Resenhas

“Ele está de volta” — Comparativo livro x filme da fábula sobre a volta de Hitler

Ele Está de Volta (2015)

E se Hitler voltasse hoje? Teria a mesma força de antes? A previsão é assustadora.

Correndo o risco de soar uma Joan Osborne profana, já parou para pensar no que aconteceria se Hitler retornasse hoje e fosse um de nós? Um vagabundo, como um de nós. Tentando achar o caminho de casa, como um de nós, etc, etc, etc… Bom, Timur Vermes pensou e escreveu um livro sobre. Um livro que virou filme também. Os dois tem o mesmo nome, Ele Está de Volta, e foram lançados com a incrível diferença de apenas um ano: o livro em 2014, o filme em 2015.

Contrariando a regra comum, vou falar primeiro do filme e depois do livro, pois os consumi nessa ordem. Inclusive, acho que pode ser uma boa entrar em uma história dessa maneira. Você conhece a trama de maneira objetiva pelo filme, com o apelo das imagens e da rapidez da duração e, depois, se quiser, aprofunda mais o tema lendo o livro. Mas divago.

No filme, vemos Hitler acordando no meio de um praça no centro da cidade, na Alemanha de 2014. Um pouco confuso sobre o motivo de estar ali, até entender que está no “futuro” temos bons momentos de comédia com o estranhamento inicial do personagem. Aos poucos, ele vai se soltando e, como líder nato que é, arquitetando sua volta ao poder. Para isso, conta com a ajuda inicial de um jornaleiro da região que o vê como um desabrigado esquisitão o qual ajuda cedendo um quartinho na banca de jornal e lhe colocando a par das notícias da atualidade.

Nesse cenário, Hitler é “descoberto” por um jornalista de uma rede de TV que grava seu despertar meio sem querer, enquanto fazia uma reportagem na tal praça. Decide ir atrás desse tal Hitler e vê nele um potencial para a comédia, afinal, só pode ser isso, né? Um cara vestido e falando como Hitler, em pleno século 21? Apostando nesse potencial, o jornalista “vende” Hitler como um novo comediante para a emissora onde trabalha e o ditador tem a chance de propagar suas ideias fazendo stand up em um programa de comédia do canal. Visto como uma caricatura, Hitler incomoda superficialmente e faz rir, mas ninguém o leva a sério de verdade. Já o próprio acredita que aquele é apenas o começo da sua retomada.

É aqui que, no filme, as coisas começam a ficar interessantes. Temos cenas reais de “Hitler” andando pelas ruas e a reação do povo é tão diversa quanto assustadora. Se a princípio as pessoas riem com aquela caricatura, aos poucos o discurso do ditador começa a convencer e angariar simpatizantes. Não podemos esquecer que um dos maiores talentos de Hitler, do verdadeiro, era a retórica e sua capacidade de convencimento — e esse do filme não sai perdendo nestes quesitos. Fazendo críticas ao governo atual, ao estado em que a Alemanha se encontra e prometendo uma nova política trazendo os valores dos tempos antigos, o Hitler renascido aos poucos deixa de soar absurdo ao seu público e começa a convencer as pessoas.

É meio assustador, na real.

Olha o naipe dos caras que o Hitler encontra

Eu sinceramente achava que na Alemanha atual ninguém gostava do Hitler, por motivos óbvios, mas é impressionante ver no filme como as pessoas, principalmente as mais velhas e as muito novas, enxergam o governo do Führer como algo que teve um lado bom e que seria ótimo para o país se voltasse.

Mais ou menos como aqui no Brasil algumas pessoas são saudosas do tempo da Ditadura e acham que naquele tempo não era tão ruim assim

Sério…

São essas pessoas que de maneira involuntária vão mostrando no filme como uma volta de Hitler ao poder não seria algo tão impossível. Não o Hitler de verdade, claro, mas um outro ditador com as mesmas ideias e a mesma voz ativa. Fica patente observar que se Hitler foi tão poderoso um dia, não foi apenas por mérito próprio: foi com a força do povo que o apoiou.

Algo que fica ainda mais claro no livro.

Se o filme aposta nas cenas reais e com isso cria uma comédia amarga, o livro foca muito mais no discurso de Hitler, já que é narrado em primeira pessoa pelo ditador (no filme, a história é vista pela ótica do jornalista).

Temos o despertar e o estranhamento inicial, mas a parte de dialogar com o povo fica muito em segundo plano. Na versão livro, o que mais pesa são as análises de Hitler comparando a Alemanha “do seu tempo” com a atual. São monólogos intermináveis, e nem por isso chatos, em que o Führer se decepciona com a sociedade que encontra em seu retorno, ao mesmo tempo em que se vê otimista quanto ao progresso que pode trazer caso volte ao poder. Em sua escalada, Hitler começa com a pequena participação no programa humorístico e então ganha o seu próprio. É ali que ele fundamenta o seu retorno, com a promessa de tornar a Alemanha grande novamente, com a sua orientação e com a ajuda do povo, que o apoia.

Assim, dá para dizer que o livro trata do plano de Hitler para retomar ao poder e o filme traz a reação real das pessoas para esse plano. São mídias que se completam e trazem uma visão maior para o que poderia acontecer caso o ditador voltasse. E que nos mostram que as chances de tudo acontecer novamente, seja com um “novo Hitler” ou com outro político qualquer com tenacidade similar, não é algo tão impossível de acontecer. Principalmente porque, passados alguns anos, as pessoas começam a ver o passado, seja ele qual for, com uma visão romântica e saudosa, que teve algo de bom.

Não por acaso, o lema do Hitler renascido, no livro, é “Nem tudo foi ruim”. E é assustador perceber quantas pessoas concordam com isso.

Tanto o livro quanto o filme são ótimos passatempos: divertem e fazem pensar. O carisma de Hitler (tanto do personagem quanto da sua interpretação pelo ator Oliver Masucci) é algo incrível e perigoso, realmente hipnotizante. Não diria para você escolher só um: leia e assista essa história, vale a pena conhecê-la e pensar sobre ela. Nem que seja para ficarmos espertos quanto aos novos Hitler que estão surgindo por aí… Até no Brasil, infelizmente.


Em tempo: o filme está disponível na Netflix e o livro em qualquer lugar (o meu eu comprei na Amazon a versão virtual).

Brain Dump*

Sites de deixaram de nos amar como deviam — e que a gente segue amando

Foto: Death for Stock

Eu ainda não te perdoei, LastFM, e ainda não te esqueci, Google Reader

Sem aviso, sem explicação, sem alardes. Tudo muda e a gente fica se sentindo traído e abandonado. Como alguém que entrou para a vida adulta sendo mimada pelas redes sociais em seus mais distintos serviços fúteis & fundamentais, tem horas em que me pego pensando, entre magoada e saudosista, nos sites que não deram certo.

Ou que deram certo enquanto duraram, se formos pensar de maneira mais poética.

Eu não posso nem pensar no Google Reader que a minha perna treme. Tudo era perfeito ali. Vivíamos em uma comunidade clandestina onde nós contrabandeávamos textos científicos, artigos opinativos, fotos bonitas de tumblr, entre outros. Era tudo nosso, era íntimo e perto. No pouco tempo que durou, o Reader foi o meu clubinho virtual de leitura, onde me sentia muito especial compartilhando conteúdo interessante com meus amigos, trocando referências e piadinhas nerds só nossas. Um dia, decidiram que não tinha mais a ver e acabaram com tudo. Foi doloroso.

Sim, eu já tentei outros serviços similares. Sim, você adivinhou, eu não gostei de nenhum.

Além dos que somem por completo, existem os serviços que mudam e perdem a identidade que nos cativou a princípio. Isso aconteceu com o Foursquare, por exemplo. Era muito emocionante dar check in nos lugares e ler as dicas — escrever dicas também era toda uma chiqueza. E tinha as badges, medalhas virtuais que a gente ganhava quando batia alguma meta inventada por eles. Nosso sonho era que essas badges se tornassem físicas por meio de bottons ou adesivos, batalhávamos para consegui-las, mas tudo foi pelos ares quando resolveram mudar a plataforma e dividi-la em duas: o Foursquare e o Swarm. Agora, a parte de check in e badges (sem todo aquele glamour) fica com o Swarm e para o Foursquare sobrou apenas a parte de dicas. Assim desmantelado, feito por dois o serviço não vale por um e perdeu o encanto de vez.

Também gostava muito do Get Glue, onde você dava check in em séries e ganhava badges — essas muito mais legais, pois você recebia pelo correio no formato de adesivo. Demorava uma vida para chegar, mas vinha. Eu recebi umas quatro remessas até que mudaram o formato da plataforma para algo que me decepcionou tanto que nem sei que fim levou. Só sei que nunca mais recebi os adesivos.

Mas nenhuma dessas mudanças me magoou mais do que a do Last.FM. Isso porque o que aconteceu com o Last não foi nem uma mudança exatamente. Na real, foi o contrário: ele nunca mudou de maneira significativa. E, com isso, ficou obsoleto, foi engolido pelas novidades que surgiam ao seu redor e ficou para trás.

Tenho perfil por lá desde 2008 e no decorrer dos anos acompanhei a plataforma tentar com todas as forças, sem sucesso, tomar parte na corrida das outras redes sociais que chegavam. Tentou mudar em algumas coisas, criou aquilo da rádio, o serviço pago e assinado, mas nada vingou. O site em si ficou meio defasado em seu layout com o passar do tempo. Não conversava mais com o que a gente via na aba ao lado. E os fóruns dentro dele passaram a morrer.

E era uma rede muito boa! Costumava ser. Por lá, você acompanhava os lançamentos dos seus artistas favoritos, agenda de shows e comparava seu gosto musical com o dos seus amigos. Na coluna lateral da direita, você podia instalar uns plugins descolados que traziam mais informações sobre o que você ouvia e suas bandas prediletas.

E, você sabe, nada diz mais sobre uma pessoa do que as músicas que ela escuta. Pelo menos é isso que nos fazem acreditar desde a adolescência, quando a gente se acha f#da pra crlh por ouvir rock ou conhecer aquela banda de garagem de uma cidadezinha do Sul do Texas.

Foi com o Last que eu descobri que, quem sabe, Elvis Costello fosse o meu artista favorito.

E é, até hoje, por onde eu me guio para ver o que estou ouvindo pouco ou como é que eu fui ficar tão obcecada por este ou aquele artista no mês.

Em que outro lugar Justin Bieber e Logic poderiam reinar em harmonia com tanta propriedade senão no meu coração? Além de nos aproximar de tudo o que havia de novo dentro do universo de artistas que a gente mais gostava, o LastFm agrupava nossos amores musicais de maneira exata e os apresentava em tabelas bonitas que faziam a gente se sentir muito moderno e cool.

Hoje em dia, essas tabelas bonitas são meio que a única coisa que restou de boa no site.

O que não se sustenta. Não quando você tem mais outras dezoito redes sociais para alimentar e dar banho. Não com o Orkut voltando e com o Snapchat ali do lado, te pedindo tanta atenção.

Com isso em mente, dá até pra pensar que esses sites todos morreram para que outros pudessem chegar. Quem sabe seja tudo melhor agora e a gente só esteja sendo saudosista. Pode ser, mas eu nunca mais li tanto online quanto lia quando tinha o Reader (ler timeline de Facebook não conta como leitura), pra citar um exemplo.

E nem tive mais aquela alegria de ser adicionada no LastFM e pensar, todo orgulhosa, meu perfil é um arraso mesmo.

Se bem que, bom, não ando tendo isso com rede atual nenhuma. É, quem sabe a culpa seja minha mesmo.

Admito.

Ainda assim, não te perdoei e nem te esqueci, Last.


Caso queira me adicionar no LastFM, pois ainda não desisti do meu perfil por lá, clique aqui.

Resenhas

A Arte de Pedir, o livro de Amanda Palmer

A divindade Amanda Palmer

É difícil aceitar isso, mas deixar que te ajudem pode ser libertador

Veja só que coisa, uma amiga minha não gostou de Stranger Things. Falando sobre a série do momento em post no Facebook, disse temer estar sendo amarga ao não gostar como os outros de algo que todo mundo gostou. Me senti assim quando comecei “A Arte de Pedir”, livro da Amanda Palmer que peguei pra ler essa semana.

Todo mundo ama a Amanda Palmer. Eu só queria entender quem ela era, então comprei o tal livro na Amazon e fui ler no Kindle.

Artista independente fora do comum, no livro ela narra toda sua trajetória musical e mostra como o ato pedir ajuda alheia fez com que se tornasse não só famosa e bem-sucedida, mas principalmente plenamente feliz e realizada. Páginas e mais páginas (acho que são quinhentas!) sobre como ela se encontrou no decorrer dos anos tendo o apoio da comunidade que criou em torno de si baseada em sua personalidade expansiva e agregadora.

Até aí tudo bem, mas lá pelos 35% do livro eu já estava um tanto quanto puta.

Comecei a reclamar mentalmente durante a leitura: “Rapaz do céu, tudo o que ela faz é perfeito! Não importa como você veja a vida, Amanda sim é que tem o caminho certo, o jeito correto de ser feliz. É a dona da verdade, ela!”.

Aí eu parei um pouco… Respirei. Deixei o livro de lado e voltei dois dias depois. Tentei entender o motivo de ficar tão brava com o que estava ali e retomei a leitura tentando ser um pouco mais gentil com Amanda e mais cabeça aberta comigo ou algo do tipo.

Percebi que tenho tanta dificuldade de pedir ajuda quanto de aceitar que alguém possa fazê-lo de modo tão desprendido como Amanda faz. Não é só que eu não sei pedir ajuda, eu não aceito que alguém se sinta bem pedindo! Tão patético que chega a ser cômico. É muito, muito difícil para mim me sentir bem se dependo de alguém para algo. Durante o câncer eu até cedi um pouco, mas passado o pior dele, vejo que voltei com tudo ao meu modo “durão”. E é difícil admitir que se está errada quando a gente se fecha nessa redoma de auto-suficiência. Ainda bem que não desisti da leitura, pois ela me salvou demais.

Ao dar uma segunda chance ao livro, pude entender a história toda e ver que Amanda não é essa boneca de perfeição toda dona da verdade como sua trajetória de sucesso e a minha má vontade inicial poderiam sugerir. E pude perceber como eu mesmo estava sendo dura demais comigo. Amarga demais com tudo que se relacionasse a pedir ajuda.

Deixar que os outros te ajudem é mesmo uma luta. Quem pede ajuda é visto como fracassado, fraco, alguém digno de piedade. O que Amanda nos mostra é que não é bem assim. Pedir ajuda é agregar, é formar uma conexão com as pessoas e é, por fim, um jeito de se doar aos outros também.

A vida de Amanda é repleta de altos e baixos, os quais ela não esconde em nenhum momento. O livro é um relato nu e cru do seu cotidiano, do relacionamento com o marido famoso (Neil Gailman, pra quem não sabe), das suas tentativas e erros. Ela fala sobre a polêmica do Kickstarter (arrecadou um milhão de dólares e por lá e o povo caiu matando), sobre a doença do seu melhor amigo e o relacionamento extremamente próximo que tem com os fãs. E muito mais. Todo um novo mundo se abriu para mim com essa leitura, tanto que ainda estou digerindo tudo até agora. Só sei que, ao final do livro, eu estava completamente apaixonada por Amanda.

Isso sem falar na música, nas poesias… Tudo. Amanda é muito humana, divertida e fala direto ao coração. De início é mesmo difícil aceitar as ideias que ela propõe, é uma quebra de paradigma muito grande ao nosso modo de pensar. É um exercício e tanto.

Mas é necessário. E é bom. Foi complicado aceitar o que eu li ali, principalmente porque no fundo eu sabia que era verdade. É verdade que é bom pedir ajuda, é verdade que isso faz bem para nós e aquece o coração de quem pode ajudar. Cria correntes, histórias, aproxima a gente. Incrível, era tudo o que eu precisava ler, mas por que resisti tanto no começo?

Fiquei pensando nisso também. No fim, percebi que o que fiz com essa leitura foi deixar a Amanda me ajudar.

E ela me ajudou demais. Muito, muito mesmo.


Em tempo: o livro foi escrito com base em uma palestra de Amanda para o TED. Não precisa esperar terminar de ler para assistir, o livro funciona como uma palestra estendida, então a palestra em si não é nenhum “spoiler” .

Resenhas

A gente precisa sim de remakes de filmes clássicos que amamos

Caça-Fantasmas, 2016

Se o filme refeito ficará à altura do original é outra história. Mas existem motivos para apostar nas regravações

Hoje à tarde eu fui ao cinema ver Caça-Fantasmas. Não era 1984, era 2016. O cinema estava cheio de pessoas ansiosas por se divertir, com seus baldes de pipoca temáticos, gritinhos e risadas.

Foi incrível.

Mas antes de falar do filme de hoje, preciso voltar um pouquinho para falar de outro remake que me abriu os olhos e me fez encarar sem preconceitos esse aqui em especial.

Grease é o meu filme favorito da vida. Para mim, nunca houve e nem existirá um filme que me faça sentir como ele. Seja pela trama que me cativou, seja pelas lembranças afetivas que dela carrego, como quando eu virava a madrugada com meu pai, os dois na sala absolutamente hipnotizados assistindo John Travolta e Olivia Newton-John dançando no Corujão. Isso é algo que ninguém tira de mim e foi Grease que me deu.

Quando soube que fariam um remake de Grease, lá no finalzinho do ano passado, eu urrei de alegria. Obviamente, sabia que nada chegaria aos pés do original de 1978, mas adorei a ideia dos tempos da brilhantina voltarem a ser assunto. Quanto mais gente soubesse do meu filme favorito, melhor era. No meu mundo ideal, Grease seria assunto e notícia todos os dias. Todos os dias.

Grease: 1978 versus 2016

Grease Live foi lançado em janeiro desse ano e só se falava disso. A adaptação para TV, transmitida ao vivo pela FOX no último dia daquele mês, trouxe um novo frescor para o meu filme favorito. Comparações foram feitas, as músicas voltaram a ser cantadas. Eu via meus sites preferidos trazerem artigos sobre o tema e, nossa, como eu ficava feliz! Quem não gostou, podia dizer “você precisa ver o original” e tudo bem. As pessoas assistiam ao original novamente ou pela primeira vez, gostando ou não do remake.

Para quem não se importava com a versão de 78, tudo bem, também. Novas lembranças e sentimentos foram criados a partir daquele novo filme — e isso era o mais importante, pois essa era a missão final dele.

No fim, não importava tanto se Grease Live era bom (e ele era!). O que importava é que o filme estava tocando as pessoas de alguma forma, como o Grease original tocou um dia. Toda essa comoção valia mais do que qualquer senso de proteção egoísta que nós fãs mega apaixonados pudéssemos ter em relação à franquia.

O que Grease Live fez por Grease, fã doente nenhum conseguiria fazer sozinho.

E nisso, voltamos ao dia de hoje, quando uma sessão surpreendentemente cheia para às 14h de um sábado chuvoso me fez lembrar que o cinema é, quem sabe, a única arte capaz de se apropriar com gosto de seu passado e fazê-lo renascer trazendo mais paixão ainda.

Caça-Fantasmas: 2016 versus 1984

Confesso que não lembro muito do Caça-Fantasmas original. Afinal, ele foi lançado no ano em que nasci, então só tenho vagas lembranças de vê-lo na Sessão da Tarde quando criança. Dos filmes que a TV podia passar naquele horário, sem dúvida era um dos melhores. E se tornou icônico.

O lançamento dessa versão nova foi cercado de polêmica e expectativa. Tinha a questão do elenco feminino, do risco de “estragar” as lembranças que as pessoas tinham do filme de 84 — e questionava-se a necessidade de fazê-lo. Imagino que tudo isso deve ser levado em conta, mas a partir do momento em que você está no cinema gargalhando e tendo bons momentos com o filme na tela, tanto faz se a ideia principal era propagar o espírito do filme original ou apenas ganhar dinheiro com ele.

Afinal, o que se leva de lição do que nos é oferecido é algo que só depende da gente. Em um caso como esse, você pode achar que foi usado e que se aproveitaram das suas lembranças. Ou pode se aproveitar desse novo produto e criar novas boas memórias a partir dele.

Assistindo a Caça-Fantasmas no cinema hoje, fiquei imensamente feliz. Do meu lado, um menino de uns sete anos nem piscava, o corpo todo projetado para frente na poltrona, firmemente disposto a ser tragado pela telona já que seu coração mesmo já o havia feito. Fiquei pensando que eu, na idade dele, não tive a chance de ver Caça-Fantasmas no cinema. Quem sabe se isso tivesse acontecido, eu pudesse ter amado mais esse filme de 84. Mas ali estávamos nós dois, nos divertindo no mesmo grau, independente da idade.

Assim, é incrível que as crianças de hoje possam ter essa oportunidade. Falo dele e de mim! E não importa se não é exatamente o mesmo filme, por isso remakes são tão importantes. Veja, não temos como mudar isso; se passassem agora a versão de 1984 hoje no cinema, seria apenas um tributo pouco impactante. O filme de 2016 não vem sozinho para o público — traz merchandising, discussões atuais (como a de gênero), a versão anterior como norte e uma publicidade gigante. É todo o pacote que se espera e que uma história como a de Caça-Fantasmas merece. Nada menos que isso.

Como disse, antes de Grease Live eu costumava ficar brava com remake. “Esse filme ainda existe, qual é o motivo de regravá-lo?”. Mudei meu pensamento no começo do ano e, vendo Caça-Fantasmas hoje, confirmei que é importante, de tempos em tempos, repaginar essas histórias tão queridas por nós. É importante para trazê-las de novo à baila, para torná-las vivas mais uma vez, para que possamos conversar sobre novamente, como fizemos no primeiro lançamento e gostaríamos de poder fazer todos os dias.

Caça-Fantasmas, a versão de 2016, é maravilhosa do início ao fim e não fica devendo nada à original. A Tati de seis ou sete anos teria amado assisti-la no cinema, assim como teria amado a versão de 1984. De todo modo, eu tive uma chance hoje e sou grata por ela. Ri, me emocionei e acrescentei mais um filme à lista dos queridinhos meus. Entendi como o Caça-Fantasmas original foi importante à sua época. E como é ainda mais relevante hoje, com essa regravação em nova roupagem.

É preciso ter em mente que o lugar que a história original tem em nosso coração nunca vai se perder. Se você não gostar da regravação, sempre terá a antiga (e se gostar também, os filmes não se sobrescrevem!). Puritanismo só serve para nos ancorar no passado — é preciso abrir espaço para o novo, é preciso estar de coração aberto para ver essas mudanças chegarem.

Acima de tudo, é preciso deixar o egoísmo de lado. As histórias não são nossas e elas precisam chegar à todos. Vez ou outra não vai dar certo, mas as tentativas importam.

No caso da nova versão de Caça-Fantasmas, que Deus nos ajude, valeu à pena demais.

Resenhas

Lendo “A verdade sobre o caso Harry Quebert” eu voltei a amar os livros

Fosse o livro um lugar bucólico, onde você pudesse descansar suas angustias

De onde surge a inspiração para escrever um livro? Deve vir de lá também a nossa inspiração para lê-los…

Faz quase dois anos que, de uma hora para outra, cansei de ler livros. Eu que sempre li uns dois ou três livros por semana, era resenhista convidada em blog famoso sobre isso, aquela a quem os amigos recorriam quando queriam uma dica literária para presentear, eu que tinha uma lista enorme de livros para reler e um Kindle lotado de novas possibilidades.

Do nada, cansei. Bom, não deve ter sido do nada. Surgiram outras coisas. Mudei um pouco, criei para mim outras urgências e interesses. Quis andar por aí absorvendo histórias de outra forma. Fui embora.

E passado um tempo, voltei. Ou quis voltar. Nos últimos meses, decidi que queria voltar a ler livros. Quem sabe não no mesmo ritmo alucinado de antes, quem sabe sem a mesma paciência (eu sempre terminava o livro mesmo não tendo gostado nem um pouco), mas voltando de alguma forma. Tirei o Kindle do fundo da gaveta, sempre me sentindo culpada por achar que nunca aproveitava por completo aquele presente tão querido. Comprei alguns livros de papel, afinal o modo antigo ainda é muito cativante. Descobri até que o Kindle tem aplicativo para celular e baixei no meu iPhone. Não tinha mais desculpa, fui à luta em busca daquela paixão adormecida.

Minhas escolhas eram sinceras, mas minhas tentativas pareciam forçadas. Li alguns livros ainda me sentindo perdendo tempo, fora do compasso. Ainda pensando “ai, meu Deus, eu aqui e minhas séries atrasando”. Pensando “O que será que estão falando no Facebook? No Twitter? No Instagram? E se alguém me mandou um e-mail? Vou parar a leitura e checar…” e realmente o fazia e lá se ia o meu foco.

Eu lia pensando que livros eram bons e eu lembrava que eles me faziam sonhar tanto, como é que agora nenhum me tirava o ar?

Deixei pelo menos quatro livros pela metade e terminei de fato uns cinco, até que encontrei o livro que me fez sentir como me sentia no tempo em que livros era o meu mundo todo. Finalmente aconteceu, como fatalmente aconteceria um dia. Era preciso apenas esperar o livro certo chegar (sim, eu acredito que os livros escolhem a gente em momentos certeiros de nossa vida — e não o contrário).

Ano passado mesmo, tinha visto a capa dele. Algo me dizia que eu deveria lê-lo, no entanto eu estava naquela fase, né? Me convenci de que estava caro e não comprei.

Dia desses, passeando pela Amazon, vi o tal livro com desconto e não pensei duas vezes. Comprei o e-book e sincronizei com o app no celular. Algumas semanas depois, comecei a ler no iPhone mesmo. Mal sabia eu… Minha cabeça se desgraçou por completo, meu coração pulou do peito, eu deixei tudo de lado por ele. Eu lia em pé, dentro do ônibus. Lia andando pela rua e em oportunidades mínimas que tinha, como por exemplo, entre ligar meu notebook no trabalho e esperar aparecer a tela de login. Eu não conseguia parar de ler. Estava maravilhada.

Um dos melhores sentimentos do mundo. Mas afinal, que livro é esse?

A verdade sobre o caso Harry Quebert é o segundo livro de Joël Dicker, um romancista suíço de apenas 31 anos de idade. O primeiro livro dele foi um sucesso, mas foi esse que realmente o alçou à fama internacional. Narrado em primeira pessoa, ele conta a história de Marcus Goldman, um escritor que após estrondoso sucesso com seu livro de estreia, se vê sem inspiração para escrever a tão cobrada segunda obra e manter a fama conquistada. Em busca da tal inspiração, ele busca a amizade e ensinamentos de seu grande amigo e igualmente célebre escritor Harry Quebert. Porém, ao se envolver com Quebert, acaba se vendo no meio de uma polêmica enorme e sua vida muda por completo.

Dito isso, saiba: é um romance policial. Sabendo isso, te digo: é um livro dentro de um livro. Sabe o tipo? Marcus escreve sobre o fato de não conseguir escrever. Harry Quebert, seu mestre, traz uma experiência similar sobre bloqueio criativo, o que faz com que a história dos dois se confunda. Esse é o segundo livro de Marcus e, perceba, também é o segundo de Joël Dicker. Tudo isso somado, a trama gira em uma espiral, volta ao início, escapa pelas beiradas, morde o próprio rabo e te deixa zonza. E é bom.

Joël Dicker, o autor

Eu fiquei completamente pasma com a qualidade da história. Os muitos detalhes, as nuances, as charadas que você só descobre mais lá na frente e tudo o que está na sua cara e você não vê. Dicker conquistou inúmeros prêmios com esse romance, foram mais de dois milhões de exemplares vendidos em toda a Europa. E é justo. Não digo que é um tema ou gênero novo, mas a forma e a força com que Dicker os traz com certeza tem algo de único. Não chega a ser uma metalinguagem, se assemelha mais a uma matrioska literária, se podemos chamar assim. De todo modo, é algo impecável como nunca vi autor nenhum chegar perto.

Além disso, existe o aspecto humano dos personagens. Tem a coisa do Marcus ser um cara completamente angustiado com prazos e metas, a questão de estar se esforçando até a alma em algo e não conseguir achar que seu trabalho está minimamente bom. Quem nunca se viu assim? Marcus se desespera buscando uma inspiração que não vem. Insiste, se arrisca e então recebe a recompensa. E perde tudo. Ganha de novo depois. Perde novamente. São inúmeras reviravoltas e pistas falsas. Marcus vai se descobrindo através da tentativa e erro e das lições que recebe de Harry. E vamos aprendendo junto.

Apesar do imenso sucesso do livro, Dicker recebeu críticas severas que diziam que ele era um embuste, que o livro era mais do mesmo. Eu li alguns artigos e, juro por Deus, não sabia se estavam falando dele, do Harry ou do Marcus, personagens do livro. As história se misturam. Tudo se embola, é um labirinto de referências e coincidências.

Um labirinto de onde só sai hoje, depois de terminar de ler “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. Terminei e vim correndo escrever sobre. Precisava escrever sobre. Depois das críticas negativas que li, por um instante questionei a minha perplexidade diante do livro. Será que é tudo isso mesmo que achei?

Pensei um pouco e acho que é sim. Não por achar que minha opinião é melhor que a dos outros, mas porque sei o que esse livro foi para mim. Me encantou, me tirou do lugar comum onde eu estava e me mostrou algo que eu buscava e tinha perdido. Enquanto o nosso herói Marcus buscava inspiração para escrever, eu aqui redescobria a inspiração para ler nas palavras dele (ou seja, de Dicker). Se é tudo sobre inspiração, me conforta saber que ela ainda existe. E que, você querendo, ela volta.

Sempre volta.