem fazer uma história duvidosa e até ruim ser perdoada por que tudo ao redor é lindo demais. Os atores, as locações. Os romances. E os figurinos. Jesus, os looks. Nisso a série é um desbunde. Icônica. Por conta disso eu me apaixonei perdidamente, fui pega por sua magia que só quem nasce com alma de mocinha pode sentir.
Sim, eu acredito que é preciso ter um tipo de alma muito específico para amar Gossip Girl. Algum tipo de coração que não é toda pessoa que possui — e nisso não estou dizendo que uma é melhor do que a outra por ter ou não esse coração. São necessidades diferentes que nos levam a amar esta ou aquela série e todas elas são válidas.
No caso de GG, desconfio que para as que são de coração mais duro e alma menos mole é impossível acompanhar até o fim as inúmeras bobagens da trama e a previsibilidade de cada episódio ao longo de suas seis temporadas. Mas se a série te pega, ela te pega de jeito e você ama tudo. Você perdoa tudo. É o Chuck Bass, como não perdoar?
Eu assumo a minha parcela de culpa
Gossip Girl te apresenta diferentes personagens e, ao se envolver, você fatalmente vai assumir um time. Quando terminei de ver a série, meu coração já era eterna e completamente da Blair Waldorf. Protagonista, musa e dona da coisa toda, ela é a menina rica que finge ser malvada, mas no fundo tem bom coração. Quem não se sente meio assim por dentro, descontando o saldo bancário?
rainha apenas
Ao contrário da sua BFF Serena Van Der Woodsen — que é toda boho, descolada, praieira até — Blair parece uma boneca e se veste como tal. Seus looks são os mais clássicos da série, românticos e retrô, elegantes e sofisticados. Ela é uma Audrey Hepburn moderna, Grace Kelly dos anos 2000, uma princesa que usa blackberry e ama loucamente um canalha profissional (que a ama loucamente também, ah… o amor!).
Algo que pode ser notado por toda a série, Blair só veste alta costura. Tem a mãe estilista e como tal foi criada imersa em moda desde pequena. Salvo engano, em apenas dois episódios Blair não está de saia/vestido e mesmo nesses ela está usando algo chique, como shorts de alfaiataria. Ela é sempre perfeita, com suas roupas lindas e caras das quais jamais abre concessão. Inspiradora, para dizer o mínimo, se é o que você gosta. Por esse motivo, assistir Gossip Girl e conhecer Blair Waldorf foi um divisor de águas na minha vida.
alguns dos muitos looks de Blair
Nunca fui de me importar com moda ou de buscar algum sentido além de praticidade nas roupas que uso. No entanto, após o advento de Blair Waldorf em minha vida, decidi que precisava fazer alguma coisa. Sério, eu precisava. Eu não podia sair pelas ruas vestida toda desleixada no mesmo mundo em que Blair Waldorf existiu. Era necessário tomar as famosas medidas cabíveis, mudar algo. Repensar minhas roupas. Bem assim, sabe? Fui acometida por uma epifania fashion tão dramática quanto um episódio de Gossip Girl mesmo.
É claro que trazer o guarda-roupa de Blair para a vida real é impraticável para qualquer mortal. E nem era isso o que eu queria, já pensou eu indo trabalhar toda preppy de lacinho na cabeça? Não combina comigo. No entanto, existiam alguns itens no meu guarda-roupa que eu continuava usando por costume ou preguiça, sem me sentir realmente à vontade com eles. Foi nisso que foquei na minha mudança. Passei a ver minhas roupas como um modo de trazer a minha personalidade à tona, tendo como inspiração o modo como a Blair fazia isso.
Meu look favorito de toda a série é o que mais acho perto do modo como me visto hoje
Como eu disse, eu não tenho estilo definido. Ou pelo menos é assim que me vejo. Gosto de me sentir confortável e de me ver bonita (dentro do meu conceito próprio de beleza) e é isso. No entanto, assistir Gossip Girl me fez ver como uma roupa é mais do que uma roupa. É possível imprimir uma mensagem e uma identidade que você queira passar através dela. Descobri que a roupa deve servir para te ajudar no modo como você quer se sentir naquele dia — ousada, confortável, segura, cool — e não para te deixar aprisionada dentro daquele mesmo look limitador de sempre.
E é aí que entra a minha decisão de só usar saia ou vestido e abandonar a calça jeans de vez. Sempre me sentia muito melhor quando estava de saia, quando colocava um vestido. Só que pra colocar saia você precisa compor todo um visual e, na pressa, eu acabava indo de jeans mesmo, já que ele vai bem (em tese) com qualquer look. Assim, o jeans era uma peça que eu sempre usava e, no entanto, sempre me sentia muito feia usando. Sem que eu fizesse nada a respeito ou desse por isso, era o item que mais me incomodava em todo look que eu montasse, sempre me sentia empobrecendo qualquer produção se ele estava no meio.
Não curtia, mas continuava usando… Precisava mudar isso. Mesmo! Qual é o sentido de vestir algo que não te traduz? Não faz sentido usar algo que vai fazer você se sentir inferior. Acha besteira se incomodar com isso? Eu acho que não, pra gente ser feliz por completo cada coisinha conta. Mesmo as que parecem mais supérfluas.
Depois de GG, eu passei a levar esses pequenos detalhes mais a sério. Se eu não gostava de usar jeans, vamos aposentar essa porcaria, oras! E o que era preciso para isso? Fazer uma mudança radical? Gastar rios de dinheiro renovando meu guarda-roupa? Não fiz nada disso, apenas passei a buscar alternativas ao olhar melhor para as opções que meu armário me dava. Com poucos dias de mudança, percebi que nenhuma medida drástica precisava mesmo ser tomada. E é aí que mora o segredo: você não precisa mudar tudo na sua vida para fazer uma grande alteração. É só dar um pequeno passo, um passo inicial, e essa decisão toma a sua vida e te faz mudar naturalmente.
Foi aí que nasceu o “projeto” que eu bobamente batizei de Tigrismos (pra quem não sabe, meu apelido é Tigre). Por conta dele, estou há quase seis meses sem botar uma calça jeans no corpo. E estou muito feliz.
Alguns dos meus looks no #Tigrismos2016
Pode ser coisa minha, mas me parece que quando você passa a prestar mais atenção no que vai vestir, já começa o dia mais feliz. Você já se sente melhor antes sair de casa, pois está vestindo algo que te agrada, algo no que você pensou antes de escolher. Depois dessa mudança, me vi mais segura e me achando muito mais bonita.
Um fato curioso é que eu nunca gostei de comprar roupa, só comprava jeans novos a cada dois anos e era sempre uma atividade aborrecida para mim. O que mudou é que agora escolher roupas novas, quando me dá vontade, passou a ser diversão. Jeans você compra de olhos fechados. Saias você precisa pensar no que vai usar para combinar. É algo que você já tem? A saia pode ser usada com o que? Dá pra usar no trabalho ou é só para ocasiões especiais? E por aí vai…
mais alguns looks
Quando estou inspirada, fotografo e publico no meu instagram com a hashtag #Tigrismos2016. Todo dia eu uso saia, mas não tiro foto todo dia, imagino que é chato para quem me segue (e eu nem tenho tanta roupa assim, me repito bastante). Para mim, é infinitamente divertido e libertador. Algumas amigas também adotaram o projeto e dizem que se sentem bem melhor com ele. Eu acho que o mais interessante dele é que a questão toda não é te limitar a usar só isso ou aquilo, é justamente o contrário: ele te liberta de usar algo que não gosta.
No meu caso, eram as calças jeans. No seu caso, pode ser outra peça. Já parou pra pensar nas roupas que você usa só por costume e que não te valorizam de jeito nenhum? Eu digo “não te valorizam” naquele sentido que vai além de tipo físico ou moda, estou falando de como determinada peça te faz sentir. Não é sobre tal roupa marcar a cintura enquanto outra te faz parecer mais alta. Não, tem a ver com personalidade, com encontrar seu estilo e se sentir bem com ele.
Nisso eu posso dizer que me sinto muito mais valorizada hoje, após essas mudanças.
Não joguei meus jeans fora, eles estão no fundo do armário por enquanto para me dar a segurança de que posso voltar a qualquer momento. Vai que eu mudo de ideia? Por enquanto, estou me divertindo bastante. Tenho sido muito mais feliz desde que decidi olhar mais para mim nesse sentido. Me sinto mais bonita, poderosa até. É uma delícia colocar uma roupa e se sentir bem de verdade com ela. Muda todo o seu dia.
E tudo isso só porque um dia eu quis me dar o guilty pleasure de assistir um seriado só pelos figurinos e pela noção irreal de relacionamentos amorosos. Quem diria que uma série adolescente poderia causar essa revolução toda em um coração, hein?
obrigada por tudo, Queen B
PS: Tem um artigo da Liv Brandão para o Modices que explica infinitamente melhor do que eu o quanto ter um estilo é libertador. Leia aqui e pense nisso!
Esses dias eu vi um stand up do Hannibal Buress onde ele falava sobre como era estranho fazer 32 anos. Ele falava algo assim:
“Chegar aos 30 anos é um marco. Você está deixando a juventude dos vinte anos, tem algo para comemorar. Você dá uma grande festa, todos comemoram contigo. Chegar aos 31 é um pouco menos impactante, mas ainda tem alguma importância. Você pode fazer graça dizendo que tem tantos anos quanto tem os dias do mês. Você pode fazer essa piada e todos vão rir. Mas fazer 32 anos? O que isso significa? Isso não é nada. Você fala: “vou dar uma festa”. Que caralho de festa? São 32 anos, o que existe para comemorar? Vá jantar com a sua esposa e depois dormir, é isso que você merece. São só 32 anos.”
Que é exatamente como me sinto. Faço 32 anos mês que vem e tenho pensado bastante sobre isso. É uma data estranha. Quer dizer, você já é adulto com 32 anos, mas no cenário atual – com todas as facilidades de ser quem não se é e a artificialidade da internet – você pode ser jovem pra sempre. Até o ano passado eu queria desesperadamente ser jovem. Esse ano eu cai na real e cansei um pouco.
Hoje em dia eu gosto mais do modelo “jovem senhora”. Gosto de ficar em casa com o meu marido e meus gatos. Ainda gosto muito de boy band e música pop, é verdade. Isso é a minha ruína. Todo o resto, eu acredito, se encaminha para uma personalidade elegante. Poucos amigos. Reações discretas. Poucas palavras. Também preciso adequar melhor meu guarda-roupa, que ainda guarda vestígios da minha juventude passada com seus bonés de aba reta e camisetas Adidas.
Eu sei que parece, mas não é sobre mudar o seu jeito. É mais sobre se acalmar quanto a ele. Desde a adolescência, tudo em nós é desespero de autoafirmação. Você precisa criar uma persona é prova-la por meio dos seus gostos e preferências. Existe essa urgência.
Aos 32, essa urgência não existe mais. Eu sou isso aqui que você está vendo e não vou mudar. Não por que tenho uma personalidade muito forte que não abre concessões. É mais por preguiça mesmo. Cansaço. E o fato de já saber de cor como as coisas são.
Exatamente por isso também, não haverá festa. Agora, um jantarzinho só eu e o meu marido e depois ir dormir? Eu adoraria.
Em 1989 Seinfeld estreou com a sua série onde falava sobre o nada. Nesse tempo eu tinha cinco anos e também falava nada com nada, porém sem a mesma inteligência e graça. O que explica Seinfeld ter feito tanto sucesso e eu nenhum. Hoje, em 2016, eu resolvi voltar a blogar e inspirada em Seinfeld, mais especificamente em George Constanza, resolvi que vou fazer o oposto e falar sobre tudo.
Eu não vou dar o meu histórico aqui, ele é igual ao de todos que já estão na internet desde que ela começou. Depois de tudo o que me aconteceu (?) e muitos meses de loucura, resolvi que queria voltar a falar sozinha de maneira pública. Que é para o que serve o blog. Claro que você pode fazer isso também por meio de longos textos no Facebook, o problema lá é que você acaba esperando algum retorno da platéia. Eu não espero retorno da platéia, por isso blogo. O modo do blog se apresentar mudou muito no decorrer dos anos e agora estamos aqui, nesse modelo “Twitter expandido” ou seja lá o que for. Vamos assim.
Observando agora, eu não sei se posso suportar mais uma plataforma de texto onde não existe como justificar os parágrafos. Alinhamento à esquerda é algo que me magoa profundamente. De todo modo, vamos tentar.