
Eu estava aqui pensando, acho que não dá mais para a gente fugir do fato de que os jovens estão aí assumindo nossas embaixadas de ícones e colocando outros ídolos em nossos altares.
Foi por esses dias, eu estava ouvindo Madonna no Spotify, aquela ouvidinha sem compromisso do trabalhador médio brasileiro, quando me vi dando skip em seis faixas seguidas que eram dos dois trabalhos mais recentes dela, o Rebel Heart e o MDNA. Falei “ué” para mim mesma. Eu costumava ouvir tudo dela sem nem pensar duas vezes. O que está acontecendo?
Nisso eu pensei “caramba, a Madonna nunca lançou mais nada que você ouvisse e desgraçasse sua cabeça por dias, tipo UAU, ISSO É MARAVILHOSO, EU NÃO VOU NEM QUESTIONAR POIS É DA MADONNA, É PERFEITO!”. E não é nem que ela não tenha lançado nada bom, é que o crivo com ela já é lá no topo e a gente já meio que blé, sabe? Você já está aí há muito tempo, a Madonna lança algo novo a gente mata no peito e responde: a gente quer novidade, as suas novidades não impactam mais.
E ela mesmo deve saber disso, a partir do momento em que faz uma canção cujo refrão é BITCH, I’M MADONNA, como se gritasse correndo atrás da gente enquanto estamos em fuga dentro de um carro com outras cantoras pop que agora amamos mais. Pelo jeito é bem isso o que está acontecendo, estamos em outro barco e deixamos Madonna à deriva, falando sozinha.
Eu falo sob a perspectiva de uma fã do pop sem carteirinha assinada com nenhuma diva, se você mata e morre pela Madonna é lógico que vai ser diferente pra você e parabéns por ainda ter algo em que acreditar. Nós que rodopiamos pelo Spotify sem fandom temos um trabalho incansável para saber a quem dedicar o nosso amor, nós enfrentamos uma batalha diária.
Imagino também que Madge tenha feito essa canção Bitch, I’m Madonna para esses pequerruchos que estão chegando agora na fila do pão e falando “Quem é essa senhora de tanga e meia-arrastão dizendo que o mundo é dela? O mundo é da Rihanna!”, ou algo do tipo.
Mas eu falava da nossa batalha diária. Que é decidir quem é a Madonna da vez. Eu parei pra pensar nisso. Eu fiquei mesmo preocupada! Após intensa pesquisa e ponderação, conclui que a Madonna atual desse povo é a Beyoncé, já que tudo o que ela faz é recebido com ataques cardíacos e gritos caninos de NOSSA, PERFEITO, RAINHA, DONA DO MEU BUMBUM, GUERREIRA DAS GUERREIRAS, ELA É MARAVILHOSA, ELA ACORDA DESSE JEITO —> PERFEITA. O que particularmente me irrita bastante (nem de Beyoncé eu gosto), mas a gente precisa reconhecer o mérito. E dar o braço a torcer: éramos do mesmo jeito com Madonna, anos atrás.

Só que o tempo passa, rola uma dança das cadeiras nas nossas devoções culturais. Nada do que é bom de verdade deixa de o ser e nem deixa de ser relevante e icônico, mas o nosso ponto de atenção muda e isso é inegável. O prato do dia muda constantemente e quando você vê, já não resta mais nada além de gostosas lembranças que você só curte por cinco minutos — aí dá skip e volta pra 7/11 (I KNOW YOU CARE!).
E isso serve para divas pop e serve para quase tudo no universo da indústria do entretenimento. Eu inclusive até pensei mais nisso e vi outros ícones destronados e calculei baseado em meus conhecimentos empíricos e rasa visão de mundo quais seriam seus atuais sucessores. Não me corrijam se eu estiver errada, tentem me perdoar, eu sou nova por aqui e na minha cabeça sempre tenho razão (na minha cabeça eu sou um gênio).
Fifth Harmony são as novas Spice Girls. “Ai, mas eu nem conheço essas minas”, bom, aí é problema seu, vá se educar. Brincadeira. Mas é sério, elas são muito boas. E os tempos são outros. Igual nunca vai ser, mas pode ser tão bom quanto, considerando a nossa época, necessidades e imposições estéticas. Aceite. Apenas aceite.

Deadpool é novo Máskara. Meu coração se parte em mil pedaços, essa não foi nem eu que descobri, alguns jovens do meu convívio me alertaram. Não vi o filme do novo herói e negarei até a morte que alguém como RYAN REYNOLDS possa ser comparado ao inominável cute cute no meu coração JIM CARREY. Porém é necessário aceitar, vida que segue.

One Direction são os novos Backstreet Boys. Você pode chorar, pode agoniar, pode falar “nossa, eles eram muito melhores”, mas você sabe que isso é só o seu coração sendo saudoso. Hoje o 1D é tão grande quanto BSB era no seu tempo. As fãs loucas, os hits, os clipes perfeitinhos para as fãs, tudo está ali. Mudou o nome e a formação, só isso. O fenômeno da boy band que ensina as garotas a amar permanece vivo em novos quatro corpos jovens e perfeitos — se não é a música pop um tipo de vampiro que rouba a alma dos cantores ao se alimentar da sua.

E tem mais outras comparações que dá para relacionar, só que chega nesse ponto você começa a ficar um tanto amuada. Tão complicado envelhecer, a gente também perde um pouco da majestade quando nossos ídolos perdem o trono. Quando a Madonna corre atrás da gente, pode notar que da janelinha do carro nós não estamos rindo. Nós não estamos felizes. Madonna grita “Piranha, eu sou a Madonna” e do conforto do carro que acelera sem nos levar em direção alguma, respondemos “e eu, quem sou?”.
Puxado.


